domingo, março 23, 2008


Páscoa em silêncio


Do Mistério Pascal nunca se diz o suficiente. Mistério Pascal não é apenas uma ideia, uma doutrina ou uma espécie de lei ou instituição. O Mistério Pascal tem o seu núcleo na Pessoa de Jesus Cristo, morto e ressuscitado. É como nos diz o Papa Bento XVI, no início da fé não está uma teoria ou uma decisão ética, mas um encontro com uma Pessoa, Jesus Cristo.

Deus diz-Se no silêncio e não desperdiça palavras. Deus repara em cada palavra que diz porque cada palavra sua tem o rosto de seu Filho. Filho que os homens não escutaram e conduziram à morte. De igual forma, as palavras ditas por Deus não são palavras ligeiras, mas são o próprio Filho, a Palavra. Cada palavra, portanto, e mais ainda a Palavra, é portadora do amor relacional de Deus, o Amor no qual o homem se faz filho no Filho.

A vida de Deus está rodeada de silêncio - Deus gera o Filho no silêncio, e o Espírito Santo, como relação de amor entre ambos, é expressão também de silêncio. Podemos, portanto, dizer que o silêncio rodeia o Mistério de Deus. “No princípio era o Verbo e o Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus” (Jo 1, 1). Esse Verbo foi-se revelando ao homens. Por isso podemos dizer que era um “mistério envolto em silêncio” (Rom 16, 25) até se revelar aos homens.

O silêncio é, de facto, uma afirmação global na História da Salvação. Deus diz-Se no silêncio e, de um Deus assim, não se pode nunca dizer tudo senão em silêncio. O silêncio surge aí como respeitador da condição de Deus e da condição do homem. E se existe o silêncio de Deus, ou em Deus, existe também o silêncio do homem, para quem há “um tempo para calar e um tempo para falar” (Ecl 3,7).

Muitas passagens do Antigo Testamento relacionam o silêncio com o recto uso da palavra (Prov 10, 6-32; 12. 18; Eclo 19, 7-12; 20, 1-7) ou então convidam a evitar a inconstância das palavras (Eclo 5, 9-15) e os pecados da língua ( Eclo 23, 7-15; 28, 13-26). Além disso foi no murmúrio suave da brisa que Deus se revelou ao profeta (1 Reis 19, 12).

O silêncio, no Antigo Testamento, é ainda a expressão reverencial do respeito do homem por Deus[1]. Diante de Deus, por parte do homem, o silêncio pode traduzir a vergonha do pecado (Jó 40, 4; 42, 6) ou pode traduzir a confiança na salvação (Ex 14, 14). Em outras ocasiões, contudo, não falar seria falta de fortaleza e de fé em Deus.

No Novo Testamento há, da mesma forma, imensas alusões ao silêncio. E também, de igual forma, silêncio de Deus e em Deus e silêncio do homem. A Carta de S. Tiago, por exemplo, convida o homem cristão ao domínio ascético da língua. É um convite ao silêncio do coração, face aos julgamentos e aos ciúmes, às afeições desordenadas (Tg 4, 8.10). O silêncio é aí um importante meio para aprender a viver com os irmãos.

Mas as expressões mais importantes de silêncio do Novo Testamento são aquelas que dizem respeito ao próprio Jesus Cristo que muitas vezes condena as más palavras que saem da boca e procedem do coração. Cristo alerta para a necessidade da vigilância nas palavras sem fundamento (Mt 15, 19; 12, 36).

Além disso reparemos nos silêncios que envolvem o próprio Mistério de Cristo na Sagrada Escritura. É o silêncio da Encarnação que, enquanto Palavra do Pai dita num tempo, se ouve e se percebe no silêncio. É o silêncio da consciência messiânica de Cristo, é o silêncio final.
Logo de início, aos silêncios do nascimento de Cristo sucedem os silêncios da sua adolescência. Jesus crescia em estatura e em graça. A sua presença na Sagrada Escritura é uma presença silenciosa.

Depois, durante o seu ministério, Jesus acolhe a Palavra do Pai e deixa-se constantemente instruir por ela. E nessa medida recorre muitas vezes à experiência do recolhimento em silêncio. Ao mesmo tempo o ministério público de Jesus é também pautado por certas recusas de respostas. São silêncios extremamente comunicativos, por vezes cheios de ironia, mas também de firmeza (“Também não vos responderei” Mt 21, 27).

Em seguida encontramo-nos com os silêncios da Paixão e da Cruz de Jesus. São silêncios com uma densidade particular na medida em que acontecem num momento privilegiado da Revelação[2]. Não se trata apenas de uma densidade suspensiva, mas da densidade do que está a acontecer. As horas da Paixão, Morte e Ressurreição são embebidas num impressionante silêncio onde o que sobressai é o profundo, supremo e incondicional amor de Jesus onde a acção de Jesus não se resume apenas a um compromisso caritativo ou filantrópico, mas é sim de ordem essencialmente teológica e sacrificial.

Sendo o Filho, Jesus é também homem-para-os-outros e este é um ser que se exprime num autêntico silêncio. Este é um silêncio que não diz resignação nem desespero. É antes um silêncio todo oração, todo revelação, todo contemplação, um silêncio que é amor presente e a acontecer. Um silêncio todo ele redenção.

De facto, na Cruz, evidencia-se a plena unidade de vontade do Pai e do Filho, o que revela a Cruz como um Mistério de Amor e que, por isso, realiza a Salvação. O Pai entrega o Filho na Cruz, o Filho é entregue e entrega-Se a si mesmo, e o Espírito permanece como ligação da temporalidade da morte de Cristo à eternidade vivificante do Pai. Aquilo que identifica a acção do Pai é o acto de entregar o Filho: entrega-O na Encarnação e entrega-O na Cruz no acontecimento da Redenção; entrega-O gerando-O continuamente no mundo. E nesta contínua geração o Filho é Deus com o Pai desde toda a eternidade e também agora no despojamento quenótico.

A entrega do Filho na Cruz é também uma auto-entrega. Essa é a expressão radical da sua obediência de Amor ao Pai, uma entrega que, como acto livre de Jesus, manifesta a plenitude da sua filiação divina.
Há, pois, um silêncio que envolve o Mistério de Deus, silêncio esse que, na contínua relação trinitária se afirma como amor. E o amor é silencioso.
Após o silêncio da Cruz, deparamo-nos com o silêncio do túmulo. É um túmulo silencioso. O silêncio da morte é um silêncio imenso. Rompe-se o diálogo e a sua capacidade de ligar e religar, entra em si mesmo, aquele que se ama não responderá jamais.

Mas a grande novidade da fé cristã está na afirmação da Ressurreição. À luz da Ressurreição toda a vida de Cristo é interpretada com um outro horizonte de fé. Como se pudéssemos dizer que a Ressurreição confirma as palavras, os gestos, as acções de Jesus. Da mesma forma, à luz da Ressurreição, o silêncio do sepulcro revela-se um silêncio fecundo e pleno de ensinamento[3]. É um silêncio que ensina a esperança. No silêncio do sepulcro trabalha o Amor do Pai e do Filho, o Amor de Deus que não permitiu a vitória da morte. Jesus Cristo recebe-Se do Pai nesta continuidade do Amor que Lhe dá vida. Por isso, fazendo a experiência da morte, Ele destrói a própria morte e abre a todos os homens, na sua liberdade, a vida eterna. Este é, sem dúvida, um Mistério de silêncio a ser contemplado também no silêncio.

Neste sentido podemos afirmar a própria Ressurreição como um Mistério de silêncio bem como as aparições de Jesus aos discípulos. Há uma dimensão interior comum a todos estes acontecimentos - a dimensão da fé - que, não os relativizando, intensifica a sua significação. É no silêncio que se repara bem na passagem da palavra.

É precisamente no coração do silêncio que, por exemplo, os discípulos passam do desconhecimento ao conhecimento de Jesus. Assim, no episódio de Emaús (Lc 24, 31), os discípulos “reconheceram-n’O ao partir do pão”. Esta é uma confirmação da fé que surge para lá das palavras e dos actos. Surge no arder do coração. O Espírito de Jesus Ressuscitado é silencioso, discrição silenciosa essa que lhe vem da relação com o Pai, do conhecimento íntimo que tem d’Ele e do seu Amor[4]. O Espírito interioriza, no mais profundo dos corações dos homens, a experiência de Jesus de Nazaré como uma experiência filial. No Filho, o homem se torna filho de Deus. É o silêncio do encontro, contemplativo e activo.

O Verbo de Deus ouve-se, portanto, num contexto de silêncio onde sobressai como a Palavra por excelência entre as palavras, a Sabedoria evidente entre as sagezas diversas. E o próprio silêncio é aí o veículo-linguagem sem o qual não haveria percepção nem entendimento. Não acontecia a relação porque não havia revelação.


p. Emanuel Matos Silva


[1] Cf. Giovanna della CROCE, Silencio, in Ermanno ANCILLI, Diccionario de Espiritualidad (Barcelona: Herder, 1987) 390.

[2] Cf. Philippe FERLAY, Dieu dans le silence (Paris: Desclée, 1986) 47.
[3] Cf. ibid.
[4] Cf. ibid.

quarta-feira, fevereiro 27, 2008

Novos "Logotipos"
do
Secretariado Diocesano das Vocações
e
do
Pré-Seminário
1) Secretariado Diocesano das Vocações



2) Pré- Seminário Diocesano











































quarta-feira, fevereiro 20, 2008




Via Crucis

e

Pré-Seminário


23 e 24. Fev. 2008


O Pré-Seminário associa-se no próximo dia 23 de Fevereiro à Via Crucis diocesana que, já pelo terceiro ano consecutivo, os Jovens (com a dinamização do SDPJ) fazem em tempo de Quaresma e como forma de preparação da Páscoa.


