sábado, setembro 16, 2006


“Vocações na Igreja”


Beneditinos



A corrente espiritual representada pela Ordem de S. Bento constitui, de forma quase exclusiva, a experiência religiosa do monaquismo ocidental desde o séc. IV ao séc. XII.

Fundador: S. Bento de Núrsia (480-547)
S. Bento de Núrsia, também chamado “pai dos monges do ocidente” é conhecido pela sua regra monástica e pela sua vida. Nasceu em Itália, na região de Núrsia, no fim do séc. V (480). Em Roma inicia os seus estudos, mas rapidamente deixa a cidade e se retira na montanha, em Subiaco, onde viverá numa gruta. Assim se torna eremita até ao dia em que alguns membros de um mosteiro vizinho, tendo perdido o seu abade, lhe pedem que o suceda. A verdadeira e exigente reforma que empreende não agrada, naquele momento, aos monges, mas os seus valores tornar-se-ão em pouco tempo paradigma de toda a vida religiosa.
Retirar-se-à, mais tarde, forçadamente, para o monte Cassino onde permanecerá até à sua morte. Aí se dedica à formação de monges e à pregação.
Os escritos do Papa Gregório Magno, sobre a vida de S. Bento, relevam imensos carismas na pessoa do chamado “pai dos monges do ocidente”.
A sua Regra monástica é baseada na oração, no trabalho, e na vida comum.
O grande desenvolvimento e propagação da Regra beneditina não se deu logo após a morte de S. Bento (547), mas apenas a partir do séc. VII, altura em que, com S. Gregório Magno, se vai tornar numa verdadeira “Regra”. Os Mosteiros já existentes a essa data vão operar reformas na sua estrutura e ligar-se à Ordem de S. Bento que é tomada como modelo autêntico. No séc. X, o Mosteiro de Cluny, sob a Regra beneditina, vai ser uma grande impulsionador da reforma dos mosteiros. Opera-se neste momento, em toda a Igreja, uma tentativa de reforma eclesial. Cluny será um grande centro e imensos Mosteiros se filiarão ao Mosteiro beneditino de Cluny. Em meados do séc. XII contam-se em cerca de 1.000 os Mosteiros ligados a Cluny num totral de 10.000 monges.
Cluny atingirá, contudo, uma grandeza e um fausto que fazem colocar novamente a questão da necessidade da reforma e purificação da vida monástica comunitária. As novas correntes beneditinas aparecerão, numa tentativa de reforma, ligadas a Roberto de Molesmes, caracterizadas por um maior espírito de solidão, humildade e pobreza ao mesmo tempo que oração e trabalho.
Após a Revolução Francesa a Ordem Beneditina sofre uma grande regressão, mas logo a partir de 1800 se opera um novo renascimento.
No início do séc. XX, com o renascimento generalizado do monaquismo, a Ordem beneditina retoma muito do seu antigo vigor. Em 1955 contavam-se 11.476 monges beneditinos.

Estatutos
A Ordem de S. Bento (OSB) é uma Ordem monástica - os Beneditinos são Monges e repartem o seu tempo diário entre a oração comunitária, a oração pessoal, a leitura da Palavra e o trabalho manual ou intelectual.

Regra
A Regra da Ordem de S. Bento é a Regra de S. Bento, redigida na primeira metade do séc. VI e dividida em 73 Capítulos (existe uma edição portuguesa recente do Mosteiro de Singeverga, 1992).
A Regra de S. Bento, após catorze séculos, é ainda uma verdadeira regra de sabedoria. Vivida hoje com algumas adaptações fruto dos tempos e da renovação eclesial, ela continua, contudo, a ajudar aqueles que a abraçam livremente a caminhar para uma verdade interior e um coração dilatado no amor. A Regra diz, sobretudo, o amor a Deus e a vivência muito concreta e prática da fraternidade monástica de uma forma libertadora.
O governo da Ordem é, usando os termos da actualidade, “monárquico” e “democrático”. Existe um Abade eleito por tempo indeterminado. O Abade decide tudo, mas não sozinho, havendo decisões que têm de ser tomadas em “conselho” constituído pelo Abade, o ecónomo, o mestre de noviços, o prior, três irmãos eleitos pela comunidade do Mosteiro e três irmãos eleitos pelo Abade. Este conselho é consultado para as diversas decisões a tomar. Além disso existe o conselho de toda a comunidade, o “capítulo” que junta todos os professos.

Os Beneditinos e todos aqueles que estão relacionados à Regra de S. Bento, pronunciam e professam os votos de obediência, conversão dos costumes e estabilidade.
O grande critério para se entrar na regra de S. Bento é que “se procure Deus”. Só depois vem o aspecto comunitário - uma forma de viver e procurar Deus . Nesse sentido, a grande qualidade que se pede ao candidato a monge beneditino é que seja capaz de viver só e de viver em comunhão de uma forma equilibrada e pacífica. Alguém que não suporte a solidão e o silêncio não pode viver em comunidades monásticas porque esses são aspectos fundamentais da vida quotidiana e das regras monásticas em geral. O mesmo se diga de um carácter instável.


Um dia beneditino (exemplo)
06h00 - Levantar
06h20 - Oração comunitária de Laudes
07h00 - Tempo de solidão, pequeno almoço e “lectio divina”
09h10 - Missa
- Trabalho (manual e intelectual...)
12h30 - Oração comunitária da Hora Sexta
- Almoço
- Tempo livre
14h00 - Trabalho ...
18h30 - Oração comunitária de Vésperas e oração pessoal
19h30 - Jantar e tempo livre (Telejornal, Imprenssa, etc)
20h30 - Reuniões da Comunidade ou outros trabalhos
21h30 - Vigília (Ofício noturno)
- Descanso

Ordem Beneditina, em Portugal
- Mosteiro de Singeverga -
Roriz, 4780 SANTO TIRSO

- Priorado de Nª Sª da Assunção
Colégio de Lamego, 5100 LAMEGO

- Cela de Nª Sª da GraçaRua da Senhora do Monte, 44, 1100 LISBOA

terça-feira, setembro 12, 2006


A FORMAÇÃO DOS PADRES
- do Seminário para o Presbitério diocesano -
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Do Presbitério para o Seminário
O Seminário, lugar, tempo e experiência de formação dos novos padres, abriu novamente as suas portas. Este ano a nossa Diocese conta com quatro seminaristas no curso filosófico-teológico (em Coimbra) e mais um no Tempo Propedêutico (Leiria). Com os colegas de outras dioceses (Aveiro, Cabo Verde, Coimbra, Leiria, Portalegre – Castelo Branco) e com os formadores (Reitor, Prefeitos, Directores Espirituais) constituem no Seminário de Coimbra e no de Leiria, respectivamente, uma única comunidade de pessoas cuja finalidade e principal razão de ser é formar e preparar para o sacerdócio em Igreja.
O que define o perfil e identidade do padre é a identidade e a missão da Igreja. E sendo a Igreja, em Cristo, o sacramento ou sinal e instrumento da íntima união da humanidade com Deus e de toda a humanidade entre si, é natural que a mesma exija aos seus ministros expressões, atitudes, modos de vida que concretizem essa vocação e missão. E é natural que defina caminhos com identidade própria.
O Seminário, enquanto comunidade educativa, integra-se neste processo e está ao serviço desta finalidade. É o perfil dos padres que Deus quer na sua Igreja que determina os estilos de formação no Seminário. É por isso que, a seu modo e no seu tempo, o Seminário é a continuação na Igreja da experiência dos apóstolos que, reunidos à volta de Jesus, aprendem com Ele para serem também por Ele enviados.
E tudo começa, podemos dizer assim, na forma como nascem e se compreendem as vocações. O ritmo e dinamismo são sempre os do chamamento/resposta e, portanto, de desafio, de transformação, de crescimento, de superação.
A resposta segue-se ao chamamento. Não há oferecimento sem chamamento. E, da mesma forma que ser padre é ministério de fé, o chamamento e a resposta são uma experiência de fé. Mas, como em tudo, a fé não é uma abstracção, antes mostra a sua realidade no compromisso histórico. Quando, na experiência da fé, se comunga com Deus o fundamento da vida, a gratuidade (“eu para ti”) faz possível o “seguir-Te-ei, Senhor, para onde quer que fores … seguindo-Te não me perderei”.
É por isso que quem chega ao Seminário traz consigo a experiência de admiração deste ou daquele padre, a experiência de admiração de um presbitério nas suas acções, na sua dedicação, no amor com que acolhe e acompanha, em nome de Cristo, todos os baptizados. Ao contrário da comunhão presbiteral que desperta vocações, o individualismo pastoral resulta sempre em crise vocacional.

