domingo, abril 01, 2007




Páscoa
- Jesus não está morto -
(Jo 20, 1- 18)


Do Mistério Pascal nunca se diz o suficiente. Mistério Pascal não é apenas uma ideia, uma doutrina ou uma espécie de lei ou instituição. O Mistério Pascal tem o seu núcleo na Pessoa de Jesus Cristo, morto e ressuscitado.
É como nos diz o Papa Bento XVI, no início da fé não está uma teoria ou uma decisão ética, mas um encontro com uma Pessoa, Jesus Cristo.


1 No primeiro dia da semana, Maria Madalena foi ao túmulo de Jesus bem de madrugada, quando ainda estava escuro. Ela viu que a pedra tinha sido retirada do túmulo. 2 Então saiu a correr e foi ter com Simão Pedro e o outro discípulo que Jesus amava. E disse-lhes: «Tiraram do túmulo o Senhor e não sabemos onde O colocaram».3 Então Pedro e o outro discípulo saíram e foram ao túmulo. 4 Os dois corriam juntos. Mas o outro discípulo correu mais depressa do que Pedro e chegou primeiro ao túmulo. 5 Inclinando-se, viu os panos de linho no chão, mas não entrou. 6 Então Pedro, que vinha atrás, chegou também e entrou no túmulo. Viu os panos de linho estendidos no chão 7 e o sudário que tinha sido usado para cobrir a cabeça de Jesus. Mas o sudário não estava, com os panos de linho, no chão; estava enrolado num lugar à parte 8 Então o outro discípulo, que tinha chegado primeiro ao túmulo, entrou também. Ele viu e acreditou. 9 De facto, ainda não tinham compreendido a Escritura que diz: «Ele deve ressuscitar dos mortos». 10 Os discípulos, então, voltaram para
casa.
11 Maria tinha ficado fora, a chorar junto ao túmulo. Enquanto ainda chorava, inclinou-se e olhou para dentro do túmulo. 12 Viu então dois anjos vestidos de branco, sentados onde o corpo de Jesus tinha sido colocado, um à cabeceira e outro aos pés. 13 Então os anjos perguntaram: «Mulher, porque choras?» Ela respondeu: «Porque levaram o meu Senhor e não sei onde O colocaram».14 Depois de dizer isto, Maria virou-se e viu Jesus de pé; mas não sabia que era Jesus. 15 E Jesus perguntou: «Mulher, porque choras? Quem procuras?» Maria pensou que fosse o jardineiro e disse: «Se foste tu que O levaste, diz-me onde O puseste para eu ir buscá-l'O». 16 Então Jesus disse: «Maria». Ela virou-se e
exclamou em hebraico: «Rabuni!» (que quer dizer: Mestre). 17 Jesus disse: «Não Me segures, porque ainda não voltei para o Pai. Mas vai dizer aos meus irmãos: "Subo para junto de meu Pai, que é vosso Pai, de meu Deus, que é o vosso Deus"». 18 Então Maria Madalena foi e anunciou aos discípulos: «Eu vi o Senhor». E contou o que Jesus tinha dito.




1. As aparições do Ressuscitado
As aparições do Ressuscitado, como no-las referem os evangelistas, têm todas um esquema comum:
a) uma situação de medo, de falta de fé, de tristeza.
Maria Madalena chora; os discípulos de Emaús estão tristes; os Apóstolos no Cenáculo estão cheios de medo.

b) Jesus aparece e não é reconhecido imediatamente. No entanto, Jesus pergunta, interroga e interpela: porque choras; que se passou?; Onde vais?

c) Em cada aparição produz-se uma revelação de Jesus. Maria Madalena reconhece-O quando Ele chama, os disc. Emaús, fazem-no a partir do pão, outros(João) a partir do barco no lago: “É o Senhor”

d) Conclui-se sempre com uma missão como responsabilidade. A aparição não é apenas um consolo para a pessoa a quem Jesus aparece. Jesus entrega sempre uma missão: anunciar e partilhar a alegria.

Vamos então olhar para Maria Madalena. Podemos dividir o texto em três momentos:

1) Porque choras ? Quem procuras?
Nestas duas interrogações se resume o que Jesus nos diz a cada um de nós. Jesus faz-nos sempre uma interpelação directa. Porque choras? Porque estás triste? O que te falta? O que queres que te faça ? O que temes?
E, logo de seguida, a interrogação “ O que procuras ?” que é como quem pergunta “o que estás afazer para sair dessa situação ?”.

2) “Levaram o meu Senhor e não sei onde O puseram”
Si nal da ausência de Deus como experiência de maturidade. É como quem diz “não me falta outra coisa senão Vós Senhor”.

3) “Maria foi e anunciou a seus irmãos: Vi o Senhor”
A ressurreição implica um reconhecimento. Reconhecer o Senhor na fé. Vê-l’O de outra maneira ou de outra forma.
E esse re-conhecimento é um renascimento para a vida nova que Jesus vem trazer.

2. Encontro com Jesus a caminho de Emaús (Lc 24, 13-35)
A Páscoa é tempo do reencontro do homem com Cristo. Uma relação que nem a morte foi capaz de destruir. Aquele que morrera está vivo e é reconhecido. E é a partir daqui que se desenvolve a Cristologia do Novo Testamento: da proclamação do Ressuscitado à confissão do Filho de Deus. Verdadeiramente este era o Filho de Deus como exclamou o Centurião que acompanhou a morte de Jesus.

Para os Judeus (e esse é o contexto das Escrituras) a morte possui um significado profundíssimo. É um acontecimento temporal. Morrer é expirar o último sopro (espírito), mas é também entrar na habitação dos mortos (Shéol). Por outras palavras, morrer é passar a “viver” a “vida” (existência) dos mortos. A morte pode, portanto, identificar-se com uma prisão na habitação da morte.
Esta leitura judaica da morte aplica-se à morte de Cristo: é na Cruz que Jesus morre, no preciso momento em que entrega o espírito (sopro), e “desce” à morada dos mortos.

Nesse sentido Jesus conheceu a morte em toda a sua dimensão, em toda a sua verdade. O mesmo é dizer que a morte experimentada por Cristo é o realismo da sua encarnação a acontecer. Jesus Cristo passa por tudo aquilo que passam os mortais.

Conhecer a morte com todas as suas angústias é, pois, algo não redutível às dores físicas da Cruz, ainda que intensas e destruidoras da vida biológica. Morte é muito mais. A morte não é necessariamente um lugar de tortura, mas mais um lugar de profunda desolação, de distanciamento dos homens (na medida em que já não se habita a terra) e de Deus (na medida em que possivelmente ainda não se está no “Céu”).

E quando o homem, ser de diálogo e de encontro, ser que se constituiu na relação, não está capaz de viver dessa fonte, num trágico opaco sem horizonte de saída, está a “habitar o lugar da morte”. E esse pode ser um estado prolongado ou prolongável.

É este lugar em que reina esta morte que Cristo faz a experiência de habitar. Cristo vive a vida dos homens como homem-com-os-outros-homens. Sem iludir aquilo que, realmente, é ser homem, Cristo vive esta sua vida até ao seu final na morte. Essa é a densidade da encarnação.

A Ressurreição de Cristo tem, portanto, de ser entendida a partir desta experiência de morte. Jesus não ressuscitou como se não tivesse conhecido a morte na sua totalidade. É desse lugar, lugar do poder da morte (onde a morte exerce a sua força e o seu domínio, e onde gera a incapacidade para a vida como continuidade experimentada e sofrida) que Jesus vai ser ressuscitado.

Ressuscitando, portanto, Cristo liberta-Se da habitação dos mortos. Liberta-se da morte que realizou na Cruz. Ou seja, venceu a morte no seu próprio domínio, o domínio da morte (o lugar da morte).

Mas a ressurreição não é apenas a passagem do sepulcro para a terra, um “voltar atrás ao mundo”. Ressurreição é uma acção de Deus que arranca Cristo da morte total (metafísica, teológica, existencial) e não apenas da morte biológica.
Cristo liberta-Se de entre os mortos. A sua contínua relação com o Pai que, também continuamente O gera, não permite que permaneça do lugar dos mortos. Provocará sim, pela relação ao Pai, no Amor que é o Espírito (relação que é constitutiva da sua Pessoa) uma abundância de Vida que a morte não comporta. Por isso a morte é destruída na sua própria habitação. Cristo vence a morte e não apenas a sua morte.

A esta luz, o sentido da paixão e da morte de Cristo na Cruz apenas se pode encontrar na profundidade de um caminho de fé. Em termos simplesmente humanos, a Cruz tem uma objectividade que a torna impenetrável: objectivamente Jesus Cristo é um condenado, um maldito segundo as leis do tempo. E a cruz pode acabar por se tornar num final fracassado de uma história de messianismo.

Frente à crueza de um símbolo objectivo (uma Cruz), o olhar de fé faz ver a Cruz não como princípio de morte, mas como princípio de vida. Na medida em que ela encerra a exemplaridade de Jesus Cristo (transformar a morte e o seus princípios em vida e princípios de vida - do ódio e da violência ao amor e ao perdão...) a Cruz é motor transformador da História e de todas as histórias da história humana [1].

Se olharmos para o facto de que os princípios de violência acabam sempre por provocar uma violência maior, sabemo-lo por experiência e observação, concluiremos que Jesus Cristo contrariou essa lógica de existência quase retributiva.
Jesus Cristo transformou a morte física e toda a morte (feita de exclusão, de traição dos seus amigos, de vingança, de indiferença, de ignorância, de poder sobre o inocente, de vontade de eliminar o inocente) em anúncio de Boa-Nova (anúncio de vida e de perdão, anúncio de uma nova justiça e nova ordem de coisas, uma nova lógica).

A Ressurreição é, então, a confirmação, da parte de Deus, do testemunho de Jesus Cristo. É um rompimento radical com a lógica do genocídio, da mortandade, da vingança, para afirmar radicalmente a vida e as suas consequências.

No acontecimento da Ressurreição há, portanto, uma absoluta novidade que se afirma. Se repararmos no episódio da expulsão dos vendilhões do templo por Jesus, encontramos aí a significação das razões humanas que levaram à morte de Jesus numa Cruz. Ele contrariou uma lógica não apenas na superficialidade (o que talvez apenas o adjectivasse como louco...), mas na sua profundidade. A religião que Jesus vem encontrar no Templo é a religião do sábado. O homem que Jesus vem encontrar nas instituições religiosas do seu tempo é o homem para o sábado. Homem escravizado, isolado. O “deus” que Jesus vê ser louvado neste templo é o “deus”-expressão-da-vontade-de-poder-do-homem, um “deus” que se confunde com objecto, um “deus” quase manipulável.

Mas esse “deus” não seria o Deus, Pai de Jesus Cristo. A expressão existencial da religião que Jesus vem presenciar é a da publicidade das virtudes próprias e condenação dos pecados alheios: no templo e em público a observância estrita dos rituais; em privado e às escondidas, a prática da injustiça.

A Ressurreição de Jesus Cristo é, por isso, quase o grito de afirmação da liberdade do próprio Deus (“não sou quem pensais..”) e, ao mesmo tempo, a revelação do verdadeiro homem ao próprio homem, o caminho para a “humanização” do homem, ou seja, a afirmação de que o sábado é para o homem, a afirmação do homem em diálogo com Deus e acolhido por Deus. O que a Ressurreição destrói é a verdadeira paralisia que encerra o homem sobre si mesmo e sobre os seus preconceitos.