Pelas 09h00 do dia 23 (Sábado) juntar-nos-emos então aos jovens que se vão reunir em Vila de Rei (Igreja Matriz) para vencer mais esta etapa da Via Crucis entre V. Rei e Sardoal.


Após a caminhada, o encontro de fim-de-semana do Pré-Seminário continuará em Alcains para onde seguiremos com os Seminaristas.



Inscreve-te
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domingo, janeiro 20, 2008



Bem-aventurados …


Diz o Evangelho de Mateus (5, 1 – 20) que, vendo a multidão, Jesus subiu a um monte. Depois de se ter sentado, os discípulos aproximaram-se d’Ele. Então tomou a palavra e começou a ensiná-los, dizendo: «Felizes os pobres em espírito, porque deles é o Reino do Céus. Felizes os que choram, porque serão consolados. Felizes os mansos, porque possuirão a terra. Felizes os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados. Felizes os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia. Felizes os puros de coração, porque verão a Deus. Felizes os construtores da paz, porque serão chamados filhos de Deus. Felizes os que sofrem perseguição por causa da justiça, porque deles é o Reino do Céus. Felizes sereis, quando vos insultarem e perseguirem e, mentindo, disserem todo o género de calúnias contra vós, por minha causa. Alegrai-vos e exultai, porque será grande a vossa recompensa no Céus; pois também assim perseguiram os profetas que vos precederam».
Dizer “Bem-aventurados” será o mesmo que dizer “felizes”. Mas, precisamente por isso, surge-nos imediatamente um imenso conjunto de interrogações. Jesus afirma que são felizes os pobres, os que choram, os mansos e humildes, os que têm fome e sede de justiça, os misericordiosos, os puros de coração, os construtores da paz, os que sofrem perseguição por amor da justiça. Que sejam felizes os construtores da paz, os misericordiosos ou os puros de coração não nos causa, possivelmente, grande interrogação e até se compreenderá com relativa facilidade: fazer a paz dá alegria, usar de misericórdia aproxima as pessoas, não ter maldade no coração torna a vida mais leve e saborosa.
Mas dizer que são felizes os pobres, os que choram, os que são carenciados de tantas e tantas coisas, parece não fazer sentido. Além disso parece, a certa altura, que são felizes precisamente por chorarem, por terem fome, por serem indigentes. Parece que aquilo que é bom e que Deus quer para nós é, no entanto e sempre, alcançado com necessário sofrimento e, dessa forma, como uma espécie de prémio por méritos provados. De facto, as “Bem-aventuranças” deixam-nos perplexos.
Mas é precisamente aqui, no meio de todas as interrogações e da perplexidade, que se revela a maravilha e a novidade da Boa-Nova de Jesus Cristo. É que a contradição é só e aparente.
Entre as exigências básicas da pessoa humana para fazer uma experiência feliz de vida encontram-se a exigência de sentido (conhecer o “para quê” da vida), a exigência de segurança (saber o “porquê” da vida) e a exigência do amor (amar e sentir-se amado). São três exigências básicas, poderíamos dizer “três fomes” legítimas e próprias a qualquer pessoa. Toda a gente necessita saber para onde vai, porque é que vai e, durante a caminhada, toda a gente precisa de experimentar o dinamismo do amor.
Por outro lado, precisamente, ser feliz não é algo estático, alguém que estivesse paralisado no tempo ou no espaço. Ser feliz (“bem-aventurado”) é precisamente a experiência de ter valores para onde crescer, de ter para onde ir, de fazer a experiência da harmonia e dos valores que preenchem e dão consistência. Às vezes, nos caminhos e nas caminhadas da vida, os valores e as metas (os objectivos) são importantes não por si mesmos, mas sim porque nos fazem caminhar para os alcançar. E é no caminho e a caminhar que se aprende a viver. Como alguém dizia não somos apenas nós que fazemos o caminho, mas é o caminho que também nos faz a nós.
Neste sentido e neste horizonte, se existem coisas que são próprias do homem são precisamente o ser pobre, o chorar, o ter fome e sede, o estar em permanente construção. Como dizia S. Leão Magno é próprio do homem chorar, ter fome, ter sede … mas é próprio de Deus vencer a morte, ressuscitar. Chorar, ter fome … são as expressões mais próprias da condição humana.
Quem são então os bem-aventurados, os felizes? Podíamos responder que são os “autênticos”, bem-aventurados os autênticos, felizes os verdadeiros, bem-aventurados os transparentes. Ser pobre, chorar, ser humilde, ser misericordioso, ser puro de coração, promover a paz ser perseguido por ser justo não se resumem a umas quantas situações. São valores e, por isso, são atitudes. São desafios da construção permanente da pessoa e não apenas “saber o que fazer” perante uma situação pontual.
Então, felizes e bem-aventurados são os que não se abstraem da sua condição própria de homens e mulheres. São os que, assumindo precisamente a sua condição, lhe estabelecem um horizonte de crescimento e de realização, lhe dão um sentido. E Jesus ensina e testemunha para onde é o sentido. Jesus não diz apenas que sabe o caminho, diz claramente que Ele é o Caminho. As bem-aventuranças são um claro convite e chamamento à superação de si mesmo, à denúncia (em si mesmo e nos outros) da mesquinhez e da infidelidade.
Bem-aventuranças, no fundo, são a “Constituição do Novo Povo de Deus”, a Igreja, um fermento de transformação da vida pessoal e da história social dos homens: Ser pobre é renunciar à cobiça e à inveja. É ter espaço dentro de si, disponibilidade, ser capaz de aprender, de escutar, de acompanhar, ser capaz de receber. É perceber a vida como um dom que se agradece e celebra.
Ser humilde é ser verdadeiro (nem mais nem menos do que aquilo que se é). A humildade é a verdade, dizia Sta. Teresa de Jesus. Dentro de nós, diz um ditado índio, vivem dois cães, um bom e outro mau. Os dois brigam. Ganha sempre aquele que nós alimentarmos.
Ter fome e sede é pautar a vida pelo desejo intenso de crescer e ser pleno (desenvolver os talentos). É crescer na verdade porque há disponibilidade para aprender e para saber. É perceber que, como diz o ditado africano, se quisermos chegar depressa temos, talvez, de caminhar sozinhos, mas para chegar longe temos necessariamente, de caminhar acompanhados.
Ser puro de coração é ser sincero, transparente. É não nos “agarrarmos nem ao mal nem ao bem que fizemos”. Às vezes ficamos presos ao bem que fizemos a outros, contemplando-nos a nós mesmos. Ser puro é ser livre de auto-contemplações.
Ser perseguido significa que se têm convicções fortes que se afirmam na vida e das quais não se desiste por coisas menores. É o “martírio”, não do sangue talvez, mas seguramente da paciência e da alegria como testemunhos diários.
Promover a paz é ler a vida e a história com os olhos de Deus, perceber e viver o desafio do amor e do mandamento novo do amor.
Ser e viver como bem-aventurado é nunca se resumir ao lado escuro e fechado da vida. É trazer ao dia a dia a tensão libertadora do Evangelho que puxa pela vida e a faz desabrochar mesmo que exigindo esforço. E exige sempre. Crescer faz doer.
Então as Bem-aventuranças, como todo o Evangelho, não são um impedimento ou uma dificuldade. São segredo e o caminho da felicidade. Deus quer-nos para Si e a viver como seus filhos.

p. Emanuel Matos Silva

quinta-feira, outubro 18, 2007

ConVocação
Encontro de Pré-Seminário
20 e 21.Outubro. 07
Seminário de Alcains

segunda-feira, outubro 15, 2007











ConVocação
20 e 21 de Outubro 2007
Pré-Seminário Diocesano
(de sábado às 12h00 até Domingo às 14h00)
Encontro "ConVocação"
_________________________

Em que falamos

quando falamos de vocação



Existem, nas nossas linguagens, conceitos que não são unívocos quanto ao significado e quanto ao sentido que expressam. É o que acontece com o conceito e a realidade da “Vocação”. É um conceito e uma ideia muitíssimos reflectidos e estudados.


Para irmos ao encontro do significado de “vocação” podemos partir do facto de que “vocação” está relacionado com “voz” e com o radical latino “vocare”, ou seja “chamar”. É por isso que, no dizer de V. P. Magalhães, a própria palavra sugere algo ou alguém que nos convoca e nos provoca[1]. E se convoca e provoca, podemos dizer que da vocação farão parte também a resposta e a opção.


Mas, na reflexão do mesmo autor, surgem imediatamente algumas questões sobre a vocação como processo: Parece fácil. Mas […] surgem logo imensas questões: 1) Existe a tal vozinha interior que diz a cada um quem é e o que deve fazer? 2) Habitualmente fala-se de ter (e não ter) vocação: afinal é uma coisa que se tem? É da ordem do ter ou do ser? 3) E isso significa predestinação ou opção? […] 4) Qual é a relação entre vocação e profissão? 5) E entre vocação e vontade de Deus? 6) E como é que eu a conheço? 7) Quantas vocações existem?[2].


Diante de todas estas interrogações, é importante assumir algumas clarificações. A vocação não é uma espécie de sentimento (sentir ou não sentir), não se confunde com uma profissão (não é uma questão de ter jeito), não diz respeito apenas a algumas pessoas (é de todos), não é uma espécie de predestinação (é sim questão de liberdade), não é apenas uma opção individual e pessoal nem apenas comunitária. Trata-se sim de um chamamento interior e profundo.


