sexta-feira, setembro 22, 2006




Franciscanos


A Ordem e o seu Fundador:
A mais importante e mais antiga das Ordens Religiosas Mendicantes é a dos Frades Menores ou Franciscanos. Surgida no início do séc. XIII, a Ordem Franciscana deseja responder ao espírito da época e, sobretudo, ao grande movimento de revalorização do espírito da pobreza evangélica. Além disso, respondia igualmente ao sentimento global da necessidade de um maior contacto entre religiosos e leigos, ultrapassando os habituais esquemas monásticos e relacionando o ministério sacerdotal com a pregação e outras obras de apostolado.
O “fundador”, Francisco, nasceu em 1181 na cidade de Assis (S. Francisco de Assis). Seus pais foram Giovanna, la madonna Pica, assim chamada, e Pietro de Bernardone, rico comerciante de tecidos. No baptismo cristão recebeu o nome de João Baptista, escolhido pela mãe na ausência do pai que desejava para o filho o nome de Francisco.

Depois de uma juventude relativamente despreocupada, entre sonhos, ambições e lutas de cavalaria (participou na guerra entre Assis e Perúsia onde foi feito prisioneiro), Francisco sofre, em 1206, uma profunda transformação interior após uma grande enfermidade. Renunciando ao ideal de cavalaria, e renunciando à suas antigas honras , abraça um ideal de oração e penitência. Além disso, na fidelidade ao que podemos hoje definir de chamamento de Deus, dedica-se aos pobres e leprosos.

A sua vocação afirmou-se mais concretamente ainda quando, na Igreja de S. Damião, perto de Assis, Francisco, em profunda experiência de oração, ouviu de Cristo, por três vezes, as conhecidas palavras: “Francisco vai reparar a minha Igreja que, como vês, está totalmente em ruínas”.
Num primeiro momento Francisco entende as palavras de Cristo no seu sentido puramente material e, podemos dizer, torna-se pedreiro. É assim que ele recontrói a Igreja.
Mais tarde Francisco entende o sentido mais profundo das mesmas palavras de Cristo e percebe o apelo divino de uma outra maneira e com outras implicações.
Nesta fase da vida de Francisco de Assis acontece algo que não deixará de ser relevante. Extremamente revoltado com o comportamento de Francisco (que além de muitas outras coisas começara a distribuir bens ao mais pobres e a visitá-los nas suas habitações e lugares de permanência), o seu, Pietro de Bernardone, deserda-o e leva-o a tribunal eclesiástico. Diante da multidão, Francisco renuncia atudo o que possui, despe-se e entrega as roupas ao pai. Gesto profundo e profético que se explicitará na história futura. É o bispo da cidade que, com a sua capa episcopal, lhe cobre a nudez.Daqui em diante separado do mundo da riqueza, Francisco servirá, em despojamento total, a Igreja. Chamaram-lhe o “louco de Deus”. Estava definida a longa caminhada de Francisco para a vida.
Aos vinte e sete anos Francisco sente novo chamamento de Deus. A sua vocação define-se mais precisamente: seguir Cristo, como já tantos outros o haviam feito, na pobreza e na pregação.
Neste momento juntam-se a Francisco alguns companheiros. Sua regra era observar o Evangelho. Vestiam-se, como os pobres do lugar, com uma túnica com capuz atada à cintura com um cordão em vez dum cinto.
O grupo que, num primeiro momento, surge muito espontaneamente, começa a ganhar “estabilidade”. Chamr-se-ão frades penitentes ou frades menores. Em 1209 o Papa Inocêncio III aprova esta nova regra e a Ordem Fransciscana instala-se definitivamente na Porciúncula. Estavam lançados os alicerces da Ordem Franciscana.
O crescimento que se segue é extremamente rápido. Numerosos irmãos se lançam pelos caminhos de Itália fazendo, desta forma, expandir-se o espírito de Francisco de Assis na sua procura de uma vivência da pobreza evangélica como sinal do seguimento de Jesus Cristo.
Em 1212, colateral à ordem masculina, foi fundada a ordem feminina por Sta. Clara de Assis (pauperes Dominae de S. Damião, Clarissas).
Aos quarenta anos, fraco e fatigado, Francisco retira-se para os eremitérios de Rieti com o simples e único desejo de se unir a Cristo. É aí, em 1224 que se produz o prodígio dos estigmas de Cristo. As suas mãos, o seu lado e os seus pés são trespassados.
A morte de Francisco de Assis dá-se em 3 de Outubro de 1226. Dois anos mais tarde - 1228 - o Papa Gregório IX canoniza-o em Assis.

Como já se referiu, a Ordem Franciscana difundiu-se rapidamente em toda a Europa. No momento da morte de Francisco, o número de irmãos já ascendia a 5000. E, no Capítulo Geral de Estrasburgo, em 1282, contavam-se já 1583 Conventos divididos em 34 Províncias. Emmeados do séc. XIV o número de irmãos é de 30 000 no mundo inteiro.
No séc. XV a Ordem Franciscana dividir-se-à em duas Ordens autónomas. Os Observantes querem guardar uma íntegra fidelidade à primitiva Regra. Consideram-se como os legítimos herdeiros de S. Francisco. Do outro lado estão os Conventuais que abraçam um tipo de vida mais monástico. A divisão apenas será reconhecida por Bula papal em 1517.

Espiritualidade franciscana:
A espiritualidade franciscana, subsidiária do pensamento e da vida do seu fundador Francisco de Assis, possui as seguintes notas características:
- espiritualidade teocêntrica e cristológica;
- espiritualidade mariana;
- espiritualidade eclesial;
- espiritualidade evangélica;
- vida activa e contemplativa;
- virtudes características: caridade, pobreza, humildade, obediência,
simplicidade, prudência, mortificação, discreção, profunda e viva alegria.

Efectivos:
Neste momento os Franciscanos são, mais ou menos, cerca de 18500 espalhados por todo o mundo e repartidos em cerca de 3000 Conventos.

Formação:
A entrada na Ordem dos Frades Menores (Franciscanos) segue um processo definido em sucessivas etapas: postulantado (seis meses a um ano); noviciado ( um a dois anos); profissão dos votos temporários (três a nove anos); profissão dos votos definitivos.

Hábito:
Os Franciscanos usam, normalmente, o hábito castanho com capuz atado na cintura com um cordão simples.

Algumas figuras da Ordem Franciscana na História:
Santa Clara (1194-1253); São Boaventura (1221-1274); Sto. António (uns chamam-lhe de Lisboa, outros de Pádua; 1195-1231); S. Bernardino de Sena (1380-1444); João Duns Scoto (1266-1308); Guilherme de Ockham (1290-1350); S. Maximiliano Kolbe (1894-1941)


Ordem Franciscana em Portugal:
1) Frades Menores Conventuais - O.F.M.Conv.
- Diocese de Coimbra: Rua Brigadeiro Correia Cardoso, 18; 3000
COIMBRA;
- Diocese de Lisboa: Praça Dr. Fernando Amado, lote 566, 3ºI; 1900 LISBOA

2) Ordem dos Frandes Menores -Franciscanos O.F.M.
-Igreja de S. Francisco, largo de S. Francisco, 8000 FARO;
- Fraternidade Franciscana, Residência Paroquial, Calhetas, 9600
RIBEIRA GRANDE;
- Colégio das Missões Franciscanas, Montariol, 4701 BRAGA CODEX;
- Franciscanos, Rua Dias da Silva, 59, 3000 COIMBRA;
- Igreja NªSª da Penha, Rua da penha de França, 3; 9000 FUNCHAL;
- Igreja de S. Francisco, Rua do Almacave, 5100 LAMEGO;
- Convento de S. Francisco, Portela, marinha Grande - 2400 LEIRIA;
- Franciscanos, Rua Silva Cravalho, 34, 1200 LISBOA;
- Hospital de Jesus, Travessa da Arrochela, 2; 1200 LISBOA;
- Igreja-Casa de Sto. António à Sé, Rua das Pedras Negras, 1; 1100 LISBOA;
- Seminário da Luz, Largo da Luz, nº11, 1699 LISBOA;
- Convento de Sto.António, Varatojo, 2560 TORRES VEDRAS;
- Franciscanos, Rua António Nobre, 21, 4450 MATOSINHOS;
- Igreja do Calvário, Av Egas Moniz - 4560 PENAFIEL;
- Franciscanos, Rua dos Bragas, 321, 4000 PORTO;
- Residência Paroquial, Casais- 2300 TOMAR;
- Residência Paroquial, Lamarosa, 2350 TORRES NOVAS;
- Ordem Terceira de S. Francisco, Av 22 de Dezembro, 19, 2900 SETÚBAL;
- Paróquia de S. Pedro, Rua Combatentes da Grande Guerra, 49,
5000 VILA REAL.

quinta-feira, setembro 21, 2006

Vocações na Igreja
Dominicanos


Dominicanos ou, talvez mais correctamente, Ordem dos Irmãos Pregadores (Ordo Fratrum praedicatorum) é o nome da Ordem fundada por S. Domingos de Gusmão no início do séc. XIII.
O séc. XIII caracteriza-se, como o séc. XI e XII, por um verdadeiro renovamento ao nível das instituições eclesiásticas, nomeadamente as Ordens Religiosas. É neste contexto de renovação da Igreja e das suas instituições que surgem os Dominicanos.
A Ordem Dominicana ou dos Irmãos Pregadores, que se enquadra no conjunto das Ordens ditas mendicantes, é, sobretudo, como o próprio nome faz sugerir, uma Ordem Religiosa que se dedica á pregação itinerante e ao ensino como trabalho pastoral.
Não se retirando do mundo, à imagem de outras Ordens, é aí, precisamente, que desenvolverão a sua actividade. Nessa medida serão uma presença viva de Cristo.
« Confirmada pela Santa Sé como Regra Canonical sob a regra de Sto. Agostinho (22 de Dezembro de 1216) e na sua função específica de pregação (21 de Janeiro de 1217), a ordem faz o seu acto de maioridade no Capítulo Geral de 1220: S. Domingos entrega nas mãos dos seus irmãos toda a autoridade; o princípio da mendicidade é adoptado; é estabelecido o sistema de governo segundo o qual o Capítulo Geral anual, partilhando com o Mestre Geral os poderes executivo e judicial, se reservainteiramente o poder legislativo. No Capítulo de 1221 a Ordem divide-se por oito Províncias: 2Espanha, Provença, França, Lombardia, Roma, Teutónia, Inglaterra e Hungria »[1].
Mas, para compreender melhor a génese histórico-espiritual desta ordem há que colocar a atenção no seu fundador, S. Domingos de Gusmão.

« A contribuição pessoal de S.- Domingos é ter construído um novo método e uma nova concepção da vida religiosa: a vida mista. É o primeiro fundador religioso a realizar a síntese histórico-espiritual do dualismo contemplação-acção na Igreja, restabelecendo assim a inseparabilidade psicológica, espiritual e teológica do amor de Deus e do próximo e levando o sacerdócio à sua plenitude evangélica e apostólica »[2].

