quinta-feira, agosto 09, 2007


Preparando o Domingo
19º do Tempo Comum
12 de Agosto 2007
"Encontrar a Vossa presença
na minha vida, Senhor!"
A liturgia deste 19º domingo do Tempo Comum aborda um aspecto particularmente importante para a nossa vida e para o nosso testemunho cristão. Quantas vezes não ouvimos ou sentimos dizer à nossa volta algo como : “Em que é que a vinda de Cristo modificou o mundo?”. É um facto que os homens prosseguem as suas guerras fratricidas; ontem como hoje pratica-se a injustiça desprezando o direito dos mais fracos. Contudo, na fé, nós sabemos que tudo mudou a partir da ressurreição de Jesus e da inauguração do seu Reino: “a noite da libertação pascal” (1ª leitura) anuncia o regresso glorioso e definitivo do Senhor. Ele encarnou, Ele habita no coração da Igreja pelo seu Espírito, Ele “virá na sua glória, julgar os vivos e os mortos; e o seu Reino não terá fim”.
Certamente a maior parte de nós morre “sem ter visto a realização das promessas; mas vemo-las e saudamo-las de longe” (2ª leitura). A nossa fé é fidelidade a essa promessa, a esse futuro que orienta toda a nossa vida e faz de nós infatigáveis peregrinos do Reino. Cada Eucaristia relança a nossa caminhada: Jesus vem ter connosco para nos guiar para a frente, nós que somos “estrangeiros e peregrinos sobre esta terra” à procura de uma “pátria melhor, a dos céus” (2ª leitura). Dia após dia podemos prosseguir o nosso caminho e acelerar o passo no caminho da eternidade na medida em que acolhemos Cristo ressuscitado no nosso coração. Porque “a fé constitui a garantia dos bens que se esperam, e a prova de que existem as coisas que não se vêem” (2ª leitura). E isso desde que seja uma fé viva e activa pela caridade, ou seja, efervescente de um ardente desejo de comunhão, porque “onde está o nosso tesouro aí está o nosso coração”.
A vida cristã autêntica é uma vida sempre orientada para o Senhor que vem, vivida numa ardente espera do seu regresso: “Maranatha! Vem Senhor Jesus!” (Ap 22, 20). É o que nos ensina o próprio Jesus no Evangelho deste dia quando nos exorta insistentemente à vigilância: “Tende as vossas cintas apertadas e as vossas lâmpadas acesas. Sede como homens que esperam o seu senhor, quando voltar do seu casamento, para, assim que ele chegar e bater, lhe abrirem logo a porta. Estai vigilantes” (Evangelho).
Esta espera não é algo de puramente passivo: o servo fiel e sensato é aquele que, à chegada do seu senhor, está vigilante e no seu lugar. E a tarefa que lhe está confiada não é outra senão o serviço da caridade a exemplo do seu mestre. O senhor, aliás, tomará o lugar de servidor:”há-de apertar a cinta e mandar que eles tomem lugar à mesa e, passando diante deles, servi-los-á”. Esta é a lógica do Reino anunciado por Cristo: “os reis das nações pagãs chamam-se mestres a si mesmos, e os que exercem o poder fazem-se chamar benfeitores. Para vós não deve ser assim. O maior entre vós tome o lugar do mais pequeno, e o que manda tome o lugar do servo. Quem é, de facto, o maior? O que serve ou o que está à mesa? Não é quem está à mesa? Pois Eu estou no meio de vós como quem serve!” (Lc 22, 25-27).
À imagem do seu Mestre e Senhor, o cristão é chamado a tornar-se servidor da caridade colocando-se ao serviço dos seus irmãos na gratuidade de uma amor desinteressado e não desejando senão acelerar a chegada do Reino obedecendo à Palavra do Senhor. Para permanecer nesta orientação de vida, no meio de tantas e tantas solicitações do mundo, é indispensável tender para “as realidades do alto e não para as da terra. Com efeito nós morremos com Cristo e a nossa vida está escondida com Ele em Deus. Quando Cristo surgir, nós surgiremos com Ele” (Col 3, 2- 4).
Que o Senhor nos dê a graça de uma vigilância interior; que nós O possamos aguardar e esperar com uma “santa impaciência”; que a esperança do seu regresso iminente nos guarde despertos na fé e animados de um ardente zelo au serviço dos nossos irmãos.

Padre José Maria, Família de S. José

segunda-feira, agosto 06, 2007

(Veneranda Imagem de Nossa Senhora da Saúde, Belide, Condeixa-a-Nova, séc. XVI)

Celebrar Nossa Senhora da Saúde é celebrar a Salvação da Humanidade em Jesus Cristo. A Salvação de Deus, em Jesus Cristo, nascido da Virgem Mãe, abrange todo o homem e o homem todo tanto na sua vida de peregrino na terra como enquanto cidadão do Céu. Por Cristo a condição do homem muda radiclamente: da opressão passa à liberdade; da ignorância passa ao conhecimento; da tristeza à alegria; da enfermidade passa á saúde; da morte à vida; de participante no pecado passa à participação na vida de Deus.

Salvação é o próprio Jesus Cristo, mas também a Virgem Mãe socorre com amor os que se encontram em dificuldade. Celebrar Nossa Senhora da Saúde equivale a celebrar o momento peculiar da História da Salvação em que o mal e o pecado são vencidos por Jesus Cristo. A Mãe da Saúde é a Mãe de Cristo que nos continua a dizer como em Caná da Galileia "Fazei o que Ele vos disser".

Foi a celebração deste mistério que aconteceu em Belide (Condeixa-a-Nova) nos últimos dias 2 a 6 de Agosto. Do mesmo modo, em muitas outras localidades desta Terra de Santa Maria, se celebra Nossa Senhora com muitas invocações por estes dias. O mistério celebrado é sempre o mesmo: Deus fez-Se Homem e escolheu como caminho de aproximação à Humanidade o seio da Virgem Maria. Maria disse "sim" e é imagem e figura de cada crente, figura e imagem da Igreja. Que Nossa Senhora, que soube acolher, entender, guardar e entregar ao mundo a Palavra de Deus, nos ensine e ajude a acolher, entender, guardar e entregar a mesma Palavra.

Oração de S. Bernardo a Nossa Senhora:

Lembrai-Vos, ó piíssima Virgem Maria, que nunca se ouviu dizer que algum daqueles que têm recorrido à vossa protecção, implorado a vossa assistência, e reclamado o vosso socorro, fosse por Vós desamparado. Animado eu, pois, de igual confiança, a Vós, Virgem entre todas singular, como a Mãe recorro, de Vós me valho e, gemendo sob o peso dos meus pecados, me prostro aos Vossos pés. Não desprezeis as minhas súplicas, ó Mãe do Filho de Deus humanado, mas dignai-Vos de as ouvir propícia e de me alcançar o que Vos rogo. Amen.