Deve ter sido essa a experiência dos discípulos a caminho de Emaús quando contactaram com Jesus e acreditaram n’Ele. No início os discípulos ainda caminham desanimados. Esperavam, havia três dias, algo de novo, mas não sentiram nada. Só serão capazes de reconhecer Jesus depois do próprio Jesus lhes ter lido as Escrituras.
Estar a caminho é estar disponível para o “outro lado”, o “doutro modo”, o “outro”. E então a ausência marca o desejo. Desejo que não é nostalgia, ou saudade, ou mesmo mera necessidade, mas que é fruto da experiência de estarmos neste mundo a sentir a vida verdadeira como ausente. Deseja-se a transcendência.

De facto, o encontro com o Senhor ressuscitado faz-se progressivamente. É um ir abrindo os olhos. É um encontro que se realiza na Palavra que Jesus Cristo dirige aos dois discípulos. Relendo e recordando as Escrituras, Jesus leva-os a compreender o que havia acontecido. O que Deus pretende não é apenas um êxito clamoroso, mas sim a aceitação do sofrimento segundo um misterioso desígnio prefigurado no destino do servo de Deus no Canto do Servo de Jahwé: a Cruz não é apenas, ou sobretudo, uma catástrofe, mas sim uma dimensão inerente à existência
Talvez por isso, apenas na fracção do pão os discípulos se dão conta de si e reconhecem Jesus. Aquele peregrino, que é hóspede convidado a velar com os discípulos, transforma-se no verdadeiro anfitrião que lhes dá de comer. É neste momento que os olhos dos discípulos se abrem.

3. Encontros pascais com Jesus
Jesus morreu como viveu, entregando-Se totalmente. A sua morte é a hora em que melhor se compreendem as sua palavras e os seus gestos, a sua vida. A morte foi, por isso, a plenitude da sua vida. E ainda que Jesus contasse com uma morte violenta, ninguém Lhe rouba a vida. É Jesus que a entrega, como sempre fizera nos imensos encontros que realizou em vida. Desprende-Se de Si para que outros tenham vidas com sentido. O seu caminho de Cruz é também caminho de Ressurreição. A via-sacra é o caminho da sua vida e da nossa vida.
Neste dinamismo Jesus passou a sua vida pública a encontrar-Se com pessoas. As pessoas procuravam-n'O e Ele procurava as pessoas. Muitos quiseram tocá-l'O, na sua Pessoa e no seu mistério, para se sentirem curados (Mc 6, 53-56). Foi nesses encontros que Jesus Se revelou e Se definiu. São encontros e passos intensos em presença, palavras, atitudes e sentimentos e, por isso, reveladores de identidades - de Jesus e nossas. Foi nestes encontros que as pessoas sentiram a novidade de Jesus e puderam perceber o mistério das suas vidas à luz da sua relação com Deus.
Para cada um de nós a revelação de Jesus e a resposta a esta questão vai-se fazendo no tempo concreto da nossa vida e no mais profundo do nosso coração também em palavras e encontros que dizem muito mais do que podem parecer à primeira vista. É que, como diz Vergílio Ferreira, por fora estamos ... por dentro somos! Estejamos onde estivermos, o nosso ser pode estar em comunhão com outros seres. Mas, muitas vezes, para despertarmos para eles, carecemos de símbolos, sinais, chamadas de atenção que nos façam passar do estar ao ser. É por dentro que as coisas são.

O Evangelho fala de encontros de pessoas com Jesus que se podem hoje repetir em cada um de nós. No tempo em que se passam os episódios narrados no Evangelho, os encontros com Jesus têm sempre como consequência a mudança de vida daqueles que se encontram com Ele. São cegos, paralíticos, surdos, mudos, endemoninhados, etc. Podemos dizer que são encontros verdadeiramente pascais, exprimem a experiência essencial da Páscoa, a vida nova. Ressuscitaremos em Jesus, mas vamos já ressuscitando cada vez que nos encontramos com Cristo e vamos aprendendo a morrer para o pecado, para o sem-sentido. Ressuscitamos na medida em que vamos morrendo.

4. A Cruz como acontecimento trinitário e pascal
No centro de todo o acontecimento Redentor está a Cruz de Jesus. Como acontecimento do Filho, porque Jesus é o Filho eterno do Pai, a Cruz é necessariamente um acontecimento trinitário. O Filho entrega-Se na Cruz por Amor e obediência ao Pai para Salvação da Humanidade.
Amado pelo Pai, possuindo o Espírito Criador do Pai, Jesus Cristo assume na Cruz uma existência representativa, solidária para com a humanidade.
A Cruz é obra do Pai e do Filho na plenitude do Amor que é o Espírito para a re-Criação do mundo. No Cristianismo, a Cruz na qual Cristo morreu e pela qual chegou à Ressurreição, tornou-se, pois, arquétipo da acção salvífica de Deus e modelo da resposta do homem.
Na Cruz evidencia-se a plena unidade de vontade de Pai e Filho, o que revela a Cruz como um Mistério de Amor - o Mistério de Amor que realiza a Salvação.

É a existência trinitária de Deus que funda a possibilidade real da Cruz ser redentora o Amor relacional (unidade e distinção) entre o Pai e o Filho triunfa da Cruz e subsiste como Vida.
Nesta relação de contínua geração o Pai entrega o Filho na Cruz;. o Filho é entregue e entrega-Se a si mesmo; e o Espírito permanece como ligação da temporalidade da morte de Cristo à eternidade vivificante do Pai.
Pelo lado de Cristo a morte foi consentida por obediência filial (Fil 2., 8; Rom 5,: 19; He 5,, 8) à sua missão recebida de Deus e por amor quer ao Pai, quer aos seus irmãos.
Da parte de Deus, Pai e enviante de Jesus, a entrega do Filho acontece por pelo Amor com Deus amou o mundo (Jo 3, 16-17) 56

4.1. O Pai entrega o Filho no Amor
Aquilo que identifica a acção do Pai é o acto de entregar - Deus Pai entrega o seu Filho à morte.
Entrega-O na Encarnação, entrega-O na Cruz e entrega-O, derradeiramente na Ressurreição. A Palavra faz-Se carne e faz-Se Cruz.
Da contemplação de Deus que entrega seu Filho ao mundo, João conclui que Deus é Amor ( 1 Jo 4, 16). Deus não entrega o seu Filho como os inimigos mas entrega-O como Pai, sempre agindo na sua paternidade. Entrega-O gerando-o continuamente mundo, entrega o Filho para Salvação do mundo.
O Pai é pois quem primeiro entrega o Filho, o que revela que a Salvação está no mistério filial que se realiza no mundo. Assim, nesta contínua geração, o Filho é Deus com o Pai desde toda a eternidade e também no despojamento quenótico.

« Neste abandono do Filho, o Pai abandona-Se também a si mesmo, entregando o Filho entrega-Se a si mesmo, embora não do mesmo modo, e sofre também ».
O Pai sofre a dor do despojamento do Filho porque nunca abandona a sua paternidade, a sua relação de Amor que gera: o Filho sofre a agonia e o Pai sofre a morte do Filho.
Se o Filho, na Cruz, sente a falta do Pai, o Pai também sente, na Cruz, o sofrimento do Filho, ou seja a falta do Filho. O sofrimento na Cruz é recíproco, embora o Pai não morra” na Cruz, porque o Amor (gerar e ser gerado) também é recíproco.
Este Amor relacional entre o Pai e o Filho será condição de possibilidade da Cruz, e de aniquilamento transformar-se-á em suprema divinização e glorificação.

4.2. O Filho entrega-se no Amor
Se, por um lado, o Pai entrega Filho na Cruz, também é verdade que o pr6prio Filho se entrega na Cruz. Será importante então relevar a total consonância de vontade entre Pai e o Filho na entrega à Cruz.
O Filho entega-Se na Cruz na sua filiação, expressão radical da sua obediência de Amor ao Pai. A entrega como acto livre de Jesus manifesta a plenitude da sua filiação divina.
Em virtude da sua própria Encarnação, o Filho assume já a morte. Mas como não tem pecado em si essa morte é assumida em liberdade, diríamos mesmo intencionalmente - uma morte por Amor, no Amor, que redime.

Neste Amor a Cruz não surge como uma casualidade mas sim como vontade , sabedoria e poder de Deus ( 1 Cor 1 18 ss). Cristo fez-se obediente não a um destino anónimo mas ao próprio Pai no conhecimento e intimidade do conhecimento da vontade do Pai - a sua obediência representa a tradução do seu Amor de Filho para com o Pai.

Aquele que é entregue, entrega-Se. Neste gesto de separação, a agonia de Jesus que se abandona e é abandonado pelo Pai, se manifestará decisivamente a Comunhão de Jesus com o Pai . “Ele foi entregue por causa dos nossos pecados e ressuscitou por causa da nossa justificação” (Rom 4, 25).
A filiação divina de Jesus surge pois como a única possibilidade de compreender a entrega e obediência de Jesus na Cruz.

4.2.1. Filiação e entrega
O conceito fundamental que expressa a atitude de Jesus é o conceito de “entrega”, o qual revela a total comunhão e identificação de Jesus ao Pai.
O Pai entrega e o Filho entrega-Se, plenamente activo nesta atitude, ou seja, o Pai entrega Filho no Amor que tem à humanidade (Rom 8, 32; Jo 3, 16) e o Filho auto-entrega-Se pelo mesmo Amor à humanidade e ao Pai(Rom8, 5; ãál 2, 20; Ef 5, 1).
Em Jesus Cristo a “condição de filho” e a “entrega” coincidem totalmente, são a mesma forma de Jesus viver a sua contínua e eterna geração pelo Pai.
Cristo, não tendo em Si pecado faz-Se pecado para Salvação da humanidade.
Assim, frente a quem pensasse que Deus deixa Cristo sofrer na Cruz friamente ou que a Cruz é expressão de uma ira divina que exige “satisfação é a própria Escritura que afirma a Cruz como Amor de Deus em nosso favor.

A morte de Jesus entra no desígnio de Deus E Jesus tem plena consciência disso - a consciência que tem da sua entrega é a mesma que tem de ser Filho de Deus e de vir ao mundo para fazer a vontade do Pai.

O mistério da encarnação salvífica em sua totalidade (a consusbstancialidade do Filho connosco) tem a sua raiz profunda na “consubstancialidade” de natureza-amor do Filho com o Pai do qual o dom recíproco do Espírito Santo é expressão.

O Pai é Pai para Salvação do mundo e o Filho é Filho para Salvação do mundo - a paixão é trinitária e a salvação é trinitária.
É na sua “condição de filho” que Jesus encarna e é na sua “condição de filho” que Jesus se entrega e redime.

4.2.2. Filiação divina, obediência e liberdade na Cruz
O ser de Jesus realiza-se a partir do Pai e com vista à humanidade. No dizer de W.Kasper, Ele Filho de Deus no abaixamento, é Filho de Deus na eternidade e é Filho de Deus como plenitude do tempo, Aquele para onde tudo convergirá. Definitivamente, a Cruz manifesta-se como obra de Deus.

Se a Cruz é vontade de Deus, então não é acidente ou casualidade da história, mas sim uma necessidade querida por Deus. O Ser de Jesus é ser Filho ( a Filiação) e o ser Filho revela uma relação essencial de Amor ao Pai. Esta relação de Amor é a medida da Obediência e da Liberdade de Jesus na Cruz.

O Filho não é uma parte de Deus que morre. Ele é Deus como Pai mas, também frente ao Pai Ele é Pessoa diferente da Pessoa do Pai. Acontecendo que o Amor em Deus é unidade e distinção e que cada Pessoa apenas se distingue na medida em que se relaciona, a Cruz do Pai e do Filho.

O Drama da Cruz, centro do Cristianismo, é portanto o drama do Filho - drama de solidão humana mas de comunhão divina Na comunhão divina se encontram radicadas a liberdade e a obediência de Jesus. A Cruz é salvadora porque a obediência de Jesus foi realizada na liberdade do Amor que se auto-entrega pela consciência que tem da sua filialidade e Missão.