O serviço específico dos Dominicanos é a pregação, não só, nem sobretudo, na “oratória sagrada”, mas em toda a forma de comunicação do essencial da Palavra de Deus aos homens, Dir-se-ia fazer a Palavra perceptível em cada tempo e em cada circunstância; fazer com que continue a desafiar a humanidade à profundidade da existência; fazer com que o espírito do homem, na sua relação com Deus, com os outros, e consigo mesmo, não estagne, não morra (anunciar, como ela é, a Palavra de Deus em linguagem humana).
Se os séculos XI e XII haviam sido séculos monásticos na procura da solidão e do silêncio claustral, o séc. XIII vai assistir au reflorescimento da vontade da genuína vida apostólica de pregação e missão. Todo o clima e tecido social haviam mudado e pediam agora à Igreja uma nova forma de presença.

Fundador: S. Domingos de Gusmão
S. Domingos nasce em Caleruega (Espanha) por volta de 1170, época em que a Espanha luta contra a “invasão” árabe.
Aos sete anos de idade é confiado a um tio que, sendo eclesiástico, lhe protagoniza uma rigorosa educação que o marcará para a vida futura. Com este tio, Domingos prepara-se também para a vida eclesiástica. Aos quinze anos matricula-se na Universidade de Palência onde, durante dez anos, estudará as Artes liberias e, depois, a Sagrada Escritura.
Ainda jovem é feito Cónego do Cabido de Osma onde vai absorver o espírito de reforma que o cabido respira. Tem então vinte e cinco anos.
Em 1204 Domingos acompanha o Bispo de Osma, Diego de Azevedo, numa missão que lhe havia sido confiada na Dinamarca.
Este vai ser um momento decisivo na vida de S. Domingos. Ao atravessar o Languedoc percebe aí o progresso dos albigenses. As populações, por ignorância, deixavam-se facilmente convencer pelos “perfeccionistas” (“heréticos”) cátaros que confessavam um fé de tipo maniqueísta: de um lado um Deus bom, Criador do Bem; de outro um mau, criador do Mal.
Talvez neste momento se possa colocar o “nascimento” da vocação de Domingos de Gusmão. Inaugura-se então um método de pregação onde se conjugam a doçura e simplicidade, a inteligência e a pobreza. Desta forma testemunham um vida à maneira dos primeiros Apóstolos[3].
Após a morte do Bispo Diego, Domingos permanece sozinho na mesma função de pregação.
« Em 1215 Domingos funda em Toulouse, para a Diocese do lugar, uma associação de pregadores que, preparados com profundos estudos teológicos e pela prática ascética, deviam dedicar-se à salvação das almas, sobretudo mediante a “sancta praedicatio”, isto é, à instrução do povo sobre as verdades da fé, e à defesa da Igreja contra a heresia ... Em 1216 o Papa Honório III confirmou essa associação de pregadores como Ordem de Clérigos Regulares com a Regra de Sto. Agostinho. E em 1217, com a aprovação da Santa Sé, Domingos já enviava para todo o mundo os seus frades pregadores» [4].
Tirando, portanto, experiência da sua pregação itinerante, Domingos funda uma Comunidade de clérigos que se deviam consagrar à pregação da fé e da moral, lutando contra os erros doutrinais e de interpretação da fé, e praticando uma imitação, tanto quanto possível, da vida dos apóstolos, ou seja, em itinerância e mendicidade.
S. Domingos conbinará a vida apostólica com o cenobitismo fazendo do do Convento um centro de formação, um local de estudo onde os noviços se preparavam de forma a estarem bem fundamentados para a missão. O Convento era também sempre o local onde regressavam os frades para se renovarem espiritual e teologicamente.
A grande novidade de Domingos está, portanto, na associação harmoniosa do cenobitismo com o nomadismo apostólico além da renovada vontade de uma verdadeira vida evangélica e de pregação[5]. Por tudo isto a Ordem Dominicana foi sempre uma Ordem de homens sábios e profundos.
S. Domingos morre em Bolonha no dia 6 de Agosto de 1221 e é canonizado em 1233.

Efectivos Dominicanos e Estatutos:
A Ordem dos Pregadores conta actualmente com cerca de sete mil membros entre Irmãos e Presbíteros, estando presentes em oitenta e três países.
Quanto aos Estatutos, os Dominicanos estão entre as Ordens mendicantes com os Franciscanos e Carmelitas. É uma Ordem Religiosa apostólica, para a missão.

Organização:
Os Dominicanos vivem em Conventos
(seis a dez irmãos em média, mas podendo haver Conventos com cerca de cinquenta irmãos) sob a responsabilidade de um Prior eleito por três anos, renováveis uma vez. Esta eleição é confirmada pelo prior Provincial.
Há quem denomine o governo dominicano de “democrático” na medida em que cada Prior é designado por eleição.
Cada Convento (Capítulo conventual) designa, além do seu Prior, um representante ao Capítulo Provincial o qual acontece cada quatro anos e elege o Prior Provincial. Por sua vez os Priores Provinciais e os delegados das Províncias reúnem-se de três em três anos em Capítulo Geral. É a este Capítulo Geral que cabe a legislação e ordenamento da Ordem. De três em trãs Capítulo Gerias é elito o Mestre Geral da Ordem para um mandato de nove anos.

Hábito
S. Domingos, por ser Cónego, guardou a tradição canonical da túnica branca ( hábito branco e capuz branco) e juntou-lhe o escapulário monástico.
A capa e capuz negros são hoje raramente utilizados.
Hoje os Dominicanos usam o hábito nos ofícios, refeições e, tanto quanto possível, na vida de convento. Normalmente, contudo, no exterior nãos o usam.

Algumas grandes figuras da Ordem Dominicana:
- Sto. Alberto Grande (1200-1280); S. Tomás de Aquino (1225-1274); Mestre Eckhart (1260-1327); Sta. Catarina de Sena ( 1347-1380); Fra Angelico (1387-1455); Jerónimo Savonarola ( 1452-1498); Bartolomeu das Casas (1484-1566); S. Pio V (1566-1572); Henri Lacordaire (1802-1861); Marie-Joseph Lagrange (1855-1938); Pierre Couturier (1897-1954); Marie-Dominique Chenu (1895-1990); Jacques Loew (1908); Yves Congar.

Ordem Dominicana (Ordem dos Pregadores) em Portugal:
- Convento dos Padres Dominicanos, Rua de S. Domingos, 2495 FÁTIMA;
- Convento de Nª Sª do Rosário (Casa Provincial), Travessa do Corpo Santo, 32, 1200 LISBOA;
- Convento João XXIII, Av. Cons. Barjona de Freitas, 7, 7º C, 1500 LISBOA;
- Paróquia de S. Domingos de Benfica, Rua de S. Domingos de Benfica, 33, 1º A, 1500 LISBOA;
- Convento de Cristo Rei, Prça D. Afonso V, 86, 4100 PORTO;
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[1] A. DUVAL, o.p., Fréres Prêcheurs, in Catholicisme IV ( Paris: Letouzey et Ané, s/d) 1618.
[2] D. Abbrescia, Dominicos, in Ermanno ANCILLI, Diccionario de Espiritualidad, I (Barcelona: Herder, 1987) 642.
[3] Cf. Claire LESEGRETAIN, Les Grands Ordres Religieux (Paris: Fayard, 1990) 132.
[4] Karl BIHLMEYER, História da Igreja II (S. Paulo: Paulinas, 1964) 305.
[5] Cf. Jean CHÉLINI, Histoire religieuse de l’Occident médieval (Paris: Hachéte,, 1991) 432.
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domingo, setembro 17, 2006


Cartuxos


A Ordem da Cartuxa é assim denominada por ter nascido nas montanhas de Chartreuse. Como os Beneditinos, que tratamos no anterior número, também os Cartuxos são monges. Mas, no quadro de toda a tradição monástica, a Ordem Cartuxa apresenta-se, no seu tempo e hoje, com uma novidade e especificidade muito próprias. Inspirando-se nos antigos Padres do Deserto (Eremitas e anacoretas) a vocação cartusiana é uma vocação solitária, uma vida na solidão para um maior e mais profundo encontro com Deus. Contudo, e a grande novidade e especificidade da Cartuxa residem aqui, é uma solidão com alguma vida comum. Significa isto que a Cartuxa é uma Comunidade (Mosteiro) de Solitários. A Clausura é a condição sine qua non da Cartuxa.
Numa sociedade onde o comunitário é, sem dúvida, um valor quase absoluto e o homem se revela como ser essencialmente para estar com outros, qual é o lugar de uma vocação solitária ?
« Não se faz Cartuxo quem quer. Para se ser Cartuxo não basta ser acolhido fraternalmente e receber todos os elementos de uma boa formação para a solidão, até porque se é formado para a solidão vivendo em solidão. Não permanece na Cartuxa senão aquele que no fundo da alma escuta um chamamento mais poderoso que todas as contradições que encontra em seu redor. A vocação cartusiana é uma obra de Deus. A colaboração do homem é aí mais indispensável que em muitas outras coisas, mas ele sabe que é totalmente impotente para construir a vocação cartusiana se entregue apenas aos seus meios »[1].
A solidão e silêncio cartusiano são um dom de Deus. Como em muitas outras realizações vocacionais, a vocação cartusiana não é construída apenas por uma vontade humana, mas é gerada no encontro de Deus com o homem e do homem com Deus.
Aquele que se sente interpelado por uma vida de solidão e silêncio não é apenas o que deseja deixar o mundo, mas é, sobretudo, aquele que fez uma profunda experiência de Deus e se deixa seduzir pelo Absoluto. Deseja mais a experiência de Deus do que tudo o resto. O carácter solitário desta vocação específica é, portanto, ele próprio, um meio e não um fim. Tem como finalidade a entrega do homem a Deus e não a fuga do homem em relação a si mesmo ou aos outros. Quem se entregasse à solidão cartusiana para fugir de si mesmo ou dos outros, não encontraria aí paz, mas tão somente angústia.
A solidão cartusiana, tem, portanto, necessariamente, de ser uma solidão alimentada, ou seja, uma solidão que não fecha o homem em si, mas o faz viver uma experiência de transcendência, de Deus, de comunhão. Comunhão com Deus e comunhão com os homens, mesmo separando-se deles.
O primeiro grande traço da espiritualidade cartusiana é precisamente aquele de que temos vindo a tratar - a solidão. Não uma solidão qualquer, mas uma solidão vivida no silêncio e na vida contemplativa.
«A nossa principal aplicação e nossa vocação - dirão as Constituições - são de nos aplicarmos ao silêncio e à solidão da cela, segundo a palavra de Jeremias: “o solitário sentar-se-à e guardará silêncio” »[2].
Ela será uma solidão alimentada pela Palavra de Deus, uma solidão que será sabedoria. Para cada Cartuxo, Jesus é sempre o modelo a seguir. Aliás o Monge, na vida contemplativa, deve estar íntimamente unido a Cristo.
Um segundo traço da espiritualidade cartusiana é a obediência. Na Carta aos Cartuxos, S. Bruno tem algums indicações bem concretas sobre a obediência. A verdadeira obediência é a realização da vontade de Deus, mas pode concretizar-se mais especificamente em variadas observâncias espirituais e disciplinares. Em S. Bruno a obediência não existe sem humildade e sem amor.
Após a obediência, um terceiro traço da espiritualidade cartusiana é a Pobreza. Um eremita que procura Deus não pode estar preso a nada mais do que àquilo que são os caminhos da procura do próprio Deus. A Pobreza está, portanto, ao serviço da vida contemplativa.
Um quarto traço da espiritualidade cartusiana é a Caridade Fraterna. A Caridade Fraterna tem uma razão muito própria de existir mesmo no meio de solitários. Ela vive na capacidade de cada um dos solitários estar atento e interiormente disponível a Deus e aos outros. Além do mais, a Cartuxa preserva um certo cenobitismo.
A Pureza de Coração é outra característica ou traço da espiritualidade cartusiana. Embora a abordemos aqui em quinto lugar, ela é das mais importantes marcas da espiritualidade da Cartuxa.
O fim da vida monástica é a união a Deus. É a pureza de coração que permite realizar essa finalidade. Há uma profunda relação entre a oração monástica e a pureza do coração. É esta atitude que permite a união com Deus, que permite que o Monge se fixe no Único. À pureza de coração também a tradição cartusiana vai chamar virgindade espiritual significando a inteireza da pessoa entregue a Deus e só a Ele.
Outra não menos importante característica ou traço da espiritualidade cartusiana é a simplicidade. Necessariamente está relacionada com a anterior e é até resultante dela, mas também é diferente dela.
A simplicidade é a característica que distingue a alma do monge que procura unir-se a Deus, como é igualmente um atributo de Deus. Deus é puro e simples. É Pessoa, é trino, mas não triplo, é Um. Aí reside a sua simplicidade[3]. Quanto mais o homem se separa de toda a dispersão e concentra em Deus, no Único, mais simples se torna. Essa simplicidade, no quadro da progressividade da vida espiritual, é condição de encontro com Deus.