Oração a Nossa Senhora da Saúde:

Virgem puríssima, que sois a Saúde dos enfermos, o Refúgio dos pecadores, a Consoladora dos aflitos e a Despenseira de todas as graças, na minha fraqueza e no meu desânimo apelo, hoje, para os tesouros da vossa misericórdia e bondade e atrevo-me a chamar-vos pelo doce nome de Mãe. Sim, ó Mãe, atendei-me em minha enfermidade,dai-me a saúde do corpo para que possa cumprir os meus deveres com ânimo e alegria, e com a mesma disposição sirva o vosso Filho Jesus e agradeça a vós, Saúde dos enfermos. Nossa Senhora da Saúde, rogai por nós. Amen.


Oração a Nossa Senhora da Saúde - II

Nossa Senhora da Saúde, a Ti recorremos implorando a saúde. Tu que, por vontade do Pai, foste responsável pela saúde de Nosso Salvador, ajuda-nos a readquirir a saúde. Tu que educaste o Menino Jesus, amigo solidário dos pobres e doentes, com maternal presença ajuda-nos, para que possamos viver confiantes na salvação eterna, também nos momentos mais difíceis da doença. Mãe protectora, ajuda-nos a recuperar as forças físicas e morais, para que vivamos na alegria do Evangelho de Jesus Cristo, na dimensão do Amor e da Fraternidade, assumindo e respondendo ao Amor Infinito que Deus tem para cada um de nós. Amen.


sábado, agosto 04, 2007


MOVIMENTO DO CLERO


P. José Manuel Marques Cardoso, conservando as actuais funções, é
nomeado pároco de Constância.

Cón. António Leonor Marques Assunção, é nomeado pároco de Alcains.

Cón. Martinho Cardoso Pereira, mantendo as actuais funções é nomeado
pároco de Isna.

P. José Mendes Fernandes Antão, mantendo as actuais funções, é
nomeado pároco de Madeirã.

P. Luís Manuel Antunes Alves, mantendo as actuais funções, é nomeado
pároco da Montes da Senhora.

P. Emílio Ramiro Andrade Salgueiro é nomeado Vigário Paroquial de
Montes da Senhora.

P. Ilídio Santos Graça, CPPS, pároco in solidum de Proença-a-Nova,
Peral e S. Pedro do Esteval, ficando moderador da equipa.

P. José Luís Ferreira Francisco, CPPS, é nomeado pároco in solidum de
Proença-a-Nova, Peral e S. Pedro do Esteval.

P. Armando Tavares Pereira Alves, CPPS, é nomeado pároco in solidum
de Proença-a-Nova, Peral e S. Pedro do Esteval.

P. Virgílio da Mata Martins, CPPS, é nomeado pároco in solidum de
Proença-a-Nova, Peral e S. Pedro do Esteval.

P. Alberto Jorge Porfírio Domingos Tapadas é nomeado Secretário
Geral da Cúria Diocesana.

Diác. Daniel Catarino Bernardo Fernandes, continuando ao serviço de
Proença-a-Nova, é nomeado para as paróquias de Peral e S. Pedro do
Esteval.

Diác. Manuel Lopes Cardoso, continuando ao serviço de Proença-a-Nova,
é nomeado para as paróquias de Peral e S. Pedro do Esteval.


Portalegre, 1 de Agosto de 2007
+José, Bispo de Portalegre-Castelo Branco

quarta-feira, agosto 01, 2007


« Os homens, no começo, sentiram alguma dificuldade em acostumar-se a Deus. Deus, no começo, sentiu alguma dificuldade em acostumar-se aos homens. E no século treze ainda se está no começo. No século vinte não estamos mais longe, não fizemos outra coisa senão marcar passo, atolando-nos um pouco mais nesse furor em espelho de Deus e dos homens, conforme nos dão testemunho a poeira dos nossos sapatos e o sangue em crosta nos nossos lindos fatos.
Francisco de Assim conhece Isaías […] conhece bem a Bíblia […] A voz de Deus está na Bíblia sob toneladas de tinta, como a energia concentrada sob toneladas de betão numa central atómica. O jovem de Assis foi irradiado por esta voz. Já nada mais quer senão transmiti-la […].

Há algo no mundo que resiste ao mundo, e este algo não se acha nas igrejas nem nas culturas nem no pensamento que os homens têm de si próprios, na crença mortífera que eles têm de si próprios enquanto seres sérios, adultos, razoáveis, e este algo não é uma coisa, mas Deus, e Deus não pode caber em nada sem logo o abalar, o arrasar, e Deus imenso não sabe caber senão nos estribilhos de infância, no sangue perdido dos pobres ou na voz dos simples, e todos esses abarcam Deus no côncavo das suas mãos abertas, um pardal encharcado como pão pela chuva, um pardal transido, chilreador, um Deus pipilante que vem comer nas suas mãos nuas.
Deus é o que sabem as crianças, não os adultos. Um adulto não pode perder tempo a alimentar os pardais».


Christian BOBIN, Um Deus à flor da Terra, 98.