Se a filialidade releva a obediência na Cruz, ela releva muito mais a liberdade e o Amor, pois, para Cristo, obedecer é dar todo o tempo a Deus.

4.3. O Espirito e a reciprocidade no Amor que brota da Cruz como Redenção
O Espirito Santo, que procede do Pai e do Filho, é, na Trindade, a Pessoa Comunhão. É Comunhão enquanto, como já afirmámos, é reciprocidade de Amor - o Pai gera no Amor e o Filho é gerado no Amor.; o Pai é a Fonte e o Filho sabe-Se inteiramente recebido do Pai. Toda a vida de Jesus, se passa na consciência de ser o Enviado do Pai - por si só não é nada, nada faz; aquilo que sabe, diz e faz é porque o Pai Lh’O revela no Amor da interioridade divina., Ele é o Verbo de Deus encarnado.

« O acontecimento de Cristo é plenamente humano e plenamente divino: acontecimento de plena codivisão, solidariedade, “consubstancilidade” humanodivina. N’Ele, morto e ressuscitado, Deus morrendo destrói a morte: supera a fragilidade humana, submetida ao poder do limite, do pecado e da morte » .

Toda a Vida de Jesus Cristo é, portanto, como dissemos uma caminhada para a Cruz. Mas para a Cruz vivida nesta, relação de Amor. Na Cruz o Filho de Deus não deixa de ser Filho de Deus.
A “salvação” só se dá quando o Filho eterno do Pai, por um amor sobreabundante (o Espírito) se fez homem e morreu por nós. Só então, Deus em
absoluta liberdade ( e por isso permanecendo Deus) ocupa o nosso “lugar” para que nós os pecadores, apesar do pecado tenhamos junto d’Ele a nossa casa paterna.

O Amor relação ao Pai ( Espírito Santo) revela-Se então como a possibilidade de despojamento de Cristo na Cruz sem que a Morte possa aí ter poder. A reciprocidade no Amor fará com que o Filho nunca deixe de ser gerado no Amor do Pai e por isso ressuscite. O Espírito é pois fonte de vida. O Pai gera na Encarnação, na Vida e, radicalmente, na Ressurreição o seu Filho para a Vida. Ao mesmo tempo a única possibilidade de “substituição” por parte de Cristo é o Espírito Santo.
O Ministério de Jesus é inaugurado na força do Espírito (Lc 4, 14) , desenvolve-se e culmina nessa mesma força.
A ressurreição de Jesus revela pois a paternidade eterna de Deus e a reciprocidade entre o Pai e o Filho:

No Pai, o Espírito é em primeiro lugar Amor que se dá; no Filho, esse mesmo Espírito é em primeiro lugar Amor que acolhe. Consentindo no dom do Pai, o Filho permite ao Pai que se dê. O Amor que acolhe “provoca” o Amor do Pai que se dá gerando. O Espírito procede então da relação do Pai e do Filho, da paternidade de um e da filiação do outro
Esta reciprocidade brota então da Cruz como Vida, o acontecimento acabado da Redenção em que Filho veio dar a Vida ao Mundo. O Amor intra-tritinário revela-se plenamente na Páscoa onde se manifesta, de facto, a vitória de Deus sobre o pecado do Mundo.
A Cruz, como “último acto” revela-se assim como um drama trinitárto, mas um drama de onde brota a vida porque traz a eternidade para ser vivida no tempo.

5. Mistério Pascal – passar para aquilo que não passa
A tradição da Igreja sempre interpretou a Páscoa como “passagem”. E sempre a “passagem” teve diversos sentidos:
- passar sobre (hyperbasis): quando fala de Deus ou do seu anjo que passa sobre as casas dos judeus sem os ferir
- passar através de (diabasis): quando o povo passa do Egipto para a Terra Prometida
- passagem para o alto (anabasis): quando o homem passa das coisas terrenas para as coisas do céu
- passagem para fora (exodus): quando o homem sai da escravidão do pecado
- passagem para diante (progressio): quando o homem progride no caminho da santidade.

Na base da ideia da Páscoa está, portanto, a ideia de uma passagem: da morte para a vida. É algo que se evoca como provisório e transitório, algo que é preciso ser ultrapassado. E só é possível parar quando se chega à plenitude, quando se chega à Parusia. Como disse Sto Agostinho, num dos seus comentários ao Evangelho de João (55, 1 in CCL 36, pp463) a Páscoa é passar para aquilo que não passa.
E, de facto, se virmos à nossa volta e bem dentro de nós, tudo passa. Mas, diante deste tudo que passa, há Alguém que não passa: Deus, o Amor de Deus.

O homem é frágil, passa, é transitório. Deus não passa, não é provisório, não é transitório. Por isso a Páscoa é passar para o que não passa nunca: Deus.

Diante desta passagem podemos reflectir a morte de Cristo como uma passagem: e só passa quem se entrega na liberdade e na obediência. O Pai entrega-Se novamente e entrega o Filho e o Filho entrega-Se ao Pai e à humanidade.
Então, em Cristo, todos passamos, todos vivemos a passagem que é a Páscoa. A humanidade está representada no Adão da queda e está, sobretudo, representada no Jesus Cristo da redenção. Cristo morreu pelos nossos pecados e a essência da sua missão pode centra-se aqui: morreu por nós.

Este “por nós” não significa uma substituição penal ao estilo de vítima que entregámos por nós. Este “por nós” é “em nosso favor”. Se quisermos é o essencial da nossa oração: Cristo repete-se no coração de cada um de nós.
_________________________________________
[1] Cf. José Tolentino MENDONÇA, Páscoa quebra imposição do conformismo, in Público (Destaque,28.03.97) 4.

segunda-feira, fevereiro 19, 2007






Pré- Seminário


Inscreve-te



Vamos iniciar na nossa Diocese o Pré-Seminário. Vai ser uma experiência fantástica. Hoje damos já algums notícias, mas não todas!


O que é o Pré-Seminário?!

É um grupo de descoberta da vocação na Igreja. Muitos jovens questionam-se sobre qual será a sua vocação, qual será o sentido das suas vidas. Alguns até já pensaram em entrar no Seminário, mas não se sentem ainda preparados. Precisam de mais tempo para pensar e crescer. É por isso que chamamos a esta experiência o "Pré-Seminário". Os jovens continuam em suas casas, com as suas fanmílias e nas suas escolas, mas reúnem alguns fins de semana por ano para reflectir em conjunto, conviver e descobrir em conjunto o que Deus quer de cada um.



Quem pode entrar e inscrever-se no Pré-Seminário?!

Todos os rapazes que já tenham completado os 13 anos de idade e que estejam interessados em aprofundar e reflectir a sua vocação (os que forem menores necessitarão de uma autorização dos pais) e que estejam interessados em reflectir juntamente com outros rapazes a vocação a que Deus os chama na Igreja.



Como vai funcionar o Pré-Seminário?

Os jovens inscrevem-se mas continuam a viver em suas casas com suas famílias e a frequentar as suas Escolas. Alguns fins de semana e outros dias por ano participam em encontros que decorrerão num dos Seminários da nossa Diocese. O Pré-Seminário vai funcionar em grupos diferentes segundo as idades e cada jovem estará nele o tempo necessário ao aprofundamento e opção vocacional.



Que tipos de actividades se fazem?

Bom, imensas e variadas. Desde temas de reflexão, passando por experiências de oração, voluntariado, momentos de diversão, aprendizagem de guitarra e canto até passeios e acampamentos, de tudo se fará um pouco. Tudo o que se fizer tem é de ajudar cada jovem a chegar mais perto do segredo do seu coração e daquilo que Deus quer dele.



Quando posso inscrever-me?

Já! Basta enviar o teu nome, morada, data de nascimento e contacto telefónico para o nosso mail e.pro.vocação@sapo.pt





Já pensaste ?!


Porque o mundo tem necessidade de amor,


Padre,


uma VOCAÇÃO!



Vem aprofundar a tua vocação connosco!

Coragem! Inscreve-te e participa!






sexta-feira, fevereiro 16, 2007


Abraçar sem asfixiar, ser livre sem ficar solitário
- Quaresma 2007 -


A Vida Nova
Jesus ressuscitou! Ele é o Cristo e Senhor! Tempo de procura da verdade, tempo de lermos a realidade e de nos lemos a nós próprios, tempo de silêncio fecundo e contemplativo, tempo de caridade vigilante, tempo de amar o jejum, tempo de nos abstermos do supérfluo e de discernirmos o essencial, tempo de partilha e fraternidade, tempo de verdadeira “luta espiritual”, a Quaresma não tem outro sentido e significado mais profundos que o de ser uma preparação para a celebração da Páscoa e para o dom da Vida Nova.
Na nossa vida cristã, nós não somos empurrados para a frente a partir do nosso passado de fragilidade. Somos sim puxados pelo nosso futuro de vida na graça de Deus. Essa é a experiência da Páscoa que nos é acessível em Jesus Cristo e na sua ressurreição. É a plenitude em Jesus Cristo que nos cativa e nos faz caminhar. Por isso, a caminho da Páscoa … Quaresma como quem se liberta de tudo aquilo que não faz parte nem pode entrar na experiência da comunhão com Deus e no encontro com Ele.
No quadro das relações humanas existem coisitas que não podem estar presentes numa relação de verdadeira amizade porque se lhe opõem e a impedem. Na relação com Deus em Jesus Cristo é a mesma coisa. Nós não conseguimos estar com Ele se estamos com aquilo que Lhe é contrário.
«O que quer dizer “cativar”?» é a grande interrogação do principezinho no seu diálogo com a raposa. Vale a pena ler novamente a história. É que a raposa vai explicando que «Cativar é criar laços … se me cativares precisaremos um do outro».
De facto, enquanto o principezinho metabolizava a sua dor (quase com pena de si mesmo) apareceu a raposa. Momentos antes o encontro com a flor não tinha corrido bem. A flor brincara vaidosamente fazendo tudo para se manter no centro da cena: uma espécie de jogo de sedução destinado a paralisar o admirador. E o pequeno príncipe, preso no jogo da flor, não se dava conta de si mesmo nem percebeu o que dissimulava tamanha simpatia. Amavam-se, até se pode concluir, mas nunca foram capazes de o dizer. E porque não encontraram as linguagens próprias para o dizer, o amor falhou. A flor usa a linguagem da astúcia enquanto o principezinho usa uma linguagem simples e directa. Não sendo realizáveis os desejos da flor, o principezinho está destinado a partir, a crescer. E é nessa procura de si mesmo por parte do principezinho que a raposa é um instrumento que possibilita uma experiência fundamental: criar laços, fazer de cada um para o outro alguém que é “único no mundo”. O aborrecimento desaparece da vida da raposa e o principezinho já não se sente estranho. Tornaram-se “únicos no mundo” um para o outro. Por isso a raposa conclui: “Tornaste-te responsável pelo que cativaste! És responsável pela tua rosa” (A. Saint-Exupéry, O Principezinho, 74). Diz-nos a mesma história que, pouco a pouco, cada um se começou a sentir mais livre, mais responsável pelo outro e, ao mesmo tempo, a ver a vida própria com outros olhos.