No Seminário. Que padres e para que Igreja ?
Um padre não pode ser tudo aquilo que a chamada opinião pública lhe pede que seja. Tem que ser muito mais! É bom que corresponda a essas expectativas mas partindo do fundamento pelo qual se fez padre e ministro da Igreja. A sua vida e ministério não são apenas uma correspondência directa às expectativas das pessoas de quem se está ao serviço e, no entanto, ao mesmo tempo, têm de as integrar. Não sendo, necessariamente, um ministério de tensão, é, contudo e sempre, um ministério de proposta, de anúncio, de desafio, de confronto, de catequese, de evangelização. Mas em nome de uma verdade maior: a de Deus que chama e quer acolher cada homem. “Convivência” e “diferença” fazem parte do seu dia a dia.
Que padres e para que Igreja? Esta interrogação, sempre oportuna, pode esconder, no entanto, uma ilusão: a de querer formar padres de um outro tempo para uma Igreja também de um outro tempo, ou seja, pessoas em abstracto para uma Igreja em abstracto. Para que hipotética Igreja do futuro estaremos nós habilitados a estabelecer o modelo de padre apropriado? E quando chegasse esse momento não estaríamos novamente fora de tempo? Mais, formar um padre é apenas ensinar-lhe um serviço concreto? Não será antes ajudá-lo a desenvolver uma atitude fundamental segundo a natureza do ministério apostólico tal como a Igreja o vive? É que formar apenas para um serviço determinado e “ocasional” não habilita nem prepara para a adaptação e reacção à evolução dos costumes e da vida. É melhor então ajudar a formar a capacidade de mudar do que fixar pessoas em tarefas que, dez anos mais tarde, se manifestam obsoletas. A atitude fundamental, numa época como a nossa de mudanças rápidas e imparáveis, creio ser a de se deixar formar por Cristo desenvolvendo uma humanidade tão rica quanto possível para o serviço dos irmãos. É por isso que não existe um tipo único de padres, mas uma infinidade de dons que evoluem com o tempo e a idade. Haverá homens de estudos, homens mais contemplativos ou “retirados”, homens do contacto e da relação, homens da iniciativa prática, homens …Para serem padres é, necessário, precisamente essa atitude fundamental de receber de Cristo a sua missão (o desafio do fundamento espiritual da vida). Dizer que se recebe de Cristo significa que se recebe de Outro e não de si mesmo. E isso é verificável na capacidade de colaboração em Igreja, na aceitação dos irmãos, na aceitação de regras objectivas, na aceitação de meios de formação permanente, na aceitação da Igreja tal como ela é.
Então o desafio conjuga-se no presente. É hoje. É hoje que Cristo chama. Este é o momento em que se corresponde ou não. É o momento em que se evangeliza pelo acolhimento e proposta ou não. Hoje não temos centenas de seminaristas, hoje não se ordenam grupos de 10 ou 15 padres. É hoje que, pela atitude, é preciso concretizar a proposta.
O Seminário aparece então como um primeiro passo específico numa longa caminhada de atenção e disponibilidade à vontade de Deus. A sabedoria da Igreja, longa de séculos, assume a experiência da vida comunitária como meio de formação. É o tempo em que cada um se descobre mais a si e descobre os outros. A partilha e o “confronto” não são apenas um método psicológico, são a experiência que faz chegar à profundidade do coração.

Do Seminário para o Presbitério
Um Seminário, comunidade formativa, é sempre um presbitério (o conjunto dos padres com o seu Bispo) em gestação. A Igreja, aliás, toda ela, é fundamentalmente um mistério de comunhão.
Cada seminarista, portanto, não se prepara sozinho para ser padre sozinho, mas prepara-se, desde já, no horizonte do presbitério diocesano. Quando é ordenado padre é recebido como irmão pelos outros padres e acolhe-os no mesmo dinamismo fraterno. O Seminário é, por isso, escola de presbitério. É uma fraternidade sacramental mais do que uma simples pertença comum. Por isso o Decreto conciliar sobre O Ministério e a Vida dos Sacerdotes exorta os padres mais experientes a que recebam os mais novos como irmãos e os ajudem nos seus primeiros empreendimentos e encargos do ministério; esforcem-se por compreender a sua mentalidade, embora diferente, e ajudem com benevolência as suas iniciativas. Do mesmo modo, os mais jovens reverenciem a idade e experiência dos mais velhos, aconselhem-se com eles, colaborem de bom grado (PO 8).
As novas situações fazem despertar novas maneiras de estar e viver em Igreja. E no acolhimento em presbitério continua gradualmente a formação de cada padre iniciada no seminário. É melhor preparar para ser capaz de reagir em qualquer momento e circunstância do que preparar para reagir apenas a uma situação. Para preparar o futuro, o essencial é transmitir àqueles que o vão viver a coragem da verdade e do amor.
Os jovens que hoje são ordenados padres não estão livres de defeitos e fraquezas. Mas possuem também imensas qualidades. Eles sabem-no ou descobrem-no durante a formação.
Seria uma ilusão pensar que poderíamos ter, ao sair do seminário, padres perfeitos, com “certificado de garantia” para uns quantos anos. Por isso o desafio é sempre o de vivificar e optimizar a capacidade de responder ao chamamento de Deus com os meios de Deus. A formação permanente é um trabalho contínuo que deve ajudar cada um a reconhecer as suas fraquezas e as graças recebidas, a identificar os meios que Deus concede para trabalhar na correcção das faltas e purificação dos pecados, a ver e contemplar os lugares de alimento para o caminho a que é chamado. É muito mais do que um “emprego”.
Cada padre realiza o ministério de Jesus Cristo no meio do Corpo eclesial. É pela sua boca e pela sua vida que Jesus diz: Este é o meu Corpo entregue por vós. Mas quando o diz não fala apenas em lugar de Jesus, di-lo com a sua própria vida, fala na primeira pessoa. Cristo diz-Se pela sua boca e entrega-Se pelas suas mãos. O padre é, portanto, testemunha de uma unidade e de uma entrega cuja medida não é o seu gosto pessoal, nem as suas paixões, nem as suas ideias, mas sim aquela que Cristo quer. Como dirá S. Bernardo, a única medida do amor é não ter medida.


P. Emanuel Matos Silva

Vocações que Deus nos dá

O realismo da fé cristã

A fé é impressionantemente realista. E somos nós que, muitas vezes e por muitos motivos, a fazemos uma mera abstracção ou um conjunto de abstracções. Retiramos-lhe a consequência. Diz Madeleine Delbrel que fazemos da fé, muitas vezes, uma simples arte … abstracta de viver, uma teoria filosófica ou um sistema de pensamento, construímos ideias acerca da fé ou temos dela uma ideia. Ora a fé é uma ciência prática: é o saber construir a vida hoje, aqui. E, muitas vezes, enganamo-nos acerca dela: não há fé em estado puro; a fé é para um homem, para uma vida de homem, para dedicar esta vida de homem, em Cristo, à salvação de todos os homens; para dedicar esta vida de homem, em Igreja, à salvação do mundo inteiro […] A fé está no tempo e para o tempo, o tempo onde acontece esta vida do homem […] A vida que a fé transforma por dentro é uma vida que manifesta e realiza o amor de Deus, que mostra o amor de Deus como uma árvore mostra os seus frutos, onde os dois mandamentos (amar a Deus e aos outros) são inseparáveis, indivizíveis[1].
O aparecimento do Cristianismo, ao nível da vida religiosa, ao nível das sociedades, ao nível das culturas, trouxe sempre consigo o irromper de um pequeno grupo extraordinariamente vivo, criativo e virulento de novidade[2]. O testemunho das primeiras comunidades surpreende e fascina sempre. A irrupção do Cristianismo renovou interiormente homens e mulheres de todos os tempos, deu-lhes um novo Espírito (Rom 7, 6) que transforma a sua forma de pensar e viver e, sobretudo, os faz membros de uma nova comunidade na qual vivem de acordo com o mandamento novo (Jo 13, 34). A novidade cristã leva os discípulos de Jesus de todos os tempos a viver uma “vida nova” que origina novas formas de vida quotidiana: comunidades de irmãos em Cristo, comunidades que se caracterizam pela alegria, pela esperança, por novas relações entre os seus membros, por um novo olhar e nova perspectiva sobre o mundo, sobre a vida e sobre a própria morte[3]. E hoje, quando nos baptizamos e, depois, casamos ou somos ordenados padres, entramos nesta comunidade e continuidade. Será uma abstracção?

Novidade do Cristianismo e envelhecimento da Igreja ?

Não é estranho, diante da novidade do Cristianismo, que ouçamos perguntar a Paulo: “Podemos saber que doutrina nova é esta que nos expões?” (Rom 6, 4; 1 Tes 4, 13). Já de Jesus muitos contemporâneos tinham dito: “Eis aqui uma nova doutrina” (Mc 1, 27). Com vinte séculos de história o nosso Cristianismo não é, portanto, um Cristianismo fatigado. E num Cristianismo que não está fatigado, a Igreja é memória e é profecia. Mas existe sempre uma condição: que a Igreja, comunidade e cada um dos seus membros, saiba alimentar-se sempre do seu núcleo: Jesus Cristo. É que os cristãos não se produzem nem propagam por clonagem.
Por isso, a Igreja só envelhecerá se muitas das suas estruturas, em vez de anunciarem e presencializarem Jesus Cristo, O ocultarem. Só envelhecerá se faltar nela a transmissão da fé que faz dos pais e das famílias os primeiros comprometidos na vida dos filhos. Só envelhecerá se um dia persistir em tornar-se alheia aos outros. Só envelhecerá se deixar de se evangelizar a si mesma. Só envelhecerá se não tiver capacidade de acreditar primeiro no que anuncia como vida. Só envelhecerá se não for capaz de transmitir a fé como o melhor da vida. Só envelhecerá se se resumir a um “emprego”.
É interessante que, quando Jesus diz aos seus discípulos que são Luz do mundo (Mt 6, 1 -17), Jesus não lhes diz que devem tentar ser vistos pelos homens. Jesus diz-lhes claramente que eles (discípulos) são essa luz que não pode ficar fechada. Jesus não pede, de facto, que saibamos atrair as atenções sobre nós. O que Jesus diz é que: “se fizerdes o que vos mando, sereis vistos pelos homens quer queirais, quer não”. A visibilidade da Igreja pertence à sua própria essência[4]: ela constitui-se do que Jesus “manda” enquanto descoberto e afirmado como possível de viver.
A Igreja só envelhecerá se der o melhor da sua vida à “fobia” de “fazer coisas” sem dar atenção à razão pela qual as faz. Só envelhecerá se continuar a fazer coisas simplesmente “porque sempre se fez assim”. Só envelhecerá se no meio da actual, e muitas vezes justificada dispersão, enveredar pelo caminho da dissimulação.
O Cristianismo é uma vocação extremamente exigente. E hoje toda a gente está cansada das coisas que não valem nada, das graças baratas. Com vinte séculos de história o nosso Cristianismo não é um Cristianismo envelhecido. Amadurece. E porque maduro, é capaz de rir de si mesmo e ultrapassar as dificuldades.