Fundador: S.Bruno ( 1030-1101)
Bruno nasce por volta de 1030 em Colónia. Sobre a sua família não se sabe muito, nem mesmo o nome ao certo, mas alguns elementos indicam uma família com uma certa posição social na época e no meio.
A única notícia biográfica de S.Bruno, redigida na Cartuxa na primeira metade do séc. XII, não é muito extensa. Diz, sucintamente, que « Mestre Bruno, alemão, originário da ilustre Cidade de Colónia, nasceu de pais não desconhecidos. Tendo recebido uma sólida formação nas letras profanas e sagradas, ele torna-se Cónego e Reitor da Escola da Igreja de Reims que não cede o primeiro lugar a nenhuma nas Gálias. Mestre Bruno deixou o mundo e fundou o Eremitério da Cartuxa que governou durante seis anos. O Papa Urbano II, de quem outrora havia sido professor, chamou-o para a Cúria Romana como preceptor e conselheiro nas coisas eclesiásticas. Mas como ele não suportava nem a agitação nem o género de vida da Cúria, como ele ardia de amor pela solidão e quietudes perdidas, deixou a Cúria. Renunciando ao Arcebispado de Reggio para onde havia sido eleito sob ordem do Papa, Mestre Bruno retira-se para a Calabria, para um Eremitério chamado A Torre. Rodeado por um grande número de leigos e clérigos realiza o seu propósito de vida solitária em todo o tempo que viveu. Morreu e foi sepultado aí cerca de dez anos depois do seu retiro na Chartreuse ».
Não há, pois, dados seguros sobre a família da qual Bruno será descendente. Apenas se sabe, pelo que afirma o texto, que nasce de pais não desconhecidos, o que evidencia alguém com posição social.
A data de nascimento carece também de precisão, mas todos os elementos que existem a circunscrevem entre os anos 1024 e 1030, mais provavelmente em 1027.
Os primeiros anos de Bruno parecem ter sido vividos em Colónia e só depois tendo-se mudado para Reims. Fez, sem dúvida, os seus primeiros estudos em Colónia, possivelmente na Escola Capitular de S.Cuniberto, da qual, mais tarde, veio a ser Cónego Honorário.
Ainda jovem, portanto, Bruno chega a Reims. As escolas de Reims, sobretudo a Catedral, tinham muita fama havia séculos, atraindo a si estudantes de toda a Europa. Gerbert, que um dia seria o Papa Silvestre II, tinha sido seu Reitor entre 979 e 990 iluminando-a com o seu verdadeiro génio. Quando Bruno chegou, as escolas de Reims estavam no seu apogeu.
Em 1049, quando Bruno era ainda estudante, aconteceu algo que marcará para sempre o seu carácter. O Papa Leão IX, no contexto da sua reforma eclesial, celebra em Reims um Concílio.
No dia 3 de Outubro Leão IX abria então o Concílio. O Concílio e o Sumo Pontífice empreendem, sobretudo, uma acção contra a simonia, promoção escandalosa de bispos, abades e beneficiados que permitia também a intromissão de “leigos” nos lugares, bens e assuntos da Igreja. O Papa e o Concílio depuseram e excomungaram alguns deles.
Em tempo de estudo, ao despertar para a vida de acção, Bruno é confrontado com esta realidade eclesial através do Concílio. Profundamente religioso e recto, penetrado do espírito nobre da Sagrada Escritura e dos grandes princípios da Fé, reflectindo a situação da Igreja e a necessidade de Reforma, Bruno depressa sintoniza com os sentimentos do Concílio de Reims neste esforço. Ele próprio, um dia, entrará na “luta” a que a necessidade de reforma das estruturas dará ocasião.
Entretanto, Bruno irá passar longos anos em Reims. Os primeiros como estudante, depois como professor e Mestre da Escola Catedral acumulando, depois, com a nomeação para membro do Cabido da Catedral e seu Chanceler.
Entretanto a reputação de Bruno é grande e em 1056, susbstituindo Mestre Hérimann, é nomeado Mestre da Escola de Reims.
O agora Mestre Bruno parece ter apenas 28 anos o que a priori faz sobressair as suas qualidades de estudante e professor. Os testemunhos dos contemporâneos de Bruno atestam isso mesmo, como por exemplo o de Guibert de Nogent que afirma ter sido Bruno um magnífico professor da Escola da Catedral de Reims.
O Arcebispo Gervais, que o havia escolhido, morre em 1067 com fama de santidade. Sucede-lhe Manassés de Gournay com o nome de Manassés I. Será um Arcebispo que Reims não irá esquecer e que estará profundamente relacionado à evolução da vida e vocação de S.Bruno.

Manassés foi sagrado Arcebispo de Reims em 1068 ou 1069 apesar do seu antecessor ter falecido já em 1067.
A história do Arcebispo Manassés I de Reims não é simples. Tendo adquirido a Sede de Reims por simonia, em cumplicidade com o Rei de França Filipe I, administrou a sua Diocese, a princípio, de uma forma tranquila que fazia esperar uma governação normal. Homem nobre, Manassés carecia, contudo, do equilíbrio necessário para proceder com rectidão. O Arcebispo era uma homem de armas que esquecia o seu estado clerical. A tradição consagrou uma frase que se lhe atribui: “Reims seria um bom bispado se não se tivesse de cantar missa”.