Por amor de Deus e da vida
Os Cristãos reflectem e vivem o seu tempo em torno da Páscoa e, semanalmente, do Domingo, o primeiro dia da semana. Em Jesus Cristo, Verbo de Deus encarnado, o tempo torna-se uma dimensão de encontro com Deus. E dessa relação de Deus com o tempo nasce a consciência da necessidade de “santificar o tempo”.
Que significará “santificar o tempo”? Mesmo antes de desafiar e chamar Israel a ser santo (Lev 19, 2), o Senhor Deus criou um dia diferente de todos os outros. Deus, de facto, e como diz o Livro de Génesis, Deus “abençoou o sétimo dia e santificou-o” (Gen 2, 3). Significa isto que a santificação do tempo é possível graças ao próprio Criador.
“Santificar” o dia de sábado é assumir este dia como “um dia diferente”, um “outro dia”, ou um “dia de outra forma”: o desafio de ser santo porque o Senhor é santo. É como se Deus estivesse a dizer aos Israelitas “sede outros”, “sede diferentes”, “vivei de um modo diferente daquele que toda a gente vive”. É a mesma coisa que dizer-nos: sede capazes de fugir à sedução das idolatrias quotidianas que impedem de ver a verdade; sede capazes de ser diferentes, sede capazes de acreditar”.
Consequentemente, “santificar o tempo” significa vivê-lo de forma diferente do usual ou rotineiro. É vivê-lo segundo a intenção de Deus. E isso significará, ao limite, que haverá um dia no fim do tempo, mas que o fim do tempo é a comunhão com Deus.
O tempo tem, portanto, um sentido preciso já que o “sétimo dia” (para os judeus) ou o “primeiro dia” (para os cristãos) é o destino do homem e de toda a criação: sétimo dia é chegar a Deus e primeiro dia é partir de Deus, antecipação escatológica para toda a humanidade, transfiguração de toda a criação. Na intenção de Deus, o tempo dos crentes é um tempo diferente e ritmado: marcado por um dia santo todas as semanas; por um ano santo cada sete anos; por um ano santo cada 50 anos (sete semanas de anos). Desta forma, o próprio Deus quis impedir que relegássemos a santidade da humanidade para um campo abstracto e inacessível. É este o sentido e significado profundo das festas cristãs e do desenrolar do ano litúrgico. É este, ao limite, o horizonte em que se desenrola a Quaresma na qual os cristãos são chamados a converterem-se ao Senhor e a regressarem a Ele com gestos simples e verdadeiros como o jejum, a partilha e a oração, símbolos de uma vida nova.
O calendário anual, ou o ano solar, não é senão uma forma prática de medir o desenrolar dos tempos. E isso é bom porque nos permite organizarmo-nos e prepararmo-nos para determinados acontecimentos. Se não fossemos tão versáteis e, por isso, distraídos e rotineiros não era necessária a diversificação de tempos litúrgicos.

Jejum, esmola e oração em vez de quinquelharias
Existem três grandes desafios que asseguram a unidade do tempo da Quaresma e definem o horizonte da caminhada eclesial e pessoal:
1. O Mistério da morte e ressurreição de Jesus;
2. As implicações deste Mistério para quem se prepara para o baptismo;
3. A renovação na caminhada da fé e da conversão para os que já são baptizados.
Toda a Quaresma tem, portanto, uma dinâmica baptismal. E é por se ter desenvolvido em torno dessa dimensão baptismal que o tempo da Quaresma também é tempo penitencial. Este é o tempo próprio para, conhecendo melhor o Espírito de Jesus, “baptizarmos” a nossa inteligência. Este é o tempo para, aprendendo a querer o que Deus quer, “baptizarmos” a nossa vontade. Este é o tempo para, afeiçoando-nos mais a Cristo e ao seu caminho, “baptizarmos” o nosso afecto e o nosso amor.
A Quaresma não é, portanto, um tempo de invenção de penitências ou meramente de sacrifícios sem ousar tocar o alicerce profundo dos problemas. Quando a espiritualidade se incompatibiliza com a realidade da vida e se resume a abstracções, Deus fica sempre inatingível, a experiência da fé é sempre de desgaste e a vida nunca se transforma. É comparável a alguém, como dizia A. Alçada Baptista, que está ou “entrou na religião pela porta da quinquelharia ... pagelas, santinhos de lata”, etc, mas não ousa tocar o problema fundamental do seu coração e das suas opções.
É claro que o jejum, a partilha e a oração não se resumem a mínimos legais. No seu verdadeiro sentido nem sequer serão “obrigações”. Se o jejum nos encerrar em nós mesmos, se a partilha servir apenas como descarga de consciência (“os meus pobres” – algo dito sempre com arrepiante sentido de propriedade) e se a oração se traduzir apenas em “troca formal de favores por senhas” e pedido “institucional” de provas da existência de Deus, a Quaresma não terá nenhuma finalidade senão a de uma auto-contemplação. E quem passa a vida a auto-contemplar-se não conseguirá nunca contemplar os outros: não é capaz de gestos de confiança, não é capaz de gestos de fraternidade, não é capaz de gestos de ternura, não é capaz de gestos proféticos de compromisso e ousadia cristã.
O que a Quaresma pretende, então, é uma redescoberta da fé, é o reatar da relação com Jesus Cristo. A Quaresma é, por isso, um momento privilegiado da procura de sentido para as coisas de todos os dias. E dizer procura de sentido não se resume a uma questão do discernimento de uma vocação específica na comunidade cristã (por exemplo, saber se se segue ou não a vida sacerdotal). Procura de sentido diz-se em relação à vida no que respeita à relação com os outros, diz-se acerca do sentido da amizade, acerca do sentido da responsabilidade. Não existe vocação, vida ou vivência que não possam começar a ser transformados em tempo de Quaresma. A redescoberta quaresmal é, portanto, a redescoberta de si mesmo, da vida, da fé e também dos outros.
Ao conjugar o jejum podemos perguntar se, de facto, a abundância de muita coisa não nos tira a sensibilidade e o sabor das coisas na sua essência. Querer o “muito” em vez do “bom” ou do “justo” pode ser um engano. E isso não se resume ao que comemos. Tem a ver com a vida toda, com as opções, com o que se chama de cidadania, com o que nos permitimos e com o que nos proibimos a nós próprios. Sabemos que somos livres, mas também nos experimentamos muitas vezes como “autênticos prisioneiros” de sistemas de reacção, de pruridos relacionais, de palavras ditas, de atitudes irreflectidas que, continuadas, acabam por se afirmar, muitas vezes, como personalidade.
Acontece, no entanto, como dizia E. Mounier, que Deus é grande de mais para fazer das nossas fragilidades uma vocação. Por isso propõe a mudança e, por isso também, o tempo favorável da Quaresma, em Igreja, é o tempo indicado de ousar vi(r)agem. Virar, mudar, converter ... a fé só tem sentido em relação estreita com a vida.
A Quaresma exige-nos, portanto, interiorização, imaginação e fidelidade criativas: repensar a fé e a expressão religiosa em relação com a vida quotidiana. Jejum, partilha e oração não são mínimos legais. São caminhos de crescimento, de experiência da vida nova que vem por Cristo. Jesus é o verdadeiro Pão da vida. Jejuar é sentir a fome como esse estado em que nos apercebemos que dependemos de tantas e tantas coisas. E algumas não são necessárias. A fome do jejum (ou da abstinência) pode ser vivida como esse limite para lá do qual me sinto novamente vivo. Por isso o jejum quaresmal não se resume a uma mudança de regime alimentar, uma espécie de dieta. Ele não é luta contra o corpo, mas sim pelo corpo e para o corpo porque pela vida e para a qualidade da vida quotidiana.
E a partilha ?! A partilha também não pode ser apenas uma espécie de gesto afectivo mais ou menos sacralizado. O esforço de partilhar pode viver-se nos sorrisos, na capacidade de escuta, no uso bom das palavras, nas visitas e na atenção que damos, na ajuda a alguém, etc, tanta coisa! E, na base, sempre a oração como diálogo de amizade com Deus. Oração como quem se experimenta a confiar e percebe que se está a dar não a partir de si mesmo, mas sim a partir de Deus.


Propósitos quaresmais: poucos e bons, práticos e possíveis
Todos os anos ao chegar a Quaresma nos esforçamos por encontrar alguns desafios que concretizamos em propósitos. Creio que, quando se trata de estabelecer propósitos, já todos percebemos que é melhor que sejam poucos mas bons, que sejam práticos e possíveis. De outra forma estaremos a dispersar-nos mais do que a construir. Poucos mas bons para poderem ser essenciais e estabelecidos naquilo que diz respeito aos fundamentos das coisas e não apenas às suas aparências. Não vale a pena, por exemplo, tentar resolver objectivamente uma relação que anda mal com alguém se não questiona a perspectiva com que se está na vida e na relação com os outros.
Às vezes aumentamos a extensão dos propósitos mas diminuímos a sua profundidade. Outras vezes multiplicamos tanto os propósitos que se torna impossível concretizá-los todos e em tão pouco tempo. Outras vezes ainda queremos que os outros vivam os propósitos que nos faz falta a nós fazermos e dispensamo-nos ou diminuímos a nossa responsabilidade e compromisso. Com se estivéssemos sempre à espera que todos os outros fossem perfeitamente virtuosos para nós podermos então ser também perfeitos. Na realidade quando a vida se conjuga a partir dos perigosos “se…” é apenas sinal de que ela não existe ou de que não se está verdadeiramente interessado em resolver as situações. Outras vezes ainda ficamos satisfeitos na elaboração teórica e vistosa de um conjunto de propósitos mas não nos comprometemos na sua consequente realização.
P. Emanuel Matos Silva



Quaresma … simplesmente


Recordar coisas que até já sabemos
Estamos novamente às portas da Quaresma, um tempo forte, o chamado tempo favorável, na experiência cristã pessoal e na vida da Igreja. Tempo de escuta, leitura e discernimento; tempo de atenção, vigilância e percepção; tempo de amar o essencial das coisas no jejum; tempo para nos abstermos do supérfluo e acessório e discernir o essencial; tempo de exercício das virtudes cristãs e do carácter; tempo de partilha rezada e de oração que conduz à caridade.
Quando a Quaresma é conhecida apenas como um tempo para determinados sacrifícios ou actos de ascese, renúncias ou práticas penitenciais, podemos dizer que não se sabe nada da Quaresma porque a Quaresma quer conduzir-nos sim à descoberta da beleza da fé cristã e, fundamentalmente, de uma fé que se vive. É nessa medida que a Quaresma é um tempo forte, um tempo qualitativamente diferente do tempo comum quotidiano para os cristãos viverem simultaneamente como uma tensão no acesso à felicidade, um esforço positivo de desenvolver qualidades e capacidades, um desejo de conversão transformadora e de regresso a Deus.
Se o acontecimento fundamental do Cristianismo é Jesus Cristo, e Jesus Cristo entregando-Se na Cruz por amor (Mistério Pascal), então a Páscoa é um acontecimento que tem de ser preparado porque recria a nossa esperança e a nossa confiança em Deus e, por essa via, em nós mesmos.
A Cruz de Jesus é, sem dúvida, construída pelas nossas vidas (da qual faz parte a nossa fragilidade e o mistério da iniquidade), mas é habitada por Aquele que destruiu a morte na sua própria raiz. E isso significa que Jesus é Aquele que, habitando as nossas vidas onde elas mais precisam de ser iluminadas, nos faz experimentar a felicidade e a alegria: uma vida habitada, dinamizada, entregue Àquele que não nos deixa morrer é um desafio forte num tempo forte – a Quaresma. A sintonia com o projecto de Jesus apaixona e faz olhar para a vida como algo aberto e a construir-se. O encanto da vida cristã está em perceber que a existência tem um “para quê” a que responder sempre. Fazem parte da experiência desse encanto a gratidão apaixonada pelo dom da vida e a percepção da condição própria com seus limites. Aliás são elas que geram confiança e dão ousadia. Quem não é capaz de gratidão não é capaz de fé. Quem não sentiu já essa paixão do encontro com o Senhor Jesus que se desdobra em fraternidade?! Quem não experimentou já esse encanto que são os joelhos no chão diante do Sacrário como momento onde se alicerça toda uma vida que não acontece apenas “porque tem de ser”, mas sim por resposta e como vocação?! Então a Quaresma é o tempo para deixarmos e exercitarmos que sejam esses encontros a guiar com maior qualidade a nossa vida.
Antes de ser sacrifico e renúncia, a Quaresma é um desafio de apaixonamento e entrega a Jesus Cristo na Igreja e no mundo (ler os nº 109 e 110 da Sacrossanctum Concilium, Vaticano II).