A vocação é um processo de maturação, mais ou menos longo que se faz através da avaliação dos sinais (interiores e exteriores) que vão mostrando a cada pessoa com o que é que essa pessoa se identifica, o que é que a interpela e desafia, o que é que a provoca, a que é que adere mais profundamente (ou deseja aderir)[3].


Neste processo de maturação está em jogo tudo o que cada pessoa é (o seu “eu actual”) e tudo o que deseja ser (o seu “eu ideal” que é realizável e é diferente de um “eu abstracto). Assim, a vocação é, simultaneamente, opção e chamamento, dom e, ao mesmo tempo, dinamismo pessoal (é deixar-se interpelar e é, ao mesmo tempo, ser livre e assumir). Vocação é diálogo.



[1] Vasco Pinto de MAGALHÃES, S.J., Vocação e vocações (Braga: A:O. 1992) 13.
[2] Ibid.
[3] Ibid.

segunda-feira, setembro 10, 2007





SDPVocações

e

Pré-Seminário



Calendário de actividades 2007/08





Outubro 2007
- 13 e 14. Outubro 2007: Actividades em Paróquias e / ou Movimentos e Grupos
- 20 e 21.Outubro, 2007 : Pré-Seminário (Seminário de Alcains)


Novembro 2007
- 3 e 4. Novembro 2007: Actividades em Paróquias e / ou Movimentos e Grupos

- 11 a 18: Semana dos Seminários
- 17 e 18. Novembro. 2007: Pré-Seminário (Seminário de Alcains)


Dezembro 2007
- 8 e 9. Dezembro. 2007: Pré-Seminário (Seminário de Alcains)
- 15 e 16. Dezembro 2007: Actividades em Paróquias e / ou Movimentos e Grupos


Janeiro 2008
- 12 e 13. Janeiro. 2008: Pré-Seminário (Seminário de Alcains)
- 19 e 20 . Janeiro. 2008: Actividades em Paróquias e / ou Movimentos e Grupos


Fevereiro 2008
- 23 e 24. Fevereiro. 2008: Pré-Seminário (Seminário de Alcains)
SDPVocacções: “Fim de semana com…”
- 23. Fevereiro. 2208: Retiro do Pré-Seminário


Março 2008
- 1 e 2. Março. 2008: Retiro Vocacional para jovens
- 8 e 9. Março. 2008: Pré-Seminário (Seminário de Alcains)
- 8 de Março 2008: Peregrinação Mariana do Pré-Seminário
- 15. Março. 2008: Dia Jovem
- 23. Março. 2008: Domingo de Páscoa


Abril 2008
- 5 e 6. Abril. 2008: Pré-Seminário (Seminário de Alcains)

- 6 a 13. Abril. 2008: Semana de Oração pelas Vocações
- 5 de Abril 2008: Jornada Vocacional Diocesana
- 12 e 13. Abril. 2008: Actividades em Paróquias e / ou Movimentos e Grupos
- 19 e 20. Abril. 2008: Actividades em Paróquias e / ou Movimentos e Grupos


Maio 2008

- 1. Maio 2008: Celebração dos jubileus diocesanos
- 10 e 11. Maio. 2008: Pré-Seminário (Seminário de Alcains)
SDPVocacções: “Fim de semana com…”
- 17 Maio. 2008: Passeio e visita de estudo do Pré-Seminário
- 18. Maio. 2008: Jornada “Portas abertas”
- 25. Maio. 2008: Peregrinação Diocesana a Fátima


Junho 2008
- 14 e 15. Junho. 2008 - Pré-Seminário (Seminário de Alcains)


Julho 2008
- 5 e 6. Julho. 2008: "Atreve-te" - campo de férias com os Seminaristas

sexta-feira, agosto 24, 2007



Deus não nos quer salvar sem nós

Preparando o Domingo XXI TC


A nossa relação com Deus é fortemente questionada pelos textos da liturgia este Domingo. Não basta apenas entender os ensinamentos de Jesus, sermos seus companheiros, partilharmos o seu pão na sua presença, para sermos salvos. Trata-se sim de nos comprometermos na nossa conversão, de nos comprometermos a aprofundar continuamente a nossa relação com Ele renovando a nossa forma de pensar e abandonando todas as dependências supérfluas deste mundo que passa. Dito de outra forma, trata-se de nos descentrarmos de nós próprios para nos deixarmos configurar a Cristo, Nosso Senhor. É Ele que é a Porta estreita. Somente n’Ele podemos realizar a nossa Páscoa em direcção à salvação, a passagem da morte das nossas perspectivas para entrarmos nas perspectivas de Deus. Trata-se de nos identificarmos sempre mais com Ele, a Porta, para podermos ter acesso à herança prometida.
Às vezes a situação pode parecer-nos perdida já que, tão “instalados nas terras do nosso exílio”, nos isolámos do próprio Deus. Mas o testemunho do Povo eleito e o ensinamento da Carta aos Hebreus fazem-nos acolher com alegria o ensinamento de Jesus: Deus é fiel e quer estar connosco e em nós.



Frei Elias, Família de S. Jo

sexta-feira, agosto 17, 2007


Domingo XX
do
Tempo Comum
- Escutando a Palavra de Deus -


As divisões que Jesus anuncia deixam-nos algo derrotados já que Ele Se apresenta também como Príncipe da Paz, Aquele que vem reconciliar entre si e com o Pai do Céu. É evidente então que estas divisões não são da sua responsabilidade. As divisões e perseguições são o sinal das nossas resistências à sua Palavra, o sinal das nossas recusas e negações que fazem “matar os profetas”, o sinal do orgulho que nos faz querer viver longe da Fonte da nossa vida e de toda a vida. Estas divisões atingem-nos no mais íntimo de nós mesmos onde uma parte ainda resiste ao chamamento do amor. Mantenhamos os olhos fixos em Jesus. O trabalho de reconciliação em nós e em nosso redor será realizado por Cristo que por nós Se entregou na Cruz.

A Palavra de Deus é um fogo com o qual Jesus quer incendiar o mundo. É um fogo porque, logo que alcança alguém, transforma-o num raio que propaga o fogo da Boa Nova.

Irmão Domingos, Família de S. José






IMACULADA CONCEIÇÃO DE NOSSA SENHORA




Maria não teve medo e o projecto de Deus realizou-se


“Não tenhas medo, Maria, porque encontraste graça diante de Deus […] O Espírito Santo virá sobre ti e a força do Espírito Santo te cobrirá com a sua força” (Lc 1, 30. 35).
Nossa Senhora é a expressão da humanidade que se mantém aberta diante do mistério de Deus e que concretiza a esperança de Israel. E, ao mesmo tempo, é a expressão do homem / humanidade enriquecido por Deus como mostram as palavras do anjo: O Senhor está contigo … encontraste graça diante de Deus.
Mais que João Baptista, mais que todos os profetas, Maria é o sinal, figura, da humanidade que, simplesmente, ama e espera. É o sinal, figura, da humanidade que aceita Deus, que acolhe a sua Palavra e se transforma em instrumento da sua revelação. E Deus é Quem age. Não Se deixa ficar longe ou fora da história, mas actua nela. E tudo, no relato do Evangelho, (palavra do anjo, resposta de Maria, presença criadora do Espírito), se encaminha para a salvação da humanidade.

Onde estás ? Perguntou Deus a Adão. E Adão, por medo, como relatam os Génesis, escondeu-se. Onde estás ? é a expressão de um Deus permanentemente á procura do homem, mas é também a expressão de um homem que tentou, por vergonha, fugir e esconder-se de Deus. A vergonha conduz à cautela (a desconfiança); a cautela conduz ao medo (não acreditar em mais ninguém); o medo conduz ao encobrimento das situações (a busca das pseudo-justificações); e o encobrimento das situações conduz à mentira (o auto-engano), conduz à vida escondida, aquilo que não se pode mostrar e não se pode ver.
Ora Deus vem onde nós estamos, quer dizer, vem onde nós somos e ao que nós somos. Onde estás ? não é uma interrogação para a destruição, mas uma inquietante procura para a salvação. A vergonha de nos deixarmos ver como somos será, então e sempre, impedimento à relação de confiança com Deus (como filhos diante do Pai).

Ao contrário de Adão que teve medo ao ouvir e sentir a aproximação de Deus, Maria experimenta e revela uma imensa confiança, um imenso amor, uma intensa inquietação. Novamente Deus vem onde está a humanidade. Mas a resposta de Maria não é como a de Adão ou de Eva. Maria, Nossa Senhora, é a expressão da humanidade que se mantém aberta diante do mistério de Deus. É a expressão da humanidade enriquecida por Deus como mostram as palavras do anjo: O Senhor está contigo … encontraste graça diante de Deus.
Por isso Maria é dita a nova Eva, aquela que dá o lugar e o ventre ao Novo Adão, Jesus Cristo, no mistério da encarnação, expressão máxima da intimidade de Deus com o homem e do homem com Deus, expressão máxima da confiança que venceu o medo e a hesitação.

Pode, por isso, S.Paulo cantar os louvores de Deus: Bendito seja Deus que, em Cristo, nos encheu de todos os bens. Foi em Jesus Cristo que nos tornámos herdeiros de Deus.
A solenidade da Imaculada Conceição de Nossa Senhora é, portanto, a celebração da imensa gratuidade de Deus que nos dá seu Filho Jesus Cristo como Aquele que, assumindo a nossa carne, comungando connosco, nos ensina o caminho para sairmos dos nossos medos de morte e de distância de Deus.
Diante do pecado alicerce e fundamento de todos os pecados (original, primeira pedra), Maria reflecte já o poder de Cristo Salvador, a Pedra angular, alicerce do homem novo. E por isso é dita imaculada desde o seu nascimento.