Padres: servidores do baptismo

Servir o baptismo não é fazer numericamente muitos baptismos. Ser servidor do baptismo dos outros é entregar a vida – o que somos e fazemos - para que a fé dos outros (comunidade crente e os não crentes) conheça mais e melhor a Jesus Cristo. É ajudar na descoberta e no encontro de Jesus, na percepção do seu Espírito, no acolhimento da sua Palavra e da sua novidade de vida. Ser servidor do baptismo de alguém é, através dos “instrumentos adequados”, servir e dinamizar a sua vivência cristã da fé. E a Igreja tem muitos “instrumentos adequados”: procura da vontade de Deus como critério de projecto e leitura do itinerário pessoal; acompanhamento espiritual regular; formação espiritual e teológica permanente; celebração frequente da reconciliação; projecto pessoal de vida; recolecções e retiro; experiência da oração pessoal quotidiana num dinamismo de verdadeiro e real encontro com a Palavra de Deus em Jesus Cristo que se expressa na vitalidade espiritual; harmonia da personalidade expressa na unidade e no sentido da vida; inteligência da fé que se expressa na humildade, na simplicidade, na dimensão contemplativa da vida, no gosto do saber teológico e teologal para uma capacitação da representação ministerial de Cristo; participação diária na oração comunitária como expressão da comunhão na Igreja e da capacidade de vida em Igreja e para a Igreja; participação viva na(s) Eucaristia(s) diária(s) como fundamento e centro do dia, memorial da morte e ressurreição do Senhor Jesus e expressão da total identificação com Ele e com o seu ministério de dar a vida; idoneidade para o ministério diocesano que se manifesta no amor à Igreja local (Diocese), na referência ao Bispo diocesano e seu presbitério, na comunhão sincera com as linhas pastorais de acção e compromisso, da dedicação ao povo de Deus, na obediência responsável, na comunhão madura com as dificuldades; liberdade afectiva que se manifesta na assunção da própria realidade corpórea e no facto de assumir livre e alegremente um caminho real de castidade que se consagrará no celibato como experiência do dom total de si a Deus e à Igreja; docilidade educativa que se manifesta na liberdade individual, na lealdade eclesial, na transparência das relações pessoais; consciência pastoral do ministério e nunca concepção individualista ou honorífica, etc.Trazemos em vasos de barro o tesouro do nosso ministério, para sabermos que um dinamismo tão sublime vem de Deus e não de nós diz S. Paulo aos Coríntios (2 Cor 4, 7). E por isso talvez Santo Agostinho exclama com tanta força: Hei-de reconduzir quem se extravia, hei-de procurar quem anda perdido. Quer queiras quer não, é isso que farei. E ainda que ao procurar-te os espinhos e as silvas me rasguem a pele, passarei pelas veredas mais estreitas, saltarei todas as sebes e correrei por toda a parte, enquanto me der forças o Senhor (Sermão sobre Os Pastores). A fé é impressionantemente realista. É a vida. E compromete a vida. Vamos rezar pelas vocações ( … muitas e santas … como nos habituamos a dizer). Vamos rezar pelos padres.
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[1] Madeleine Delbrel, La joie de croire (Paris: Seuil, 1968) 177.
[2] Cf. Juan Martin VELASCO, La transmission de la fé en la sociedad contemporânea (Santander: Sal Terrae, 2002) 13.
[3] Cf. Ibid.
[4] Cf. J. KESEL, op. cit 10.
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segunda-feira, setembro 11, 2006


A outra face


O preceito evangélico de dar outra face (Mt 5, 39) tem, no caso da celebração da Eucaristia, um horizonte extraordinário de integração. Dar a outra face não significa, literalmente, voltar o rosto para alguém bater outra vez.
Sendo um preceito evangélico, dar a outra face, resume a totalidade da vida de Cristo: reagiu ao ódio com amor, toda a sua vida foi uma entrega, venceu a morte com o amor. Se a Eucaristia é a síntese do mistério de Cristo, então nela se encontra a raiz da capacidade de dar a outra face.
É precisamente neste sentido que dar a outra face é mostrar a outra perspectiva, outra face de leitura e perspectiva do mesmo problema. É mostrar a perspectiva válida e correcta da vida, a perspectiva bela e que entusiasma, a perspectiva interior e mais verdadeira, aquela que dá e realiza felicidade.
E se os cristãos fossemos capazes de dar a outra face da Eucaristia: a força que dela brota para enfrentar a vida quotidiana sem desfalecer, a capacidade para não desistir de realizar o projecto de Deus na nossa vida ?
Dar a outra face é, diante de alguém que está na escuridão, acender uma luz e dar-se ao trabalho de a acender. É, quando alguém está em desespero, acenar com a luz e o testemunho da esperança. É, no meio da secura e frieza das relações, mostrar e testemunhar a fecundidade do afecto. É, no meio da crítica azeda, oferecer uma palavra de optimismo e compreensão. É quando alguém caminha sem rumo, revelar os passos que conduzem a um porto seguro. É quando ninguém quiser saber de nada pela indiferença, ousar preocupar-se e comprometer-se. É quando estivermos diante de angustiados, mostrar o caminho do conforto como paz.
S. Francisco de Assis resumiu-o bem quando, rezando, pedia: onde houver ódio que eu leve o amor; onde houver ofensa que eu leve o perdão; onde houver discórdia que eu leve a união; onde houver dúvidas que eu leve a fé; onde houver erros que eu leve a verdade; onde houver desespero que eu leve a esperança; onde houver tristeza que eu leve a alegria; onde houver trevas que eu leve a luz…

Somos eucarísticos porque somos cristãos: vivemos em entrega e em gratidão. E a Eucaristia – partindo de Jesus Cristo - é o modelo, o meio, a ocasião, a experiência e a força do desprendimento que nos faz possível essa entrega e gratidão.
Por isso a relação da Eucaristia à nossa caridade, à nossa chamada santidade, à nossa justiça e verdade, ao nosso amor e capacidade de perdão, à nossa bondade.

A Eucaristia, comunhão com Jesus Cristo, é bem a força desta vida. Poderíamos dar aos nossos contemporâneos a outra face da Eucaristia. E poderíamos, antes e todos os dias, dar a outra face da Eucaristia a nós próprios.
Será, sem dúvida, esse o único ritmo e essa a única linguagem que os apaixonará pela vida de Jesus Cristo e nos colocará a todos em comunhão. Como tudo seria diferente se todas as nossas opções e decisões, projectos e realizações partissem daqui, da Eucaristia onde se ganha força para … dar a outra face.

terça-feira, setembro 05, 2006


Senhor Jesus Cristo,
estou aqui, neste momento, diante de Ti
para pensar um pouco na vida, nos outros, em mim,
em tantas coisas que me dão volta à cabeça e que não consigo entender sobre Ti,

sobre o mundo, sobre mim mesmo.
Queria fazer grandes coisas por Ti, pelos homens,
para que a minha passagem pela história não fosse em vão.


Eu sei que em Ti está a Vida e a Verdade,
e, por isso, venho beber na única Fonte
capaz de apagar a minha sede
de verdade, de bondade, de beleza.


Hoje quero pedir-Te, de modo especial,
por aqueles jovens como eu
que percebem no interior do seu coração
o teu chamamento ao sacerdócio ou à vida consagrada.
Não deve ser fácil para eles deixar tudo para Te seguir.
Deve custar-lhes deixar a sua família, os seus noivos,
as suas noivas, os seus amigos ... Mas eu
compreendo perfeitamente aqueles que
são capazes de deixar tudo te seguir.
Porque Tu és o tesouro pelo qual vale bem
a pena deixar tudo para não Te perder.
Eles irão pelo mundo pregando o teu Evangelho,
suavizando com a tua Palavra a amargura de muitas vidas humanas,
dando um pouco de esperança a tantos homens e mulheres,
aos milhares de jovens que vivem sem esperança,
sem transcendência, sem amor verdadeiro.
Eles irão derramando por esse mundo, que parece condenado à amargura e ao ódio, o perfume da tua mensagem de alegria, de paz e de esperança.
Irão consolando os tristes,
fortalecendo os fracos, derramando graça e perdão.
Até sinto “inveja” deles. Eu não sei o que responderia
se sentisse o teu chamamento.


A única coisa que Te pediria nesse momento é o que Te peço
por todos aqueles jovens que agora escutam o teu chamamento:
generosidade, valor, audácia e fé.


Verdadeiramente Tu és capaz
de preencher uma vida , de lhe dar sentido, de a fazer frutificar.


Dá-nos sacerdotes segundo o teu coração.

Move os corações de muitos jovens para que não vacilem
em deixar tudo, as suas redes, quando Tu,
colocando sobre eles o teu olhar, te detenhas na margem do rio das suas vidas, pronuncies os seus nomes, cravados no teu coração desde sempre, e com a tua palavra poderosa que criou os céus
lhes digas com firme suavidade:


Segue-me”.

segunda-feira, setembro 04, 2006




Cinco características da vocação
1. Cristo chama ao seu seguimento homens e mulheres livres, responsáveis e decididos. Entrar num Mosteiro, numa Congregação, num Seminário, deve ser uma decisão de adulto "eu quero!". Nas condições do mundo actual esta liberdade de adulto não se adquire ordinariamente senão através de alguns anos durante os quais houve a possibilidade de experimentar a sua vida cristã no mundo. Com prudência, evidentemente.

2. Para permanecer livre e progredir, é tão necessário evitar dispersar-se ou correr atrás de tudo sem importar o quê, como fechar-se numa certeza prematura. É igualmente necessário ser prudente nas amizades e prudente quanto à frequência de Mosteiros ou Casas religiosas. Uma coisa é fazer um bom retiro anual num lugar conhecido e amado; uma outra coisa é, por exemplo, precipitar-se permanentemente nos Cartuxos ou Carmelitas sem os conhecer, ou então passar aí todos os tempos livres. Enquanto uma decisão não está tomada, é necessário ser fiel à condição presente.

3. Enquanto não veio o tempo da "veemência" de um chamamento preciso, concreto, o reconhecimento do seu lugar próprio, ou quando se começa com tergiversações (hesitações) e argumentações interiores prolongadas "um dia é sim, outro dia é não", é sinal de que é preciso perseverar na oração e prosseguir o seu próprio caminho.

4. Deus não é apressado. Gosta de ter tempo. Jesus não ficou quase incógnito trinta anos, e não teve apenas três anos de vida apostólica ? Por isso não é raro que seja precisa uma longa maturação antes de definir as coisas. Paciência.
Às vezes pensamos que, em virtude da urgência dos tempos, é preciso ir mais depressa. Talvez, mas nunca mais depressa do que Deus. A urgência dos tempos é certamente um desafio a por a questão com mais insistência e a rezar com mais constância ao Senhor da Messe .
Não correr tudo e todos os lugares religiosos e permanecer seguro que Deus saberá dar-nos os sinais necessários para ver claro.

