terça-feira, junho 26, 2007
PORQUE O MUNDO
TEM NECESSIDADE DE AMOR,
PADRE, UMA VOCAÇÃO!
É já no próximo domingo, dia 1 de Julho, pelas 17h00, na Sé catedral de Portalegre que o Alberto Jorge Tapadas, da Paróquia da Comenda e da nossa Diocese de Portalegre - Castelo Branco, vai ser ordenado Padre.
Este é um momento importantíssimo na vida da nossa Diocese. Um jovem que, faz já alguns anos entrou no Seminário e aí fez a sua caminhada de convívio com Jesus Cristo, oferece a riqueza da sua vida e da sua pessoa a Jesus Cristo e à Igreja por amor da humanidade.
Não há melhor maneira de agradecer os dons que nos dão do que aceitá-los com alegria e simplicidade. E por isso aí está: "Tomai Senhor tudo ... vós mo destes ... a Vós o restituo. Fazei de mim o que quiserdes" parece rezar neste momento o Alberto.
No próximo dia 14 de Julho será a chamada "Missa Nova" na Comenda. Mas, neste dia, a toda a alegria que já se vive naquela Comunidade pelo Dom de um novo Sacerdote, junta-se ainda outro motivo de festa: o Pároco da Comenda, o Revmo. Senhor Padre António Lobato Novo, celebra 50 anos de Sacerdócio. É bonito ver a dedicação de 50 anos e a entrega da juventude num acto comum de celebração de fé e de reafirmação da confiança total em Deus. É bonito ver 50 anos de Sacerdócio desabrocharem na ajuda à concretização e efectivação de uma nova vocação ao Sacerdócio.
Rezemos todos por ambos, pelas suas famílias e pelas suas comunidades, os berços onde nasceram e se fizeram homens, os caminhos onde descobriram Deus e se Lhe entregaram.

terça-feira, junho 19, 2007
Encontro Vocacional e Pré-Seminário para rapazes a partir dos 14 anos
Um fim de semana com os Seminaristas da nossa Diocese, no Seminário de Alcains, nos dias 6, 7 e 8 de Julho (17h00 do dia 6 até às 15h00 do dia 8 julho).
6, 7 e 8 de Julho
Inscreve-te:
e.pro.vocacao@sapo.pt
917 097 173
(Secretariado Diocesano da Pastoral das Vocações de Portalegre – Castelo Branco)
domingo, junho 17, 2007
quinta-feira, maio 31, 2007

Foi no passado dia 19 de Maio, um Sábado cheio de sol e de calor, que se realizou no Seminário de Alcains o encontro "Rosa dos Ventos" que contou com dez participantes além da Equipa da pastoral Vocacional.
O tema "Rosa dos Ventos" foi o pano de fundo num dia em que os trabalhos se ditribuiram por reflexão, convívio, visita ao museu do Canteiro e partilha de experiências.
Estiveram presentes durante todo o dia o Miguel (de Nisa), o Ricardo (de Ponte de Sor), o Filipe, o Nuno, o Igor, o Davide e o Luís (da Sertã) além do João e do Pedro (de Alcains) que só participaram nos momentos da manhã.
No fim do encontro, com avaliação positiva, ficou o desafio para a participação num novo encontro ("Cristo'sfera") nos próximos dias 16 e 17 de Junho também no Seminário de Alcains.
sexta-feira, abril 20, 2007
segunda-feira, abril 02, 2007

"Cristo está cá e chama-te" (Jo 11)
Já alguma vez te sentiste inquieto com o que Jesus te pede? E não gostarias de estar mais próximo d'Ele e de compreender melhor a sua Palavra? Não gostarias de descobrir melhor o que Ele te quer?
Ao longo de 2000 mil anos houve milhares e milhares, muitos milhares, de homens e mulheres que sentiram o chamamento e decidiram dedicar as suas vidas a Jesus e ao anúncio da sua Palavra. Acreditaram num mundo mais humano, mais justo ... mais bonito. Acreditaram que o amor com que Jesus viveu e chamou cada um dos seus discípulos a viver faz o mundo melhor e faz os homens entenderem melhor a vida.
Hoje Jesus continua a chamar. E o mundo também continua a ter necessidade de amor.