terça-feira, julho 31, 2007










QUE (C)RER ?
- questões em torno da fé - 2 -



1. Sinais da abertura à questão de Deus

Sendo a fé , fundamentalmente, uma atitude de confiança, uma relação pessoal (crer), ela engloba igualmente a adesão a uma verdade revelada (aquilo em que se crê: Deus revelado em Jesus Cristo). O acto de confiar e o motivo da confiança constituem uma unidade. Creio em Deus, Pai Omnipotente ... e em Jesus Cristo, Filho Unigénito ... Salvador ..., e no Espírito Santo ... que dá a vida. De um ponto de vista formal, a fé é acolhimento da realidade de Deus e adesão à revelação que Deus faz de si.
Desta forma, a fé é um acto pessoal. E, nessa medida, encontra na própria pessoa algumas das condições da sua existência. Não se pode dizer tratarem-se de “provas da necessidade” da fé. Se assim fosse seria contraditório. Trata-se sim de algumas experiências humanas que são sinais da abertura do homem, em liberdade e enquanto homem, à questão de Deus. Significa que no próprio sujeito da fé – o homem - encontramos condições de aparecimento dessa mesma atitude cristã de fé.
As experiências que sinalizam a possibilidade da fé são, desta forma, aspectos fundamentais do ser homem na história. Correspondem a alguns dados que sinalizam a possibilidade, razoabilidade e sentido humanos da fé e que deixam entrever uma certa correspondência entre a procura humana de sentido e de plenitude, por um lado, e, por outro, a surpresa de Deus que Se revela ao homem. Novamente a questão do sentido da vida nos aparece como o lugar/contexto onde a questão de Deus se pode tornar decisiva para a vida do homem[1].
Um dos primeiros sinais da existência humana como abertura à questão de Deus acontece na experiência que a pessoa tem do corpo. Sendo a experiência e a expressão da existência pessoal ( não “temos” apenas um corpo, mas, sobretudo, “somos” o nosso corpo), visto que aí nos experimentamos a existir e exprimimos a nossa personalidade, o corpo é também a nossa experiência de inserção no mundo em que vivemos. É e significa a possibilidade de encontro, diálogo e comunhão. Mas é também a experiência da radical fragilidade, da limitação, da mortalidade. Daí que a experiência do corpo abra, muitas vezes, ao questionamento e à reflexão sobre o sentido último e final da vida e, em última análise, ao questionamento de Deus. Além disso o homem é sempre um ser histórico. A sua vida supõe e pressupõe decisões. Mas também o leva a fazer a experiência da provisoriedade.
Um segundo sinal de abertura do homem a Deus podemos lê-lo na necessidade humana de estabelecer relações de confiança e amor. No viver de cada dia o homem tem de confiar e está “dependente” da confiança. Aliás, muitas vezes, a afirmação de si próprio está dependente da afirmação, em confiança e amor, de outros. Porque o homem vive numa constante tensão entre “fechar-se em si próprio” ou “abrir-se aos outros”, confiar é uma experiência de desenvolvimento da sua personalidade. Será a confiança humana o último horizonte da confiança ou haverá uma confiança fundamental para lá de toda a imprevisibilidade das confianças humanas? Sendo a fé cristã, fundamentalmente, uma questão de confiança, a atitude de fé nunca é de todo estranha ao desenvolvimento da pessoa e à sua relação de amizade e amor com outras pessoas. E nessas relações pode ler-se a insuficiência de uma vida fechada sobre si mesma.
Um terceiro sinal é o da manifesta capacidade e vontade humanas de permanentemente se transcender. Pensar, querer, amar são actos fundamentais do ser pessoa e apontam para além de si mesmos, sinal de que o homem se supera a si mesmo e se abre ao infinito. Este é um sinal que se pode ver em diversos âmbitos: no âmbito do conhecimento e da busca da verdade (sempre mais além); no âmbito do amor (sempre mais verdadeiro); no âmbito da liberdade (o “para quê” da vida); no âmbito da consciência moral (o “porquê” e o “como” da vida); no âmbito do sentido da vida (razões e sentido mais profundos onde se fundamentam as decisões). Não estará nesta abertura e nesta procura o sinal da possibilidade da fé cristã ? É que a fé pode situar o homem no caminho da verdadeira realização dos seus anseios mais profundos.
Um quarto sinal de abertura a Deus é o que podemos ler no facto do homem ser, permanentemente, alguém em busca de libertação. Face às muitas ameaças diárias de sem-sentido (destruição pela solidão, confiança traída, incerteza, liberdade falhada, morte, etc), o homem sente o desejo da libertação.
Finalmente, um outro sinal de abertura do homem à questão de Deus, encontramo-lo na procura de sentido para a vida. Referindo-se a valores, e não a coisas neutras, o sentido da vida (e a sua procura) é o que melhor define a pessoa humana. E o homem sabe que a vida só tem sentido quando se dá sentido à vida, quando se lhe dão, precisamente, valores. O sentido só é reconhecido por quem está disposto a optar por ele, por quem está disposto a escolher valores como ideal de realização. Por definição, um valor não é uma coisa. É uma espécie de utopia sobre a maneira segundo a qual podemos e “devemos” viver. O que seria um homem totalmente desprovido de valores ? De facto, cada homem vive de um projecto de sentido[2]. É algo que interpela o homem quanto a valores fundamentais que definirão a orientação livre da vida numa tentativa de unificar e harmonizar a vida toda e de não a fazer apenas uma soma de momentos ou de acasos.
Não esgotando, de forma nenhuma, o horizonte de busca e de realização do homem, estes sinais são expressão da sua receptividade à revelação de Deus. Mais, são sinal da sua capacidade relacional com aquilo que à priori não controla nem define.
Crer é, portanto, entrar num diálogo. No caso do Cristianismo é um acto inter-pessoal de diálogo e relação com Jesus Cristo. É um acto de confiança. É, como dirá depois Sto. Agostinho, crer Deus (crer que Deus existe), crer a Deus (crer na sua Palavra) e crer em Deus ((entregar-se a Deus e confiar-Lhe o sentido da nossa vida).


P. Emanuel Matos Silva



[1] Cf. José Eduardo BORGES DE PINHO, Fé e Teologia – apontamentos para uso dos alunos (Lisboa: UCP) 26.
[2] Cf. Bernard SESBOÜÉ, Pensar e viver a fé no Terceiro Milénio (Coimbra: Gráfica, 2001) 47.

segunda-feira, julho 30, 2007

QUE(C)RER ?

- questões em torno da fé -1 -


Eu creio, eu tenho fé. Parece algo fácil e simples de dizer. Foi-nos dado acreditar. Mesmo se confundimos o acto de crer (acreditar) com aquilo em que acreditamos ( o conteúdo acreditado). Nascemos numa família, num contexto, em que a fé se transmite naturalmente. E, nesse sentido, pode dizer-se que “fé” é a palavra cristã por excelência. O Cristianismo, talvez mais do que outra realidade religiosa, merece o nome de fé. É a própria Sagrada Escritura que utiliza o termo para se referir ao movimento/dinamismo de seguimento e identificação com Jesus Cristo.

Mas a afirmação da fé, o “eu creio”, pode não ser tão simples. Referindo-se ao homem como ser aberto e à escuta, capaz de ouvir e acolher, a Escritura e o pensamento cristão referem-se à atitude de resposta como sendo a fé. Significa que o homem passa de ouvinte a crente, passa da procura ao acolhimento.
É precisamente neste percurso que vai do “ouvir” ao “aderir” que surgem algumas interrogações. O que é que há, para além do homem, que valha a pena ouvir e que contenha tanta novidade? Que necessidade há de ouvir ou abrir ? Não é a experiência subjectiva das coisas e da vida a única capaz de dar sentido à vida de alguém ? No mundo do provável e do experimentado qual o lugar que se reserva à atitude de fé ?