5. Os contactos regulares com um acompanhante espiritual poderão ajudar nos discernimentos sucessivos. Ele será uma testemunha privilegiada que assinalará as falsas pistas e encorajará ao longo da caminhada.



Cinco critérios essenciais para uma vocação

1. Chamamento intenso, regular, duradoiro.
Depois de a "Fonte que murmura em meu coração: vem para o Pai" (Sto. Inácio de Antioquia) até ao imperativo "segue-Me", há todas as variantes possíveis. Mas existe sempre esta inclinação que persiste, este impulso (ardor) forte e tenaz que, na luz de Deus, faz colocar a questão: "Para que lado pende o meu coração ?".

2. Aptidão física proporcional à vocação.
Quando Deus confia uma missão, ela é proporcional às aptidões daquele (daquela) que a recebe. Ele conhece-nos melhor que nós próprios. Por isso não pedirá o impossível, mesmo pedindo que progridamos. É necessário aceitar humildemente a sua natureza e a sua saúde.

3. Aptidão intelectual
Não se trata apenas de uma questão de cultura ou de aptidão para os estudos. Não se é chamado apenas por esses qualidades intelectuais. Trata-se da inteligência do coração e do bom senso, como dizia o Santo Cura d'Ars "Ter os pés na terra e a cabeça no Céu".

4. Aptidão moral
Não se trata aqui de um concurso de virtudes (quais seriam os critérios e as normas ?). Trata-se sim da maturidade do carácter e da vontade. Maturidade afectiva e sensível, aptidão para a amizade, equilíbrio alegre e pacificado na continência e na castidade. Deus ama aqueles que não têm medo de si mesmos, medo dos outros ou medo do mundo.
Esta maturidade é fruto de uma verdadeira conquista: "O Reino de Deus sofre violência e são os violentos os que nele entram ...".

5. Chamamento da Igreja
Confirmação, ratificação por um (a) superior (a) ou por um Bispo que chama em nome de Cristo. Não se encontra sempre a sua vida á primeira.

(inspirado num artigo do Padre François Pottez)










Jesus Cristo
- Homem Novo para renovar o homem -
- V -
8. E como é que sabes? Tens a certeza? Tens?
- Critérios / argumentos da historicidade de frases e factos -
A partir de tudo o que ficou dito muito se discutiu sobre a possibilidade de confirmar afirmações, acções, factos na vida e na história de Jesus. Os critérios/argumentos que paulatinamente se foram elaborando não são receitas infalíveis mas têm a vantagem de sistematizar os diversos argumentos que intervêm num debate científico sobre a realidade e, dessa forma, podem ajudar a ler o “real” e o que se diz dele.
Podem indicar-se muitos critérios. A teologia hoje trabalha muito de perto com as ciências humanas e os métodos histórico-críticos. Mas, evidentemente, não pode fechar a porta apenas segura dessas ciências ou métodos já que a fé e o saber se relacionam, desafiam e fundamentam reciprocamente[1].
Eis então os cinco critérios mais utilizados:

1º) Uau! Nunca tinha visto nada disto!
– A originalidade radical –
Chamado critério da “falta de semelhança”, o critério da originalidade radical é extremamente simples: procede de Jesus tudo aquilo que nos Evangelhos e tradições cristãs não se deixar verificar como vindo de outra fonte (por exemplo o Judaísmo do séc. I ou do Cristianismo nascente). Resumindo, virá de Jesus (palavras, gestos e ensinamentos) tudo aquilo que já não é judaico e ainda não é cristão. Este critério supõe três hipóteses: um bom conhecimento do mundo judaico da época de Jesus; um bom conhecimento da Igreja primitiva; a “falta de criatividade” por parte dos discípulos de Jesus. Por isso é um critérioa usar com muito cuidado.

2º) Isso não se inventa
- A dissonância eclesiástica –
É, de certa forma, uma variante do critério anterior. E é muito simples: é difícil conceber que a comunidade cristã primitiva pudesse inventar coisas que a pusessem em dificuldades a ela própria. Por exemplo, se não fosse verdade, porquê dizer que no grupo de Jesus havia Judas, um traidor? Ou então porquê dizer que Jesus recebeu o baptismo de João Baptista se esse baptismo, diz o mesmo texto, era um baptismo para arrependimento dos pecados? Seria Jesus um pecador segundo a comunidade primitiva? Ou o que significaria a afirmação de que Jesus era um “comilão e um ébrio, amigo de publicanos e pecadores” (Lc 7, 34).

3º) Toda gente diz
- O testemunho múltiplo –
Este critério significa que quanto mais está testemunhado um elemento por fontes independentes entre si ou, mais vagamente, por correntes tradicionais independentes, maior é a probabilidade da sua antiguidade. O testemunho múltiplo é válido igualmente no estudo das formas literárias. Quando um elemento é citado apenas por uma tradição, a probabilidade da sua antiguidade é menor. Quando o testemunho é múltiplo, mesmo que tenha assumido diferentes formas de ser dito, é um critério de afirmação da historicidade. Sabemos que existem fontes diversas nos Evangelhos, sabemos que estão misturadas e sabemos, inclusive, que citam elementos comuns. Tanto é assim que existem três Evangelhos chamados “Sinópticos” por isso mesmo.

4º) És sempre o mesmo
- A coerência –
Uma vez que foi possível, através dos critérios anteriores, estabelecer que algumas palavras e acções reportam de facto a Jesus (se não na forma, pelo menos na substância) é também possível traçar uma imagem de conjunto do ministério de Jesus: é possível identificar as linhas fundamentais da sua mensagem bem como as diferenças em relação à sua acção. Se um elemento se integra devidamente nesta imagem de conjunto é porque a sua historicidade é provável e pode ser considerado autêntico. Se o elemento não está coerentemente encadeado e relacionado aos restantes elementos a sua autenticidade pode ser posta em causa. É um critério que se impõe por simplicidade e evidência.

5º) Fia-te … e corre
- A fiabilidade histórica –
Por fiabilidade histórica não se entende um critério particular mas sim um conjunto de argumentos ou critérios. Todo o historiador remonta dos efeitos às causas, procura as explicações necessárias e suficientes para os fenómenos. No nosso caso o critério aplica-se quando nos interrogamos pela continuidade entre o movimento de ideias e comportamentos gerados por Jesus e o cristianismo nascente. Este é o processo que faz uma leitura retrospectiva: da comunidade cristã até Jesus Cristo, sua origem. E é aí que a história, seus contextos e horizontes, joga um papel importante. Jesus é um Judeu do séc. I. Nenhum historiador discutiria este facto. Mas faz com que não se possam atribuir a Jesus gestos e acções incompatíveis com essa condição.
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[1] Cf. Jacques SCHLOSSER, Jesus, el profeta de Galileia (Salamanca: Sígueme, 2005) 67.
Jesus Cristo
- Homem Novo para renovar o homem -
- IV -

5. Já sabes quem és ou é preciso dizer-te?
- Jesus revela-Se revelando ao homem a sua própria verdade -
Em todos estes exemplos vivos de Jesus vemos como Jesus se comporta não apenas como verdadeiro homem, mas também como um homem verdadeiro, alguém que realiza totalmente a sua vocação de homem. Neste sentido, olhando para a sua vida, podemos dizer que Jesus é a verdade do homem na medida em que Ele revela aquilo que cada pessoa é e o que pode vir a ser.
Evidentemente que a vida terrestre de Jesus tem como finalidade revelar o mistério de Deus. Mas essa revelação do mistério de Deus acontece na revelação do homem a si mesmo. E é por isso que a primeira coisa que os relatos evangélicos nos convidam a fazer é a saber se podemos aderir a um testemunho que nos revela toda a profundidade do ser humano. É esse o sentido da encarnação de Jesus. E é como homem que, num primeiro momento, O devemos acolher, um homem cuja palavra e comportamento nos atingiu n o mais íntimo de nós mesmo para nos compreendermos melhor e nos deixarmos conduzir a Deus. Foi isso que Jesus fez ao querer partilhar as situações normais da vida humana.

E em que consiste a verdade deste homem que Jesus nos revela ? Podíamos resumi-la neste termo: para. Jesus é um homem que vive para os outros. Para os outros, homens, seus irmãos e para o Outro, Deus seu Pai. Toda a sua vida tem este grande horizonte: nenhum traço de egoísmo ou de fechamento sobre si mesmo, mas uma inteira disponibilidade e entrega pelos outros e a Deus. E é neste viver para os outros que Jesus Se vai revelando mais do que um simples homem. Há n’Ele mais do que em Jonas ou em Salomão. É este mais que é significativo no Evangelho. Em Jesus a sua única existência reenvia ao ser do homem e ao ser de Deus. Jesus é Deus e é homem.

É desta forma que o seu testemunho é credível. As respostas que traz o acontecimento da revelação não são significativas senão enquanto estão em correlação com as questões que dizem respeito ao conjunto da nossa existência. Apenas aqueles que viveram por experiência o choque do transitório, a ansiedade que vem da consciência da finitude, a ameaça do não-ser, podem compreender o que significa a noção de Deus. Apenas os que fizeram a experiência das ambiguidades trágicas da nossa existência histórica e que colocam totalmente a questão do significado da sua existência, podem compreender o que significa o Reino de Deus[1].