Origens da Quaresma
Desde o séc. II que existe na Igreja um tempo de preparação para a Páscoa em que se pratica o jejum durante alguns dias. A Quaresma, ou melhor, nesse tempo, o tempo de preparação da Páscoa começou por ter apenas uma semana passando, depois, a três semanas em que se lia e meditava o Evangelho de João e, só depois, a 40 dias que se inspiram nos 40 dias que Jesus passou no deserto e que estão profundamente à definição do ministério de Jesus nas suas formas e valores objectivos e práticos de serviço, verdade e amor. A preparação de 40 dias (com jejum) iniciava-se, originalmente, a partir da sexta semana antes da Páscoa, mas como havia pelo meio seis domingos – e o Domingo nunca é dia de jejum – e se queria completar a simbologia dos 40 dias de Jesus no deserto, prolongou-se este tempo antecipando o seu início para a Quarta feira antes da sexta semana antes da Páscoa. Chamar-se-lhe-á, mais tarde “Quarta Feira de Cinzas”. No séc. IV encontramos já imensos testemunhos de uma organização deste tempo de preparação para a Páscoa. Vejam-se, por exemplo, as descrições dos ritos e costumes feitos pela peregrina Egéria em Itinerário de Egéria.
Do séc. IV ao VII-VIII temos o que se pode chamar o período áureo da Quaresma cristã, ao qual se começa a dar, por causa do carácter pascal, um forte carácter baptismal que se expressa nos ritos do catecumenado. Para entender bem a Quaresma há que dizer que no estabelecimento da sua cronologia da Quaresma teve uma grande importância a recordação dos quarenta (40) dias que Jesus passou no deserto em jejum, segundo o testemunho dos Evangelhos Sinópticos e o seu simbolismo. É um número que encontra muitas e significativas ressonâncias na simbologia de toda a história de Israel como Povo a caminho: 40 dias do dilúvio; 40 dias e noites de Moisés no Sinai; 40 dias que Elias caminha para o Horeb; 40 anos do Povo no Deserto; 40 dias em que Jonas pregou a penitência em Nínive.
É assim que ela se assume como um tempo especial em que a Comunidade Cristã, toda a Igreja, está chamada a este exercício de preparação para a Páscoa que tem, antes de mais, um carácter de verdadeira renovação espiritual (renascer...). Tradicionalmente insiste-se na trilogia oração, esmola e jejum mas sempre com o cuidado de não resumir este tempo a um tempo em que “se dizem mais umas orações”, um tempo em que se dão “mais umas esmolas”, ou um tempo em que, esforçada mas rancorosamente “se come menos um pouco”.

Vivências de Quaresma hoje
O sentido da Quaresma hoje está expresso e patente nos nº 109 e 110 da já citada Sacrossantum Concilium, a Constituição do Concílio Vaticano II sobre a Liturgia. Aí se recorda o seu sentido baptismal e penitencial, mas insiste-se também na escuta mais assídua da Palavra de Deus, e na maior dedicação à Oração:
- recuperação dos elementos baptismais (renuncio... credo...) (Cf. Ritual Baptismo)
- sentido pessoal e social do pecado (109 e 110 da SC insiste no jejum penitencial externo e interior)
Nesses mesmo números do mesmo Documento se reflecte também a teologia e espiritualidade da Quaresma
a) O mistério de Cristo na Quaresma: Jesus Cristo que se encaminha para Jerusalém (realização do Mistério pascal). Quaresma é celebração existencial deste doloroso mas luminoso caminho:
- O Protagonista é Cristo: vide textos do Ciclo A dominical: Jesus retira-se para o deserto para orar e jejuar, transfigura-se na montanha, encontra a Samaritana, cura o cego de nascença, chora a morte de Lázaro e ressuscita-o.
- O Modelo: Cristo que se retira ao deserto e com Jejum e oração vence o diabo com a Palavra de Deus
- O Mestre é Cristo (mestre das atitudes que nos chama a viver particularmente a partir da liturgia da Palavra dos dias feriais...)

b) O Mistério da Igreja na Quaresma (tempo baptismal e de conversão):
- Um caminho de fé mais consciente (a dimensão baptismal deste tempo convida-nos a reviver com intensidade a dimensão baptismal – sim creio em Deus… Jesus … Espírito … Igreja … ).
- Escuta mais atenta da Palavra: o caminho de fé que somos chamados a fazer não pode ser feito sem a referência à Palavra de Deus (é Palavra de Deus, não é uma palavra qualquer).
- Oração mais intensa: a partir do encontro personalizado com Jesus na Palavra, personalizar também mais a oração (fazê-la mais pessoal e personalizante, estruturante da personalidade)...

c) Imagens e “símbolos” fortes da Quaresma:
- Cristo
- Samaritana que encontra a felicidade
- Cego que vê a luz
- Lázaro que, pelo poder de Cristo, experimenta a vida...


d) Espiritualidade:
- dimensão trinitária: estamos no caminho de Jesus de regresso ao Pai, na força do Espírito
- em Igreja: somos irmãos, todos salvos...
- na antropologia do homem novo em Cristo: Samaritana, cego, Lázaro.

Quaresma é o grande retiro da Igreja que se prepara para a vivência do mistério da vida em plenitude. Somos baptizados, transformados pelo Espírito e pelo Amor de Deus. E isso é, em nós, fonte de renovação interior permanente. É preciso aproveitar este tempo, de facto, como tempo favorável! Hoje não preparamos o nosso baptismo, mas tomamos mais consciência das suas potencialidades quanto à realização plena da nossa identidade cristã.

P. Emanuel Matos Silva

sexta-feira, fevereiro 02, 2007



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Quero que me abraces sem me asfixiar
- em torno do referendo ao aborto -



Cativar é criar laços
Não há consciência de nós que não seja, ao mesmo tempo, consciência de um mundo habitado por outros. A consciência de nós aprofunda-se e experimenta-se na relação e no encontro com os outros. E os outros são irredutíveis, não existem apenas porque eu os pense. Existem por si, são diferentes, personalidades e características diferentes das minhas que fazem da abertura e da relação a aventura do crescimento. A célebre afirmação de que “inferno são os outros” só é verdade quando nós somos o nosso próprio inferno.
«O que quer dizer “cativar”?» é a grande interrogação do principezinho no seu diálogo com a raposa. Vale a pena ler novamente a história. É que a raposa vai explicando que «Cativar é criar laços … se me cativares precisaremos um do outro».
De facto, enquanto o principezinho metabolizava a sua dor (quase com pena de si mesmo) apareceu a raposa. Momentos antes o encontro com a flor não tinha corrido bem. A flor brincara vaidosamente fazendo tudo para se manter no meio da cena: uma espécie de jogo de sedução destinado a paralisar o admirador. E o pequeno príncipe, preso no jogo da flor, não se dava conta de si mesmo nem percebeu o que dissimulava tamanha simpatia. Amavam-se, pode concluir-se, mas nunca foram capazes de o dizer (José Gil, A profundidade e a superfície). E porque não encontraram as linguagens próprias o amor falhou. A flor usa a linguagem da astúcia enquanto o principezinho usa uma linguagem simples e directa. Não sendo realizáveis os desejos da flor, o principezinho está destinado a partir, a crescer. E é nessa procura de si mesmo por parte do principezinho que a raposa é um instrumento que possibilita uma experiência fundamental: criar laços, fazer de cada um para o outro alguém que é “único no mundo”. O aborrecimento desaparece da vida da raposa e o principezinho já não se sente estranho. Tornaram-se “únicos no mundo” um para o outro. Por isso a raposa conclui: “Tornaste-te responsável pelo que cativaste! És responsável pela tua rosa” (A. Saint-Exupéry, O Principezinho, 74). Diz-nos a mesma história que, pouco a pouco, cada um se começou a sentir responsável pelo outro e, ao mesmo tempo, a ver a vida própria com outros olhos.
Trata-se do mesmo sentir que Vergílio Ferreira afirma quando diz que «A pessoa que somos, e que parece evidente, aprende-se devagar. Quantas pessoas te amaram? E quantas pessoas amaste? O afecto é a melhor maneira de saberes o tamanho da tua vida. Ou seja, do até onde exististe. Haverá outro limite para saberes se valeu a pena?» (V. Ferreira, Pensar, 481. 471).


Quantas pessoas amaste?
Sem demagogias balofas e sendo sensível às imensas e inúmeras situações, por vezes dramáticas, a que uma mulher que se decide pelo aborto está sujeita (abandono, pressões várias, medos, falta de condições, etc, etc) gostava, neste contexto, de afirmar sensível e rigorosamente o direito à vida já existente e de, afirmar igualmente a não existência de direito sobre a vida do outro por mais embrionária que seja.
Não querendo passar por cima das dificuldades inerentes às razões que conduzem muitas mulheres a recorrer ao aborto, como se de coisas sem valor se tratasse, quero, no entanto, referir cada um desses aspectos como sendo de grandeza completamente diferente daquela que tem o valor da vida. A vida está antes como princípio, valor e fundamento, está durante como referência fundamental e experiência, e está depois como objectivo e finalidade de tudo. Tudo passa, só a vida permanece (quando permanece). E, na linha da igualdade dos direitos humanos, eu não posso tirar a ninguém algo que não tenho a capacidade de voltar a dar-lhe.
Contextualizar e reflectir esta questão no horizonte do amor e do afecto que, como diz V. Ferreira, mede o tamanho da nossa vida não é relegá-la para a utopia do irrealizável e falacioso. É colocá-la naquele horizonte das nossas vidas onde se decidem os rumos do viver, onde os desafios se fazem projectos, onde o ideal não é o abstracto mas aquilo que sempre nos segreda interiormente que é preciso continuar a educar. Não estamos sempre nós em desenvolvimento?! Se não acredito naquilo de que o homem é capaz quando se compromete gratuitamente como posso continuar a acreditar no homem?! E não estão sempre na base de qualquer Constituição de qualquer país um conjunto de valores que, embora difíceis, são os orientadores e os referentes de cada acção, de cada projecto?!
Para nós cristãos, todo o ser humano, e portanto também o embrião e o feto, possui o direito à vida imediatamente de Deus e, por isso, não existe autoridade humana que possa arrogar-se o direito de decidir sobre a vida de outro alguém. A afirmação do Decálogo “Não matarás” não é um passivo paliativo de consciência. É sempre entendido e levado à plenitude na experiência do amor fraterno. E, nesse sentido, todas as normas, todos os actos morais, todas as atitudes de vida estão, portanto referenciadas à opção fundamental perante um valor. Uma norma não vale por si mesma, mas expressa o valor e vale por isso em ordem ao comportamento. Positivas, motivadoras, abertas, orientadoras … eis como se deveriam apresentar as normas. São sempre instrumentais. Uma norma que permita arbitrariamente a destruição da vida humana é, no presente e em potência, um atropelo civilizacional, uma contradição dos valores éticos de cidadania que, embora nem sempre alcançados, construímos durante séculos. Ao aceitar – como norma, contexto ético e ambiente educativo – que se violem os direitos do mais fraco (“Eis o Homem” no dizer de Michel Serres citando o Evangelho de João), aceitar-se-á e colaborar-se-á, inequivocamente, que o direito da força se afirme sobre a força do direito.
O texto de um Assistente de Direito da Faculdade de Direito de Lisboa que recebi hoje por e-mail e que cito, afirma que «pouco se tem falado da solução da lei alemã como uma tentativa de resolver aquele aparente paradoxo ("como não punir a mulher, em muitos casos dramáticos, sem transformar o aborto num direito?", "como despenalizar sem liberalizar?"). O ponto principal dessa legislação, que a torna original no quadro europeu, consiste na existência de um mecanismo de aconselhamento e ajuda (que não é um mero aconselhamento informativo mas um aconselhamento orientado para a salvaguarda da vida e que visa dissuadir a mulher de praticar o aborto), definido, na própria lei (S. 219, nº 1, Código Penal Alemão), nos seguintes termos: " O aconselhamento serve a protecção da vida que está por nascer. Deve orientar‑se pelo esforço de encorajar a mulher a prosseguir a gravidez e de lhe abrir perspectivas para uma vida com a criança. Deve ajudá‑la a tomar uma decisão responsável e em consciência. A mulher deve ter a consciência de que o feto, em cada uma das fases de gravidez, também tem o direito próprio à vida e que, por isso, de acordo com o sistema legal, uma interrupção da gravidez apenas pode ser considerada em situações de excepção, quando a mulher fica sujeita a um sacrifício que pelo nascimento da criança é agravado e se torna tão pesado e extraordinário que ultrapassa o limite do que se lhe pode exigir ".
A lei alemã afasta-se, assim, do puro modelo do "aborto a pedido" (modelo da proposta em referendo), assumindo antes que, normalmente, será exigível à mulher o cumprimento do dever de levar a sua gravidez até ao fim, até ao nascimento do bébé. Normalmente, ser-lhe-á exigível cumprir o maravilhoso mas exigente fardo de levar a gravidez a termo.
Em contrapartida, é afirmada, por sua vez, a responsabilidade do Estado (e o mesmo se diga, aliás, da Sociedade em geral, das empresas, das famílias, etc) em criar as condições, em todos os domínios, que auxiliem a mulher a cumprir essa exigência.
Para além disso, no modelo da lei alemã, o aborto, mesmo nos casos em que, depois de realizado aquele aconselhamento dissuasor, é considerado não punível, sempre continua a ser tratado, para todos os efeitos jurídicos, como um acto ilícito (nomeadamente, para efeitos de não poder, assim, ser comparticipado pela Segurança Social, etc). Ou seja, o aborto continua a ser, nesses casos, ilegítimo, mas não punível.
Não sendo o ideal de modelo pode abrir perspectivas para um modelo de ajuda e aconselhamento dissuasor que não terminasse com uma decisão autónoma da mulher em quem, nesse momento, as condições de liberdade e autonomia até podem nem ser uma realidade por força das circunstâncias.