Sem respostas simples somos reenviados ao homem e à sua questão. Ele é alguém à procura de sentido. É inquieto, interrogativo e inquietante. E quando, nesse processo de procura, ele manifesta disponibilidade interior para a novidade não controlável por si, nasce um tipo de relação diferente com o mundo, com as coisas e com os outros. A sua subjectividade não esgotou o horizonte da sua procura e da tentativa de resposta. E a questão da fé, ou mesmo a questão de Deus, nasce dentro da questão do sentido. É quando o homem se interroga sobre e pelo sentido que se pode encontrar com Deus e que pode acreditar. E o sentido encontra-se sempre na referência da vida a valores ou na referência da vida a ideais que têm capacidade de dinamizar a mesma existência. É que “procurar” abre o homem ao encontro com o sentido da vida e com Deus, enquanto “exigir provas” limita a disponibilidade e o horizonte da revelação daquilo que pode ser totalmente novo para o homem. Sobretudo se a “prova exigida” corresponder a um requisito pré definido. Na fé, como em muitos outros campos da vida, o preconceito mata o futuro da relação. É engraçado pressentir que quando exigimos provas a Deus nos encontramos, a maioria das vezes, apenas connosco próprios e com o nosso mundo e seus problemas.

Talvez haja cada vez menos coisas a carecer de uma explicação racional para existirem. Hoje quase tudo tem uma explicação. E, no entanto, continua a ter sentido acreditar, ter fé. Esse facto não limita em nada a fé cristã. Porque a fé é da ordem da relação. É uma forma original de relação a um objecto de conhecimento. E só relacionando-nos acreditaremos e conheceremos.

Conhecimento, confiança e comunhão são aqui aspectos da totalidade humana que, estando presentes em todos os processos da vida humana, estão também presentes no processo de adesão a Deus. Ser, saber e querer. Deus e homem são sujeitos livres de uma acção.

Por isso se falará da fé como dom de Deus, fruto de uma acção do Espírito de Deus, mas também, simultaneamente, como decisão livre e racional do homem. E, embora pessoal, nunca realizada no isolamento. Supõe os outros, a comunidade, a experiência da vida.

Crer, acreditar, não será, portanto, apenas um acaso. Não é possível crer sem querer. Para querer algo é preciso acreditar que vale a pena. É preciso crer no seu valor. Mas também é verdade que se não quero não posso crer. Seria, neste caso, uma crer vago, vazio, sem força definidora devida.

A questão é a do desejo. Somos seres de desejo, somos uma ânsia em busca de harmonia, de afecto e de sentido e só aderimos àquilo que percebemos como oferecendo-nos esse valor. Essa adesão de coração é um acto de fé. Ninguém me pode provar esse valor, mas, na medida em que o queira aprofundar e saborear, comprova-se ou não a sua realidade. A fé não se prova, comprova-se pelos frutos desse desejo[1].

Um caminho possível para compreendermos o que é a atitude de fé é o facto de que a vida do dia a dia está cheia de “formas elementares de fé”. É aquilo que podemos definir como a fé no outro, nas próprias possibilidades, na vida em sociedade, na palavra dada, na relação estabelecida, etc. É o facto de que ninguém aguenta viver muito tempo sem um alicerce de confiança, de amor, de esperança.

Enquanto caminho para compreender o que é a fé cristã, este caminho tem a sua validade na medida em que nos aponta estruturas universais do homem que são requeridas para a sua felicidade. E, nessa medida, aponta para a fé como uma atitude humana. É uma atitude do homem e não contradiz aquilo que o homem é por definição e constituição.

Mas a fé cristã tem uma especificidade e uma originalidade que não se resumem a estes factores. A fé cristão não é o mero resultado das interrogações humanas nem se esgota nas suas potencialidades. Ela é algo de novo na vida do homem. Enquanto valor e ideal, a fé cristã implica o homem no próprio processo do seu nascimento e crescimento, mas supõe sempre a revelação de Deus. É por isso que a podemos definir como uma atitude de resposta. A sua originalidade e especificidade têm que ver com o conhecimento, a confiança e a comunhão que, por Jesus Cristo, o homem estabelece como relação com Deus.

Amar, conhecer, confiar, comungar são da lógica do sair de si mesmo, são da lógica do aproximar-se. É a mesma lógica da fé: receber-se do facto de se dar, encontrar razões e caminhos pelo facto de se desarmar, de se abrir e dispor a acolher. O que é diferente da anomia, da indiferença ou mera passividade. Ao que é que vale a pena ligar-se e aderir ? A fé, bem como o ver o invisível, não é contraditória. É paradoxal, exige sabedoria, perspicácia, sentido crítico, procura e paciência fiel. O povo diz, muitas vezes, que “quem não se fia não é de fiar”. Com Deus e em Deus, quem não confia não é capaz de acreditar.

Que(c)rer não é um trocadilho de palavras. É o desafio a que, querendo, levantando os olhos ao redor, acreditemos.

P. Emanuel Matos Silva

[1] Vasco Pinto de Magalhães, SJ, Nem quero crer (Coimbra: Ed. Tenacitas, 2002) 17.

sábado, julho 28, 2007



ESPIRITUALIDADE E VIVÊNCIA DO DOMINGO



O domingo é o dia da celebração da ressurreição de Cristo. Os relatos evangélicos são unânimes na afirmação de que o acontecimento da ressurreição se deu ao amanhecer do primeiro dia da semana (Mt 28, 1; Mc 16, 2; Lc 24, 1; Jo 20, 1). É o dia em que Jesus ressuscita e aparece aos Apóstolos reunidos (Jo 20, 19). É o dia em que Jesus caminha e se revela aos discípulos que caminham para Emaús e que O reconhecem ao partir do pão (Lc 24, 13-35). É, fundamentalmente, o dia em que Jesus Se mostra vivo e vencedor da morte, de todas as mortes.
O Domingo tem, então, uma identidade própria: é a celebração da Páscoa, o dia do Senhor. Essa é a razão pela qual o Domingo tem tanta importância na vida da Igreja. Todo o mistério da Páscoa do Senhor Jesus está concentrado, não apenas naquele dia longínquo e histórico em que Cristo “passou deste mundo para o Pai” (Jo 13, 1), mas no dia que se transformou o sinal, a memória, desse acontecimento salvífico.
Em sua memória, Jesus mandou fazer os gestos fundamentais da sua entrega. O Domingo evoca, por isso, e permite viver a presença do Ressuscitado no meio dos seus: celebra-se o “senhorio” de Cristo, o seu triunfo sobre a morte, a sua presença viva e ressuscitada. É a proclamação deste facto que acontece em cada assembleia cristã que se reúne em dia de Domingo para partir o pão: na Eucaristia, como com os discípulos de Emaús, a comunidade reconhece Jesus e experimenta a sua vida e a sua presença. E, nesse sentido, o Domingo é o dia específico da reunião da comunidade cristã (os discípulos de Jesus Cristo), o dia da comunhão, o dia da celebração da Ceia do Senhor e da presença do Ressuscitado, o dia da experiência pascal como envio em missão. É o dia da diferença.