O dogma da Imaculada Conceição


Este Dogma da Imaculada Conceição de Nossa Senhora, segundo o qual Maria, desde o momento da sua concepção, foi preservada de qualquer sinal do pecado original, foi promulgado pelo Papa Pio IX em 8 de Dezembro de 1854 e constitui, ao tempo, uma verdadeira inovação. É a primeira vez que o Papa proclama uma definição dogmática independentemente de qualquer assembleia conciliar[1].

Ouçamos o texto do Dogma para, em seguida, tentarmos perceber como pode Maria, na sua Maternidade divina, ser “dogmatizada”.

Para honra da santa e indivisa Trindade, para glória e louvor da Virgem Mãe de Deus, para exaltação da fé católica e aumento da religião cristã, com a autoridade de nosso Senhor Jesus Cristo, dos bem-aventurados Apóstolos Pedro e Paulo e com a nossa declaramos, proclamamos e definimos que a doutrina que sustenta (afirma) que a Santíssima Virgem Maria foi preservada imune de toda a mancha do pecado original desde o primeiro instante da sua concepção por singular graça e privilégio de deus Omnipotente, em atenção aos méritos de Cristo Jesus Salvador do género humano, está revelada por Deus e deve, portanto, ser firme e constantemente acreditada por todos os fiéis[2].
É desta forma que o texto da definição dogmática se refere à concepção de Nossa Senhora. A Virgem Maria foi, portanto, preservada do pecado. Preservada significa que não chegou a entrar no pecado ou o pecado a entrar nela. E essa, como veremos é a grande questão que estará em debate[3].


Fundamentos do Dogma da Imaculada Conceição


A festa da imaculada Conceição tem por origem a festa da concepção de Santa Ana, festa que aparece no início do séc. VIII nas Igrejas do Oriente. A partir da Igreja oriental essa tradição atingiu rapidamente a Itália na altura do domínio bizantino e, a partir daí se difunde..
Ainda antes de a vermos aparecer na França damos conta da sua presença em Inglaterra e na Irlanda onde foi introduzida por peregrinos regressados da Terra Santa.
É no séc. XII que a festa da concepção de Santa Ana se converteu definitivamente na festa da concepção de Nossa Senhora.

Desde muito cedo, contudo, os Padres da Igreja e a tradição em geral, ensinaram este “privilégio” excepcional que faz da Virgem Maria uma criatura singular.

Quando, nos inícios do Cristianismo, Maria é descrita como Nova Eva (sobretudo por Sto Ireneu, Adv Haereses, III, 22, 4 e V, 19, 1) o que se afirma é a santidade perfeita de Maria.
Claro que mesmo os Padres do séc. II tiveram ideias discrepantes a respeito da santidade de Maria.
Por exemplo, Tertuliano defenderá, a partir do episódio bíblico em que Maria e os discípulos queriam ver Jesus, que Maria vacilou na fé. Para Tertuliano o texto de Mt 12, 24 tem de ser lido de forma simbólica e, nesse sentido, quando se diz que Maria e os outros irmãos de Jesus ficaram de fora da porta está a simbolizar-se a atitude dos judeus: em Maria e nos outros irmãos estão prefigurados a Sinagoga e os Israelitas que se abstêm de entrar no Reino que Jesus anuncia e do qual é sinal.

Já Orígenes tem uma ideia muito mais positiva da santidade de Maria fazendo-a derivar do Verbo de Deus que Maria traz no seu seio. Contudo, segundo ele, Maria não estaria totalmente isenta de culpa já que também ela esteve sujeita ao “escândalo” da Cruz. Orígenes fala da universalidade da redenção e inclui nela a Maria.

E esta será também a posição dos Padres da Igreja do séc. IV no Oriente: por um lado acreditam na santidade de Maria que deriva do facto da sua maternidade divina e para a qual foi purificada antecipadamente pelo Espírito Santo. Mas, por outro lado, afirmam para Nossa Senhora a necessidade de participação nos frutos da redenção.

É nesse sentido que, em finais do séc. IV, S. João Crisóstomo expressa, podemos dizer, uma visão pessimista da santidade de Maria. E aponta como razões e exemplos a dificuldade em acreditar na mensagem do Anjo Gabriel (“Como será isso?”); em Caná quis avançar de mais e Jesus teve de lhe chamar a atenção (“Mulher que há entre nós?”); olhava muita vez para Jesus como um simples homem. Diz o mesmo S. João Crisóstomo que aquilo de que se tratava neste episódio era de uma ambição desmesurada de Maria por se querer mostrar como a Mãe de Jesus.

Quase na mesma linha nos aparece S. Cirilo de Alexandria para quem Maria vacilou na fé. É, aliás, por isso, afirma, que Maria necessitará do apoio do discípulo João.

Claro que estas denominadas fragilidades não impedem os Padres do Oriente de chamar santa e santíssima a Nossa Senhora e, mais do que isso, de a apresentar como modelo de vida. Esta é a posição que a Igreja Ortodoxa mantém ainda hoje e pela qual nega a Imaculada Conceição.

Não obstante todas as dúvidas manifestadas, o Concílio de Éfeso (431) e a sua declaração sobre Nossa Senhora como Téotokos, provoca um enorme crescimento da piedade mariana no Oriente.

Já no Ocidente o entusiasmo é menor por estar em curso uma grande reflexão sobre o pecado original e uma verdadeira luta entre as teorias agustinianas e pelagianas. E como dessa luta surgia cada vez mais explicitamente que apenas Jesus era isento do pecado dito original, Maria seria um tema sem interesse. Aliás, dela afirmar-se-ia que não era isenta do pecado original.
Pelágio estava convencido da total santidade de Maria e indicava-a como exemplo do que pode realizar a natureza humana quando recusa o pecado. Sto. Agostinho responder-lhe-á que essa prorrogativa é um privilégio devido ao facto de Maria ser a Mãe de Deus.
Sto Agostinho não atribui, no entanto, o pecado dito pessoal, a Nossa Senhora e professa a sua santidade total e absoluta. Sublinha, no entanto, e sempre, que isso se deve a uma graça especial recebida em louvor do próprio Deus.

Nesta troca de ideias, a questão vai centrar-se na discussão em torno do pecado original. Sto. Agostinho mantém a perspectiva de que toda a humanidade está sob o poder do pecado original à excepção do próprio Cristo. Outros contemporâneos seus excluem Maria ao pecado original. E a questão de divergência vai residir neste ponto. A questão da imaculada concepção de Nossa Senhora ficará então directamente relacionada à questão do pecado original.

Segundo Sto Agostinho, Nossa Senhora não está sob a influência do pecado senão pelo facto de que o pecado alcançou toda a humanidade até ao momento em que a humanidade alcançou a regeneração[4]. Para Sto Agostinho, todo o ser humano vem ao mundo com a herança do pecado de Adão que representa não só o pecado pessoal, mas também a contaminação de toda a natureza humana.

No Oriente a Igreja não experimentará as mesmas dificuldades e sentirá um enorme impulso de piedade e reflexão mariana após o Concílio de Éfeso em 431. Na pregação vão abundando cada vez mais os elogios ao papel de Maria na História da Salvação.

No séc. VIII, contudo, a situação torna-se mais clara. André de Creta (+ 740) opina que toda a vida de Maria decorreu sem mancha e sem pecado. Maria é comparada à terra pura da qual Deus formara Adão e o nascimento de Maria é comparado à criação da primeira mulher antes do pecado. O novo Adão (Jesus) e a nova Eva (Maria) são virgens de todo o pecado. Por isso Maria tem em si as primícias de toda a salvação e de toda a divinização.
É neste século que se dá um passo muito importante: da reflexão da santidade inicial de Maria passa-se à afirmação da sua santidade original. Daí que se comece a chamar com maior evidência “santa” e “imaculada” à Virgem Maria e se comece a celebrar a sua imaculada concepção.

S. João Damasceno que, em certo sentido, recapitula a teologia dos Padres da Igreja do Oriente dirá então que, em Maria, tudo se deve à sua maternidade divina. É por ser Mãe e para ser Mãe de Jesus que é concebida sem pecado.

No Ocidente, ao contrário, as opiniões continuam marcadas pelo pensamento de Sto. Agostinho. Só Cristo evitou o pecado desde o seu nascimento.

Pascácio de Radberto (790-860) afirmará a imaculada conceição de Nossa já que, segundo ele, Maria nunca terá tido contacto com o pecado.
Nesse sentido, a festa da Conceição de Maria existente no Oriente passa ao Ocidente em meados do séc. XI e difunde-se no séc. XII por toda a Europa.


Os séculos XI a XVIII – as discussões teológicas


É, portanto, na continuação da discussão anterior que se chega ao séc. XI. A questão da imaculada concepção de Nossa Senhora continuou a ser matéria de reflexão dos teólogos latinos e as diferenças continuaram a afirmar-se.

Santo Anselmo, S. Bernardo e S. Tomás negarão a Imaculada Conceição de Nossa Senhora na medida em que vai contra a universalidade do pecado original e, consequentemente da redenção.
S. Bernardo, por exemplo, um grande devoto de Nossa Senhora, não aceita a Imaculada Conceição de Maria. S. Bernardo colocará Maria entre as outras personagens singulares do Antigo e do Novo Testamento, mas dirá que isso não chega para colocar em relevo a sua concepção. Só o Senhor Jesus, afirmará ele, foi concebido pelo Espírito Santo e só Ele é santo desde a sua concepção. Exceptuando Jesus, todos os outros filhos de Adão serão iguais.
S. Bernardo recusa, portanto, a Imaculada Conceição como sendo incompatível com o pecado original.
Também S. Tomás de Aquino não vê como será possível conciliar a universalidade do pecado original e da redenção com a Imaculada Conceição de Nossa Senhora. Segundo S. Tomás há um grave problema: é que só pode ser santificado aquilo que existe. E se Maria ainda não existia (antes da sua concepção) como poderia ser santificada ? Então S. Tomás fala da santificação de Maria como de uma purificação total do pecado original.