Não queres juntar-te a este projecto de Jesus?!
Vem, não tenhas medo!
Jesus dá sempre força
para fazermos o que nos pede!
Mas, claro, também conta
com a nossa vontade e a nossa liberdade!
Senão nunca seríamos felizes!
Não queres experimentar?
Vem sentar-te com Jesus à mesa!
Vem! Não tenhas medo!
Inscreve-te e participa:
Vai ser "bué d'a giro"
"Rosa dos Ventos" - Encontro vocacional de reflexão para rapazes a partir dos 14 anos no Seminário de Alcains, dia 19 de Maio das 10h00 às 18h00.
"Cristo'sfera" - Encontro vocacional de reflexão para rapazes a partir dos 14 anos no Seminário de Alcains, dia 16 e 17 de Junho (10h00 de sábado até às 14h30 de domingo).
"Atreve-te!" - Um fim de semana com os Seminaristas da nossa Diocese, no Seminário de Alcains, nos dias 6, 7 e 8 de Julho (10h00 do dia 6 até 15h30 do dia 8 julho).
Inscreve-te!
Envia os teus dados (nome, idade, morada, telefone, e-mail) para
Esperamos por ti!
"Vem sentar-te com Jesus à mesa"

- passar sobre (hyperbasis): quando fala de Deus ou do seu anjo que passa sobre as casas dos judeus sem os ferir
- passar através de (diabasis): quando o povo passa do Egipto para a Terra Prometida
- passagem para o alto (anabasis): quando o homem passa das coisas terrenas para as coisas do céu
- passagem para fora (exodus): quando o homem sai da escravidão do pecado
- passagem para diante (progressio): quando o homem progride no caminho da santidade.
Na base da ideia da Páscoa está, portanto, a ideia de uma passagem: da morte para a vida. É algo que se evoca como provisório e transitório, algo que é preciso ser ultrapassado. E só é possível parar quando se chega à plenitude, quando se chega à Parusia. Como disse Sto Agostinho, num dos seus comentários ao Evangelho de João (55, 1 in CCL 36, pp463) a Páscoa é passar para aquilo que não passa.
E, de facto, se virmos à nossa volta e bem dentro de nós, tudo passa. Mas, diante deste tudo que passa, há Alguém que não passa: Deus, o Amor de Deus.
O homem é frágil, passa, é transitório. Deus não passa, não é provisório, não é transitório. Por isso a Páscoa é passar para o que não passa nunca: Deus.
Diante desta passagem podemos reflectir a morte de Cristo como uma passagem: e só passa quem se entrega na liberdade e na obediência. O Pai entrega-Se novamente e entrega o Filho e o Filho entrega-Se ao Pai e à humanidade.
Então, em Cristo, todos passamos, todos vivemos a passagem que é a Páscoa. A humanidade está representada no Adão da queda e está, sobretudo, representada no Jesus Cristo da redenção. Cristo morreu pelos nossos pecados e a essência da sua missão pode centra-se aqui: morreu por nós.
Este “por nós” não significa uma substituição penal ao estilo de vítima que entregámos por nós. Este “por nós” é “em nosso favor”. Se quisermos é o essencial da nossa oração: Cristo repete-se no coração de cada um de nós.
domingo, abril 01, 2007
(Jo 20, 1- 18)
Do Mistério Pascal nunca se diz o suficiente. Mistério Pascal não é apenas uma ideia, uma doutrina ou uma espécie de lei ou instituição. O Mistério Pascal tem o seu núcleo na Pessoa de Jesus Cristo, morto e ressuscitado.
É como nos diz o Papa Bento XVI, no início da fé não está uma teoria ou uma decisão ética, mas um encontro com uma Pessoa, Jesus Cristo.