Partindo da ressurreição como fundamento, a reunião da assembleia cristã, a escuta da Palavra e a Eucaristia são, portanto, os elementos característicos do Domingo e os fundamentos da sua vivência espiritual. De facto, no Domingo, os cristãos reúnem-se para que, escutando a Palavra de Deus e participando na Eucaristia, recordem a paixão, a ressurreição e a glória do Senhor dando graças a Deus.
O Domingo é, portanto, o dia da assembleia cristã, símbolo da Igreja que se faz visível na comunhão de todos os cristãos presidida pelos seus pastores sobretudo na celebração da Eucaristia. A assembleia cristã reunida, expressão da Igreja, Corpo de Cristo, é tão essencial ao Domingo como é a referência do Domingo à ressurreição de Cristo.
Sendo dia da assembleia cristã, o Domingo é também o dia da Palavra de Deus. É na escuta e no acolhimento da Palavra que a Igreja se define como um Povo convocado pelo próprio Deus e chamado a caminhar na sua presença. É escutando a Palavra, à imagem de Maria, a Mãe de Jesus, que se faz possível a sua encarnação na vida. O que Jesus ressuscitado fez no caminho com os discípulos de Emaús, faz hoje com cada assembleia: Ele próprio explica a sua Palavra.
O Domingo é, finalmente, o dia da Eucaristia, o dia do memorial da Páscoa do Senhor. A Igreja reúne-se em assembleia porque não consegue de outra maneira celebrar Aquele que é a sua Cabeça, Jesus Cristo. Mas a finalidade desta assembleia litúrgica reunida é a celebração do Sacrifício eucarístico, o Sacramento da entrega de Jesus “para a vida de muitos” (Mt 26, 28; Mc 14, 24; Jo 6, 51). A Páscoa é, de facto, o conteúdo fundamental do Domingo, e o aspecto central do mistério eucarístico, memorial do sacrifício redentor de Jesus Cristo na Cruz e sua presença sacramental. A Eucaristia é, neste sentido, a Páscoa da Igreja. O Domingo torna-se assim o sinal do senhorio de Cristo sobre o tempo e a história precisamente porque tem o seu centro na Eucaristia.
Concluindo, a vivência e a espiritualidade do Domingo são determinadas pela experiência da sua origem e da sua identidade: é dia de parar, não para ficar parado, mas para escutar e acolher; é dia de reunião da assembleia porque, pelo baptismo, todos somos Corpo de Cristo; é dia de escutar a Palavra de Deus porque não nos convocamos a nós mesmos, mas é o Senhor que na Palavra nos chama e nos ensina; é o dia da Eucaristia porque nela, na fidelidade ao mandato de Jesus, se faz memória da Páscoa. Pela Eucaristia, os cristãos unem-se a Cristo e dizem com Ele “Isto é o meu Corpo entregue por vós” fazendo da Eucaristia a entrega da Igreja pela vida do mundo como é a de Cristo.
Um Domingo com estas características coloca-nos, certamente, algumas questões e desafios: que tipo de dia é o Domingo para nós, hoje ? É o dia da Ressurreição, o dia da assembleia eucarística, ou apenas o dia do ócio e do descanso, o dia da festa, o dia ecológico ? E quais são os problemas reais do nosso Domingo? Uma prática dominical em crise? Uma celebração dominical que deixou de ser festa? Uma ocasião de encontro com assembleias e desmotivadas ? Um dia de descanso na sociedade de consumo ?
Que lugar tem o Domingo, como dia do Senhor e a Ele dedicado, no ritmo da vida quotidiana de cada um de nós ? Sendo dia do nascimento do homem novo, como vivemos o Domingo ?

P. Emanuel Matos Silva

quinta-feira, julho 26, 2007



Preparando o Domingo
XVII Domingo do TC



“Senhor, ensina-nos a rezar”. Aprendizagem da oração, podia ser este o título dos textos da liturgia deste domingo.
Na 1ª leitura somos convidados a contemplar uma súplica de Abraão junto de Deus pelos habitantes de Sodoma. É uma oração animada pela compaixão à imagem da compaixão de Deus pelos homens. É essa a razão da confiança e da audácia para a intercessão de Abraão. E aqui encontramos um dos dramas de toda a oração: a prova da fé na fidelidade de Deus à sua Aliança de amor com os homens.
O Salmo, por sua vez, aparece como modelo de toda a oração de acção de graças: “De todo o coração, Senhor, eu vos dou graças”, “Pela vossa verdade e amor dou graças ao vosso Nome”. A relação com a primeira leitura estabelece-se pelo facto da acção de graças ser sempre uma expressão da oração de fé.
No Evangelho, o próprio Jesus nos assegura que as nossas orações serão sempre ouvidas: “Pedi e dar-se-vos-á; procurai e encontrareis; batei e abrir-se-vos-á”. Jesus não especifica o que é que se nos abrirá ou o que é que encontraremos. Diz-nos somente que “Quem pede recebe, quem procura encontra, e a quem bate abrir-se-á”. Um outro aspecto da oração da fé aparece aqui: uma confiança absoluta não só no facto de que Deus nos ouvirá, mas também no facto de que Deus nos dará o melhor para nós. E, por isso, uma outra certeza: Quem dá – Deus – é muito mais precioso do que aquilo que dá. É Ele, portanto, o primeiro e grande tesouro que nós recebemos na oração.
Estamos, neste aspecto, a tocar o essencial da oração cristã. Rezar é estar e permanecer na presença de Deus em comunhão com Ele. Rezar é permitir que Deus venha habitar em nós e é deixarmo-nos transformar por Ele. Esta comunhão na vida de Deus tornou-se possível a partir do nosso Baptismo pelo qual nós participamos do Ser de Deus como nos diz a segunda leitura. Cristo vem ao nosso coração para nos libertar do pecado. E permite-nos, no Espírito Santo, fazermos a sua experiência de Filho e consigo exclamarmos e invocarmos: “Pai Nosso”.
Compreendemos então muito melhor o sentido da oração do “Pai-Nosso” que Jesus ensina aos seus discípulos. Muito mais do que uma técnica de oração, Jesus revela a oração que acompanha a história da salvação como um chamamento recíproco entre Deus e o homem e que encontra em si mesmo (Jesus, o Filho) o seu cumprimento. N’Ele, Jesus, o chamamento de Deus encontra a resposta do homem. E n’Ele, Jesus, o grito do homem encontra o coração cheio de compaixão de Deus.