É no contexto da Reforma Gregoriana que se inicia a grande luta com o Arcebispo Manassés. De um lado vai estar o Papa Gregório VII, o seu Legado em França Hugues de Die e os Cónegos de Reims e, do outro, vai estar o Arcebispo Manassés.
Em 27 de Dezembro de 1080 Gregório VII depõe o Arcebispo Manassés que, segundo tradição, se refugia junto de Henrique IV, Imperador da Alemanha excomungado.
Entretanto, e findo o processo de deposição do Arcebispo Manassés que trouxe nova paz à Igreja remense, foi dada ao Clero de Reims a missão de eleger um novo Arcebispo.
É no contexto da eleição do novo Arcebispo que as atenções trazem à luz o discreto Mestre Bruno a quem, apesar da discreção e modéstia, os acontecimentos puseram em evidência. E, mesmo não tendo voltado a exercer os seus cargos de Mestre-Escola ou de Chanceler, cairam sobre ele os olhares de toda a Igreja de Reims. Mestre Bruno, contudo, recusa a nomeação.
Com a recusa da nomeação e eleição para a Sede Arquiepiscopal de Reims podemos dizer que começa na vida de Mestre Bruno um período completamente novo. No conjunto da vida e obra de S.Bruno temos de afirmar, contudo, que esse episódio não é senão um elemento acessório.
Bruno decide romper todos os laços com o mundo e consagrar-se inteiramente a Deus na solidão. A solidão não será para Bruno um desterro, mas a plenitude da fé viva e da caridade.
Numa data que não se pode indicar com grande precisão, mas que se situará entre 1081 e 1083, S.Bruno deixa Reims.
Dirige-se com dois companheiros, Pedro e Lamberto, para Troyes. Aí perto, em Molesmes, existia uma Abadia Beneditina, à qual Bruno e seus companheiros se dirigiram. Seu Abade era Roberto de Molesmes.
Foi em terrenos cedidos por esta Abadia que Bruno e seus companheiros se instalaram, mais propriamente num local denominado Séche-Fontaine que ficava localizado na floresta de Fiel a uns 40 Kms a sudeste de Troyes e a 8 Kms do Mosteiro de Molesmes.
Ali viveram, segundo uma Carta de Molesmes que relata o início da experiência de Séche-Fontaine, uma vida verdadeiramente eremítica. Esta seria, contudo, uma breve etapa no itinerário espiritual de S.Bruno.
Pouco tempo depois de iniciada esta primeira experiência eremítica, uma opção diferente vai acontecer entre os três companheiros. Pedro e Lamberto vão escolher a vida cenobítica enquanto Bruno procura uma vida verdadeiramente eremítica. S.Bruno deixa este Mosteiro e dirige-se para Grenoble.
A data da chegada de S.Bruno à Chartreuse (montanhas junto a Grenoble) é fixada com precisão em Junho de 1084 por ocasião da Festa de S.João Baptista e a biografia de S.Hugo, Bispo de Grenoble, escrita por Guigo I (+ 1136), contém a narração da entrada de Mestre Bruno e seus companheiros no vale de Chartreuse.
O local escolhido situa-se a 1175 metros de altitude no fundo de um estreito vale no coração do maciço da Chartreuse, uma região montanhosa e de difícil acesso, de rigorosos nevões de inverno. Em todas essas características e circunstâncias vai S.Bruno encontrar francas vantagens. No fundo S.Bruno procura a solidão, uma vida estritamente eremítica, e essas circunstâncias favorecem-na.
O próprio acesso ao local é feito por uma estreita garganta entre desfiladeiros que isola o vale. Verdadeiramente esta era a porta da clausura.
A Cartuxa, com seus eremitérios, vai ser construída ainda mais acima, a cerca de quatro quilómetros desta porta. Os novos eremitas vão, desde logo, ocupar-se da construção da Igreja e das celas bem como pôr em prática uma observância concreta. A construção do primeiro Mosteiro inicia-se no Verão de 1084. Esta construção resistirá até 1132, quando uma avalanche destrói o Mosteiro matando sete monges. Era então Prior do Mosteiro Guigo I que construirá outro Mosteiro mais abaixo cerca de uns dois kilómetros e num local menos propício a gelos e avalanches.
As celas dos eremitas foram agrupadas junto de uma fonte que ainda hoje alimenta o actual Mosteiro da Cartuxa .As primeiras Celas eram construídas com troncos de madeira à maneira de cabanas de pastores ou lenhadores . No primitivo Mosteiro apenas a Igreja foi construída em pedra. Foi consagrada pelo Bispo Hugo de Grenoble em 2 de setembro de 1085 e dedicada à Ssma.Virgem e a S.João Baptista.
Mais tarde as celas repartir-se-ão ao longo de um Claustro, muito semelhante ao dos Mosteiros Cenobitas, mas cujo papel, contudo, é diferente. A razão de ser desta distribuição tem a ver com a própria protecção do rigoroso clima. As celas ligadas pelo dito Claustro estão ligadas também pelo mesmo Claustro à Igreja do Mosteiro.
Os monges cartuxos recitam uma parte dos seus ofícios na solidão da cela e não se reúnem senão para Vésperas e Matinas. É também na cela que permanecem em oração ou estudam e lêem, que fazem os seus trabalhos manuais. As refeições são igualmente solitárias com a excepção do domingo e festas em que existe refeitório comum , bem como oração mais solene também em comum.
Os trabalhos necessários à subsistência da comunidade eram realizados por conversos (irmãos leigos) que se instalaram um pouco mais abaixo mas ainda dentro da clausura.
No Ocidente cristão esta forma de vida religiosa é uma total novidade. A sua inspiração alimenta-se especificamente nos Padres do Deserto do Oriente.
Um dos primeiros dados que sobressai quando se olha para este género de vida é que ele não tem nada em comum com o tipo de vida eremítica de um mosteiro cenobítico. S.Bruno desejava uma vida eremítica pura, com uma estrita solidão. A estrita solidão, ainda que temperada com alguma vida comunitária e a especificidade desta experiência monástica faz com que não possa ser muito numerosa.
O itinerário de S.Bruno para a solidão não acaba com a chegada ao local de Chartreuse.
Em 1085 morre o Papa Gregório VII e é nomeado Victor III que morre pouco mais tarde, em 1087.
Em Março de 1088 , numa Assembleia do Sacro Colégio reunida em Terracina, um antigo aluno de Mestre Bruno, Eudes de Châtillon é eleito Papa com o nome de Urbano II.
O pontificado de Urbano II não foi simples nem fácil. Por isso a sua preocupação em se rodear de homens íntegros cuja fidelidade à Igreja e à obra de Gregório VII já conhecia.
É neste contexto também que Urbano II chama a Roma, para serviço da Sé Apostólica, o seu antigo Mestre Bruno.
S.Bruno responde afirmativamente por se tratar da manifestação da autoridade papal. O acto de obediência de Mestre Bruno ao apelo do Papa foi sem reservas. Por amor à Igreja, e sob a autoridade papal, Bruno renuncia àquilo que tanto tempo levou a encontrar.
A passagem de Bruno por Roma também não foi fácil. Urbano tem a difícil tarefa de continuar a obra de Gregório VII. Além disso, a guerra de Henrique IV e seu “anti-papa” Clemente III contra Urbano II vai fazer com que a Cúria romana seja uma Cúria nómada.
Bruno continua a desejar a vida contemplativa. E Urbano II acaba por autorizar Bruno a retomar a vida eremítica pelo que, após renunciar ao Arcebispado de Reggio proposto pelo Papa, Mestre Bruno se retira no Sul de Itália em Calábria. O lugar onde S.Bruno se instala chama-se Santa Maria da Torre e é um enorme “deserto” situado a 850 metros de altitude, um planalto não habitado rodeado de colinas e florestas que podem, em certa medida, lembrar a Chartreuse.
S.Bruno morrerá em 6 de Outubro de 1101, com pouco mais de 70 anos, após ter pronunciado a “Profissão de Fé”. Diz a tradição que, de tanta veneração que já se tinha na Calabria por S.Bruno, os Monges tiveram de deixar exposto o cadáver três dias até o enterrar.

Efectivos
Actualmente contam-se em cerca de 500 os Monges Cartuxos existentes, estando repartidos por dezoito Mosteiros ou Cartuxas: 5 em espanha, 4 em França, 1 em Itália, na ex-Jugoslávia, na Suissa, na Alemanha, em Portugal, na Grã-Bretanha, nos Estados Unidos e Brasil.
Existem também Mosteiros cartusianos femininos. Contavam-se há alguns anos cerca de cem religiosas repartidas em cinco Mosteiros: 2 em França, 2 em Itália e um em Espanha.

Organização
Cada Mosteiro, ou Cartuxa, é dirigido por um Prior eleito em escrutínio secreto.É ele que nomeia, depois, o conselheiro, o mestre de noviços e o procurador. O governo da Ordem da Cartuxa, em geral, pertence ao Capítulo dos Priores que reúne todos os dois anos na Grande-Chartreuse, a casa-mãe. O Prior da Grande-Chartreuse é, ao mesmo tempo, o Prior Geral da ordem.
A divisa da Ordem da Cartuxa é Stat Crux dum orbis volvitur (A cruz permanece enquanto o mundo passa).

Formação
Após um tempo de discernimento, que pode durar vários anos, e um longo retiro, o aspirante é introduzido no coro dos Monges.
Segue-se o período de postulantado que pode ir de três meses a um ano, após o qual os monges em escrutínio secreto votam o acesso do candidato ao noviciado.
O noviciado dura cerca de dois anos junto do mestre de noviços para permitir uma familiarização com a espiritualidade, a liturgia a Regra e os Estatutos da Cartuxa. Após o primeiro ano inicia-se a formação doutrinal: Padres do deserto, História da Igreja, Sagrada Escritura ... tempo no fim do qual o noviço é admitido á profissão temporária pela Comunidade.
Após cinco anos dos votos temporários, e de continua formação, o candidadto é admitido à “grande profissão” e faz promessa de “estabilidade”, “obediência” e “conversão total”.

Hábito e regime alimentar
A única refeição quente do dia é tomada ao meio dia. Em cada cela é deixado pelos irmãos da cozinha o prato contendo peixe (nunca carne), legumes, compota. À tarde são dois ovos e fruta. Esta ultima refeição é suprimida durante a Quaresma.
Os Monges da Cartuxa (Cartuxos) têm sempre o cabelo curto (cabeça mesmo quase rapada), usando alguns a barba. O seu hábito é constituído por uma grande túnica branca apertada na cintura por um cinto branco também. Por cima da túnica um grande escapulário, branco também, cujos panos da frente e detrás são ligados por duas tiras de lã.

Um dia na Cartuxa
23h45 - levantar
24h00 - Matinas do pequeno Ofício de Nª Senhora
24h15 - Laudes (na Igreja)
02h45 - Laudes de Nossa Senhora (na Cela)
06h45 - Levantar
07h00 - Angelus. Hora Prima da Nossa Senhora e do dia.
07h30 - Exercícios espirituais ( na Cela)
08h00 - Hora Tercia
08h15 - Missa Conventual
10h00 - Exercícios espirituais (na Cela)
11h15 - Hora Sexta
11h30 - Refeição (na Cela)
12h30 - Tempo livre. Arranjo da Cela e outros trabalhos (na Cela)
13h15 - Hora Nona
13h30 - Exercícios espirituais (na Cela). Algumas vezes pequenos
trabalhos de jardinagem
15h30 - Vésperas de Nª Senhora (na Cela)
15h45 - Vésperas do dia (na Igreja)
16h15 - Exercícios espirituais (na Cela)
17h15 - Pequena refeição
18h45 - Angelus. Exercícios espirituais (na Cela)´
19h15 - Completas do dia e de Nossa Senhora (na Cela)
20h00 - Descanso.


Ordem da Cartuxa em Portugal
Cartuxa de Sancta Maria Scala Coeli
Estrada de Arraiolos
7000 ÉVORA
Telef.(066) 32788.
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[1] Cf. CHARTREUX, Méditation sur la vocation cartusienne, in Paroles de Chartreux,
[2] « Quoniam precipue studium et propositum nostrum est, silentio et solitudini celle vacare, juxta illud Iheremiae, Sedebit solitarius et tacebit » GUIGO I, Consuetudines Cartusiae XIV, 5: SC 313
[3] Cf. CHARTREUX, Aux sources...II
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sábado, setembro 16, 2006


“Vocações na Igreja”


Beneditinos



A corrente espiritual representada pela Ordem de S. Bento constitui, de forma quase exclusiva, a experiência religiosa do monaquismo ocidental desde o séc. IV ao séc. XII.

Fundador: S. Bento de Núrsia (480-547)
S. Bento de Núrsia, também chamado “pai dos monges do ocidente” é conhecido pela sua regra monástica e pela sua vida. Nasceu em Itália, na região de Núrsia, no fim do séc. V (480). Em Roma inicia os seus estudos, mas rapidamente deixa a cidade e se retira na montanha, em Subiaco, onde viverá numa gruta. Assim se torna eremita até ao dia em que alguns membros de um mosteiro vizinho, tendo perdido o seu abade, lhe pedem que o suceda. A verdadeira e exigente reforma que empreende não agrada, naquele momento, aos monges, mas os seus valores tornar-se-ão em pouco tempo paradigma de toda a vida religiosa.
Retirar-se-à, mais tarde, forçadamente, para o monte Cassino onde permanecerá até à sua morte. Aí se dedica à formação de monges e à pregação.
Os escritos do Papa Gregório Magno, sobre a vida de S. Bento, relevam imensos carismas na pessoa do chamado “pai dos monges do ocidente”.
A sua Regra monástica é baseada na oração, no trabalho, e na vida comum.
O grande desenvolvimento e propagação da Regra beneditina não se deu logo após a morte de S. Bento (547), mas apenas a partir do séc. VII, altura em que, com S. Gregório Magno, se vai tornar numa verdadeira “Regra”. Os Mosteiros já existentes a essa data vão operar reformas na sua estrutura e ligar-se à Ordem de S. Bento que é tomada como modelo autêntico. No séc. X, o Mosteiro de Cluny, sob a Regra beneditina, vai ser uma grande impulsionador da reforma dos mosteiros. Opera-se neste momento, em toda a Igreja, uma tentativa de reforma eclesial. Cluny será um grande centro e imensos Mosteiros se filiarão ao Mosteiro beneditino de Cluny. Em meados do séc. XII contam-se em cerca de 1.000 os Mosteiros ligados a Cluny num totral de 10.000 monges.
Cluny atingirá, contudo, uma grandeza e um fausto que fazem colocar novamente a questão da necessidade da reforma e purificação da vida monástica comunitária. As novas correntes beneditinas aparecerão, numa tentativa de reforma, ligadas a Roberto de Molesmes, caracterizadas por um maior espírito de solidão, humildade e pobreza ao mesmo tempo que oração e trabalho.
Após a Revolução Francesa a Ordem Beneditina sofre uma grande regressão, mas logo a partir de 1800 se opera um novo renascimento.
No início do séc. XX, com o renascimento generalizado do monaquismo, a Ordem beneditina retoma muito do seu antigo vigor. Em 1955 contavam-se 11.476 monges beneditinos.