6. A vida não são só palavras e intenções
- Paixão e a Cruz de Jesus -
O sentido da vida e o sentido da morte são um todo (uma unidade). A maneira de morrer sela e perpetua, muitas vezes, o sentido de uma existência. Então podemos dizer que enquanto Jesus não enfrentou esta experiência suprema, o sentido definitivo da sua vida, das suas palavras e das suas acções, ainda estava incompleto.
Como é que Jesus entendeu e viveu a morte? Que sentido lhe atribuiu? Certamente que Jesus contou com uma morte violenta. A experiência do seu ministério e a vaga de oposição que provocou devem ter-Lhe dado essa consciência de que uma morte violenta estava iminente.
É importante afirmar, desde já, que neste contexto, a iminência da morte não surgia a Jesus apenas como uma eventualidade, mas sim como uma realidade a que Jesus atribuía um sentido de verdade em estreita relação com a sua missão.
Em todo o contexto da vida e missão de Jesus, a paixão é o grande momento de verdade de Jesus: a sua atitude fundamental de Dom-de-si-mesmo conduz Jesus à aceitação da morte como evidência dessa verdade. Estamos então, de novo, diante desta grande marca da existência de Jesus que é a de ser uma existência-para…, uma pro-existência. E essa é, de facto, a realidade que dá sentido à morte de Jesus: uma existência para o Pai e para os irmãos (lei na vida e lei na morte). Um Jesus que viveu para e por vai morrer igualmente para e por.
É-nos possível perceber ainda melhor o sentido que Jesus deu à sua morte se tivermos presente a cena evangélica da instituição da Eucaristia. Por este gesto não-habitual Jesus dá a este cálice o valor de um Dom pessoal que é feito aos seus [...]: o pão partido e partilhado é o corpo entregue; o cálice que circula de mão em mão é a Nova Aliança no Sangue[2]. Jesus estabelece, portanto uma relação entre a sua morte próxima e este pão e este vinho. O corpo não é apenas algo material, mas é a unidade da própria pessoa. Esta é a expressão do Dom da sua vida que Jesus faz. Então a morte de Jesus é um Dom de si mesmo: Dom do amor, mais forte que a morte e Dom da comunhão. Jesus morre na acção de graças ao Pai e na partilha de si com os seus.

7. Esperar para além dos nossos limites – a única esperança que vale
- A Ressurreição de Jesus -
Para completar o caminho que vai de Jesus pré-pascal ao Cristo pascal temos de abordar a ressurreição e a experiência pascal dos discípulos. A ressurreição de Jesus está no coração da fé cristã como o estão a paixão e a cruz. Define-se mesmo o cristão como aquele que acredita em Jesus ressuscitado de entre os mortos.
Os Evangelhos mudam de tom quando falam da ressurreição de Jesus. Enquanto a paixão, crucifixão e morte de Jesus foram públicas, a ressurreição encontra-se atestada quase de maneira confidencial. Jesus manifesta-se aos discípulos – homens e mulheres - que já O conheciam. O anúncio público da ressurreição é, só depois, obra destes mesmos discípulos que falam em nome da fé. Reconheceram Jesus ressuscitado não apenas com os olhos do corpo, mas com os olhos da fé. E este é um testemunho original. Jesus manifesta-Se-lhes como o mesmo, Aquele que eles conheceram e agora “reconhecem”, mas sob uma outra forma na medida em que o modo de comunicação que os discípulos têm com Jesus mudou completamente. Há novidade e há continuidade. A sua presença vem do mundo divino, do mundo de Deus. E, por isso, só pode ser reconhecida neste âmbito. A ressurreição afirma, sobretudo, a chegada e presença dos tempos definitivos e plenos. Jesus é o primeiro a ressuscitar e a sua ressurreição afirma-se como sucesso, como plenitude e sentido de uma viva e de uma verdade. Por isso a sua ressurreição não significa um regresso à vida anterior, mas significa sim uma superação da limitação da existência histórica espacio-temporal. Jesus não regressa á corruptibilidade, vence-a definitivamente.

É desta forma que, no Jesus que os discípulos reconhecem, se revela definitiva e insuperavelmente Quem é Deus: para lá descontinuidade histórica que a morte provocou, persiste uma continuidade da presença de Jesus Cristo. A ressurreição assume assim o carácter de confirmação definitiva da pessoa e obra de Jesus: é a unidade íntima de um acontecimento histórico e de fé.

A decisão pró ou contra ressurreição e da fé pascal não se refere então a determinados sucessos maravilhosos, mas equivale sim a saber se se está decidido a contemplar a realidade a partir de Deus e a confiar-se a Deus na vida e na morte. E essa decisão significa responder à questão sobre se alguém pensa viver apenas a partir de si mesmo, das suas possibilidades, ou se, ao contrário, tem coragem e ousadia para viver a partir d’Aquele que não se pode manipular, que não se pode possuir.
A fé pascal é, portanto, um ataque a todas as concepções de mundo fechado sobre si mesmo e absolutizado em si próprio sem deixar espaço às possibilidades criadoras de Deus e do homem renovado.
E, de facto, a fenomenologia da esperança mostra-nos que pertence à natureza do ser humano o esperar para além da morte. Esta interrogação traduz-se em esperanças que levam o homem para lá da morte num outro modo de existência. Recapitulando todos os limites e contradições da sua condição trágica e dramática, o homem sente e vive de uma necessidade radical de salvação: ser salvo é viver, viver todo, inteiro, viver absolutamente. Por isso, e voltando um pouco atrás, Jesus não é reconhecido por uma simples percepção sensorial mas pela fé e pelas palavras que explicam o sentido das Escrituras e da esperança humana – a ressurreição não poderia converter aqueles que não conheciam a Jesus e não estivessem preparados (avisados) para O receber.
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[1] Paul TILLICH, Théologie Systematique, 127.
[2] Bernard SESBOUÉ, op. cit.

quinta-feira, agosto 31, 2006

Jesus Cristo
- Homem Novo para renovar o homem -
- III -


3. 3.3. Conto-vos uma história que é a vossa
- O ensino através das parábolas -
Em toda esta relação ocupa grande destaque a parábola, uma história que Jesus conta em que cada ouvinte é convidado a reconhecer-se como um dos personagens intervenientes. Muitas parábolas farão referência à história de Israel como Povo e não apenas (literalmente) a um homem particular. Fundamentalmente a parábola é um convite dirigido à liberdade de quem a ouve. Por exemplo: seremos o filho mais novo ou filho mais velho da parábola do filho pródigo? Seremos o fariseu ou o publicano da parábola sobre a oração? Etc.
À luz das ciências da linguagem, o que é uma parábola? Fundamentalmente trata-se de uma história fictícia, que tem a ver com a realidade concreta do contador ou autor da parábola, com o fim de apresentar uma mensagem. Em qualquer parábola há um termo de comparação entre a realidade da história parabólica e a realidade da mensagem do autor da mesma parábola. Neste sentido semelhança e parábola são coisas diferentes. A semelhança aponta para uma situação típica, enquanto a parábola apresenta um caso singular interessante. A semelhança refere-se ao universalmente válido, enquanto a parábola se refere ao que acontece uma vez embora como caso típico.

É muito difícil estudar as parábolas de Jesus ou encontrarmo-nos com as parábolas originais tais como Jesus a disse. Uma coisa pode ter sido a que Jesus disse e outra a que, depois, e pela tradição oral, mais tarde, foi posta por escrito.
Por isso as parábolas de Jesus têm de ser estudadas em três dimensões: a dimensão primigénia de Jesus frente aos seus interlocutores; a dimensão evangélica, dos evangelistas que as escreveram; a dimensão actual e eclesial das parábolas.

Mas o que pretende Jesus com as parábolas? Jesus apareceu como alguém que anuncia a presença do reino de Deus. O que Jesus pede aos seus ouvintes e interlocutores é que acreditem nessa presença do Reino. Mas os Judeus em geral esperavam outras evidências da presença do Reino. É nesta relação de dificuldade na aceitação do Reino presente em Jesus Cristo que surgem as parábolas. E é este contexto que as influenciará quanto ao seu conteúdo.

Vejamos, por exemplo, a parábola do semeador (Mc 4, 1-9). O que é que Jesus quer dizer com esta história de um camponês que saiu a semear e cuja semente lançada cai em sítios rochosos, no meio dos espinhos, nas pedras, nos caminhos e uma pequena parte apenas é que cai em boa terra? Possivelmente Jesus está num contexto de fracasso: a semente, na sua maior parte perdeu-se, diz a parábola. Os seus interlocutores ao ouvi-l’O falar sobre o Reino não o acolhem e esperam que o reino se realize mas segundo as modalidades em que o esperam. Por isso também Jesus lhes lembra, citando, o profeta Isaías (“Os cegos vêem, os coxos andam ...” Mt 11, 5; Is 35, 5). E igualmente por isso lhes diz “O tempo chegou ao seu termo e o Reino de Deus está próximo. Convertei-vos” (Mc 1, 15). Significa que os seus ouvintes têm de começar a entender as coisas de outra forma.

Qual é o grande desafio de Jesus ? O desafio de Jesus diz respeito a uma viragem completa na forma de entender a realidade. Até Jesus os Judeus tinham o conhecimento da Lei e das tradições à volta da Lei. Mas a partir de Jesus o conhecimento teria de ser diferente. Por isso Jesus lhes diz que têm de conhecer o amor do Pai pela presença do amor do Filho Jesus. Então o que era preciso reformar era a concepção religiosa, teológica e institucional de todo o processo humano e judaico.

Peguemos por exemplo na parábola do Bom Samaritano (Lc 10, 25). O próximo daquele homem assaltado é um samaritano e não sacerdote ou levita. No sistema religioso da época só era próximo quem pertencia à raça de Abraão. Para os judeus os próximos eram judeus. Os fariseus, por exemplo, excluiam dos seus próximos os que ignoravam a Lei ... etc.
Jesus, neste caso, vai inverter os termos destas relações e vai apresentar um samaritano como próximo de um judeu sabendo que os samaritanos eram odiados por todos os judeus. E ao apresentar o samaritano como próximo volta-se para o doutor da Lei e diz-lhe que faça o mesmo. Então um doutor da Lei tinha de ser como um samaritano ? Ora é neste “confronto” que consiste a revolução teológica de Jesus. Tudo tinha de mudar.O próximo não era aquilo que eles pensavam . A revolução aqui não é tanto moral, mas sim teológica: o Deus anunciado por Jesus é diferente daquele em que muitos acreditavam.

Outro exemplo é a parábola do fariseu e do publicano (Lc 18, 9) que vão rezar ao Templo. São duas atitudes completamente diferentes. A novidade de Jesus aqui consiste em afirmar o pecador (publicano) completamente perdoado. O que perdoa é a relação do pecador frente a Deus e não frente à Lei (como é o fariseu que cumpre tudo e até faz o que não é obrigado). O publicano é um pecador segundo a Lei e o fariseu um justo. Mas segundo Jesus o publicano é um justo. E isto porque o perdão não depende da Lei mas da relação de amor e verdade a Deus. Por isso o fariseu é justo segundo a Lei, mas pecador segundo Jesus e nova forma por Ele apresentada. Então o que é que é importante: a Lei ou a Graça ?