Como o fizeram os discípulos, contemplemos também nós Jesus em oração. Jesus é Aquele em Quem se cumpre este maravilhoso encontro entre Deus e o homem. Nós somos os discípulos de hoje. Deixemo-nos tocar pela oração do Mestre. Quando Jesus reza também nos ensina a rezar. Contemplemos a sua humildade e a sua confiança filial em Deus Pai.
A partir daí nós podemos interrogar-nos sobre qual é o ponto de partida da nossa oração. Quando rezamos fazemo-lo a partir da nossa vontade ou a partir de um coração humilde que tudo espera do seu Deus na confiança de que tudo o que Ele dará será o melhor?
A oração é uma exigência fundamental da vida do discípulo porque é ela que configura cada discípulo a Jesus Cristo.
Irmão Elias, Família de S. José

quarta-feira, julho 25, 2007






Vocações na Igreja
- a confiança contra o medo –




Jesus é que deu “glória” à Cruz
Quem tem uma boa razão pela qual valha a pena dar a sua vida, é sempre capaz de descobrir também uma boa e forte razão para viver. É aqui que a questão do “perder a vida para a ganhar” é, mais uma vez e absolutamente, verdade. E neste horizonte se conjugam e cruzam o dia a dia das pequenas coisas e as opções fundamentais como seu pano de fundo. De facto, não nos será muito fácil encontrar um sentido para a vida se não nos dermos ao trabalho de nos oferecermos à vida para viver. À priori, portanto, a confiança e a objectividade, o optimismo e o realismo são componentes de uma vida boa e feliz.
Jesus Cristo confronta-nos constantemente acerca do sentido da nossa vida. Dietrich Bonhoeffer, numa feliz expressão sua, define Jesus como o “homem para os outros”: a sua vida é marcada pelo dom de si, pelo serviço ao próximo, uma vida dedicada à construção da comunhão. Mas já o Evangelho de Marcos nos surpreende com uma afirmação radical quando afirma de Jesus que Ele fez bem todas as coisas: fez os surdos ouvir e os mudos falar (Mc 7, 37). E Pedro, resumindo, afirma que Jesus passou fazendo o bem, curando e libertando (Act 10, 38).
A primeira comunidade e, depois, toda a tradição cristã compreendeu bem esta bondade de Jesus. Toda a vida de Jesus está centrada no amor. E as primeiras gerações, precisamente porque viram Jesus viver e morrer, puderam acreditar na força do amor que é mais forte do que a morte. É esta vida que se manifesta como verdadeira revelação de Deus: renunciar à auto-suficiência, lavar os pés aos irmãos assumindo a condição de servidor para com o próximo, reconhecer a alteridade daquele que é o próximo ao ponto de o amar com inteligência, favorecer os sentimentos de acolhimento e de amor para com os estranhos ou mesmo os inimigos, e viver o amor e a caridade sempre sob o signo da gratuidade: eis o que é a vida cristã no sentido de uma vida que tem o seu fundamento em Cristo, uma vida segundo a vontade de Deus. Uma vida que não impede a realização do melhor de si, porque dar-se inteiramente pelo outro não entra em conflito ou contradição com o facto de ser autêntico[1].
Não foi, portanto, a cruz que deu glória a Jesus, mas foi Jesus que deu sentido até a um símbolo infamante e terrível como era a cruz[2]. Sem encontrar nesta prática da vida de Cristo (a “pró-existência” no dizer de Dietrich Bonhoeffer) uma boa razão (sentido) pela qual vale a pena dar a nossa vida, não encontraremos, de todo, uma boa e forte razão para viver. E Deus resumir-se-ia a uma ilusão ou criação da nossa imaginação.


Crise … à porta da Terra da Promessa
Creio que a percepção dos aspectos sociais, religiosos, psicológicos … que têm afectado as vocações ao nível dos sacerdotes e religiosos em geral, nos tem feito esquecer algo de fundamental: a fé em Deus, a confiança na sua Sabedoria e na sua Promessa.
Quando os Israelitas chegaram às portas da Terra de Canaã, Moisés enviou os chefes de tribo para explorarem a terra e perceberem se podiam ou não entrar. Ao regressarem, uns relatavam a opulência do país e denunciavam a impossibilidade de entrar nele, outros sentiam as condições adversas como um verdadeiro desafio. Apenas Caleb e Josué se mostraram optimistas por uma razão de fé: O Senhor está connosco, não os temais. O que distinguiu Caleb e Josué não foi tanto a percepção do país, das suas gentes e das suas condições, mas sim a sua confiança em Deus. A grande dificuldade de Israel, naquele momento, era feita da conjugação do medo que nascia da observação da realidade com a falta de confiança em Deus. Os que confiaram entraram, os outros não.
Naquele momento, às portas de Canaã, Israel teve de mudar de paradigma na sua vida: os seus conhecimentos de Canaã não eram inválidos, mas a confiança em Deus tinha que ser maior.
Esta página da Sagrada Escritura pode surgir-nos como um verdadeiro desafio ao realismo e à confiança em Deus. Perspectivar o futuro da situação vocacional na Igreja não pode corresponder apenas a uma previsão linear que se limita a prolongar no tempo o actual estado das coisas. Há que mudar de paradigma, como o Povo de Israel. Nesse sentido, e no meio da mudança dos paradigmas, são as rupturas que são a base da previsão e da acção. Não quaisquer rupturas apenas para serem rupturas, mas as rupturas com o que, à partida, não faz parte possível de nenhuma identidade que tenha como base a fé e a confiança em Deus. No fundo, hoje somos nós que estamos à porta da Terra prometida.