Estatutos
A Ordem de S. Bento (OSB) é uma Ordem monástica - os Beneditinos são Monges e repartem o seu tempo diário entre a oração comunitária, a oração pessoal, a leitura da Palavra e o trabalho manual ou intelectual.

Regra
A Regra da Ordem de S. Bento é a Regra de S. Bento, redigida na primeira metade do séc. VI e dividida em 73 Capítulos (existe uma edição portuguesa recente do Mosteiro de Singeverga, 1992).
A Regra de S. Bento, após catorze séculos, é ainda uma verdadeira regra de sabedoria. Vivida hoje com algumas adaptações fruto dos tempos e da renovação eclesial, ela continua, contudo, a ajudar aqueles que a abraçam livremente a caminhar para uma verdade interior e um coração dilatado no amor. A Regra diz, sobretudo, o amor a Deus e a vivência muito concreta e prática da fraternidade monástica de uma forma libertadora.
O governo da Ordem é, usando os termos da actualidade, “monárquico” e “democrático”. Existe um Abade eleito por tempo indeterminado. O Abade decide tudo, mas não sozinho, havendo decisões que têm de ser tomadas em “conselho” constituído pelo Abade, o ecónomo, o mestre de noviços, o prior, três irmãos eleitos pela comunidade do Mosteiro e três irmãos eleitos pelo Abade. Este conselho é consultado para as diversas decisões a tomar. Além disso existe o conselho de toda a comunidade, o “capítulo” que junta todos os professos.

Os Beneditinos e todos aqueles que estão relacionados à Regra de S. Bento, pronunciam e professam os votos de obediência, conversão dos costumes e estabilidade.
O grande critério para se entrar na regra de S. Bento é que “se procure Deus”. Só depois vem o aspecto comunitário - uma forma de viver e procurar Deus . Nesse sentido, a grande qualidade que se pede ao candidato a monge beneditino é que seja capaz de viver só e de viver em comunhão de uma forma equilibrada e pacífica. Alguém que não suporte a solidão e o silêncio não pode viver em comunidades monásticas porque esses são aspectos fundamentais da vida quotidiana e das regras monásticas em geral. O mesmo se diga de um carácter instável.


Um dia beneditino (exemplo)
06h00 - Levantar
06h20 - Oração comunitária de Laudes
07h00 - Tempo de solidão, pequeno almoço e “lectio divina”
09h10 - Missa
- Trabalho (manual e intelectual...)
12h30 - Oração comunitária da Hora Sexta
- Almoço
- Tempo livre
14h00 - Trabalho ...
18h30 - Oração comunitária de Vésperas e oração pessoal
19h30 - Jantar e tempo livre (Telejornal, Imprenssa, etc)
20h30 - Reuniões da Comunidade ou outros trabalhos
21h30 - Vigília (Ofício noturno)
- Descanso

Ordem Beneditina, em Portugal
- Mosteiro de Singeverga -
Roriz, 4780 SANTO TIRSO

- Priorado de Nª Sª da Assunção
Colégio de Lamego, 5100 LAMEGO

- Cela de Nª Sª da GraçaRua da Senhora do Monte, 44, 1100 LISBOA

terça-feira, setembro 12, 2006


A FORMAÇÃO DOS PADRES
- do Seminário para o Presbitério diocesano -
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Do Presbitério para o Seminário
O Seminário, lugar, tempo e experiência de formação dos novos padres, abriu novamente as suas portas. Este ano a nossa Diocese conta com quatro seminaristas no curso filosófico-teológico (em Coimbra) e mais um no Tempo Propedêutico (Leiria). Com os colegas de outras dioceses (Aveiro, Cabo Verde, Coimbra, Leiria, Portalegre – Castelo Branco) e com os formadores (Reitor, Prefeitos, Directores Espirituais) constituem no Seminário de Coimbra e no de Leiria, respectivamente, uma única comunidade de pessoas cuja finalidade e principal razão de ser é formar e preparar para o sacerdócio em Igreja.
O que define o perfil e identidade do padre é a identidade e a missão da Igreja. E sendo a Igreja, em Cristo, o sacramento ou sinal e instrumento da íntima união da humanidade com Deus e de toda a humanidade entre si, é natural que a mesma exija aos seus ministros expressões, atitudes, modos de vida que concretizem essa vocação e missão. E é natural que defina caminhos com identidade própria.
O Seminário, enquanto comunidade educativa, integra-se neste processo e está ao serviço desta finalidade. É o perfil dos padres que Deus quer na sua Igreja que determina os estilos de formação no Seminário. É por isso que, a seu modo e no seu tempo, o Seminário é a continuação na Igreja da experiência dos apóstolos que, reunidos à volta de Jesus, aprendem com Ele para serem também por Ele enviados.
E tudo começa, podemos dizer assim, na forma como nascem e se compreendem as vocações. O ritmo e dinamismo são sempre os do chamamento/resposta e, portanto, de desafio, de transformação, de crescimento, de superação.
A resposta segue-se ao chamamento. Não há oferecimento sem chamamento. E, da mesma forma que ser padre é ministério de fé, o chamamento e a resposta são uma experiência de fé. Mas, como em tudo, a fé não é uma abstracção, antes mostra a sua realidade no compromisso histórico. Quando, na experiência da fé, se comunga com Deus o fundamento da vida, a gratuidade (“eu para ti”) faz possível o “seguir-Te-ei, Senhor, para onde quer que fores … seguindo-Te não me perderei”.
É por isso que quem chega ao Seminário traz consigo a experiência de admiração deste ou daquele padre, a experiência de admiração de um presbitério nas suas acções, na sua dedicação, no amor com que acolhe e acompanha, em nome de Cristo, todos os baptizados. Ao contrário da comunhão presbiteral que desperta vocações, o individualismo pastoral resulta sempre em crise vocacional.

No Seminário. Que padres e para que Igreja ?
Um padre não pode ser tudo aquilo que a chamada opinião pública lhe pede que seja. Tem que ser muito mais! É bom que corresponda a essas expectativas mas partindo do fundamento pelo qual se fez padre e ministro da Igreja. A sua vida e ministério não são apenas uma correspondência directa às expectativas das pessoas de quem se está ao serviço e, no entanto, ao mesmo tempo, têm de as integrar. Não sendo, necessariamente, um ministério de tensão, é, contudo e sempre, um ministério de proposta, de anúncio, de desafio, de confronto, de catequese, de evangelização. Mas em nome de uma verdade maior: a de Deus que chama e quer acolher cada homem. “Convivência” e “diferença” fazem parte do seu dia a dia.
Que padres e para que Igreja? Esta interrogação, sempre oportuna, pode esconder, no entanto, uma ilusão: a de querer formar padres de um outro tempo para uma Igreja também de um outro tempo, ou seja, pessoas em abstracto para uma Igreja em abstracto. Para que hipotética Igreja do futuro estaremos nós habilitados a estabelecer o modelo de padre apropriado? E quando chegasse esse momento não estaríamos novamente fora de tempo? Mais, formar um padre é apenas ensinar-lhe um serviço concreto? Não será antes ajudá-lo a desenvolver uma atitude fundamental segundo a natureza do ministério apostólico tal como a Igreja o vive? É que formar apenas para um serviço determinado e “ocasional” não habilita nem prepara para a adaptação e reacção à evolução dos costumes e da vida. É melhor então ajudar a formar a capacidade de mudar do que fixar pessoas em tarefas que, dez anos mais tarde, se manifestam obsoletas. A atitude fundamental, numa época como a nossa de mudanças rápidas e imparáveis, creio ser a de se deixar formar por Cristo desenvolvendo uma humanidade tão rica quanto possível para o serviço dos irmãos. É por isso que não existe um tipo único de padres, mas uma infinidade de dons que evoluem com o tempo e a idade. Haverá homens de estudos, homens mais contemplativos ou “retirados”, homens do contacto e da relação, homens da iniciativa prática, homens …Para serem padres é, necessário, precisamente essa atitude fundamental de receber de Cristo a sua missão (o desafio do fundamento espiritual da vida). Dizer que se recebe de Cristo significa que se recebe de Outro e não de si mesmo. E isso é verificável na capacidade de colaboração em Igreja, na aceitação dos irmãos, na aceitação de regras objectivas, na aceitação de meios de formação permanente, na aceitação da Igreja tal como ela é.
Então o desafio conjuga-se no presente. É hoje. É hoje que Cristo chama. Este é o momento em que se corresponde ou não. É o momento em que se evangeliza pelo acolhimento e proposta ou não. Hoje não temos centenas de seminaristas, hoje não se ordenam grupos de 10 ou 15 padres. É hoje que, pela atitude, é preciso concretizar a proposta.
O Seminário aparece então como um primeiro passo específico numa longa caminhada de atenção e disponibilidade à vontade de Deus. A sabedoria da Igreja, longa de séculos, assume a experiência da vida comunitária como meio de formação. É o tempo em que cada um se descobre mais a si e descobre os outros. A partilha e o “confronto” não são apenas um método psicológico, são a experiência que faz chegar à profundidade do coração.