1 No primeiro dia da semana, Maria Madalena foi ao túmulo de Jesus bem de madrugada, quando ainda estava escuro. Ela viu que a pedra tinha sido retirada do túmulo. 2 Então saiu a correr e foi ter com Simão Pedro e o outro discípulo que Jesus amava. E disse-lhes: «Tiraram do túmulo o Senhor e não sabemos onde O colocaram».3 Então Pedro e o outro discípulo saíram e foram ao túmulo. 4 Os dois corriam juntos. Mas o outro discípulo correu mais depressa do que Pedro e chegou primeiro ao túmulo. 5 Inclinando-se, viu os panos de linho no chão, mas não entrou. 6 Então Pedro, que vinha atrás, chegou também e entrou no túmulo. Viu os panos de linho estendidos no chão 7 e o sudário que tinha sido usado para cobrir a cabeça de Jesus. Mas o sudário não estava, com os panos de linho, no chão; estava enrolado num lugar à parte 8 Então o outro discípulo, que tinha chegado primeiro ao túmulo, entrou também. Ele viu e acreditou. 9 De facto, ainda não tinham compreendido a Escritura que diz: «Ele deve ressuscitar dos mortos». 10 Os discípulos, então, voltaram para
casa.
11 Maria tinha ficado fora, a chorar junto ao túmulo. Enquanto ainda chorava, inclinou-se e olhou para dentro do túmulo. 12 Viu então dois anjos vestidos de branco, sentados onde o corpo de Jesus tinha sido colocado, um à cabeceira e outro aos pés. 13 Então os anjos perguntaram: «Mulher, porque choras?» Ela respondeu: «Porque levaram o meu Senhor e não sei onde O colocaram».14 Depois de dizer isto, Maria virou-se e viu Jesus de pé; mas não sabia que era Jesus. 15 E Jesus perguntou: «Mulher, porque choras? Quem procuras?» Maria pensou que fosse o jardineiro e disse: «Se foste tu que O levaste, diz-me onde O puseste para eu ir buscá-l'O». 16 Então Jesus disse: «Maria». Ela virou-se e
exclamou em hebraico: «Rabuni!» (que quer dizer: Mestre). 17 Jesus disse: «Não Me segures, porque ainda não voltei para o Pai. Mas vai dizer aos meus irmãos: "Subo para junto de meu Pai, que é vosso Pai, de meu Deus, que é o vosso Deus"». 18 Então Maria Madalena foi e anunciou aos discípulos: «Eu vi o Senhor». E contou o que Jesus tinha dito.
1. As aparições do Ressuscitado
As aparições do Ressuscitado, como no-las referem os evangelistas, têm todas um esquema comum:
a) uma situação de medo, de falta de fé, de tristeza.
Maria Madalena chora; os discípulos de Emaús estão tristes; os Apóstolos no Cenáculo estão cheios de medo.
b) Jesus aparece e não é reconhecido imediatamente. No entanto, Jesus pergunta, interroga e interpela: porque choras; que se passou?; Onde vais?
c) Em cada aparição produz-se uma revelação de Jesus. Maria Madalena reconhece-O quando Ele chama, os disc. Emaús, fazem-no a partir do pão, outros(João) a partir do barco no lago: “É o Senhor”
d) Conclui-se sempre com uma missão como responsabilidade. A aparição não é apenas um consolo para a pessoa a quem Jesus aparece. Jesus entrega sempre uma missão: anunciar e partilhar a alegria.
Vamos então olhar para Maria Madalena. Podemos dividir o texto em três momentos:
1) Porque choras ? Quem procuras?
Nestas duas interrogações se resume o que Jesus nos diz a cada um de nós. Jesus faz-nos sempre uma interpelação directa. Porque choras? Porque estás triste? O que te falta? O que queres que te faça ? O que temes?
E, logo de seguida, a interrogação “ O que procuras ?” que é como quem pergunta “o que estás afazer para sair dessa situação ?”.
2) “Levaram o meu Senhor e não sei onde O puseram”
Si nal da ausência de Deus como experiência de maturidade. É como quem diz “não me falta outra coisa senão Vós Senhor”.
3) “Maria foi e anunciou a seus irmãos: Vi o Senhor”
A ressurreição implica um reconhecimento. Reconhecer o Senhor na fé. Vê-l’O de outra maneira ou de outra forma.
E esse re-conhecimento é um renascimento para a vida nova que Jesus vem trazer.