Para melhor muda-se sempre
Dos paradigmas que se têm alterado, os fundamentais dizem respeito ao pensamento e conhecimento, à ecologia e tecnologia, ao multiculturalismo, à família e comunidade humana, ao poder e formas políticas, à experiência religiosa.
Um pouco à maneira do Povo de Israel às portas de Canaã, mas voltado para as cebolas do Egipto, também hoje corremos o risco de “termos feito um óptimo reconhecimento” da terra, mas ficarmos (por medo e falta de confiança) voltados para os tempos em que, nas instituições e nas pessoas, a Igreja tinha uma óptima e imensa imagem pública com imensas vocações (a terra que conhecemos bem). Desde sempre a Igreja, e nela o conjunto das vocações consagradas, viveu num tempo e numa cultura concretos e objectivos. Muitas vezes a alterou, muitas vezes foi determinada e alterada por essa cultura, mas nunca se reduziu a ela. Independentemente das circunstâncias, Cristo é o mesmo ontem, hoje e sempre. E, precisamente nas circunstâncias e com elas, Cristo continua a fazer-se significativo e fundamento para cada tempo. Significa que o fundamento permanece enquanto as circunstâncias podem mudar. Do conceito de fidelidade faz parte a criatividade.
Hoje, novamente, e agora para nós, é o tempo de decidir entrar em Canaã: é o tempo de olhar para o baptismo como uma vida de fé que se inicia; é o tempo de decidir fazer uma catequese que não se resume apenas ou equipara aos anos escolares, mas serve para toda a vida e tem a ver com a vida; é o tempo de não fazer dos sacramentos (primeira comunhão, crisma, etc) exames de admissão à fase seguinte; é o tempo de animar e dinamizar os sacramentos para que, por exemplo, o crisma não seja a pré-reforma da participação na vida da Igreja; é o tempo de se tornar discípulo de Jesus Cristo e identificado com a sua vida; é o tempo de insistir, a propósito e despropósito, na necessidade da formação da fé e da vida cristã; é o tempo de uma fundamentação bíblica e histórico-salvífica da nossa espiritualidade; é o tempo de rezar; é o tempo de olhar para as vocações de consagração como surgindo do chamamento de Deus e da comunidade que vive a sua fé; é o tempo de reconhecer a identidade dos ministérios ordenados como estruturantes da comunidade cristã, mas de perceber que recebem a sua razão de ser do serviço ao povo cristão e do anúncio de Cristo; é o tempo de viver a entrega sacerdotal como radical e permanente; é o tempo de assumir o ministério ordenado como tendo uma responsabilidade imensa na vida dos crentes; é o tempo de cuidar das liturgias, fazendo delas celebração do mistério pascal e de fé e desengordurando-as de tudo o que é supérfluo; é o tempo de assumir a diferença, por identidade cristã, em relação ao que contradiga o Evangelho; é o tempo de refontalizar e “explicar” muita da nossa religiosidade popular; é o tempo de falar da fé e a testemunhar como algo que dá sentido e alegria à vida e não como algo que, localmente, serve para aborrecer; é o tempo de aprender a viver em comunhão; é o tempo da unificação dos esforços; é o tempo de fazer em comunidade uma experiência séria de oração; é o tempo de nos olharmos, não pelo exterior, mas a partir da riqueza interior; é o tempo de deixar de opor a fé e a razão porque ambas são asas do conhecimento; é o tempo de a Igreja se situar diante do mundo como alguém que tem algo de muito bom a dar-lhe; é o tempo de olhar com alegria para aqueles que no sacerdócio, na vida religiosa monástica, activa ou missionária se entregam a Deus e aos outros; etc, etc, etc.
Há tantas coisas possíveis como mudança de paradigma para podermos entrar em Canaã. E mudar de paradigma não é apenas alterar tendências. É uma nova visão e perspectivação das coisas que tem de nascer. Por fidelidade a Cristo e à Igreja. O Concílio Vaticano II possibilitou na Igreja uma imensa e vastíssima reflexão sobre a sua identidade, a sua missão e o seu lugar no mundo. Somos livres de lhe resistir, somos livres para mudar. Mas não é possível perspectivar hoje a Igreja sem ser a partir do mistério de comunhão. Na origem do ser Igreja está uma experiência de fé. Tem de ser formada e, constantemente, alimentada. Sem isso ninguém nos entenderá, ninguém entenderá o que queremos quando rezamos pelas vocações.


p. Emanuel Matos Silva


[1] Enzo BIANCHI, Cristiani nella società (Milano: Rizzoli, 2003) 180.
[2] Cf. Ibid.

terça-feira, julho 24, 2007


“Primeiro procurou-O, sem o encontrar; perseverou na procura e foi assim que O encontrou; demoradamente ia aumentando o seu desejo, e o desejo aumentado valeu-lhe encontrar o que procurava. Os santos desejos, com efeito, aumentam com a demora. Se a demora os arrefece é sinal de que não são ou não eram verdadeiros desejos”.


S. GREGÓRIO MAGNO, Homilias sobre os Evangelhos, 25 in PL LXX-VI, 1189.

Ó Deus,
Escolheste fazeres-Te esperar.
A mim não me agrada esperar.
Não gosto de esperar na fila.
Não gosto de esperar a minha vez.
Não gosto de esperar pelo comboio.
Não gosto de esperar para julgar.
Não gosto de esperar o momento oportuno.
Não gosto de esperar porque não tenho tempo
E vivo só no instante.
Por outro lado, bem o sabes,
Tudo está disposto para que não tenha de esperar:
Os bilhetes para os meios de transporte,
Os auto-serviços,
As vendas a crédito,
Os distribuidores automáticos,
As fotografias de revelação instantânea,
Os faxes e os terminais de computador,
As televisões e as rádios em informação.
Não preciso de esperar as notícias:
Elas surpreendem-me porque se me antecipam.
Mas Tu ó Deus
Decidiste fazer-te esperar
Todo o tempo que dura um advento.
Porque fizeste da espera
O espaço de conversão,
O frente a frente com o que está oculto.
Na espera já Te estás a dar,
E, para Ti ó Deus,
Esperar
Conjuga-se com rezar.


J. DEBRUYNNE, Écoute, Seigneur, ma prière (Paris : s/ed, 1988) 399.

Onde estão hoje, Senhor,
as vozes que proclamam a vossa vinda ?
Fechadas nas multidões anónimas
dos pobres
que esperam um futuro melhor ?
Quem, nos desertos deste mundo,
faz entender o grito dos homens,
a sua esperança ?
Fazei-nos entendê-los,
fazei-nos reconhecê-los,
fazei-nos abrir o nosso coração
às suas esperanças e procuras.
Ajudai-nos a darmo-nos conta
da esperança que nasceu em nós
por causa da vinda do Vosso Filho
muito amado,
Jesus Cristo, nosso Senhor.