S. Boaventura introduzirá nesta reflexão um outro aspecto. Dirá ele que Maria foi redimida sob o modo de preservação do pecado e não sob a forma da purificação de pecado.

Mas é Duns Scoto (1266-1308) que elabora uma solução e a resposta a todas as objecções à imaculada conceição de Nossa Senhora: Segundo ele, Maria foi resgatada pela Cruz de Cristo em previsão dos méritos de seu Filho.
Maria teria contraído o pecado hereditário se a graça do redentor não a tivesse preservado. E porquê esta preservação ? Por causa da excelência de Maria, por ser a primeira benificiária da salvação e da reconciliação.

É então a partir de Duns Scoto que a situação doutrinal acerca da imaculada conceição de Nossa senhora se vai inverter. E é a partir deste “princípio da excelência “ que acaba por se diminuir a oposição entre a universalidade do pecado original e a imaculada conceição de Nossa Senhora. A imaculada conceição de Nossa Senhora não subtrai Maria à redenção de seu Filho, antes, pelo contrário, enquanto redenção preventiva é o fundamento de onde parte. Se o pecado original não impede ninguém de receber o baptismo, porque é que havia de impedir a santificação inicial de Maria ?

De seguida, em 1439, o Concílio de Basileia define a Imaculada Conceição de Nossa Senhora como festa a 8 de Dezembro para toda a Igreja. Claro que, como este Concílio era cismático, o texto não foi bem acolhido e não ganha imediatamente valor magisterial.

A Imaculada Conceição de Nossa Senhora continua, por isso, a ser causa de discussão e mesmo divisão na Igreja e, nesse sentido, o Papa Sisto IV declara em 1483 que a Imaculda Conceição de Nossa Senhora é uma doutrina livre. O Papa proíbe nessa altura a cada uma das facções que acuse de herética a contrária.

E é a esta declaração que se remete o Concílio de Trento no final do Decreto sobre o pecado original quando declara que não é sua intenção incluir nesse decreto um capítulo sobre a Bem-Aventurada e Imaculada Virgem Maria, Mãe de Deus, mas que retoma as orientações do Papa Sisto IV.
Esta é uma declaração que se reveste de singular importância porque reconhece a importância da argumentação que pretende conciliar a universalidade do pecado original e da redenção com a Imaculada Conceição de Nossa Senhora. Ou seja, ao mesmo tempo que proclama que o pecado original não tem nenhuma excepção, proclama também que essa excepção é possível. De Trento, contudo, não sai nenhuma definição dogmática nesse sentido.

A questão continuou a debater-se até ao séc. XIX . Paulo V e Gregório XV, Papas do séc. XVII, pedem que, em virtude das acesas discussões que o tema sempre gera, os cristãos se abstenham de tomar posição e os clérigos se abstenham de pregar sobre a Imaculada Conceição de Nossa Senhora. A certa altura, Gregório XV impôs mesmo o silêncio sobre o assunto e ordenou que se continuasse a celebrar apenas a festa da Concepção de Nossa Senhora e não a da Imaculada Conceição (Concepção sem nenhum qualificativo).
Em 1661 o Papa Alexandre VII aprova oficialmente o culto à Imaculada Conceição e reconhece a antiguidade desse mesmo culto mas não o impõe à Igreja.


Pio IX, a Bula “Ineffabilis Deus” e o dogma da Imaculada Conceição


Em 8 de Dezembro de 1854 o Papa Pio IX, depois de consultar todos os bispos do mundo, procedeu à definição solene do dogma da Imaculada Conceição.
O que muda no texto em relação aos escritos de Alexandre VII é a diferença entre crença (culto livre) e revelação (acolhida enquanto Igreja). O Papa afirma que Maria foi isenta de pecado desde o início da sua existência. Foi resgatada por seu Filho, por uma graça especial, já que foi preservada e não apenas purificada.
E, para fundamentar a definição, o Papa opina que a doutrina da Imaculada Conceição está consignada nas Sagradas Escrituras citando os textos de Gen 3, 15 e Lc 1, 28. 42.
16.Também o Concílio Vaticano II se expressará a respeito da Imaculada Conceição (LG 56).


Uma palavra sobre Portugal


Entre nós, o documento mais antigo que se conhece com referência à Imaculada Conceição de Nossa Senhora é uma Constituição de D. Raimundo Evrard, bispo de Coimbra (17. Outubro. 1320) determinando a realização da festa da Imaculada nesse mesmo ano em Coimbra. A devoção à Imaculada Conceição de Nossa Senhora viria, no entanto, popularmente, já muito de trás e continuaria para sempre intimamente ligada à vida da Igreja e diocese de Coimbra.
Em 1617 a Universidade de Coimbra manifesta ao Papa a sua aceitação e fé na imaculada Conceição. Em 1634 o Bispo D. Lopo de Almeida congrega o Clero e, juntos, juram defender a imaculada Conceição de Nossa Senhora. Em 1637 o Concílio Diocesano de Coimbra faz novamente juramento de defesa da Imaculada Conceição.
E, em 25 de Março de 1646, restaurada a independência de Portugal e do seu reino, nas cortes celebradas em Lisboa, declarou el-rei D. João IV que tomava a Virgem Nossa Senhora da Conceição por padroeira do Reino de Portugal, prometendo-lhe em seu nome, e dos seus sucessores, o tributo anual de 50 cruzados de ouro.
Ordenou o mesmo soberano que os estudantes na Universidade de Coimbra, antes de tomarem algum grau, jurassem defender a Imaculada Conceição da Mãe de Deus.
Não foi D. João IV o primeiro monarca português que colocou o reino sob a protecção da Virgem Mãe, apenas tornou permanente a sua devoção.
D. João I já punha nas portas da capital a inscrição louvando a Virgem, e erigia o convento da Batalha a Nossa Senhora, como o seu esforçado companheiro D. Nuno Alvares Pereira levantava a Santa Maria o convento do Carmo.
Foi pois por provisão de 25 de Março do referido ano de 1646 que se mandou tomar por padroeira do reino Nossa Senhora da Conceição.


Imaculada Conceição de Nossa Senhora


Chegados ao fim dos aspectos histórico-teológicos do debate em torno da Imaculada Conceição de Nossa Senhora, afirma-se uma questão muito clara: qual teve de ser a santidade da mulher que estava destinada por Deus a ser a Mãe de seu Filho ? Ou seja, qual é a santidade da mulher que está chamada a ser a Mãe do Santo dos Santos ?
A resposta a estas questões encontramo-la precisamente na relação de Maria a Cristo. A santidade de Maria não é em primeiro lugar uma santidade moral, mas uma santidade que lhe advém da sua própria vocação. Então a pergunta pode fazer-se de uma outra maneira: qual é a santidade que é necessária que exige a função de Mãe de Deus ? Qual foi a graça da Mãe que é fonte de todas as graças ?
É destas questões que brota a resposta: a Mãe do Santo por excelência tinha que estar livre de toda a sujeição ao pecado. O Filho não quis que aquela que seria sua Mãe tivesse estado sujeita ao poder do maligno.

Maria recebeu, portanto, a graça com a existência. E por isso foi preservada do pecado. Sobre a solidariedade com Adão prevaleceu a solidariedade, como futura Mãe, com Jesus Cristo. É desta forma que também Maria recebe os frutos da redenção: redenção preventiva, purificação antecipada, que a subtrai aquilo que podemos chamar a “desgraça do pecado”.

A Imaculada Conceição de Nossa Senhora fundamenta-se, pois, sobre a maternidade messiânica de Maria. Maria é, de facto, desde o primeiro instante, a futura Mãe do Redentor. A futura maternidade messiânica é, portanto, uma situação de graça, um estado de graça.


P. Emanuel Matos Silva



[1] Cf. Dominique CERBELAUD, Marie un parcours dogmatique (Paris : Cerf, 2003) 141.
[2] D 2803/4
[3] Cf. J. TAMAYO, Dogma in Diccionario abreviado de pastoral (Estella: Verbo divino, 1988)163.
[4] Cf. Bernard SESBOÜÉ, Los Signos de la salvación (Salamanca: Secret. Trinitário) 451.