2. Encontro com Jesus a caminho de Emaús (Lc 24, 13-35)
A Páscoa é tempo do reencontro do homem com Cristo. Uma relação que nem a morte foi capaz de destruir. Aquele que morrera está vivo e é reconhecido. E é a partir daqui que se desenvolve a Cristologia do Novo Testamento: da proclamação do Ressuscitado à confissão do Filho de Deus. Verdadeiramente este era o Filho de Deus como exclamou o Centurião que acompanhou a morte de Jesus.
Para os Judeus (e esse é o contexto das Escrituras) a morte possui um significado profundíssimo. É um acontecimento temporal. Morrer é expirar o último sopro (espírito), mas é também entrar na habitação dos mortos (Shéol). Por outras palavras, morrer é passar a “viver” a “vida” (existência) dos mortos. A morte pode, portanto, identificar-se com uma prisão na habitação da morte.
Esta leitura judaica da morte aplica-se à morte de Cristo: é na Cruz que Jesus morre, no preciso momento em que entrega o espírito (sopro), e “desce” à morada dos mortos.
Nesse sentido Jesus conheceu a morte em toda a sua dimensão, em toda a sua verdade. O mesmo é dizer que a morte experimentada por Cristo é o realismo da sua encarnação a acontecer. Jesus Cristo passa por tudo aquilo que passam os mortais.
Conhecer a morte com todas as suas angústias é, pois, algo não redutível às dores físicas da Cruz, ainda que intensas e destruidoras da vida biológica. Morte é muito mais. A morte não é necessariamente um lugar de tortura, mas mais um lugar de profunda desolação, de distanciamento dos homens (na medida em que já não se habita a terra) e de Deus (na medida em que possivelmente ainda não se está no “Céu”).
E quando o homem, ser de diálogo e de encontro, ser que se constituiu na relação, não está capaz de viver dessa fonte, num trágico opaco sem horizonte de saída, está a “habitar o lugar da morte”. E esse pode ser um estado prolongado ou prolongável.
É este lugar em que reina esta morte que Cristo faz a experiência de habitar. Cristo vive a vida dos homens como homem-com-os-outros-homens. Sem iludir aquilo que, realmente, é ser homem, Cristo vive esta sua vida até ao seu final na morte. Essa é a densidade da encarnação.
A Ressurreição de Cristo tem, portanto, de ser entendida a partir desta experiência de morte. Jesus não ressuscitou como se não tivesse conhecido a morte na sua totalidade. É desse lugar, lugar do poder da morte (onde a morte exerce a sua força e o seu domínio, e onde gera a incapacidade para a vida como continuidade experimentada e sofrida) que Jesus vai ser ressuscitado.
Ressuscitando, portanto, Cristo liberta-Se da habitação dos mortos. Liberta-se da morte que realizou na Cruz. Ou seja, venceu a morte no seu próprio domínio, o domínio da morte (o lugar da morte).
Mas a ressurreição não é apenas a passagem do sepulcro para a terra, um “voltar atrás ao mundo”. Ressurreição é uma acção de Deus que arranca Cristo da morte total (metafísica, teológica, existencial) e não apenas da morte biológica.
Cristo liberta-Se de entre os mortos. A sua contínua relação com o Pai que, também continuamente O gera, não permite que permaneça do lugar dos mortos. Provocará sim, pela relação ao Pai, no Amor que é o Espírito (relação que é constitutiva da sua Pessoa) uma abundância de Vida que a morte não comporta. Por isso a morte é destruída na sua própria habitação. Cristo vence a morte e não apenas a sua morte.
A esta luz, o sentido da paixão e da morte de Cristo na Cruz apenas se pode encontrar na profundidade de um caminho de fé. Em termos simplesmente humanos, a Cruz tem uma objectividade que a torna impenetrável: objectivamente Jesus Cristo é um condenado, um maldito segundo as leis do tempo. E a cruz pode acabar por se tornar num final fracassado de uma história de messianismo.
Frente à crueza de um símbolo objectivo (uma Cruz), o olhar de fé faz ver a Cruz não como princípio de morte, mas como princípio de vida. Na medida em que ela encerra a exemplaridade de Jesus Cristo (transformar a morte e o seus princípios em vida e princípios de vida - do ódio e da violência ao amor e ao perdão...) a Cruz é motor transformador da História e de todas as histórias da história humana [1].