Santos pós-modernos pela vida
A cidadania é hoje um conceito e uma realidade bem complexas. Apela à participação, age na esfera da liberdade, pressupõe uma perspectiva participada da cultura, reenvia permanentemente aos valores e integra, no respeito mútuo e recíproco, imensas diferenças e múltiplas perspectivas. E como dinamismo fundamental acredita naquilo que alguém definiu como “somos todos pessoas a haver”. É uma cidadania que tende a incluir as diferenças para não se afirmar como exclusão.
Evidentemente que, nas sociedades actuais, o conceito de cidadania sendo valor comum nem por isso é simples de afirmar e colocar em curso. Não sendo fácil no mundo de hoje encontrar e definir uma base comum de valores éticos que sejam do acordo total, percebe-se ao mesmo tempo a impossibilidade da cidadania sem um referencial mínimo de valores. O único valor que parece não oferecer dúvidas é o da liberdade. Mas mesmo esse reenvia sempre para o encontro com o outro que é irredutível e nunca instrumentalizável. Confira-se a Declaração Universal dos Direitos do Homem onde a vida é afirmada como pertencendo ao homem por natureza, que o Estado reconhece, mas não confere. Um direito que pertence a todos os homens enquanto seres humanos. Após a experiência dura e desumana da II Grande Guerra, entende-se que a vida não é algo de que se possa dispor arbitrariamente. Violar esse direito contradiz o ideal democrático.
O não reconhecimento do direito à vida, a incapacidade de promover a salvaguarda da vida do embrião e do feto, a neutralidade cómoda são expressões de um neo-conservadorismo emergente que tenta legalizar o que não se sabe enfrentar ou mesmo resolver.
Os valores da participação, do associativismo, da gratuidade do voluntariado, da pessoa que está permanentemente a fazer-se, dos desafios de realização tão presentes na defesa e difusão da ideia de cidadania não exigirão coerentemente que se acredite na capacidade e na possibilidade de educar para o valor da vida?! Como posso coerentemente afirmar as necessidades das atitudes de solidariedade humana, de respeito recíproco, de participação comunitária se todos esses valores ficarem fechados em si mesmos e não ajudarem o homem a transcentrar-se para se encontrar de verdade com os outros e o mundo percebendo a vida como o fundamento?! Seria possível descriminalizar sem legalizar. E as mulheres seriam ajudadas. Certamente daria muito trabalho, pediria muita liberdade, exigiria muito amor. O tal pelo qual se mede a nossa vida. Aqui a Igreja marca pontos. Porque dá o que tem: a alegria de amar. É por isso que vale mais optimizar todas as coisas do que ser apenas optimista.



P. Emanuel Matos Silva

quarta-feira, janeiro 31, 2007




Estivemos
na Beirã e em Castelo de Vide
com os
Cónº Trasício e o Pe. Luís


Actividades em Fevereiro 2007
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- 17 – Encontro "Laboratórios da fé"
(Casa Paroquial de Arez, Nisa, das 17h00 às 18h30)

- Vigília de Oração (21h30: Igreja do Calvário, Nisa)

- 18 - Actividades em Paróquias

- 21 a 25 - Retiro dos Seminaristas

quarta-feira, janeiro 10, 2007



Janeiro 2007
Programa SDPVocações
  • 6 (Sábado) – Vigília de Oração pelas Vocações (21h30: Igreja do Calvário, Nisa)
  • 13 (Sábado) – Encontro Sta. Teresa (encontro sobre a Vida Religiosa – das 20h00 às 21h30: Casa Paroquial de Arez, Nisa)
  • 14 (Domingo): Participação nas Eucaristias de Chainça, Abrantes e Alferrarede (10h00, 11h00 e 12h15);
  • 20 (Sábado) – Laboratórios da fé (encontro para aprofundamento da fé em horizonte vocacional – das 18h00 às 19h30: Casa Paroquial de Arez, Nisa)
  • 27 (Sábado) – Encontro João Paulo II (encontro sobre a especificidade da vocação sacerdotal e a identidade do padre na Igreja – 20h00 às 21h30: Casa Paroquial de Arez, Nisa)


quinta-feira, dezembro 28, 2006

Natal


Um conto de MIGUEL TORGA


De sacola e bordão, o velho Garrinchas fazia os possí­veis par se aproximar da terra. A necessidade levara-o lon­ge de mais. Pedir é um triste ofício, e pedir em Lourosa, pior. Ninguém dá nada. Tenha paciência, Deus o favore­ça, hoje não pode ser - e beba um desgraçado água dos ribeiros e coma pedras! Por isso, que remédio senão alargar os horizontes, e estender a mão à caridade de gente desco­nhecida, que ao menos se envergonhasse de negar uma cô­dea a um homem a meio do padre-nosso. Sim, rezava quando batia a qualquer porta. Gostavam... Lá se tinha fé na oração, isso era outra conversa. As boas acções é que nos salvam. Não se entra no céu com ladainhas, tirassem daí o sentido. A coisa fia mais fino! Mas, enfim... Segue-se que só dando ao canelo por muito largo conseguia viver.
E ali vinha de mais uma dessas romarias, bem escusa­das se o mundo fosse doutra maneira. Muito embora trou­xesse dez réis no bolso e o bornal cheio, o certo é que já lhe custava arrastar as pernas. Derreadinho! Podia, realmente, ter ficado em Loivos. Dormia, e no dia seguinte, de ma­nhãzinha, punha-se a caminho. Mas quê! Metera-se-lhe em cabeça consoar à manjedoira nativa... E a verdade é que nem casa nem família o esperavam. Todo o calor possível seria o do forno do povo, permanentemente escancarado à pobreza. Em todo o caso sempre era passar a noite santa debaixo de telhas conhecidas, na modorra dum borralho de estevas e giestas familiares, a respirar o perfume a pão fresco da última cozedura... Essa regalia ao menos dava-a Lourosa aos desamparados. Encher-Ihes a barriga, não. Agora albergar o corpo e matar o sono naquele santuário colectivo da fome, podiam. O problema estava em chegar lá. O raio da serra nunca mais acabava, e sentia-se cansa­do. Setenta e cinco anos, parecendo que não, é um grande carrego. Ainda por cima atrasara-se na jornada em Feitais. Dera uma volta ao lugarejo, as bichas pegaram, a coisa co­meçou a render, e esqueceu-se das horas. Quando foi a dar conta, passava das quatro. E, como anoitecia cedo, não ha­via outro remédio senão ir agora a mata-cavalos, a correr contra o tempo e contra a idade:, com o coração a refilar. Aflito, batia-Ihe na taipa do peito, a pedir misericórdia. Ti­vesse paciência. O remédio era andar para diante. E o pior de tudo é que começava a nevar! Pela amostra, parecia coi­sa ligeira. Mas vamos ao caso que pegasse a valer? Bem, um pobre já está acostumado a quantas tropelias a sorte quer. Ele então, se fosse a queixar-se! Cada desconsideração do destino! Valia-Ihe o bom feitio. Viesse o que viesse, recebia tudo com a mesma cara. Aborrecer-se para quê?! Não lu­crava nada! Chamavam-lhe fiIósofo ... Areias, queriam di­zer. Importava-Ihe lá.
E caía, o algodão em rama! Caía, sim senhor! Bonito! Felizmente que a Senhora dos Prazeres ficava perto. Se a brincadeira continuasse, olha, dormia no cabido! O que é, sendo assim, adeus noite de Natal em Lourosa...
Apressou mais o passo, fez ouvidos de mercador à fadi­ga, e foi rompendo a chuva de pétalas. Rico panorama!
Com patorras de elefante e branco como um moleiro, ao cabo de meia hora de caminho chegou ao adro da ermi­da. À volta não se enxergava um palmo sequer de chão des­coberto. Caiados, os penedos lembravam penitentes.
Não havia que ver: nem pensar noutro pouso. E dar graças!
Entrou no alpendre, encostou o pau à parede, arreou o alforge, sacudiu-se, e só então reparou que a porta da ca­pela estava apenas encostada. Ou fora esquecimento, ou al­guma alma pecadora forçara a fechadura.
Vá lá! Do mal o menos. Em caso de necessidade, podia entrar e abrigar-se dentro. Assunto a resolver na ocasião de­vida... Para já, a fogueira que ia fazer tinha de ser cá fora. O diabo era arranjar lenha.
Saiu, apanhou um braçado de urgueiras, voltou, e ten­tou acendê-Ias. Mas estavam verdes e húmidas, e o lume, depois dum clarão animador, apagou-se. Recomeçou três vezes, e três vezes o mesmo insucesso. Mau! Gastar os fós­foros todos, é que não.
Num começo de angústia, porque o ar da montanha to­lhia e começava a escurecer, lembrou-se de ir à sacristia ver se encontrava um bocado de papel.
Descobriu, realmente, um jornal a forrar um gavetão, e já mais sossegado, e também agradecido ao Céu por aque­la ajuda, olhou o altar.
Quase invisível na penumbra, com o divino Filho ao colo, a Mãe de Deus parecia sorrir-lhe.
- Boas festas! - desejou-lhe então, a sorrir também.
Contente daquela palavra que lhe saíra da boca sem sa­ber como, voltou-se e deu com o andor da procissão arru­mado a um canto. E teve outra ideia. Era um abuso, evi­dentemente, mas paciência. Lá morrer de frio, isso vírgula! Ia escavacar o arcanho. Olarila! Na altura da romaria que arranjassem um novo.
Daí a pouco, envolvido pela negrura da noite, o cober­to, não desfazendo, desafiava qualquer lareira afortunada. A madeira seca do palanquim ardia que regalava; só de se cheirar o naco de presunto que recebera em Carvas crescia água na boca; que mais faltava?
Enxuto e quente, o Garrinchas dispôs-se então a cear. Tirou a navalha do bolso, cortou um pedaço de broa e uma fatia de febra, e sentou-se. Mas antes da primeira bocada a alma deu-lhe um rebate e, por descargo de consciência, er­gueu-se e chegou-se à entrada da capela. O clarão do lume batia em cheio na talha dourada e enchia depois a casa toda.
- É servida?
A Santa pareceu sorrir-lhe outra vez, e o menino tam­bém.
E o Garrinchas, diante daquele acolhimento cada vez mais cordial, não esteve com meias medidas: entrou, diri­giu-se ao altar, pegou na imagem e trouxe-a para junto da fogueira.
- Consoamos aqui os três - disse, com a pureza e a ironia dum patriarca. - A Senhora faz de quem é; o pe­queno a mesma coisa; e eu, embora indigno, faço de São José.