Vemos portanto que Jesus estabelece uma revolução teológica: chegou o tempo do grande encontro com Deus não apenas segundo a Lei, mas sim segundo a Graça.

4. Faz como eu faço
- Jesus: o dizer e o fazer como testemunho duma existência -
Chegados a este momento da vida de Jesus podemos perguntar-nos o que é que dava credibilidade às suas parábolas. Os ouvintes de Jesus, segundo os Evangelhos, reconheceram nas suas palavras uma autoridade diferente da dos escribas e fariseus. E, por outro lado, a parábola como estilo literário podia ser utilizado pelos piores proponentes de utopias irrealizáveis.
O que distinguia então as parábolas de Jesus, as suas palavras entre tantas outras palavras? Na resposta a esta questão, tocamos a própria originalidade de Jesus: a coerência entre a proclamação anunciada e o testemunho de vida é total. Jesus não ensinou nada que não tivesse praticado também. Em Jesus coincidem o dizer e o fazer. E será isso que definirá a sua existência.
Neste contexto é particularmente relevante a atitude de Jesus para com os pecadores, a sua proximidade com eles. Não são os que têm saúde que precisam de médico (Lc 5, 31-32) dirá Jesus, mas os que estão doentes. O pecador público era alguém de quem, segundo a lei judaica, era necessário afastar-se e, no entanto, Jesus aproxima-se deles. A sua proximidade com os pecadores não é, evidentemente, um compromisso e, muito menos, uma cumplicidade com o pecado. Se aqueles que são manifestamente pecadores são privilegiados por Jesus é porque mostram um desejo de mudar de vida. E àqueles que muito amaram muitos se lhes perdoará.

É precisamente neste contexto do anúncio do Reino dos Céus que os milagres de cura de Jesus ganham sentido. Os milagres são sinais e anúncios reais da salvação. E, nesse sentido, estão ligados à mensagem da chegada do Reino de Deus em Jesus Cristo.

Os evangelistas colocam na própria boca de Jesus o significado que é preciso dar aos seus milagres. Aos enviados de João que Lhe perguntam se é Ele Aquele que estava para vir, Jesus responde citando um texto de Isaías que insiste na transformação da pessoa pela saúde: os cegos recuperam a vista, os coxos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam, a Boa Nova é anunciada aos pobres” (Lc 7, 22-24). os cegos recuperam a vista, os coxos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam, a Boa Nova é anunciada aos pobres” (Lc 7, 22-24).

O sinal evangélico da cura é, pois, muito importante para exprimir a natureza do Reino que Jesus vem anunciar.
Esta e outras passagens do Evangelho mostram-nos, no contexto do anúncio do Reino, o que Jesus convidou os discípulos de João a ver e a ouvir.
Se relacionarmos com esta acção de Jesus o despertar da consciência de que Jesus é o Messias, estabeleceremos imediatamente uma relação entre Jesus e a alegria. Jesus não vem apenas mudar uma parcela da realidade. Vem mudar tudo. Vem mudar o mais profundo do homem: a vontade, a inteligência, a afectividade (o amor).

O Deus do Reino que Jesus anuncia é, portanto, um Deus amigo dos homens. Por isso se manifesta que este Reino é Reino para os homens, para as pessoas humanas... É uma nova ordem de coisas, totalmente diferente.
Os pobres e os aflitos são os privilegiados deste Reino. Mas os pobres e os aflitos são, fundamentalmente, aqueles que já não têm nada a esperar do mundo ... os que já não têm mais recursos nenhuns ... senão Deus ... só Deus lhes pode valer. São aqueles que não encontram resposta aos seus problemas apenas nas estruturas do mundo ... os que não têm defesas neste mundo. Pobres são os oprimidos ... os desesperados ... por qualquer razão. Não terá então isso algo a ver com a verdadeiras alegrias, aquelas que não se confundem com estados anímicos passageiros, mas têm a ver com o sentido da vida encontrado.

A pobreza e a doença são aqui símbolo e manifestação de uma carência ... de uma necessidade, de uma indigência: o homem deixado entregue a si mesmo, abandonado no mundo, é um ser votado à morte. Fome ... sede ... visão ... são os sentidos da relação humana e da expressão dessa relação, são as formas e os caminhos das relações do homem com os outros ... são por eles que se realizam e expressam as vivências humanas. Então o desejo de viver é aqui a matriz do sentido. E quem se sente recuperado não tem motivo para a alegria ?

“E todos os que O tocavam ficavam curados” diz o Evangelho de Marcos (Mc 6, 53). É um dos testemunhos do Evangelho. A palavra “cura” é uma palavra tremendamente evocadora e significativa para falarmos de Jesus como acontecimento global que integra uma multiplicidade de experiências que se afirmam como vidas com sentido. Tocar Jesus, como diz o Evangelho, é estabelecer inter-relação com o mistério da sua pessoa.

Ao estudar, por exemplo, os milagres de Jesus é importante conhecer a identidade das pessoas que são curadas por Jesus. Nelas não está apenas uma doença pessoal e singular. Elas próprias encarnam uma característica comum da sociedade de então que é a exclusão.

O judaísmo, e no tempo de Jesus era assim, tinha estabelecido uma estreita relação entre doença, impureza e pecado. As próprias leis religiosas que regem os povos foram carregando de significado social e sacral todas as doenças. As doenças sofridas não são, então, muitas vezes, entendidas como disfunções orgânicas (doenças físicas), mas como desvios das normas em uso e dos valores dominantes.

Neste sentido, os corpos doridos ou sofredores e tristes de alguém são o sinal patente de uma transgressão que ameaça o bom funcionamento de toda a sociedade, o corpo social do qual se faz parte. Por isso os doentes – os pecadores, os transgressores – são excluídos. Suplicar e pedir a cura não é mais, então, do que pedir se volte a encher de sentido a vida de alguém (esse que pede).
É Jesus Quem aceita esse desafio e devolverá a saúde, a integridade e o sentido de vida a todos aqueles com quem se encontra.

As curas são, pois, o primeiro sinal da chegada da novidade. A cura do corpo e o perdão dos pecados indicam que é o homem todo (a totalidade do nosso ser) que é curado, que é salvo. Nós não temos apenas um corpo, mas somos um corpo. E tudo o que afecta o corpo que somos nos afecta a nós próprios. Os sinais da cura e do perdão mostram então o avanço do Reino na medida em que são sinais de esperança. A doença tem uma relação com a morte. A cura, face à morte, é sinal da promessa da ressurreição. Jesus mostra-nos assim como o corpo, a pessoa, é o espaço e o tempo da sua acção. Cada pessoa, pela encarnação de Cristo, é um espaço e tempo, é ocasião, de graça.

Outro sinal muito importante nos Evangelhos é o sinal da refeição. Jesus alimenta as multidões: assume-se aqui toda a simbologia da refeição. Alimento não é apenas o pão, mas tudo aquilo de que o homem tem necessidade para viver e viver bem. Por isso Jesus multiplica o alimento. Porque Ele próprio é essa abundância de sentido, de alimento. E as refeições com Jesus são, por isso, sempre sinal da comunhão no Reino, para lá da morte.

quarta-feira, agosto 30, 2006


Jesus Cristo
- Homem Novo para renovar o homem -


Introdução
- O real, o que se vê e quem vê -
O “real” de uma pessoa, de qualquer pessoa, supera sempre aquilo que qualquer observador a partir do exterior possa captar ou perceber, adjectivar ou idealizar dessa mesma pessoa. Se isto é verdade com qualquer pessoa, também é verdade com a Pessoa de Jesus Cristo. De facto, bem diz o povo que quem o feio ama, bonito lhe parece.

Nos escritos mais antigos do Novo Testamento o nome próprio “Jesus“ anda sempre associado a outros conceitos que dão origem a expressões como Jesus Cristo, o Senhor Jesus, Jesus Cristo nosso Senhor. As pessoas que utilizam esta terminologia não se referem apenas a um homem do passado cuja recordação seria preciso manter, mas referem-se sim a uma pessoa viva e actuante com a qual se pode entrar em relação. Trata-se, evidentemente de uma perspectiva crente, uma perspectiva de fé. É o “Cristo da fé”.
Ao “Cristo da fé” pode contrapor-se, sem se opor, o “Jesus da história”. Nesta segunda expressão pretendeu-se e pretende-se ver uma manifestação da historicidade de uma pessoa: dizer “não há dúvida que Jesus existiu”.
O nome “Jesus” significa, de facto, “Deus salva”, mas naquela época, como testemunha o historiador Flávio Josefo em alguns dos seus textos, Jesus era um homem a viver no meio de um povo. Mas, por isso mesmo, nessas condições, é possível olhar para a personagem Jesus na sua singularidade individual.

Considerando que ao longo dos tempos se foi enriquecendo muito o retrato de Jesus a Quem os cristãos reconhecem como Cristo e Senhor, sublinha-se a necessidade de ter acesso e voltar ao Jesus “real”. É isso que a expressão “Jesus da história” pretende sublinhar. O “Jesus da história” designa o que o historiador, utilizando os métodos próprios e trabalhando a partir das fontes fragmentárias de que dispõe, pode e consegue reconstruir da personagem “Jesus de Nazaré”.

A distinção entre “Cristo da fé” e “Jesus da história” é válida, mas não tem de funcionar em termos de oposição. E se hoje, por um lado, parece impossível escrever uma biografia de Jesus, contudo, por outro lado, a investigação permite destacar as grandes linhas ou vectores do seu ensino, pregação e actividade; permite constatar a existência de uma tensão séria e objectiva com as concepções fundamentais do judaísmo da época e dos círculos dirigentes do povo; permite discernir a tensão que conduziria à morte violenta de Jesus.

1. Eu, eu, eu…, mas nunca “só eu…”
– Os níveis de acesso à existência pessoal de Jesus Cristo -
A partir de Jesus Cristo, o encontro de Deus com a humanidade e da humanidade com Deus passa sempre pela história do homem. Deus deixa-se encontrar como Salvador e Messias em Jesus Cristo na história dos homens. Esse é o fundamento verdadeiro da alegria cristã.
Mas, para podermos compreender melhor Jesus de Nazaré e o seu significado na história da humanidade podemos, seguindo o teólogo González Cardedal, distinguir três níveis de acesso à sua existência pessoal[1].