Se olharmos para o facto de que os princípios de violência acabam sempre por provocar uma violência maior, sabemo-lo por experiência e observação, concluiremos que Jesus Cristo contrariou essa lógica de existência quase retributiva.
Jesus Cristo transformou a morte física e toda a morte (feita de exclusão, de traição dos seus amigos, de vingança, de indiferença, de ignorância, de poder sobre o inocente, de vontade de eliminar o inocente) em anúncio de Boa-Nova (anúncio de vida e de perdão, anúncio de uma nova justiça e nova ordem de coisas, uma nova lógica).
A Ressurreição é, então, a confirmação, da parte de Deus, do testemunho de Jesus Cristo. É um rompimento radical com a lógica do genocídio, da mortandade, da vingança, para afirmar radicalmente a vida e as suas consequências.
No acontecimento da Ressurreição há, portanto, uma absoluta novidade que se afirma. Se repararmos no episódio da expulsão dos vendilhões do templo por Jesus, encontramos aí a significação das razões humanas que levaram à morte de Jesus numa Cruz. Ele contrariou uma lógica não apenas na superficialidade (o que talvez apenas o adjectivasse como louco...), mas na sua profundidade. A religião que Jesus vem encontrar no Templo é a religião do sábado. O homem que Jesus vem encontrar nas instituições religiosas do seu tempo é o homem para o sábado. Homem escravizado, isolado. O “deus” que Jesus vê ser louvado neste templo é o “deus”-expressão-da-vontade-de-poder-do-homem, um “deus” que se confunde com objecto, um “deus” quase manipulável.
Mas esse “deus” não seria o Deus, Pai de Jesus Cristo. A expressão existencial da religião que Jesus vem presenciar é a da publicidade das virtudes próprias e condenação dos pecados alheios: no templo e em público a observância estrita dos rituais; em privado e às escondidas, a prática da injustiça.
A Ressurreição de Jesus Cristo é, por isso, quase o grito de afirmação da liberdade do próprio Deus (“não sou quem pensais..”) e, ao mesmo tempo, a revelação do verdadeiro homem ao próprio homem, o caminho para a “humanização” do homem, ou seja, a afirmação de que o sábado é para o homem, a afirmação do homem em diálogo com Deus e acolhido por Deus. O que a Ressurreição destrói é a verdadeira paralisia que encerra o homem sobre si mesmo e sobre os seus preconceitos.
Deve ter sido essa a experiência dos discípulos a caminho de Emaús quando contactaram com Jesus e acreditaram n’Ele. No início os discípulos ainda caminham desanimados. Esperavam, havia três dias, algo de novo, mas não sentiram nada. Só serão capazes de reconhecer Jesus depois do próprio Jesus lhes ter lido as Escrituras.
Estar a caminho é estar disponível para o “outro lado”, o “doutro modo”, o “outro”. E então a ausência marca o desejo. Desejo que não é nostalgia, ou saudade, ou mesmo mera necessidade, mas que é fruto da experiência de estarmos neste mundo a sentir a vida verdadeira como ausente. Deseja-se a transcendência.
De facto, o encontro com o Senhor ressuscitado faz-se progressivamente. É um ir abrindo os olhos. É um encontro que se realiza na Palavra que Jesus Cristo dirige aos dois discípulos. Relendo e recordando as Escrituras, Jesus leva-os a compreender o que havia acontecido. O que Deus pretende não é apenas um êxito clamoroso, mas sim a aceitação do sofrimento segundo um misterioso desígnio prefigurado no destino do servo de Deus no Canto do Servo de Jahwé: a Cruz não é apenas, ou sobretudo, uma catástrofe, mas sim uma dimensão inerente à existência
Talvez por isso, apenas na fracção do pão os discípulos se dão conta de si e reconhecem Jesus. Aquele peregrino, que é hóspede convidado a velar com os discípulos, transforma-se no verdadeiro anfitrião que lhes dá de comer. É neste momento que os olhos dos discípulos se abrem.