Nos perigos,
Nas angústias,
Na dúvida,
Pensa em Maria, invoca o seu nome.
Que ela não se afaste da tua boca,
Que não se afaste do teu coração, e,
Para obteres o socorro da tua oração
Não desprezes o exemplo da sua vida.
Se a seguires, não te desvias.
Se lhe rezares, não desesperas.
Se a consultares, não te enganas.
Se nela te apoiares, não cais.
Se ela te proteger, nada temes.
Se ela te conduzir, não te cansas,
Se te for favorável, chegarás ao fim.
E assim, em ti mesmo experimentarás
Exactamente o que foi dito:
E o nome da Virgem era Maria!

S.Bernardo


Com todas as minhas forças,
aquelas que me destes,
eu vos procurei, Senhor,
desejando ver aquilo em que acreditei.
Vós que me destes a possibilidade
de Vos encontrar,
dai-me também a coragem
de Vos procurar
e de esperar encontrar-Vos
sempre à minha frente.
Diante de Vós coloco a minha solidez,
guardai-a!
Diante de Vós coloco a minha fragilidade,
curai-a!
Diante de Vós
coloco tudo o que posso e tudo o que ignoro.
Por onde abristes, eu entro: acolhei-me.
De lá onde me fechastes, eu clamo: abri-me.
Fazei com que não Vos esqueça.
Fazei com que Vos compreenda.
Meu Deus e meu Senhor fazei com que vos ame !

Santo Agostinho

segunda-feira, julho 23, 2007








Passos da Oração



A oração pode ajudar-nos a reconhecer, pouco a pouco, a acção de Deus na vida quotidiana, a nossa maneira de estar com Ele ... ou sem Ele ... Nesse sentido, a oração é um tempo de espera e de vigilância: durante algum tempo diário (mais breve ou mais longo) é possível voltarmo-nos para Deus para, com Ele, revermos o dia e as acções, recordarmos o seu amor para connosco e nos desafiarmos a viver as coisas concretamente.

1. Relaxação
Fazendo silêncio interior ... respirando e acalmando-se ... escolhendo o sítio, o ambiente de recolhimento e de paz. O corpo também reza ...

2. Presença de Deus
Cair na conta de que Deus está comigo, está em mim, na minha história e em tudo o que me envolve ... quer estar comigo, e eu vou (quero) estar com Ele. Fazer um acto de fé.

3. Oração preparatória ou rectificação da intenção
Pedir a Deus, que é Pai e Senhor, que “todas as minhas intenções, acções e projectos” bem como esta oração, se orientem para Ele.

4. Composição do lugar
Conforme a matéria da oração ou texto da Escritura, imaginar a casa, cena, palavras, intervenientes ... tornando-me presente.

5. Petição
“Pedir o que quero”, conforme a matéria proposta, pedir a graça de alcançar de Deus o objectivo que nessa oração se pretende. Por exemplo, alegria, arrependimento, luz para discernir e escolher, conhecimento interior de Jesus ...

6. Leitura / meditação dos textos bíblicos ou tema das notas pessoais
À medida que vou lendo, lentamente, saborear, falar com Deus, com Jesus ... entrar num diálogo íntimo de amizade e ir aplicando a mim o que vou entendendo.
Sem pressa. Tomar nota de sentimentos, consolações e desolações, das passagens importantes, dos desejos e dos propósitos.
Às vezes é como quem escreve uma carta a um amigo: ir encontrando o que mais me ajuda a estar com Ele.

7. Colóquio ou conversa final
“Como um amigo fala com outro amigo” terminar a oração com uma “conversa” concreta para pontualizar, resumir, fixar, ... agradecer.

8. Pai – Nosso
Terminar com esta ou com outra oração concreta

(9. Avaliação)
Depois de terminada a oração ajuda sempre pensar “Como é que correu ?” e tirar daí algumas conclusões vendo o que mais me ajudou e o que mais me preocupou, aquilo mesmo que me pode ter faltado. Aprende-se a rezar, rezando, reflectindo sobre a própria oração e melhorando.
É preciso aprender a “tirar proveito” da experiência, qualquer que ela seja (melhor ou pior). O que foi que mais me tocou ?







O grande desafio da espiritualidade é, então, ajudar a ver o “dentro” das coisas। À maneira daquele poema que alguém escreveu e que diz que:


- posso comprar a convivência, mas não a amizade;
- posso comprar a festa, mas não a alegria;
- posso comprar a consciência, mas não a paz;
- posso comprar o livro, mas não a sabedoria;
- posso comprar o alimento, mas não o apetite;
- posso comprar uma boa cama, mas não o descanso;
- posso comprar um lugar no cemitério, mas não o céu.



Rezar a Palavra


Elementos para uma Lectio
divina




1) A lectio divina, uma experiência de Israel e da Igreja
2) Um lugar para a lectio divina
3) Um tempo de silêncio para que Deus fale
4) Um coração aberto e disponível
5) Invoca o Espírito Santo
6) Lê a Palavra
7) Medita, aprofunda a mensagem que leste e que Deus te quer comunicar
8) Reza, fala com Deus, responde aos seus desafios e convites, às suas inspirações e pedidos, às mensagens que te enviou pela Palavra compreendida à luz do Espírito Santo. Entra em diálogo e fala como “um amigo fala com o seu amigo” (Deut 34, 10)
9) Agradece a Deus a Palavra que te deu. Conserva o que viste, entendeste e saboreaste na lectio. Conserva-o no teu coração e na tua memória, e vai para o meio dos homens dar-lhes humildemente esta paz que o mundo não pode dar. Terás assim força para agir com eles e realizar na história a Palavra de Deus, pela tua acção social, política, profissional …
Deus tem necessidade de ti como instrumento no mundo para fazer novos céus e nova terra. Um outro dia Ele espera-te, um dia em que vendo Deus face a face através da morte, Ele te mostrará o que foste, uma carta viva escrita por Cristo, uma lectio divina para os teus irmãos, o Filho de Deus.

Enzo BIANCHI


A pessoa que somos, e que parece evidente, aprende-se devagar।[...] Quantas pessoas te amaram ? Quantas pessoas amaste ? O afecto é a melhor maneira de saberes o tamanho da tua vida। Ou seja, do até onde exististe. Haverá outro balanço para saberes se ela valeu a pena ?


Vergílio Ferreira, Pensar, 481. 471


« A oração, para mim, é essencialmente esta disponibilidade ao chamamento de Deus: fala Senhor que o teu servo escuta. O segredo da vida espiritual é o de ter o ouvido afinado para entender a sua Palavra em nós ».


Abbé Michel Pascal