« O Cristianismo vive do que poderíamos chamar um fundamental optimismo metafísico ao mesmo tempo que de um realismo histórico. O primeiro funda-se na fé, na criação, no Deus que fez surgir toda a realidade, que declarou muito bom tudo quanto tinha feito e que constituiu o homem senhor de tudo o resto e responsável de si, imagem do seu próprio ser, e com capacidade de chegar a ser semelhante a Ele, com uma semelhança que será fruto de uma liberdade acreditada no tempo. No princípio estão a vida, a liberdade e a história aberta. No princípio estão a palavra criadora de Deus, a acção animadora e sustentadora do espírito sobre a face informe do mundo. No princípio não está a morte, nem o pecado, nem a confusão da liberdade na incomunicação dos homens entre si *.

O. Qonzález de Cardedal


«O homem só existe como pessoa, e, por isso, não em elevada distância, fechada solidão ou afrontamento indiferente, mas em abertura e relação.
O que diferencia as coisas das pessoas é que aquelas são e estão condenadas à autonomia, quer dizer, à incomunicação e solidão, enquanto as pessoas estão destinadas à relação, à existência interdependente, a uma liberdade que não nasce face ou contra o próximo, mas da aceitação, oferta e acolhimento do outro, igualmente livre e soberano »

O. Qonzález de Cardedal




Jesus

Era uma história de amor …
(Portanto uma história de dor!
De sofrimento e de gemidos!
De silêncio e de esquecimento!
E de procura e de perda
De imolação e de perdão,
De agonia e de morte!)
Era uma história de amor.

J. A. Carmenes

quarta-feira, dezembro 27, 2006




« Os homens, no começo, sentiram alguma dificuldade em acostumar-se a Deus. Deus, no começo, sentiu alguma dificuldade em acostumar-se aos homens. E no século treze ainda se está no começo. No século vinte não estamos mais longe, não fizemos outra coisa senão marcar passo, atolando-nos um pouco mais nesse furor em espelho de Deus e dos homens, conforme nos dão testemunho a poeira dos nossos sapatos e o sangue em crosta nos nossos lindos fatos.
Francisco de Assis conhece Isaías […] conhece bem a Bíblia […] A voz de Deus está na Bíblia sob toneladas de tinta, como a energia concentrada sob toneladas de betão numa central atómica. O jovem de Assis foi irradiado por esta voz. Já nada mais quer senão transmiti-la […].

Há algo no mundo que resiste ao mundo, e este algo não se acha nas igrejas nem nas culturas nem no pensamento que os homens têm de si próprios, na crença mortífera que eles têm de si próprios enquanto seres sérios, adultos, razoáveis, e este algo não é uma coisa, mas Deus, e Deus não pode caber em nada sem logo o abalar, o arrasar, e Deus imenso não sabe caber senão nos estribilhos de infância, no sangue perdido dos pobres ou na voz dos simples, e todos esses abarcam Deus no côncavo das suas mãos abertas, um pardal encharcado como pão pela chuva, um pardal transido, chilreador, um Deus pipilante que vem comer nas suas mãos nuas.
Deus é o que sabem as crianças, não os adultos. Um adulto não pode perder tempo a alimentar os pardais».

Christian BOBIN, Um Deus à flor da Terra, 98

sexta-feira, dezembro 22, 2006



Natal

- da noite para o dia -


As luzes do Natal

Quando os dias se fazem mais curtos, quando os primeiros sinais de Inverno se fazem presentes, timidamente, silenciosamente despertam em nós os primeiros sentimentos e pensamentos de Natal. E desta simples palavra “Natal” brotam sentimentos tão numerosos e tão diferentes que, parece, nenhum coração humano lhe resiste.
Mesmo aqueles para quem a história da Criança que nasce em Belém não diz nada se prepararam para a festa e se interrogam sobre a forma como, nesta quadra, fazer acontecer o amor ao seu redor. Festa do amor e da alegria, o Natal é assim uma espécie de estrela de Inverno para a qual todos caminham e da qual todos partem.
Mas que estrela é essa? O que ilumina ela? E que representa?
Podíamos tentar aqui uma espécie de brincadeira. Imaginemos que neste momento todas as luzes se apagavam e que tínhamos de dizer quantas e quais a coisas que se encontravam na sala onde nos encontrássemos. Ou lembremo-nos do nosso levantar todos os dias pela manhã: qual é a primeira coisa que vemos? E porquê? Uns vêm o despertador (olhando … “vê-se” o tempo diante de nós); outros vêem a pessoa amada (olham e “vêem” o amor); outros vêm um qualquer objecto que tenham junto de si (o olhar marca uma proximidade), etc. Em qualquer caso o olhar que se detém em algo ou em alguém (uma realidade física) reenvia para algo não-físico (tempo, amor, fidelidade, compromisso).


Natal não é apenas um aniversário

Por tudo isto, o Natal não é apenas um aniversário. É sempre um acontecimento novo. É um nascimento. Aliás, nós somos sempre passado, presente e futuro. Ou, como dizia Sto Agostinho, somos o presente do passado e isso é a memória; somos o presente do presente, e isso é a visão; e somos o presente do futuro e isso é a esperança[1].
Natal é uma aparição de Deus entre os homens; é sim o nascimento de uma criança que só Deus podia dar ao mundo, uma criança nascida de uma mulher. Mas que vem de Deus e que vai ser no mundo a “narrativa” e a “explicação” de Deus
[2].
Então este nascimento não é uma metáfora; é sim uma realidade histórica que permanecerá como sinal. Um nascimento que é um sinal porque contém em si tudo aquilo que mais desejamos mas que precisa ser tocado por nós. É como que uma semente que só floresce em contacto com a atmosfera das nossas vidas. É por isso que o Natal não é um aniversário de algo passado e que tenha ficado preso nesse passado. Não! Natal é hoje!
“Hoje nasceu o nosso Salvador” diz s. Lucas. Dizer “Hoje nasceu” é um daqueles casos em que a nossa linguagem não se reduz a um comentário ao que acontece ou ao que fazemos, mas é sim um acção verdadeira. A linguagem do amor é sempre assim, a linguagem existencial é sempre assim.
Na nossa vida o presente (“Hoje”) tem, de facto, um valor imenso, fundamental e particular porque é o horizonte que nos permite tocar a vida na sua maior autenticidade e realidade. É o horizonte que nos permite relacionar a vida ao Bem, à Verdade que nos transcende, à Presença que nos alimenta.
Esta é uma daquelas dimensões da vida em que não dizemos o que fazemos (o tal comentário), mas antes fazemos o que dizemos. Ao dizermos estamos a permitir que se produzam efectivamente em nós os sentimentos que expressamos: uma verdadeira sintonia com o fundamento da realidade. Por isso cada momento é sempre o mesmo e é sempre novo.

Um povo que andava nas trevas viu uma luz

Os textos bíblicos de Isaías referem-se, profeticamente, ao Natal desta forma: O povo que andava nas trevas viu uma grande luz. Para aqueles que habitavam no país das trevas uma luz começou a brilhar (Is 9, 1).
O texto tem, evidentemente, um contexto histórico próprio e objectivo: o povo de Israel experimentou a deportação e o exílio, mas não se rendeu à desgraça, alimentou a esperança. Este é, contudo, um texto profético que continua a profetizar. Podemos ler este texto através do “Hoje” que transforma em “eterno presente” o seu dinamismo interno e a verdade que diz.
Biblicamente, as trevas são sempre sinal de desgraça, de opressão, de cativeiro ou mesmo de morte. Em sentido inverso a luz é sempre sinal de libertação, salvação, visão clara, conhecimento, discernimento, enfim sinal de verdade e de autenticidade.
Lido em retrospectiva este texto diz respeito à libertação de Israel do cativeiro da Babilónio, mas diz também respeito à esperança de uma felicidade mais profunda por parte de Israel. Qual foi a luz que Israel viu? A liberdade, sem dúvida. Mas também a sua esperança mais profunda realizada: “Encontrareis um menino envolto em panos e deitado numa manjedoira” (Lc 2, 12) diz o Evangelho de Lucas. E é aqui que se vislumbra o sinal do Natal, a sua luz.
O sinal dado aos pastores naquela noite é um sinal extremamente simples, um sinal extremamente pobre. É um sinal que pertence à humanidade simples: uma criança nasce, mas na simplicidade e pobreza de um estábulo; uma criança nasce mas vê negada a hospitalidade.
Eis o sinal, a luz do natal. Tudo está aqui condensado. É uma criança pobre, uma criança simples que nasce: o Senhor e salvador, o Messias aguardado, é uma criança pobre, filho de pobres, nascido na pobreza
[3]. A Luz mais brilhante do Natal é, portanto, esta relação entre a pobreza e a glória, a relação entre a simplicidade e a glória. Como quem diz que a primeira e grande nota da solenidade é a sua simplicidade, a sua autenticidade, a sua verdade.
O início de uma vida de homem sobre a terra: é, talvez, esta simplicidade a razão da universalidade da mensagem do Natal: esta criança viverá a maior parte da sua vida no meio dos homens do seu tempo; passará pelo mundo fazendo o bem ; realizando sinais ligados às necessidades dos homens, realiza a relação e comunhão dos homens com Deus e dos homens entre si: pão e vinho multiplicados, saúde reecontrada, natureza e homem reconciliados, fraternidade restabelecida, a vida e o amor reafirmados como mais fortes que a morte.
E será a vivência quotidiana de tudo isto que fará com que seja reconhecido como Filho de Deus.