1.1. Os Factos: conhecimento histórico científico
Neste primeiro nível estamos na presença de todos aqueles acontecimentos, situações, comportamentos, personagens, lugares e tempos que constituem o entrançado da vida do homem Jesus desde o nascimento até à morte. Trata-se de fixar todos estes dados nas suas coordenadas espácio-temporais, de determinar todos os elementos que os constituem e de perceber a sua função e repercussão. Trata-se, fundamentalmente, de tentar saber com a maior exactidão possível como é que aconteceram as coisas independentemente do significado que mais tarde tenham recebido e/ou assumido. O acesso à Pessoa de Jesus Cristo, neste nível, faz-se por um tipo de conhecimento e método histórico-científico[2].

1.2. O Sentido: conhecimento histórico-sapiencial
O segundo nível de acesso à existência de Jesus, segundo o mesmo Gonzalez Cardedal, é aquele que implica toda a sua auto-compreensão humana. Estando subjacente a tudo o que Jesus fazia (cada uma das suas palavras e acções) era o que lhes dava sentido e visibilidade no mundo. Não se trata já então dos factos ou simples acontecimentos, mas sim, antes de mais, do nível profundo da intencionalidade que os animava. É neste nível que todas as figuras de relevo histórico (homens e situações) aparecem como portadoras de um significado e sentido (que pode ser universal). Neste nível já não nos basta sermos observadores dos factos, mas é necessário empenhar todo o existir para poder entender em que medida o viver de Jesus é resposta aos anseios, esperanças e possibilidades do homem. Este é um nível que se baseia necessariamente no anterior, mas que o ultrapassa. Podemos chamar-lhe então um conhecimento do tipo histórico-sapiencial.

1.3. A Revelação: conhecimento religioso-crente
Um terceiro e último nível de acesso à existência pessoal de Jesus Cristo remete-nos para elementos da vida de Jesus que vão bem mais longe que os anteriores. De facto, se nos momentos anteriores nos encontrávamos ao nível da facticidade e da exemplaridade, aqui estamos já ao nível da transcendência, ao nível da fé. Trata-se então de procurar conhecer não já apenas aqueles elementos que nos remetem para o testemunho humano da vida de Jesus (factos ou intenções, contextos ou comportamentos humanos iluminadores de novas possibilidades de existência radicadas já no coração do homem), mas sim todos aqueles elementos que revelam o projecto de Deus para a humanidade. É que, dito de outra forma, em Jesus não estão apenas presentes factores de exemplaridade mas existe algo qualitativamente novo, uma presença especial de Deus que acontece como Dom para a humanidade. A pergunta aqui já não é então sobre o que fez ou como se compreendeu Jesus a si mesmo, mas sim sobre o que é que Deus fez em Jesus e através d’Ele para a humanidade[3].
Evidentemente que neste momento estamos já ao nível da fé. Já não estamos apenas ao nível da exterioridade dos factos, mas estamos ao nível na iluminação consentida do sujeito que vive e contempla esses factos para que possa perceber neles a revelação de Deus, ou seja, sentir os factos como destinados por alguém pessoal a alguém pessoal em ordem à instauração de uma relação também pessoal. Revelação, portanto, só acontece quando coincidem o aspecto objectivo (presença manifestativa) e o aspecto subjectivo (acção iluminadora de Deus no sujeito para que este veja e possa perceber o chamamento de Deus à fé). Evidentemente, aqui estamos já ao nível do assentimento religioso-crente (a fé).

2. Quem não distingue confunde e distinguir não é separar
– A relação entre os três níveis de acesso à existência de Cristo -
Estes três níveis de realidade descritos, apesar de serem vistos em simultaneidade, são autónomos entre si e não se podem desvalorizar uns a partir do outros. Aos factos responde-se com uma análise histórico-empírica; à existência responde-se com uma compreensão que pretende interpretar e que, a partir de uma empatia gerada, é capaz de reconhecer valor e exemplaridade; e à presença reveladora de Deus só se pode responder com a fé.
Apesar de relacionados entre si, estes são três níveis qualitativamente distintos. Porém, e isso é claro para o autor citado, o homem só pode encontrar-se verdadeiramente com a pessoa de Jesus quando aceita percorrer a totalidade do caminho que permite o seu acesso: o Cristianismo só é verdadeiramente fé em Jesus na medida em que Jesus é o Cristo. A fé dos cristãos, portanto, é sempre fé em Jesus Cristo[4]. E isto porque o encontro com Deus não se dá apenas no encontro com as obras, com a doutrina, com o destino, ou com a preocupação fundamental que dominou a vida de Jesus, mas acontece naquela realidade que já não é protagonizada apenas pelo mesmo Jesus, mas sim por Deus: a ressurreição. Possivelmente sem ressurreição teria existido apenas um “jesuanismo” de carácter profético, mas não teria surgido um cristianismo.
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[1] Cf. Olegário Gonzalez CARDEDAL, Jesus de Nazaret (Madrid: BAC, 1993) 361.
[2] Ibid.
[3] Ibid.
[4] Ibid. 368.

Jesus Cristo
- Homem Novo para renovar o homem -
- II-


3. Diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és
- Do Jesus pré-pascal ao Cristo pascal -
Sem respondermos previamente à questão, devemos, sem dúvida, afirmar desde já que a ressurreição de Jesus e a experiência pascal dos discípulos são os elementos determinantes na origem da fé cristã. Antes da ressurreição de Jesus, os discípulos não tinham ainda compreendido bem o real significado da sua pessoa e obra. Tinham elementos que lhes permitiam reconhecer em Jesus um Profeta da plenitude da vida e dos tempos, um Profeta do Reino de Deus, mas não tinham os elementos que lhes permitiam reconhecer o Cristo, Ungido de Deus. Isto não quer dizer que os discípulos não tivessem ainda fé na sua pessoa porque se não a tivessem não O tinham seguido. Contudo, sobressai em vários episódios do Evangelho (Disc. Emaús, Lc 24, 21; Tomé, Jo 20, 28; Mãe dos filhos de Zebedeu, Mc 10, 37, etc) que só depois da ressurreição de Jesus é que os discípulos chegaram a uma compreensão mais aprofundada e a uma fé mais profunda na Pessoa de Jesus Cristo, Messias e Filho de Deus. A ressurreição não se pode, contudo, reduzir a uma experiência pascal de conversão dos discípulos. Sem dúvida que os discípulos fizeram a experiência da conversão (subjectiva), mas fizeram-na porque re-encontraram Jesus ressuscitado como sendo o que havia sido morto. E isso significa que a ressurreição afecta em primeiro lugar o próprio Jesus Cristo. Esta transformação da humanidade de Jesus (assim que passa da vida à morte e da morte à vida) não pode ser percebida pelos discípulos senão em relação à esperança de plenitude de Israel, ou seja, como transformação d’Aquele que há-de vir, para lá da morte, na plenitude dos tempos.

Nesta medida, o facto de que a ressurreição e a experiência pascal dos discípulos marcaram o nascimento da sua fé em Cristo, não quer dizer que a ressurreição de Jesus seja suficiente, por si mesma, para provar ou para testemunhar a identidade pessoal do Ressuscitado enquanto Filho de Deus. A identidade pessoal de Jesus é objecto de fé – não se presta a nenhuma demonstração. O que existem são sinais capazes de suscitar e de manter a fé. Sem esses sinais, de facto, os discípulos não teriam, provavelmente, podido perceber a real transformação acontecida na humanidade de Jesus.
Esses sinais, como é o caso das aparições, mostravam que Jesus tinha atingido, para lá da morte, a plenitude esperada. Desta forma os discípulos eram constantemente re-enviados ao testemunho de Jesus durante a sua vida terrena. Fortalecidos pelo Espírito eles vão relembrar tudo o que Jesus tinha dito e feito (o Jesus pré-pascal). É desta forma que a memória do Jesus histórico desempenha um papel fundamental no nascimento da fé cristológica dos discípulos. O que aconteceu, fundamentalmente, é que a memória do Jesus histórico forneceu aos discípulos a ligação entre Jesus (ele próprio) e a interpretação de fé dada após a ressurreição[1].

Mas mudemos um pouco de registo e tentemos ver a pedagogia de Jesus na sua maneira de se apresentar e conduzir ao reconhecimento da sua identidade. Entremos no relato evangélico como se fossemos os seus companheiros e deixemo-l’O agir em nós da mesma forma que agiu nos contemporâneos de Jesus. Veremos então se Ele é capaz de nos seduzir (Jer 20, 7).
Jesus entrou na história dos homens como homem. Como chegaram então os seus discípulos à fé na sua pessoa e a proclamá-l’O Cristo e Senhor ? Como é que os cristãos de todos os tempos chegaram à afirmação da identidade divina, transcendente e misteriosa, do homem Jesus ? Como é que o comportamento humano de Jesus revela que Ele é mais do que um simples homem ? Por outras palavras, por onde começar a estudar a Cristologia[2] ?
Na resposta a todas estas questões trata-se de passar pela afirmação de que Jesus é verdadeiramente homem para chegar à afirmação de que Ele é verdadeiramente Deus (afirmação de uma outra ordem totalmente diferente). Ora o reconhecimento divino de Jesus escapa àquilo que, normalmente, chamamos de provas históricas. Isto quer dizer que nós não podemos encontrar Deus no fim de um caminho que, de prova em prova, O forçasse a manifestar-Se-nos. O modo de relação do homem com Deus é um modo pessoal. É o modo do encontro e da experiência – é a pessoa livre que se compromete.

3.1. Alguns aspectos históricos
- E foi assim… -
Aspecto histórico é, por exemplo, o facto de que por volta do ano 30 da nossa era, um homem chamado Jesus começou a pregar na Galileia. Não era sacerdote, e não pertencia a nenhum outro dos grupos existentes na sua época. Não tinha estudos, era um carpinteiro que aprendera a arte com seu pai. Existem alguns testemunhos, poucos, sobre a existência histórica de Jesus seja em autores pagãos seja em autores judaicos, seja mesmo em termos de arqueologia.
Mas existem outros elementos a somar a estes: o seu nascimento ter-se-ia dado em Belém, mas terá vivido quase sempre em Nazaré; a sua vida teria sido, no entanto, uma vida itinerante. Fez-Se baptizar no Jordão por João Baptista, andou pela Galileia (Nazaré e Cafarnaum) e depois na Judeia; a partir de certa altura rodeia-se de um grupo de 12 homens e de outras pessoas que começam a andar sempre com Ele; vai regularmente a Jerusalém (pela Páscoa, por exemplo); inicia, a certa altura a sua pregação sobre o Reino de Deus. Falou em Sinagogas, mas preferia os espaços abertos livres (o monte, a praia, a praça das povoações); faz-Se próximo dos mais pobres e aflitos, dos doentes e desesperados; ensina sobretudo através de histórias comparativas a que chamamos parábolas; morreu crucificado.