Do Seminário para o Presbitério
Um Seminário, comunidade formativa, é sempre um presbitério (o conjunto dos padres com o seu Bispo) em gestação. A Igreja, aliás, toda ela, é fundamentalmente um mistério de comunhão.
Cada seminarista, portanto, não se prepara sozinho para ser padre sozinho, mas prepara-se, desde já, no horizonte do presbitério diocesano. Quando é ordenado padre é recebido como irmão pelos outros padres e acolhe-os no mesmo dinamismo fraterno. O Seminário é, por isso, escola de presbitério. É uma fraternidade sacramental mais do que uma simples pertença comum. Por isso o Decreto conciliar sobre O Ministério e a Vida dos Sacerdotes exorta os padres mais experientes a que recebam os mais novos como irmãos e os ajudem nos seus primeiros empreendimentos e encargos do ministério; esforcem-se por compreender a sua mentalidade, embora diferente, e ajudem com benevolência as suas iniciativas. Do mesmo modo, os mais jovens reverenciem a idade e experiência dos mais velhos, aconselhem-se com eles, colaborem de bom grado (PO 8).
As novas situações fazem despertar novas maneiras de estar e viver em Igreja. E no acolhimento em presbitério continua gradualmente a formação de cada padre iniciada no seminário. É melhor preparar para ser capaz de reagir em qualquer momento e circunstância do que preparar para reagir apenas a uma situação. Para preparar o futuro, o essencial é transmitir àqueles que o vão viver a coragem da verdade e do amor.
Os jovens que hoje são ordenados padres não estão livres de defeitos e fraquezas. Mas possuem também imensas qualidades. Eles sabem-no ou descobrem-no durante a formação.
Seria uma ilusão pensar que poderíamos ter, ao sair do seminário, padres perfeitos, com “certificado de garantia” para uns quantos anos. Por isso o desafio é sempre o de vivificar e optimizar a capacidade de responder ao chamamento de Deus com os meios de Deus. A formação permanente é um trabalho contínuo que deve ajudar cada um a reconhecer as suas fraquezas e as graças recebidas, a identificar os meios que Deus concede para trabalhar na correcção das faltas e purificação dos pecados, a ver e contemplar os lugares de alimento para o caminho a que é chamado. É muito mais do que um “emprego”.
Cada padre realiza o ministério de Jesus Cristo no meio do Corpo eclesial. É pela sua boca e pela sua vida que Jesus diz: Este é o meu Corpo entregue por vós. Mas quando o diz não fala apenas em lugar de Jesus, di-lo com a sua própria vida, fala na primeira pessoa. Cristo diz-Se pela sua boca e entrega-Se pelas suas mãos. O padre é, portanto, testemunha de uma unidade e de uma entrega cuja medida não é o seu gosto pessoal, nem as suas paixões, nem as suas ideias, mas sim aquela que Cristo quer. Como dirá S. Bernardo, a única medida do amor é não ter medida.


P. Emanuel Matos Silva

Vocações que Deus nos dá

O realismo da fé cristã

A fé é impressionantemente realista. E somos nós que, muitas vezes e por muitos motivos, a fazemos uma mera abstracção ou um conjunto de abstracções. Retiramos-lhe a consequência. Diz Madeleine Delbrel que fazemos da fé, muitas vezes, uma simples arte … abstracta de viver, uma teoria filosófica ou um sistema de pensamento, construímos ideias acerca da fé ou temos dela uma ideia. Ora a fé é uma ciência prática: é o saber construir a vida hoje, aqui. E, muitas vezes, enganamo-nos acerca dela: não há fé em estado puro; a fé é para um homem, para uma vida de homem, para dedicar esta vida de homem, em Cristo, à salvação de todos os homens; para dedicar esta vida de homem, em Igreja, à salvação do mundo inteiro […] A fé está no tempo e para o tempo, o tempo onde acontece esta vida do homem […] A vida que a fé transforma por dentro é uma vida que manifesta e realiza o amor de Deus, que mostra o amor de Deus como uma árvore mostra os seus frutos, onde os dois mandamentos (amar a Deus e aos outros) são inseparáveis, indivizíveis[1].
O aparecimento do Cristianismo, ao nível da vida religiosa, ao nível das sociedades, ao nível das culturas, trouxe sempre consigo o irromper de um pequeno grupo extraordinariamente vivo, criativo e virulento de novidade[2]. O testemunho das primeiras comunidades surpreende e fascina sempre. A irrupção do Cristianismo renovou interiormente homens e mulheres de todos os tempos, deu-lhes um novo Espírito (Rom 7, 6) que transforma a sua forma de pensar e viver e, sobretudo, os faz membros de uma nova comunidade na qual vivem de acordo com o mandamento novo (Jo 13, 34). A novidade cristã leva os discípulos de Jesus de todos os tempos a viver uma “vida nova” que origina novas formas de vida quotidiana: comunidades de irmãos em Cristo, comunidades que se caracterizam pela alegria, pela esperança, por novas relações entre os seus membros, por um novo olhar e nova perspectiva sobre o mundo, sobre a vida e sobre a própria morte[3]. E hoje, quando nos baptizamos e, depois, casamos ou somos ordenados padres, entramos nesta comunidade e continuidade. Será uma abstracção?

Novidade do Cristianismo e envelhecimento da Igreja ?

Não é estranho, diante da novidade do Cristianismo, que ouçamos perguntar a Paulo: “Podemos saber que doutrina nova é esta que nos expões?” (Rom 6, 4; 1 Tes 4, 13). Já de Jesus muitos contemporâneos tinham dito: “Eis aqui uma nova doutrina” (Mc 1, 27). Com vinte séculos de história o nosso Cristianismo não é, portanto, um Cristianismo fatigado. E num Cristianismo que não está fatigado, a Igreja é memória e é profecia. Mas existe sempre uma condição: que a Igreja, comunidade e cada um dos seus membros, saiba alimentar-se sempre do seu núcleo: Jesus Cristo. É que os cristãos não se produzem nem propagam por clonagem.
Por isso, a Igreja só envelhecerá se muitas das suas estruturas, em vez de anunciarem e presencializarem Jesus Cristo, O ocultarem. Só envelhecerá se faltar nela a transmissão da fé que faz dos pais e das famílias os primeiros comprometidos na vida dos filhos. Só envelhecerá se um dia persistir em tornar-se alheia aos outros. Só envelhecerá se deixar de se evangelizar a si mesma. Só envelhecerá se não tiver capacidade de acreditar primeiro no que anuncia como vida. Só envelhecerá se não for capaz de transmitir a fé como o melhor da vida. Só envelhecerá se se resumir a um “emprego”.
É interessante que, quando Jesus diz aos seus discípulos que são Luz do mundo (Mt 6, 1 -17), Jesus não lhes diz que devem tentar ser vistos pelos homens. Jesus diz-lhes claramente que eles (discípulos) são essa luz que não pode ficar fechada. Jesus não pede, de facto, que saibamos atrair as atenções sobre nós. O que Jesus diz é que: “se fizerdes o que vos mando, sereis vistos pelos homens quer queirais, quer não”. A visibilidade da Igreja pertence à sua própria essência[4]: ela constitui-se do que Jesus “manda” enquanto descoberto e afirmado como possível de viver.
A Igreja só envelhecerá se der o melhor da sua vida à “fobia” de “fazer coisas” sem dar atenção à razão pela qual as faz. Só envelhecerá se continuar a fazer coisas simplesmente “porque sempre se fez assim”. Só envelhecerá se no meio da actual, e muitas vezes justificada dispersão, enveredar pelo caminho da dissimulação.
O Cristianismo é uma vocação extremamente exigente. E hoje toda a gente está cansada das coisas que não valem nada, das graças baratas. Com vinte séculos de história o nosso Cristianismo não é um Cristianismo envelhecido. Amadurece. E porque maduro, é capaz de rir de si mesmo e ultrapassar as dificuldades.

Padres: servidores do baptismo

Servir o baptismo não é fazer numericamente muitos baptismos. Ser servidor do baptismo dos outros é entregar a vida – o que somos e fazemos - para que a fé dos outros (comunidade crente e os não crentes) conheça mais e melhor a Jesus Cristo. É ajudar na descoberta e no encontro de Jesus, na percepção do seu Espírito, no acolhimento da sua Palavra e da sua novidade de vida. Ser servidor do baptismo de alguém é, através dos “instrumentos adequados”, servir e dinamizar a sua vivência cristã da fé. E a Igreja tem muitos “instrumentos adequados”: procura da vontade de Deus como critério de projecto e leitura do itinerário pessoal; acompanhamento espiritual regular; formação espiritual e teológica permanente; celebração frequente da reconciliação; projecto pessoal de vida; recolecções e retiro; experiência da oração pessoal quotidiana num dinamismo de verdadeiro e real encontro com a Palavra de Deus em Jesus Cristo que se expressa na vitalidade espiritual; harmonia da personalidade expressa na unidade e no sentido da vida; inteligência da fé que se expressa na humildade, na simplicidade, na dimensão contemplativa da vida, no gosto do saber teológico e teologal para uma capacitação da representação ministerial de Cristo; participação diária na oração comunitária como expressão da comunhão na Igreja e da capacidade de vida em Igreja e para a Igreja; participação viva na(s) Eucaristia(s) diária(s) como fundamento e centro do dia, memorial da morte e ressurreição do Senhor Jesus e expressão da total identificação com Ele e com o seu ministério de dar a vida; idoneidade para o ministério diocesano que se manifesta no amor à Igreja local (Diocese), na referência ao Bispo diocesano e seu presbitério, na comunhão sincera com as linhas pastorais de acção e compromisso, da dedicação ao povo de Deus, na obediência responsável, na comunhão madura com as dificuldades; liberdade afectiva que se manifesta na assunção da própria realidade corpórea e no facto de assumir livre e alegremente um caminho real de castidade que se consagrará no celibato como experiência do dom total de si a Deus e à Igreja; docilidade educativa que se manifesta na liberdade individual, na lealdade eclesial, na transparência das relações pessoais; consciência pastoral do ministério e nunca concepção individualista ou honorífica, etc.Trazemos em vasos de barro o tesouro do nosso ministério, para sabermos que um dinamismo tão sublime vem de Deus e não de nós diz S. Paulo aos Coríntios (2 Cor 4, 7). E por isso talvez Santo Agostinho exclama com tanta força: Hei-de reconduzir quem se extravia, hei-de procurar quem anda perdido. Quer queiras quer não, é isso que farei. E ainda que ao procurar-te os espinhos e as silvas me rasguem a pele, passarei pelas veredas mais estreitas, saltarei todas as sebes e correrei por toda a parte, enquanto me der forças o Senhor (Sermão sobre Os Pastores). A fé é impressionantemente realista. É a vida. E compromete a vida. Vamos rezar pelas vocações ( … muitas e santas … como nos habituamos a dizer). Vamos rezar pelos padres.
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[1] Madeleine Delbrel, La joie de croire (Paris: Seuil, 1968) 177.
[2] Cf. Juan Martin VELASCO, La transmission de la fé en la sociedad contemporânea (Santander: Sal Terrae, 2002) 13.
[3] Cf. Ibid.
[4] Cf. J. KESEL, op. cit 10.
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segunda-feira, setembro 11, 2006