Vida entregue a Cristo: da noite para o dia

“Hoje nasceu o nosso Salvador”. O “Hoje” do nosso Natal é, portanto, o hoje deste encontro entre cada um de nós e a verdade desta criança. Nós não celebramos hoje Natal como há dois mil anos. Celebramo-lo com a Criança já inteiramente revelada. O Natal faz apelo a toda a vida, a todas as palavras de Jesus Cristo, a todas as suas acções, a todos os seus gestos. E o “Hoje” do Natal é o momento do encontro com essa simplicidade da verdade e da autenticidade.
Como a vida da humanidade seria diferente se a simplicidade do Natal se expandisse pelas vidas de todos e cada um. Simplicidade que significa descomplicar a vida do dia a dia; simplicidade que significa aquela nossa fome natural de sentido, de segurança e de afecto; simplicidade que significa autenticidade sem representações.
O “Hoje” do Natal é trazer á nossa vida cada modo de agir, cada modo de pensar, cada modo de resolver a vida que Jesus assumiu. De facto, o que seria a nossa vida e a vida de toda a humanidade, as nossas relações, os nossos confrontos, se lhes conseguíssemos juntar aquele amor que dá tudo e se entrega todo que vimos acontecer em Jesus de Nazaré?! E se lhe copiássemos essa forma livre e autêntica de ser e de estar?!
As luzes do nosso Natal são a expressão da ânsia dessa luminosidade. São símbolos dos desejos interiores que ainda não conseguimos realizar. Queremos estar iluminados por dentro e para não nos esquecermos acendemos as luzes fora como que a dizer-nos: que bom será o mundo quando for Natal! De facto, aquela criança fez-se homem para nos ensinar a viver no mundo (Tt 2, 11 – 12).
No hemisfério norte os símbolos naturais são extremamente forte neste período. E os primeiros cristãos integraram-nos na sua vivência. Todos os anos os cristãos, como todos os seus concidadãos, reparavam que a partir do equinócio do Outono se acentuava progressivamente o declínio da luz: as noites são cada vez maiores e os dias cada vez mais pequenos. No momento do solstício de Inverno a situação inverte-se e a luz do dia começa a conquistar tempo sobre a noite: os dias começam a crescer e as noites a ficar mais pequenas. No calendário juliano, o solstício de Inverno acontecia por 25 de Dezembro. E os cristãos começaram a celebrar aí Natal: Jesus, cada Palavra sua, cada gesto seu, cada acção sua é a Luz, o novo Sol da justiça e da verdade: por causa daquela criança e existencialmente, a luz afirma-se sobre a escuridão, efectiva-se uma passagem das trevas para a luz, uma passagem, enfim, da noite para o dia! E é isso o Natal: da noite para o dia!

P. Emanuel Matos Silva

[1] SANTO AGOSTINHO, Confissões XI, 21, 26.
[2] Cf. Enzo BIANCHI, Donner sens au temps (Paris: Bayard, s/d) 19.
[3] Cf. Enzo BIANCHI, op. cit.

terça-feira, dezembro 05, 2006

Rezar pelas Vocações

- a gratidão do Seminário –


“Tu amas-Me?” pergunta Jesus
Decorreu de 12 a 19 de Novembro a Semana dos Seminários. Foi uma semana em que a Igreja foi desafiada a lembrar mais intensamente na oração os Seminários, seus Seminaristas e formadores. Tendo como tema de reflexão a interrogação de Jesus a Pedro (“Tu amas-Me?”) e a consequente missão em que Jesus investe Pedro (“Apascenta as minhas ovelhas”), esta semana foi, de facto, uma ocasião para sentir como Jesus Se prolonga e faz presente na Igreja, na Palavra e no Sacramento e, por isso, necessita de homens baptizados que, deixando-se apaixonar por Jesus Cristo, Lhe respondam como Pedro (“Tu sabes que Te amo”) e se deixem enviar para evangelizar.
A Luz dos Povos é Cristo, mas a Igreja é o seu Sinal ou Sacramento. É precisamente esta sacramentalidade da Igreja que necessita de ministros para agir. A Igreja é Corpo de Cristo e neste Corpo cada cristão, cada baptizado, tem um lugar, uma vocação e uma missão que se pode resumir na permanente proximidade em relação a Jesus e aos irmãos bem como no testemunho do seu sentido de vida. Mas para que todos os cristãos possam realizar a sua vocação e missão, Jesus fez-Se continuar nos Apóstolos e, depois, seus sucessores. A vocação do Bispo na Igreja e, enquanto seus colaboradores, a vocação dos padres, tem este fundamento e razão de ser: é um serviço ao baptismo (à fé, portanto) de todos os cristãos. São eles, no seguimento de Jesus e unidos a Jesus Vivo e presente, que têm como missão fazer crescer na fé todos os outros cristãos. Consagram-se para isso e toda a sua vida, afectiva e institucionalmente, é referida a essa missão: ensinar, santificar, conduzir.
Uma vocação assim – de verdade - só pode brotar de um encontro pessoal com Jesus no meio e na vida da Igreja. Não é um dom para usar e usufruir apenas pessoalmente, é um dom à comunidade. Por isso as vocações de consagração, o sacerdócio em particular, hão-de nascer na comunidade e da experiência da fé vivida comunitariamente. E aí Deus chama gratuitamente e às vezes inesperadamente, mas também chama pelas necessidades que a comunidade sente em termos do cuidado da sua fé. Vigilância cristã é, sobretudo, uma atitude de disponibilidade às manifestações de Deus e ao que Ele inspira. É então precisamente aqui que entra o dinamismo da oração. Deus só se entende bem na oração. Só rezando se percebe bem o que Deus quer de nós e o que Deus quer da nossa Igreja. A vocação é mistério da mais profunda autenticidade e a oração é a relação por excelência onde se aprende e se caminha para a autenticidade. Já tentaram rezar uma mentira? Nunca funciona pois não? Não, de facto, não funciona. Então a oração ajuda a descobrir a vocação e as vocações. A oração ajuda a não ter medo de responder pessoalmente ao Mestre que chama e quando chama.
Rezando pelas vocações, e pelos Seminários em particular, é a própria comunidade cristã que sente e se consciencializa de que o Seminário é parte integrante de si mesma: é a continuação do grupo que Jesus estabeleceu com os doze para os ensinar e, depois, os enviar. Só rezando a Igreja compreende e valoriza o seu Seminário.


Senhor, dai-nos muitos e santos sacerdotes
O Secretariado Diocesano da Pastoral das Vocações (formado em grande parte pelos nossos Seminaristas mais velhos) tem promovido, desde o início deste ano pastoral, a oração pelas vocações. É esse, aliás, o grande pedido que tem feito nas comunidades paroquiais por onde tem passado: que se reze pelas vocações e, em particular, pelos seminaristas.
Em qualquer contexto se pode rezar pelas vocações e lembrar ao Senhor os nossos Seminaristas: nas Eucaristias das comunidades, nas celebrações da Palavra, no Terço, na Liturgia das Horas, nas adorações do Santíssimo Sacramento, na oração pessoal e comunitária. E é muito importante que isso se faça. Mas este ano, para ajudar, o SDPVocações dinamizou uma cadeia de oração por Sms (mensagem de telemóvel): deixando uma mensagem ou enviando um toque para o 917097173, recebeu-se a partir do primeiro domingo do Advento, uma pequena oração que, mais ou menos à mesma hora, coloca pessoas nos mais variados e distantes locais a rezar em comunhão com a mesma intenção: as vocações, particularmente as sacerdotais, na nossa Diocese. E o desafio foi acolhido e ultrapassou as fronteiras das mensagens de telemóvel: das imensas pessoas que receberam a primeira mensagem, muitas quiseram retribuir e mostrar que estavam presentes. E foram, sem dúvida, momentos fortes de oração de uma Igreja que, nas suas comunidades, se quer voltar para o Senhor. Jovens e adultos fizeram chegar ao SDPVocações e aos Seminaristas a expressão da sua oração.
Uma conclusão se pode tirar já: a Igreja sente a falta das vocações de especial consagração e sabe, confiante, que só junto de Deus as encontrará.

Bem-hajam pela oração
Durante a Semana dos Seminários foram muitas as mensagens que chegaram ao Seminário dando conta de que a Diocese não se esquecia de rezar pelos seus Seminaristas. Comunidades Religiosas, Comunidades Paroquiais, Párocos, Famílias, Jovens e menos Jovens de todos os cantos da Diocese expressaram a sua presença junto dos Seminaristas. A mensagem podia ser comum (“é para vos dizer que nesta Semana dos Seminários a nossa Paróquia de … e o seu Pároco os lembrou em oração e pediu ao Senhor que os faça sempre felizes e santos”) mas cada uma trazia o seu ritmo particular e a sua experiência comunitária de oração. Lembro uma que nos dizia “Nesta Semana dos Seminários o nosso coração está mais perto do Coração da Diocese (Seminário) e lembra na oração cada um dos Seminaristas”. Ou aquela que nos confidenciava “que olhar para o Seminários, para os Sacerdotes e para os Seminaristas sem me querer tornar um deles é um desafio a que não sei se conseguirei resistir muito tempo. Rezem por mim”. Ou aquela outra de alguém que dizia “espero um dia poder juntar-me a vós”.
Enfim, com muitas formas e de muitas maneiras, o Seminário foi objecto do carinho e da oração de tantos e tantos cristãos na nossa Diocese. Sacerdotes que telefonaram, doentes que ofereceram os seus sofrimentos por esta intenção foram ocasiões de perceber o mistério da vocação como um mistério de fé.
E houve uma Paróquia da nossa Diocese que nos surpreendeu de maneira extraordinariamente bela: cada uma das crianças, muitas dezenas, da Catequese Paroquial de Nisa, escreveu uma carta aos Seminaristas. Mensagens de extrema beleza e simplicidade com desenhos dos mais novitos e dizendo que rezavam para que um dia os agora Seminaristas fossem bons padres. Ou então mensagens mais elaboradas com textos de autêntica partilha de sentimentos dos mais velhos a encorajar a opção de seguir Jesus e a pedir aos Seminaristas uma oração.
É por tudo isto e pelo muito que fica por dizer que o Seminário quer agradecer a Deus e aos cristãos da nossa Diocese. Na nossa oração não vos esqueceremos. Sentir-vos perto ajuda o nosso discernimento e credibiliza a nossa experiência. Mas temos ainda um pedido mais: nunca nos esqueçam na vossa oração e desafiem mais gente a que reze pelas vocações e, em particular, pelas vocações sacerdotais. Seguramente Deus ouvir-nos-á e dir-nos-á o que fazer. Sempre o fez. Não era agora que nos faltaria.

P. Emanuel Matos Silva

domingo, novembro 05, 2006





12 a 19 de Novembro de 2006
Semana dos Seminários

Vamos rezar pelos nossos Seminaristas:

  • Leonel de Matos Lopes (Paróquia da Ponte de Sor): 2º ano
  • Nuno Miguel Lopes Silva (Paróquia da Bemposta): 2º ano
  • Gilberto Manuel Antunes Fernandes (Paróquia da Isna): 3º ano
  • Daniel Santos Almeida (paróquia do Salgueiro): 5º ano

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Senhor Jesus,
Obrigado pela generosidade de tantos sacerdotes
Que, confiantes no Teu amor,
Te entregaram o coração e a existência.
Obrigado pelos nossos jovens seminaristas
Que, fixando o olhar no Teu, procuram, no mais íntimo das suas vidas
Responder, com verdade,
Ao teu inquietante chamamento.

Senhor Jesus,
Também a mim, como outrora a Pedro,
Tu diriges a pergunta:
“ Tu amas-Me?”.
Concede-me uma fé inabalável no Teu amor,
Para que Te possa responder,
Com verdade e sem reservas,
E a Ti me entregue sem medos ou condições.

Senhor Jesus,
Ajuda-me a amar a Tua Igreja,
Na qual aprendi a conhecer-Te e a amar-te,
Para que, vendo as suas necessidades,
Acolha com confiança o teu pedido:
“Apascenta as minhas ovelhas”.
Que em mim se cumpra o que Tu queres
e não o que eu quero.
Ao teu amor me entrego e consagro a minha vida.

(Oração da Semana dos Seminários 2006)