quinta-feira, agosto 09, 2007


Preparando o Domingo
19º do Tempo Comum
12 de Agosto 2007
"Encontrar a Vossa presença
na minha vida, Senhor!"
A liturgia deste 19º domingo do Tempo Comum aborda um aspecto particularmente importante para a nossa vida e para o nosso testemunho cristão. Quantas vezes não ouvimos ou sentimos dizer à nossa volta algo como : “Em que é que a vinda de Cristo modificou o mundo?”. É um facto que os homens prosseguem as suas guerras fratricidas; ontem como hoje pratica-se a injustiça desprezando o direito dos mais fracos. Contudo, na fé, nós sabemos que tudo mudou a partir da ressurreição de Jesus e da inauguração do seu Reino: “a noite da libertação pascal” (1ª leitura) anuncia o regresso glorioso e definitivo do Senhor. Ele encarnou, Ele habita no coração da Igreja pelo seu Espírito, Ele “virá na sua glória, julgar os vivos e os mortos; e o seu Reino não terá fim”.
Certamente a maior parte de nós morre “sem ter visto a realização das promessas; mas vemo-las e saudamo-las de longe” (2ª leitura). A nossa fé é fidelidade a essa promessa, a esse futuro que orienta toda a nossa vida e faz de nós infatigáveis peregrinos do Reino. Cada Eucaristia relança a nossa caminhada: Jesus vem ter connosco para nos guiar para a frente, nós que somos “estrangeiros e peregrinos sobre esta terra” à procura de uma “pátria melhor, a dos céus” (2ª leitura). Dia após dia podemos prosseguir o nosso caminho e acelerar o passo no caminho da eternidade na medida em que acolhemos Cristo ressuscitado no nosso coração. Porque “a fé constitui a garantia dos bens que se esperam, e a prova de que existem as coisas que não se vêem” (2ª leitura). E isso desde que seja uma fé viva e activa pela caridade, ou seja, efervescente de um ardente desejo de comunhão, porque “onde está o nosso tesouro aí está o nosso coração”.
A vida cristã autêntica é uma vida sempre orientada para o Senhor que vem, vivida numa ardente espera do seu regresso: “Maranatha! Vem Senhor Jesus!” (Ap 22, 20). É o que nos ensina o próprio Jesus no Evangelho deste dia quando nos exorta insistentemente à vigilância: “Tende as vossas cintas apertadas e as vossas lâmpadas acesas. Sede como homens que esperam o seu senhor, quando voltar do seu casamento, para, assim que ele chegar e bater, lhe abrirem logo a porta. Estai vigilantes” (Evangelho).
Esta espera não é algo de puramente passivo: o servo fiel e sensato é aquele que, à chegada do seu senhor, está vigilante e no seu lugar. E a tarefa que lhe está confiada não é outra senão o serviço da caridade a exemplo do seu mestre. O senhor, aliás, tomará o lugar de servidor:”há-de apertar a cinta e mandar que eles tomem lugar à mesa e, passando diante deles, servi-los-á”. Esta é a lógica do Reino anunciado por Cristo: “os reis das nações pagãs chamam-se mestres a si mesmos, e os que exercem o poder fazem-se chamar benfeitores. Para vós não deve ser assim. O maior entre vós tome o lugar do mais pequeno, e o que manda tome o lugar do servo. Quem é, de facto, o maior? O que serve ou o que está à mesa? Não é quem está à mesa? Pois Eu estou no meio de vós como quem serve!” (Lc 22, 25-27).
À imagem do seu Mestre e Senhor, o cristão é chamado a tornar-se servidor da caridade colocando-se ao serviço dos seus irmãos na gratuidade de uma amor desinteressado e não desejando senão acelerar a chegada do Reino obedecendo à Palavra do Senhor. Para permanecer nesta orientação de vida, no meio de tantas e tantas solicitações do mundo, é indispensável tender para “as realidades do alto e não para as da terra. Com efeito nós morremos com Cristo e a nossa vida está escondida com Ele em Deus. Quando Cristo surgir, nós surgiremos com Ele” (Col 3, 2- 4).
Que o Senhor nos dê a graça de uma vigilância interior; que nós O possamos aguardar e esperar com uma “santa impaciência”; que a esperança do seu regresso iminente nos guarde despertos na fé e animados de um ardente zelo au serviço dos nossos irmãos.

Padre José Maria, Família de S. José

segunda-feira, agosto 06, 2007

(Veneranda Imagem de Nossa Senhora da Saúde, Belide, Condeixa-a-Nova, séc. XVI)

Celebrar Nossa Senhora da Saúde é celebrar a Salvação da Humanidade em Jesus Cristo. A Salvação de Deus, em Jesus Cristo, nascido da Virgem Mãe, abrange todo o homem e o homem todo tanto na sua vida de peregrino na terra como enquanto cidadão do Céu. Por Cristo a condição do homem muda radiclamente: da opressão passa à liberdade; da ignorância passa ao conhecimento; da tristeza à alegria; da enfermidade passa á saúde; da morte à vida; de participante no pecado passa à participação na vida de Deus.

Salvação é o próprio Jesus Cristo, mas também a Virgem Mãe socorre com amor os que se encontram em dificuldade. Celebrar Nossa Senhora da Saúde equivale a celebrar o momento peculiar da História da Salvação em que o mal e o pecado são vencidos por Jesus Cristo. A Mãe da Saúde é a Mãe de Cristo que nos continua a dizer como em Caná da Galileia "Fazei o que Ele vos disser".

Foi a celebração deste mistério que aconteceu em Belide (Condeixa-a-Nova) nos últimos dias 2 a 6 de Agosto. Do mesmo modo, em muitas outras localidades desta Terra de Santa Maria, se celebra Nossa Senhora com muitas invocações por estes dias. O mistério celebrado é sempre o mesmo: Deus fez-Se Homem e escolheu como caminho de aproximação à Humanidade o seio da Virgem Maria. Maria disse "sim" e é imagem e figura de cada crente, figura e imagem da Igreja. Que Nossa Senhora, que soube acolher, entender, guardar e entregar ao mundo a Palavra de Deus, nos ensine e ajude a acolher, entender, guardar e entregar a mesma Palavra.

Oração de S. Bernardo a Nossa Senhora:

Lembrai-Vos, ó piíssima Virgem Maria, que nunca se ouviu dizer que algum daqueles que têm recorrido à vossa protecção, implorado a vossa assistência, e reclamado o vosso socorro, fosse por Vós desamparado. Animado eu, pois, de igual confiança, a Vós, Virgem entre todas singular, como a Mãe recorro, de Vós me valho e, gemendo sob o peso dos meus pecados, me prostro aos Vossos pés. Não desprezeis as minhas súplicas, ó Mãe do Filho de Deus humanado, mas dignai-Vos de as ouvir propícia e de me alcançar o que Vos rogo. Amen.

Oração a Nossa Senhora da Saúde:

Virgem puríssima, que sois a Saúde dos enfermos, o Refúgio dos pecadores, a Consoladora dos aflitos e a Despenseira de todas as graças, na minha fraqueza e no meu desânimo apelo, hoje, para os tesouros da vossa misericórdia e bondade e atrevo-me a chamar-vos pelo doce nome de Mãe. Sim, ó Mãe, atendei-me em minha enfermidade,dai-me a saúde do corpo para que possa cumprir os meus deveres com ânimo e alegria, e com a mesma disposição sirva o vosso Filho Jesus e agradeça a vós, Saúde dos enfermos. Nossa Senhora da Saúde, rogai por nós. Amen.


Oração a Nossa Senhora da Saúde - II

Nossa Senhora da Saúde, a Ti recorremos implorando a saúde. Tu que, por vontade do Pai, foste responsável pela saúde de Nosso Salvador, ajuda-nos a readquirir a saúde. Tu que educaste o Menino Jesus, amigo solidário dos pobres e doentes, com maternal presença ajuda-nos, para que possamos viver confiantes na salvação eterna, também nos momentos mais difíceis da doença. Mãe protectora, ajuda-nos a recuperar as forças físicas e morais, para que vivamos na alegria do Evangelho de Jesus Cristo, na dimensão do Amor e da Fraternidade, assumindo e respondendo ao Amor Infinito que Deus tem para cada um de nós. Amen.


sábado, agosto 04, 2007


MOVIMENTO DO CLERO


P. José Manuel Marques Cardoso, conservando as actuais funções, é
nomeado pároco de Constância.

Cón. António Leonor Marques Assunção, é nomeado pároco de Alcains.

Cón. Martinho Cardoso Pereira, mantendo as actuais funções é nomeado
pároco de Isna.

P. José Mendes Fernandes Antão, mantendo as actuais funções, é
nomeado pároco de Madeirã.

P. Luís Manuel Antunes Alves, mantendo as actuais funções, é nomeado
pároco da Montes da Senhora.

P. Emílio Ramiro Andrade Salgueiro é nomeado Vigário Paroquial de
Montes da Senhora.

P. Ilídio Santos Graça, CPPS, pároco in solidum de Proença-a-Nova,
Peral e S. Pedro do Esteval, ficando moderador da equipa.

P. José Luís Ferreira Francisco, CPPS, é nomeado pároco in solidum de
Proença-a-Nova, Peral e S. Pedro do Esteval.

P. Armando Tavares Pereira Alves, CPPS, é nomeado pároco in solidum
de Proença-a-Nova, Peral e S. Pedro do Esteval.

P. Virgílio da Mata Martins, CPPS, é nomeado pároco in solidum de
Proença-a-Nova, Peral e S. Pedro do Esteval.

P. Alberto Jorge Porfírio Domingos Tapadas é nomeado Secretário
Geral da Cúria Diocesana.

Diác. Daniel Catarino Bernardo Fernandes, continuando ao serviço de
Proença-a-Nova, é nomeado para as paróquias de Peral e S. Pedro do
Esteval.

Diác. Manuel Lopes Cardoso, continuando ao serviço de Proença-a-Nova,
é nomeado para as paróquias de Peral e S. Pedro do Esteval.


Portalegre, 1 de Agosto de 2007
+José, Bispo de Portalegre-Castelo Branco

quarta-feira, agosto 01, 2007


« Os homens, no começo, sentiram alguma dificuldade em acostumar-se a Deus. Deus, no começo, sentiu alguma dificuldade em acostumar-se aos homens. E no século treze ainda se está no começo. No século vinte não estamos mais longe, não fizemos outra coisa senão marcar passo, atolando-nos um pouco mais nesse furor em espelho de Deus e dos homens, conforme nos dão testemunho a poeira dos nossos sapatos e o sangue em crosta nos nossos lindos fatos.
Francisco de Assim conhece Isaías […] conhece bem a Bíblia […] A voz de Deus está na Bíblia sob toneladas de tinta, como a energia concentrada sob toneladas de betão numa central atómica. O jovem de Assis foi irradiado por esta voz. Já nada mais quer senão transmiti-la […].