A outra face


O preceito evangélico de dar outra face (Mt 5, 39) tem, no caso da celebração da Eucaristia, um horizonte extraordinário de integração. Dar a outra face não significa, literalmente, voltar o rosto para alguém bater outra vez.
Sendo um preceito evangélico, dar a outra face, resume a totalidade da vida de Cristo: reagiu ao ódio com amor, toda a sua vida foi uma entrega, venceu a morte com o amor. Se a Eucaristia é a síntese do mistério de Cristo, então nela se encontra a raiz da capacidade de dar a outra face.
É precisamente neste sentido que dar a outra face é mostrar a outra perspectiva, outra face de leitura e perspectiva do mesmo problema. É mostrar a perspectiva válida e correcta da vida, a perspectiva bela e que entusiasma, a perspectiva interior e mais verdadeira, aquela que dá e realiza felicidade.
E se os cristãos fossemos capazes de dar a outra face da Eucaristia: a força que dela brota para enfrentar a vida quotidiana sem desfalecer, a capacidade para não desistir de realizar o projecto de Deus na nossa vida ?
Dar a outra face é, diante de alguém que está na escuridão, acender uma luz e dar-se ao trabalho de a acender. É, quando alguém está em desespero, acenar com a luz e o testemunho da esperança. É, no meio da secura e frieza das relações, mostrar e testemunhar a fecundidade do afecto. É, no meio da crítica azeda, oferecer uma palavra de optimismo e compreensão. É quando alguém caminha sem rumo, revelar os passos que conduzem a um porto seguro. É quando ninguém quiser saber de nada pela indiferença, ousar preocupar-se e comprometer-se. É quando estivermos diante de angustiados, mostrar o caminho do conforto como paz.
S. Francisco de Assis resumiu-o bem quando, rezando, pedia: onde houver ódio que eu leve o amor; onde houver ofensa que eu leve o perdão; onde houver discórdia que eu leve a união; onde houver dúvidas que eu leve a fé; onde houver erros que eu leve a verdade; onde houver desespero que eu leve a esperança; onde houver tristeza que eu leve a alegria; onde houver trevas que eu leve a luz…

Somos eucarísticos porque somos cristãos: vivemos em entrega e em gratidão. E a Eucaristia – partindo de Jesus Cristo - é o modelo, o meio, a ocasião, a experiência e a força do desprendimento que nos faz possível essa entrega e gratidão.
Por isso a relação da Eucaristia à nossa caridade, à nossa chamada santidade, à nossa justiça e verdade, ao nosso amor e capacidade de perdão, à nossa bondade.

A Eucaristia, comunhão com Jesus Cristo, é bem a força desta vida. Poderíamos dar aos nossos contemporâneos a outra face da Eucaristia. E poderíamos, antes e todos os dias, dar a outra face da Eucaristia a nós próprios.
Será, sem dúvida, esse o único ritmo e essa a única linguagem que os apaixonará pela vida de Jesus Cristo e nos colocará a todos em comunhão. Como tudo seria diferente se todas as nossas opções e decisões, projectos e realizações partissem daqui, da Eucaristia onde se ganha força para … dar a outra face.

terça-feira, setembro 05, 2006


Senhor Jesus Cristo,
estou aqui, neste momento, diante de Ti
para pensar um pouco na vida, nos outros, em mim,
em tantas coisas que me dão volta à cabeça e que não consigo entender sobre Ti,

sobre o mundo, sobre mim mesmo.
Queria fazer grandes coisas por Ti, pelos homens,
para que a minha passagem pela história não fosse em vão.


Eu sei que em Ti está a Vida e a Verdade,
e, por isso, venho beber na única Fonte
capaz de apagar a minha sede
de verdade, de bondade, de beleza.


Hoje quero pedir-Te, de modo especial,
por aqueles jovens como eu
que percebem no interior do seu coração
o teu chamamento ao sacerdócio ou à vida consagrada.
Não deve ser fácil para eles deixar tudo para Te seguir.
Deve custar-lhes deixar a sua família, os seus noivos,
as suas noivas, os seus amigos ... Mas eu
compreendo perfeitamente aqueles que
são capazes de deixar tudo te seguir.
Porque Tu és o tesouro pelo qual vale bem
a pena deixar tudo para não Te perder.
Eles irão pelo mundo pregando o teu Evangelho,
suavizando com a tua Palavra a amargura de muitas vidas humanas,
dando um pouco de esperança a tantos homens e mulheres,
aos milhares de jovens que vivem sem esperança,
sem transcendência, sem amor verdadeiro.
Eles irão derramando por esse mundo, que parece condenado à amargura e ao ódio, o perfume da tua mensagem de alegria, de paz e de esperança.
Irão consolando os tristes,
fortalecendo os fracos, derramando graça e perdão.
Até sinto “inveja” deles. Eu não sei o que responderia
se sentisse o teu chamamento.


A única coisa que Te pediria nesse momento é o que Te peço
por todos aqueles jovens que agora escutam o teu chamamento:
generosidade, valor, audácia e fé.


Verdadeiramente Tu és capaz
de preencher uma vida , de lhe dar sentido, de a fazer frutificar.


Dá-nos sacerdotes segundo o teu coração.

Move os corações de muitos jovens para que não vacilem
em deixar tudo, as suas redes, quando Tu,
colocando sobre eles o teu olhar, te detenhas na margem do rio das suas vidas, pronuncies os seus nomes, cravados no teu coração desde sempre, e com a tua palavra poderosa que criou os céus
lhes digas com firme suavidade:


Segue-me”.

segunda-feira, setembro 04, 2006




Cinco características da vocação
1. Cristo chama ao seu seguimento homens e mulheres livres, responsáveis e decididos. Entrar num Mosteiro, numa Congregação, num Seminário, deve ser uma decisão de adulto "eu quero!". Nas condições do mundo actual esta liberdade de adulto não se adquire ordinariamente senão através de alguns anos durante os quais houve a possibilidade de experimentar a sua vida cristã no mundo. Com prudência, evidentemente.

2. Para permanecer livre e progredir, é tão necessário evitar dispersar-se ou correr atrás de tudo sem importar o quê, como fechar-se numa certeza prematura. É igualmente necessário ser prudente nas amizades e prudente quanto à frequência de Mosteiros ou Casas religiosas. Uma coisa é fazer um bom retiro anual num lugar conhecido e amado; uma outra coisa é, por exemplo, precipitar-se permanentemente nos Cartuxos ou Carmelitas sem os conhecer, ou então passar aí todos os tempos livres. Enquanto uma decisão não está tomada, é necessário ser fiel à condição presente.

3. Enquanto não veio o tempo da "veemência" de um chamamento preciso, concreto, o reconhecimento do seu lugar próprio, ou quando se começa com tergiversações (hesitações) e argumentações interiores prolongadas "um dia é sim, outro dia é não", é sinal de que é preciso perseverar na oração e prosseguir o seu próprio caminho.

4. Deus não é apressado. Gosta de ter tempo. Jesus não ficou quase incógnito trinta anos, e não teve apenas três anos de vida apostólica ? Por isso não é raro que seja precisa uma longa maturação antes de definir as coisas. Paciência.
Às vezes pensamos que, em virtude da urgência dos tempos, é preciso ir mais depressa. Talvez, mas nunca mais depressa do que Deus. A urgência dos tempos é certamente um desafio a por a questão com mais insistência e a rezar com mais constância ao Senhor da Messe .
Não correr tudo e todos os lugares religiosos e permanecer seguro que Deus saberá dar-nos os sinais necessários para ver claro.

5. Os contactos regulares com um acompanhante espiritual poderão ajudar nos discernimentos sucessivos. Ele será uma testemunha privilegiada que assinalará as falsas pistas e encorajará ao longo da caminhada.



Cinco critérios essenciais para uma vocação

1. Chamamento intenso, regular, duradoiro.
Depois de a "Fonte que murmura em meu coração: vem para o Pai" (Sto. Inácio de Antioquia) até ao imperativo "segue-Me", há todas as variantes possíveis. Mas existe sempre esta inclinação que persiste, este impulso (ardor) forte e tenaz que, na luz de Deus, faz colocar a questão: "Para que lado pende o meu coração ?".

2. Aptidão física proporcional à vocação.
Quando Deus confia uma missão, ela é proporcional às aptidões daquele (daquela) que a recebe. Ele conhece-nos melhor que nós próprios. Por isso não pedirá o impossível, mesmo pedindo que progridamos. É necessário aceitar humildemente a sua natureza e a sua saúde.

3. Aptidão intelectual
Não se trata apenas de uma questão de cultura ou de aptidão para os estudos. Não se é chamado apenas por esses qualidades intelectuais. Trata-se da inteligência do coração e do bom senso, como dizia o Santo Cura d'Ars "Ter os pés na terra e a cabeça no Céu".

4. Aptidão moral
Não se trata aqui de um concurso de virtudes (quais seriam os critérios e as normas ?). Trata-se sim da maturidade do carácter e da vontade. Maturidade afectiva e sensível, aptidão para a amizade, equilíbrio alegre e pacificado na continência e na castidade. Deus ama aqueles que não têm medo de si mesmos, medo dos outros ou medo do mundo.
Esta maturidade é fruto de uma verdadeira conquista: "O Reino de Deus sofre violência e são os violentos os que nele entram ...".

5. Chamamento da Igreja
Confirmação, ratificação por um (a) superior (a) ou por um Bispo que chama em nome de Cristo. Não se encontra sempre a sua vida á primeira.

(inspirado num artigo do Padre François Pottez)










Jesus Cristo
- Homem Novo para renovar o homem -
- V -
8. E como é que sabes? Tens a certeza? Tens?
- Critérios / argumentos da historicidade de frases e factos -
A partir de tudo o que ficou dito muito se discutiu sobre a possibilidade de confirmar afirmações, acções, factos na vida e na história de Jesus. Os critérios/argumentos que paulatinamente se foram elaborando não são receitas infalíveis mas têm a vantagem de sistematizar os diversos argumentos que intervêm num debate científico sobre a realidade e, dessa forma, podem ajudar a ler o “real” e o que se diz dele.
Podem indicar-se muitos critérios. A teologia hoje trabalha muito de perto com as ciências humanas e os métodos histórico-críticos. Mas, evidentemente, não pode fechar a porta apenas segura dessas ciências ou métodos já que a fé e o saber se relacionam, desafiam e fundamentam reciprocamente[1].
Eis então os cinco critérios mais utilizados:

1º) Uau! Nunca tinha visto nada disto!
– A originalidade radical –
Chamado critério da “falta de semelhança”, o critério da originalidade radical é extremamente simples: procede de Jesus tudo aquilo que nos Evangelhos e tradições cristãs não se deixar verificar como vindo de outra fonte (por exemplo o Judaísmo do séc. I ou do Cristianismo nascente). Resumindo, virá de Jesus (palavras, gestos e ensinamentos) tudo aquilo que já não é judaico e ainda não é cristão. Este critério supõe três hipóteses: um bom conhecimento do mundo judaico da época de Jesus; um bom conhecimento da Igreja primitiva; a “falta de criatividade” por parte dos discípulos de Jesus. Por isso é um critérioa usar com muito cuidado.

2º) Isso não se inventa
- A dissonância eclesiástica –
É, de certa forma, uma variante do critério anterior. E é muito simples: é difícil conceber que a comunidade cristã primitiva pudesse inventar coisas que a pusessem em dificuldades a ela própria. Por exemplo, se não fosse verdade, porquê dizer que no grupo de Jesus havia Judas, um traidor? Ou então porquê dizer que Jesus recebeu o baptismo de João Baptista se esse baptismo, diz o mesmo texto, era um baptismo para arrependimento dos pecados? Seria Jesus um pecador segundo a comunidade primitiva? Ou o que significaria a afirmação de que Jesus era um “comilão e um ébrio, amigo de publicanos e pecadores” (Lc 7, 34).