3. 2. A vida não se resume ao que se faz na vida
- Para lá dos aspectos históricos, a personalidade de Jesus -
A procura histórica não se pode limitar aos aspectos cronológicos, geográficos e exteriores da existência de Jesus. Podemos, de facto, remontar às grandes afirmações da sua mensagem.
Olhemos a personalidade de Jesus. Por exemplo, a atitude de Jesus face ao Templo e à Lei Judaica é paradoxal: por um lado Ele respeita um certo número de prescrições, mas por outro enfrenta abertamente questões como a do Sábado. Poderíamos então dizer que, fundamentalmente, Jesus retoma a polémica dos profetas do AT contra uma observância rigorista da Lei quando não está acompanhada de justiça, de misericórdia, do amor de Deus e do próximo. É nesse sentido que Jesus redefine a paisagem legal em Israel: o Sábado é para o homem e não o homem para o Sábado. E fá-lo relativizando certas observâncias e colocando no centro da vida os mandamentos essenciais do amor a Deus e ao próximo.
Mas existem outros elementos bem expressivos. Quando Jesus fala da Lei, Ele não fala como um escriba ou fariseu que propõe comentários. Jesus coloca-se em verdadeira igualdade com a Lei: “Ouvistes que foi dito aos antigos ... Eu, porém, digo-vos”. Esta é, aliás, uma pretensão que levantará objectivamente problemas e nos ajudará a entender as reacções dos ouvintes.
Outro caso é o perdão dos pecados (Mt 9, 1-9; Lc 5, 17). Numa cultura que afirmava que só Deus pode perdoar os pecados, aparecer alguém que diz perdoar os pecados ganha o tom acusatório de blasfémia (Mc 2, 7).
E como auge de todos estes elementos temos a sua forma de relação com Deus a Quem chama de Pai (Mt 11, 27). Por tudo isto, o próprio Jesus começará a dar conta de que o seu destino será violento como o dos grandes profetas ... até à morte[3].

3. 3. Jesus apresenta-Se ao Povo de Israel
- A Mensagem de Jesus -
Desde que Jesus aparece entre os Judeus, Jesus fala. E aquela que é tida no Evangelho de Marcos como a sua primeira palavra tem uma tem uma força extraordinária: Cumpriu-se o tempo, o Reino de Deus está próximo: convertei-vos e acreditai na Boa-Nova (Mc 1, 15).
O apelo à conversão não será uma realidade propriamente nova. Já João Baptista tinha anunciado essa necessidade.
A novidade da pregação de Jesus é o conceito de Boa-Nova e o anúncio de que o Reino chegou. O que Jesus fará é dar expressão a este Reino que chegou. Na sua palavra e no seu gesto caracteriza-se o Reino. O Reino de Deus caracteriza um estado perfeitamente reconciliado e pacífico da sociedade humana; manifesta a reconciliação dos homens entre si e com Deus; manifesta a alegria de ver realizada a mais profunda aspiração humana. É um Reino de paz, mas duma paz que exige a justiça, a verdade, a autenticidade.
É por isso que a pregação de Jesus acerca do Reino de Deus é terrivelmente reformadora em relação à tradição e costumes judaicos do seu tempo. Jesus fala de um Reino que não é como os reinos dos homens. Mas esse era um Reino que não correspondia minimamente às expectativas dos Judeus: ... Jesus ignorava o poder político ... Jesus ignorava o poder das armas ... Jesus ignorava o poder do dinheiro e da sedução...Jesus diz que o Reino vem de maneira discreta e silenciosa, no coração de cada pessoa ... Jesus fala do perdão dos pecados ...Jesus cura e alivia o sofrimento de imensas pessoas ... Jesus chama Pai a Deus (inconcebível para os Judeus) e diz que a autoridade do seu ministério Lhe vem de ser o Filho de Deus ... Jesus declara-Se contra a forma como os Judeus se comportam no Templo ou face à Lei. Ele vem cumpri-la na sua plenitude (a plenitude do seu entendimento).
A característica fundamental deste Reino anunciado por Jesus é que ele se apresenta como Dom de Deus aos homens. É Deus Quem Se coloca ao serviço do homem porque a glória de Deus é o homem vivo.

3. 3.1. O mal e o bem ao rosto vêm
- O Reino no Sermão da Montanha (Mt 5, 1 – 7, 28) -
O Evangelho de S. Mateus agrupa em três capítulos o ensinamento inaugural de Jesus sob a forma de um grande discurso – o Sermão da Montanha. E neste discurso o Reino de Deus é descrito de forma verdadeiramente paradoxal: a sua descrição é aberta com a proclamação das oito Bem-aventuranças, oito promessas de alegria que parecem ser uma contra-corrente em relação às alegrias meramente humanas. Não só a doçura, a fome de justiça, a misericórdia, a pureza de coração e as obras de paz são ditas bem-aventuradas mas também a pobreza, as lágrimas e até a injusta perseguição. Não que os sofrimentos sejam um bem em si mesmos, mas manifestam o tempo necessário para que o Reino se instaure.
As exigências das Bem-aventuranças reportam-se ao decálogo de Moisés, mas vão bem mais longe. Não basta, passivamente, não matar, é preciso amar[4]. É necessário que cada um se reconcilie com o seu adversário e que não cometa adultério nem de corpo nem de coração. É preciso abrir-se à Lei nova do amor e deixar a lei de talião amando os próprios inimigos. A esmola e a oração serão tão verdadeiras quanto discretas – rezar-se-á no segredo e ensinado pela própria relação de Jesus com o Pai. Acerca do Jejum, Jesus diz também que não se deve mostrar como evidente só para ser visto. O jejum necessário é o de ter em Deus o centro da vida. De certa forma este é o programa global do reino que Jesus apresenta. Cumprir tudo isto levará, sem dúvida, a conflitos. É um discurso que chama à justiça, à rectidão, à caridade.

3. 3.2. Os Romanos “ loucos” e os “Simpáticos” Judeus
- A criação de um mundo simbólico
como expressão de sintonia entre Jesus e os seus ouvintes –
Qual é o efeito das palavras de Jesus nos seus ouvintes? Podemos dizer que as palavras de Jesus atingem a profundidade existencial dos seus ouvintes. As palavras de Jesus revelam a verdade dos seus ouvintes a si mesmos (são palavras esclarecedoras do sentido da vida do próprio homem, têm a ver com a vida real, com a verdade do ser homem, ser pessoa): revelam o homem ao próprio homem na medida em que se dirigem ao seu desejo de viver, ao seu desejo de justiça, de alegria, de liberdade. São palavras reveladoras da esperança humana de que as coisas possam sempre mudar para melhor.

Estas palavras de Jesus criam, portanto, entre Jesus e a multidão que O escuta um mundo simbólico, ou seja um mundo – comunhão – no qual se manifesta um conjunto de sinais anunciadores do Reino. É como se aqueles que seguem Jesus vissem o Reino de Deus em representação.
Mas a sequência directa dos textos e da acção de Jesus mostrará que o Reino ainda não está realizado e que será difícil de construir. A pregação de Jesus em Nazaré, na Sinagoga, é uma outra forma de exprimir a novidade que acompanha a vinda do seu Reino: O Espírito do Senhor está sobre mim porque Ele me ungiu para anunciar a Boa-Nova aos pobres, enviou-Me a proclamar a libertação aos cativos, e aos cegos a vista; a libertar os oprimidos, e a proclamar um ano da graça do Senhor. Hoje cumpriu-se esta Escritura (Lc 4, 16-30).
Jesus anuncia que a promessa inscrita no texto de Isaías se cumpre na sua pessoa. E, de facto, o programa anunciado é o conteúdo do Reino que Jesus prega: preocupação com os mais pobres; libertação das injustiças; cura dos enfermos; proclamação de um tempo de graça (Jubileu: perdão das dívidas, restituição das propriedades, libertação dos escravos).
Por isso a pregação de Jesus culmina sempre no “convertei-vos”. “Converter-se” é “multiplicar-se” no bem e na construção da felicidade.
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[1] Cf. Jacques DUPUIS, Homme de Dieu, Dieu des hommes (Paris: Cerf, 1995).
[2] Cf. Bernard SESBOUÉ, Croire (Paris: Droguet & Ardent, 1999) 249.
[3] Cf. Bernard SESBOUÉ, op. cit. 237.
[4] Cf. Ibid.

domingo, agosto 27, 2006


Porquê "Provocação 33" ...?

Ninguém se faz o que é sozinho e isolado. Muitas e muitas relações e inter-relações ajudam na nossa construção. São provocações da própria vida, dos outros, das circunstâncias que nos vão desafiando e ajudando a construir a vida. Ao sabor da corrente ou contra a corrente. Vida todos temos e essa é a primeira circunstância e vocação com que nos deparamos: que fazer com o facto que nos acontece de estarmos vivos?! E uma pergunta é já uma provocação que ajudará a definir uma vocação. Interrogamo-nos "pro vocação"! Provocação 33 porque Cristo é, pela palavra e pelo gesto, pelo mistério da Encarnação, a maior provocação possível ao sentido da vida do homem. Quem escolher dar o coração a Jesus Cristo percebe o seu sentido de vida como fazer com a existência própria aquilo que Jesus fez com a sua vida: dar-se, amar, entregar-se.

sábado, agosto 26, 2006


Cristo na Cidade é uma ocasião de encontro entre todos aqueles que se interrogam sobre a presença de Cristo no mundo, as formas como Ele chama e cativa e as possibilidades de entrega ao seu projecto. É, por isso, uma ocasião de reflexão e partilha, de oração e desafio. É uma ocasião de "sentir a vida" e perceber onde é que ela "tem mais sentido".