Há algo no mundo que resiste ao mundo, e este algo não se acha nas igrejas nem nas culturas nem no pensamento que os homens têm de si próprios, na crença mortífera que eles têm de si próprios enquanto seres sérios, adultos, razoáveis, e este algo não é uma coisa, mas Deus, e Deus não pode caber em nada sem logo o abalar, o arrasar, e Deus imenso não sabe caber senão nos estribilhos de infância, no sangue perdido dos pobres ou na voz dos simples, e todos esses abarcam Deus no côncavo das suas mãos abertas, um pardal encharcado como pão pela chuva, um pardal transido, chilreador, um Deus pipilante que vem comer nas suas mãos nuas.
Deus é o que sabem as crianças, não os adultos. Um adulto não pode perder tempo a alimentar os pardais».


Christian BOBIN, Um Deus à flor da Terra, 98.

terça-feira, julho 31, 2007










QUE (C)RER ?
- questões em torno da fé - 2 -



1. Sinais da abertura à questão de Deus

Sendo a fé , fundamentalmente, uma atitude de confiança, uma relação pessoal (crer), ela engloba igualmente a adesão a uma verdade revelada (aquilo em que se crê: Deus revelado em Jesus Cristo). O acto de confiar e o motivo da confiança constituem uma unidade. Creio em Deus, Pai Omnipotente ... e em Jesus Cristo, Filho Unigénito ... Salvador ..., e no Espírito Santo ... que dá a vida. De um ponto de vista formal, a fé é acolhimento da realidade de Deus e adesão à revelação que Deus faz de si.
Desta forma, a fé é um acto pessoal. E, nessa medida, encontra na própria pessoa algumas das condições da sua existência. Não se pode dizer tratarem-se de “provas da necessidade” da fé. Se assim fosse seria contraditório. Trata-se sim de algumas experiências humanas que são sinais da abertura do homem, em liberdade e enquanto homem, à questão de Deus. Significa que no próprio sujeito da fé – o homem - encontramos condições de aparecimento dessa mesma atitude cristã de fé.
As experiências que sinalizam a possibilidade da fé são, desta forma, aspectos fundamentais do ser homem na história. Correspondem a alguns dados que sinalizam a possibilidade, razoabilidade e sentido humanos da fé e que deixam entrever uma certa correspondência entre a procura humana de sentido e de plenitude, por um lado, e, por outro, a surpresa de Deus que Se revela ao homem. Novamente a questão do sentido da vida nos aparece como o lugar/contexto onde a questão de Deus se pode tornar decisiva para a vida do homem[1].
Um dos primeiros sinais da existência humana como abertura à questão de Deus acontece na experiência que a pessoa tem do corpo. Sendo a experiência e a expressão da existência pessoal ( não “temos” apenas um corpo, mas, sobretudo, “somos” o nosso corpo), visto que aí nos experimentamos a existir e exprimimos a nossa personalidade, o corpo é também a nossa experiência de inserção no mundo em que vivemos. É e significa a possibilidade de encontro, diálogo e comunhão. Mas é também a experiência da radical fragilidade, da limitação, da mortalidade. Daí que a experiência do corpo abra, muitas vezes, ao questionamento e à reflexão sobre o sentido último e final da vida e, em última análise, ao questionamento de Deus. Além disso o homem é sempre um ser histórico. A sua vida supõe e pressupõe decisões. Mas também o leva a fazer a experiência da provisoriedade.
Um segundo sinal de abertura do homem a Deus podemos lê-lo na necessidade humana de estabelecer relações de confiança e amor. No viver de cada dia o homem tem de confiar e está “dependente” da confiança. Aliás, muitas vezes, a afirmação de si próprio está dependente da afirmação, em confiança e amor, de outros. Porque o homem vive numa constante tensão entre “fechar-se em si próprio” ou “abrir-se aos outros”, confiar é uma experiência de desenvolvimento da sua personalidade. Será a confiança humana o último horizonte da confiança ou haverá uma confiança fundamental para lá de toda a imprevisibilidade das confianças humanas? Sendo a fé cristã, fundamentalmente, uma questão de confiança, a atitude de fé nunca é de todo estranha ao desenvolvimento da pessoa e à sua relação de amizade e amor com outras pessoas. E nessas relações pode ler-se a insuficiência de uma vida fechada sobre si mesma.
Um terceiro sinal é o da manifesta capacidade e vontade humanas de permanentemente se transcender. Pensar, querer, amar são actos fundamentais do ser pessoa e apontam para além de si mesmos, sinal de que o homem se supera a si mesmo e se abre ao infinito. Este é um sinal que se pode ver em diversos âmbitos: no âmbito do conhecimento e da busca da verdade (sempre mais além); no âmbito do amor (sempre mais verdadeiro); no âmbito da liberdade (o “para quê” da vida); no âmbito da consciência moral (o “porquê” e o “como” da vida); no âmbito do sentido da vida (razões e sentido mais profundos onde se fundamentam as decisões). Não estará nesta abertura e nesta procura o sinal da possibilidade da fé cristã ? É que a fé pode situar o homem no caminho da verdadeira realização dos seus anseios mais profundos.
Um quarto sinal de abertura a Deus é o que podemos ler no facto do homem ser, permanentemente, alguém em busca de libertação. Face às muitas ameaças diárias de sem-sentido (destruição pela solidão, confiança traída, incerteza, liberdade falhada, morte, etc), o homem sente o desejo da libertação.
Finalmente, um outro sinal de abertura do homem à questão de Deus, encontramo-lo na procura de sentido para a vida. Referindo-se a valores, e não a coisas neutras, o sentido da vida (e a sua procura) é o que melhor define a pessoa humana. E o homem sabe que a vida só tem sentido quando se dá sentido à vida, quando se lhe dão, precisamente, valores. O sentido só é reconhecido por quem está disposto a optar por ele, por quem está disposto a escolher valores como ideal de realização. Por definição, um valor não é uma coisa. É uma espécie de utopia sobre a maneira segundo a qual podemos e “devemos” viver. O que seria um homem totalmente desprovido de valores ? De facto, cada homem vive de um projecto de sentido[2]. É algo que interpela o homem quanto a valores fundamentais que definirão a orientação livre da vida numa tentativa de unificar e harmonizar a vida toda e de não a fazer apenas uma soma de momentos ou de acasos.
Não esgotando, de forma nenhuma, o horizonte de busca e de realização do homem, estes sinais são expressão da sua receptividade à revelação de Deus. Mais, são sinal da sua capacidade relacional com aquilo que à priori não controla nem define.
Crer é, portanto, entrar num diálogo. No caso do Cristianismo é um acto inter-pessoal de diálogo e relação com Jesus Cristo. É um acto de confiança. É, como dirá depois Sto. Agostinho, crer Deus (crer que Deus existe), crer a Deus (crer na sua Palavra) e crer em Deus ((entregar-se a Deus e confiar-Lhe o sentido da nossa vida).


P. Emanuel Matos Silva



[1] Cf. José Eduardo BORGES DE PINHO, Fé e Teologia – apontamentos para uso dos alunos (Lisboa: UCP) 26.
[2] Cf. Bernard SESBOÜÉ, Pensar e viver a fé no Terceiro Milénio (Coimbra: Gráfica, 2001) 47.

segunda-feira, julho 30, 2007

QUE(C)RER ?

- questões em torno da fé -1 -


Eu creio, eu tenho fé. Parece algo fácil e simples de dizer. Foi-nos dado acreditar. Mesmo se confundimos o acto de crer (acreditar) com aquilo em que acreditamos ( o conteúdo acreditado). Nascemos numa família, num contexto, em que a fé se transmite naturalmente. E, nesse sentido, pode dizer-se que “fé” é a palavra cristã por excelência. O Cristianismo, talvez mais do que outra realidade religiosa, merece o nome de fé. É a própria Sagrada Escritura que utiliza o termo para se referir ao movimento/dinamismo de seguimento e identificação com Jesus Cristo.

Mas a afirmação da fé, o “eu creio”, pode não ser tão simples. Referindo-se ao homem como ser aberto e à escuta, capaz de ouvir e acolher, a Escritura e o pensamento cristão referem-se à atitude de resposta como sendo a fé. Significa que o homem passa de ouvinte a crente, passa da procura ao acolhimento.
É precisamente neste percurso que vai do “ouvir” ao “aderir” que surgem algumas interrogações. O que é que há, para além do homem, que valha a pena ouvir e que contenha tanta novidade? Que necessidade há de ouvir ou abrir ? Não é a experiência subjectiva das coisas e da vida a única capaz de dar sentido à vida de alguém ? No mundo do provável e do experimentado qual o lugar que se reserva à atitude de fé ?

Sem respostas simples somos reenviados ao homem e à sua questão. Ele é alguém à procura de sentido. É inquieto, interrogativo e inquietante. E quando, nesse processo de procura, ele manifesta disponibilidade interior para a novidade não controlável por si, nasce um tipo de relação diferente com o mundo, com as coisas e com os outros. A sua subjectividade não esgotou o horizonte da sua procura e da tentativa de resposta. E a questão da fé, ou mesmo a questão de Deus, nasce dentro da questão do sentido. É quando o homem se interroga sobre e pelo sentido que se pode encontrar com Deus e que pode acreditar. E o sentido encontra-se sempre na referência da vida a valores ou na referência da vida a ideais que têm capacidade de dinamizar a mesma existência. É que “procurar” abre o homem ao encontro com o sentido da vida e com Deus, enquanto “exigir provas” limita a disponibilidade e o horizonte da revelação daquilo que pode ser totalmente novo para o homem. Sobretudo se a “prova exigida” corresponder a um requisito pré definido. Na fé, como em muitos outros campos da vida, o preconceito mata o futuro da relação. É engraçado pressentir que quando exigimos provas a Deus nos encontramos, a maioria das vezes, apenas connosco próprios e com o nosso mundo e seus problemas.