3º) Toda gente diz
- O testemunho múltiplo –
Este critério significa que quanto mais está testemunhado um elemento por fontes independentes entre si ou, mais vagamente, por correntes tradicionais independentes, maior é a probabilidade da sua antiguidade. O testemunho múltiplo é válido igualmente no estudo das formas literárias. Quando um elemento é citado apenas por uma tradição, a probabilidade da sua antiguidade é menor. Quando o testemunho é múltiplo, mesmo que tenha assumido diferentes formas de ser dito, é um critério de afirmação da historicidade. Sabemos que existem fontes diversas nos Evangelhos, sabemos que estão misturadas e sabemos, inclusive, que citam elementos comuns. Tanto é assim que existem três Evangelhos chamados “Sinópticos” por isso mesmo.

4º) És sempre o mesmo
- A coerência –
Uma vez que foi possível, através dos critérios anteriores, estabelecer que algumas palavras e acções reportam de facto a Jesus (se não na forma, pelo menos na substância) é também possível traçar uma imagem de conjunto do ministério de Jesus: é possível identificar as linhas fundamentais da sua mensagem bem como as diferenças em relação à sua acção. Se um elemento se integra devidamente nesta imagem de conjunto é porque a sua historicidade é provável e pode ser considerado autêntico. Se o elemento não está coerentemente encadeado e relacionado aos restantes elementos a sua autenticidade pode ser posta em causa. É um critério que se impõe por simplicidade e evidência.

5º) Fia-te … e corre
- A fiabilidade histórica –
Por fiabilidade histórica não se entende um critério particular mas sim um conjunto de argumentos ou critérios. Todo o historiador remonta dos efeitos às causas, procura as explicações necessárias e suficientes para os fenómenos. No nosso caso o critério aplica-se quando nos interrogamos pela continuidade entre o movimento de ideias e comportamentos gerados por Jesus e o cristianismo nascente. Este é o processo que faz uma leitura retrospectiva: da comunidade cristã até Jesus Cristo, sua origem. E é aí que a história, seus contextos e horizontes, joga um papel importante. Jesus é um Judeu do séc. I. Nenhum historiador discutiria este facto. Mas faz com que não se possam atribuir a Jesus gestos e acções incompatíveis com essa condição.
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[1] Cf. Jacques SCHLOSSER, Jesus, el profeta de Galileia (Salamanca: Sígueme, 2005) 67.
Jesus Cristo
- Homem Novo para renovar o homem -
- IV -

5. Já sabes quem és ou é preciso dizer-te?
- Jesus revela-Se revelando ao homem a sua própria verdade -
Em todos estes exemplos vivos de Jesus vemos como Jesus se comporta não apenas como verdadeiro homem, mas também como um homem verdadeiro, alguém que realiza totalmente a sua vocação de homem. Neste sentido, olhando para a sua vida, podemos dizer que Jesus é a verdade do homem na medida em que Ele revela aquilo que cada pessoa é e o que pode vir a ser.
Evidentemente que a vida terrestre de Jesus tem como finalidade revelar o mistério de Deus. Mas essa revelação do mistério de Deus acontece na revelação do homem a si mesmo. E é por isso que a primeira coisa que os relatos evangélicos nos convidam a fazer é a saber se podemos aderir a um testemunho que nos revela toda a profundidade do ser humano. É esse o sentido da encarnação de Jesus. E é como homem que, num primeiro momento, O devemos acolher, um homem cuja palavra e comportamento nos atingiu n o mais íntimo de nós mesmo para nos compreendermos melhor e nos deixarmos conduzir a Deus. Foi isso que Jesus fez ao querer partilhar as situações normais da vida humana.

E em que consiste a verdade deste homem que Jesus nos revela ? Podíamos resumi-la neste termo: para. Jesus é um homem que vive para os outros. Para os outros, homens, seus irmãos e para o Outro, Deus seu Pai. Toda a sua vida tem este grande horizonte: nenhum traço de egoísmo ou de fechamento sobre si mesmo, mas uma inteira disponibilidade e entrega pelos outros e a Deus. E é neste viver para os outros que Jesus Se vai revelando mais do que um simples homem. Há n’Ele mais do que em Jonas ou em Salomão. É este mais que é significativo no Evangelho. Em Jesus a sua única existência reenvia ao ser do homem e ao ser de Deus. Jesus é Deus e é homem.

É desta forma que o seu testemunho é credível. As respostas que traz o acontecimento da revelação não são significativas senão enquanto estão em correlação com as questões que dizem respeito ao conjunto da nossa existência. Apenas aqueles que viveram por experiência o choque do transitório, a ansiedade que vem da consciência da finitude, a ameaça do não-ser, podem compreender o que significa a noção de Deus. Apenas os que fizeram a experiência das ambiguidades trágicas da nossa existência histórica e que colocam totalmente a questão do significado da sua existência, podem compreender o que significa o Reino de Deus[1].

6. A vida não são só palavras e intenções
- Paixão e a Cruz de Jesus -
O sentido da vida e o sentido da morte são um todo (uma unidade). A maneira de morrer sela e perpetua, muitas vezes, o sentido de uma existência. Então podemos dizer que enquanto Jesus não enfrentou esta experiência suprema, o sentido definitivo da sua vida, das suas palavras e das suas acções, ainda estava incompleto.
Como é que Jesus entendeu e viveu a morte? Que sentido lhe atribuiu? Certamente que Jesus contou com uma morte violenta. A experiência do seu ministério e a vaga de oposição que provocou devem ter-Lhe dado essa consciência de que uma morte violenta estava iminente.
É importante afirmar, desde já, que neste contexto, a iminência da morte não surgia a Jesus apenas como uma eventualidade, mas sim como uma realidade a que Jesus atribuía um sentido de verdade em estreita relação com a sua missão.
Em todo o contexto da vida e missão de Jesus, a paixão é o grande momento de verdade de Jesus: a sua atitude fundamental de Dom-de-si-mesmo conduz Jesus à aceitação da morte como evidência dessa verdade. Estamos então, de novo, diante desta grande marca da existência de Jesus que é a de ser uma existência-para…, uma pro-existência. E essa é, de facto, a realidade que dá sentido à morte de Jesus: uma existência para o Pai e para os irmãos (lei na vida e lei na morte). Um Jesus que viveu para e por vai morrer igualmente para e por.
É-nos possível perceber ainda melhor o sentido que Jesus deu à sua morte se tivermos presente a cena evangélica da instituição da Eucaristia. Por este gesto não-habitual Jesus dá a este cálice o valor de um Dom pessoal que é feito aos seus [...]: o pão partido e partilhado é o corpo entregue; o cálice que circula de mão em mão é a Nova Aliança no Sangue[2]. Jesus estabelece, portanto uma relação entre a sua morte próxima e este pão e este vinho. O corpo não é apenas algo material, mas é a unidade da própria pessoa. Esta é a expressão do Dom da sua vida que Jesus faz. Então a morte de Jesus é um Dom de si mesmo: Dom do amor, mais forte que a morte e Dom da comunhão. Jesus morre na acção de graças ao Pai e na partilha de si com os seus.

7. Esperar para além dos nossos limites – a única esperança que vale
- A Ressurreição de Jesus -
Para completar o caminho que vai de Jesus pré-pascal ao Cristo pascal temos de abordar a ressurreição e a experiência pascal dos discípulos. A ressurreição de Jesus está no coração da fé cristã como o estão a paixão e a cruz. Define-se mesmo o cristão como aquele que acredita em Jesus ressuscitado de entre os mortos.
Os Evangelhos mudam de tom quando falam da ressurreição de Jesus. Enquanto a paixão, crucifixão e morte de Jesus foram públicas, a ressurreição encontra-se atestada quase de maneira confidencial. Jesus manifesta-se aos discípulos – homens e mulheres - que já O conheciam. O anúncio público da ressurreição é, só depois, obra destes mesmos discípulos que falam em nome da fé. Reconheceram Jesus ressuscitado não apenas com os olhos do corpo, mas com os olhos da fé. E este é um testemunho original. Jesus manifesta-Se-lhes como o mesmo, Aquele que eles conheceram e agora “reconhecem”, mas sob uma outra forma na medida em que o modo de comunicação que os discípulos têm com Jesus mudou completamente. Há novidade e há continuidade. A sua presença vem do mundo divino, do mundo de Deus. E, por isso, só pode ser reconhecida neste âmbito. A ressurreição afirma, sobretudo, a chegada e presença dos tempos definitivos e plenos. Jesus é o primeiro a ressuscitar e a sua ressurreição afirma-se como sucesso, como plenitude e sentido de uma viva e de uma verdade. Por isso a sua ressurreição não significa um regresso à vida anterior, mas significa sim uma superação da limitação da existência histórica espacio-temporal. Jesus não regressa á corruptibilidade, vence-a definitivamente.

É desta forma que, no Jesus que os discípulos reconhecem, se revela definitiva e insuperavelmente Quem é Deus: para lá descontinuidade histórica que a morte provocou, persiste uma continuidade da presença de Jesus Cristo. A ressurreição assume assim o carácter de confirmação definitiva da pessoa e obra de Jesus: é a unidade íntima de um acontecimento histórico e de fé.

A decisão pró ou contra ressurreição e da fé pascal não se refere então a determinados sucessos maravilhosos, mas equivale sim a saber se se está decidido a contemplar a realidade a partir de Deus e a confiar-se a Deus na vida e na morte. E essa decisão significa responder à questão sobre se alguém pensa viver apenas a partir de si mesmo, das suas possibilidades, ou se, ao contrário, tem coragem e ousadia para viver a partir d’Aquele que não se pode manipular, que não se pode possuir.
A fé pascal é, portanto, um ataque a todas as concepções de mundo fechado sobre si mesmo e absolutizado em si próprio sem deixar espaço às possibilidades criadoras de Deus e do homem renovado.
E, de facto, a fenomenologia da esperança mostra-nos que pertence à natureza do ser humano o esperar para além da morte. Esta interrogação traduz-se em esperanças que levam o homem para lá da morte num outro modo de existência. Recapitulando todos os limites e contradições da sua condição trágica e dramática, o homem sente e vive de uma necessidade radical de salvação: ser salvo é viver, viver todo, inteiro, viver absolutamente. Por isso, e voltando um pouco atrás, Jesus não é reconhecido por uma simples percepção sensorial mas pela fé e pelas palavras que explicam o sentido das Escrituras e da esperança humana – a ressurreição não poderia converter aqueles que não conheciam a Jesus e não estivessem preparados (avisados) para O receber.
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[1] Paul TILLICH, Théologie Systematique, 127.
[2] Bernard SESBOUÉ, op. cit.