Talvez haja cada vez menos coisas a carecer de uma explicação racional para existirem. Hoje quase tudo tem uma explicação. E, no entanto, continua a ter sentido acreditar, ter fé. Esse facto não limita em nada a fé cristã. Porque a fé é da ordem da relação. É uma forma original de relação a um objecto de conhecimento. E só relacionando-nos acreditaremos e conheceremos.

Conhecimento, confiança e comunhão são aqui aspectos da totalidade humana que, estando presentes em todos os processos da vida humana, estão também presentes no processo de adesão a Deus. Ser, saber e querer. Deus e homem são sujeitos livres de uma acção.

Por isso se falará da fé como dom de Deus, fruto de uma acção do Espírito de Deus, mas também, simultaneamente, como decisão livre e racional do homem. E, embora pessoal, nunca realizada no isolamento. Supõe os outros, a comunidade, a experiência da vida.

Crer, acreditar, não será, portanto, apenas um acaso. Não é possível crer sem querer. Para querer algo é preciso acreditar que vale a pena. É preciso crer no seu valor. Mas também é verdade que se não quero não posso crer. Seria, neste caso, uma crer vago, vazio, sem força definidora devida.

A questão é a do desejo. Somos seres de desejo, somos uma ânsia em busca de harmonia, de afecto e de sentido e só aderimos àquilo que percebemos como oferecendo-nos esse valor. Essa adesão de coração é um acto de fé. Ninguém me pode provar esse valor, mas, na medida em que o queira aprofundar e saborear, comprova-se ou não a sua realidade. A fé não se prova, comprova-se pelos frutos desse desejo[1].

Um caminho possível para compreendermos o que é a atitude de fé é o facto de que a vida do dia a dia está cheia de “formas elementares de fé”. É aquilo que podemos definir como a fé no outro, nas próprias possibilidades, na vida em sociedade, na palavra dada, na relação estabelecida, etc. É o facto de que ninguém aguenta viver muito tempo sem um alicerce de confiança, de amor, de esperança.

Enquanto caminho para compreender o que é a fé cristã, este caminho tem a sua validade na medida em que nos aponta estruturas universais do homem que são requeridas para a sua felicidade. E, nessa medida, aponta para a fé como uma atitude humana. É uma atitude do homem e não contradiz aquilo que o homem é por definição e constituição.

Mas a fé cristã tem uma especificidade e uma originalidade que não se resumem a estes factores. A fé cristão não é o mero resultado das interrogações humanas nem se esgota nas suas potencialidades. Ela é algo de novo na vida do homem. Enquanto valor e ideal, a fé cristã implica o homem no próprio processo do seu nascimento e crescimento, mas supõe sempre a revelação de Deus. É por isso que a podemos definir como uma atitude de resposta. A sua originalidade e especificidade têm que ver com o conhecimento, a confiança e a comunhão que, por Jesus Cristo, o homem estabelece como relação com Deus.

Amar, conhecer, confiar, comungar são da lógica do sair de si mesmo, são da lógica do aproximar-se. É a mesma lógica da fé: receber-se do facto de se dar, encontrar razões e caminhos pelo facto de se desarmar, de se abrir e dispor a acolher. O que é diferente da anomia, da indiferença ou mera passividade. Ao que é que vale a pena ligar-se e aderir ? A fé, bem como o ver o invisível, não é contraditória. É paradoxal, exige sabedoria, perspicácia, sentido crítico, procura e paciência fiel. O povo diz, muitas vezes, que “quem não se fia não é de fiar”. Com Deus e em Deus, quem não confia não é capaz de acreditar.

Que(c)rer não é um trocadilho de palavras. É o desafio a que, querendo, levantando os olhos ao redor, acreditemos.

P. Emanuel Matos Silva

[1] Vasco Pinto de Magalhães, SJ, Nem quero crer (Coimbra: Ed. Tenacitas, 2002) 17.

sábado, julho 28, 2007



ESPIRITUALIDADE E VIVÊNCIA DO DOMINGO



O domingo é o dia da celebração da ressurreição de Cristo. Os relatos evangélicos são unânimes na afirmação de que o acontecimento da ressurreição se deu ao amanhecer do primeiro dia da semana (Mt 28, 1; Mc 16, 2; Lc 24, 1; Jo 20, 1). É o dia em que Jesus ressuscita e aparece aos Apóstolos reunidos (Jo 20, 19). É o dia em que Jesus caminha e se revela aos discípulos que caminham para Emaús e que O reconhecem ao partir do pão (Lc 24, 13-35). É, fundamentalmente, o dia em que Jesus Se mostra vivo e vencedor da morte, de todas as mortes.
O Domingo tem, então, uma identidade própria: é a celebração da Páscoa, o dia do Senhor. Essa é a razão pela qual o Domingo tem tanta importância na vida da Igreja. Todo o mistério da Páscoa do Senhor Jesus está concentrado, não apenas naquele dia longínquo e histórico em que Cristo “passou deste mundo para o Pai” (Jo 13, 1), mas no dia que se transformou o sinal, a memória, desse acontecimento salvífico.
Em sua memória, Jesus mandou fazer os gestos fundamentais da sua entrega. O Domingo evoca, por isso, e permite viver a presença do Ressuscitado no meio dos seus: celebra-se o “senhorio” de Cristo, o seu triunfo sobre a morte, a sua presença viva e ressuscitada. É a proclamação deste facto que acontece em cada assembleia cristã que se reúne em dia de Domingo para partir o pão: na Eucaristia, como com os discípulos de Emaús, a comunidade reconhece Jesus e experimenta a sua vida e a sua presença. E, nesse sentido, o Domingo é o dia específico da reunião da comunidade cristã (os discípulos de Jesus Cristo), o dia da comunhão, o dia da celebração da Ceia do Senhor e da presença do Ressuscitado, o dia da experiência pascal como envio em missão. É o dia da diferença.

Partindo da ressurreição como fundamento, a reunião da assembleia cristã, a escuta da Palavra e a Eucaristia são, portanto, os elementos característicos do Domingo e os fundamentos da sua vivência espiritual. De facto, no Domingo, os cristãos reúnem-se para que, escutando a Palavra de Deus e participando na Eucaristia, recordem a paixão, a ressurreição e a glória do Senhor dando graças a Deus.
O Domingo é, portanto, o dia da assembleia cristã, símbolo da Igreja que se faz visível na comunhão de todos os cristãos presidida pelos seus pastores sobretudo na celebração da Eucaristia. A assembleia cristã reunida, expressão da Igreja, Corpo de Cristo, é tão essencial ao Domingo como é a referência do Domingo à ressurreição de Cristo.
Sendo dia da assembleia cristã, o Domingo é também o dia da Palavra de Deus. É na escuta e no acolhimento da Palavra que a Igreja se define como um Povo convocado pelo próprio Deus e chamado a caminhar na sua presença. É escutando a Palavra, à imagem de Maria, a Mãe de Jesus, que se faz possível a sua encarnação na vida. O que Jesus ressuscitado fez no caminho com os discípulos de Emaús, faz hoje com cada assembleia: Ele próprio explica a sua Palavra.
O Domingo é, finalmente, o dia da Eucaristia, o dia do memorial da Páscoa do Senhor. A Igreja reúne-se em assembleia porque não consegue de outra maneira celebrar Aquele que é a sua Cabeça, Jesus Cristo. Mas a finalidade desta assembleia litúrgica reunida é a celebração do Sacrifício eucarístico, o Sacramento da entrega de Jesus “para a vida de muitos” (Mt 26, 28; Mc 14, 24; Jo 6, 51). A Páscoa é, de facto, o conteúdo fundamental do Domingo, e o aspecto central do mistério eucarístico, memorial do sacrifício redentor de Jesus Cristo na Cruz e sua presença sacramental. A Eucaristia é, neste sentido, a Páscoa da Igreja. O Domingo torna-se assim o sinal do senhorio de Cristo sobre o tempo e a história precisamente porque tem o seu centro na Eucaristia.
Concluindo, a vivência e a espiritualidade do Domingo são determinadas pela experiência da sua origem e da sua identidade: é dia de parar, não para ficar parado, mas para escutar e acolher; é dia de reunião da assembleia porque, pelo baptismo, todos somos Corpo de Cristo; é dia de escutar a Palavra de Deus porque não nos convocamos a nós mesmos, mas é o Senhor que na Palavra nos chama e nos ensina; é o dia da Eucaristia porque nela, na fidelidade ao mandato de Jesus, se faz memória da Páscoa. Pela Eucaristia, os cristãos unem-se a Cristo e dizem com Ele “Isto é o meu Corpo entregue por vós” fazendo da Eucaristia a entrega da Igreja pela vida do mundo como é a de Cristo.
Um Domingo com estas características coloca-nos, certamente, algumas questões e desafios: que tipo de dia é o Domingo para nós, hoje ? É o dia da Ressurreição, o dia da assembleia eucarística, ou apenas o dia do ócio e do descanso, o dia da festa, o dia ecológico ? E quais são os problemas reais do nosso Domingo? Uma prática dominical em crise? Uma celebração dominical que deixou de ser festa? Uma ocasião de encontro com assembleias e desmotivadas ? Um dia de descanso na sociedade de consumo ?
Que lugar tem o Domingo, como dia do Senhor e a Ele dedicado, no ritmo da vida quotidiana de cada um de nós ? Sendo dia do nascimento do homem novo, como vivemos o Domingo ?

P. Emanuel Matos Silva