3. Encontros pascais com Jesus
Jesus morreu como viveu, entregando-Se totalmente. A sua morte é a hora em que melhor se compreendem as sua palavras e os seus gestos, a sua vida. A morte foi, por isso, a plenitude da sua vida. E ainda que Jesus contasse com uma morte violenta, ninguém Lhe rouba a vida. É Jesus que a entrega, como sempre fizera nos imensos encontros que realizou em vida. Desprende-Se de Si para que outros tenham vidas com sentido. O seu caminho de Cruz é também caminho de Ressurreição. A via-sacra é o caminho da sua vida e da nossa vida.
Neste dinamismo Jesus passou a sua vida pública a encontrar-Se com pessoas. As pessoas procuravam-n'O e Ele procurava as pessoas. Muitos quiseram tocá-l'O, na sua Pessoa e no seu mistério, para se sentirem curados (Mc 6, 53-56). Foi nesses encontros que Jesus Se revelou e Se definiu. São encontros e passos intensos em presença, palavras, atitudes e sentimentos e, por isso, reveladores de identidades - de Jesus e nossas. Foi nestes encontros que as pessoas sentiram a novidade de Jesus e puderam perceber o mistério das suas vidas à luz da sua relação com Deus.
Para cada um de nós a revelação de Jesus e a resposta a esta questão vai-se fazendo no tempo concreto da nossa vida e no mais profundo do nosso coração também em palavras e encontros que dizem muito mais do que podem parecer à primeira vista. É que, como diz Vergílio Ferreira, por fora estamos ... por dentro somos! Estejamos onde estivermos, o nosso ser pode estar em comunhão com outros seres. Mas, muitas vezes, para despertarmos para eles, carecemos de símbolos, sinais, chamadas de atenção que nos façam passar do estar ao ser. É por dentro que as coisas são.
O Evangelho fala de encontros de pessoas com Jesus que se podem hoje repetir em cada um de nós. No tempo em que se passam os episódios narrados no Evangelho, os encontros com Jesus têm sempre como consequência a mudança de vida daqueles que se encontram com Ele. São cegos, paralíticos, surdos, mudos, endemoninhados, etc. Podemos dizer que são encontros verdadeiramente pascais, exprimem a experiência essencial da Páscoa, a vida nova. Ressuscitaremos em Jesus, mas vamos já ressuscitando cada vez que nos encontramos com Cristo e vamos aprendendo a morrer para o pecado, para o sem-sentido. Ressuscitamos na medida em que vamos morrendo.
4. A Cruz como acontecimento trinitário e pascal
No centro de todo o acontecimento Redentor está a Cruz de Jesus. Como acontecimento do Filho, porque Jesus é o Filho eterno do Pai, a Cruz é necessariamente um acontecimento trinitário. O Filho entrega-Se na Cruz por Amor e obediência ao Pai para Salvação da Humanidade.
Amado pelo Pai, possuindo o Espírito Criador do Pai, Jesus Cristo assume na Cruz uma existência representativa, solidária para com a humanidade.
A Cruz é obra do Pai e do Filho na plenitude do Amor que é o Espírito para a re-Criação do mundo. No Cristianismo, a Cruz na qual Cristo morreu e pela qual chegou à Ressurreição, tornou-se, pois, arquétipo da acção salvífica de Deus e modelo da resposta do homem.
Na Cruz evidencia-se a plena unidade de vontade de Pai e Filho, o que revela a Cruz como um Mistério de Amor - o Mistério de Amor que realiza a Salvação.
É a existência trinitária de Deus que funda a possibilidade real da Cruz ser redentora o Amor relacional (unidade e distinção) entre o Pai e o Filho triunfa da Cruz e subsiste como Vida.
Nesta relação de contínua geração o Pai entrega o Filho na Cruz;. o Filho é entregue e entrega-Se a si mesmo; e o Espírito permanece como ligação da temporalidade da morte de Cristo à eternidade vivificante do Pai.
Pelo lado de Cristo a morte foi consentida por obediência filial (Fil 2., 8; Rom 5,: 19; He 5,, 8) à sua missão recebida de Deus e por amor quer ao Pai, quer aos seus irmãos.
Da parte de Deus, Pai e enviante de Jesus, a entrega do Filho acontece por pelo Amor com Deus amou o mundo (Jo 3, 16-17) 56
4.1. O Pai entrega o Filho no Amor
Aquilo que identifica a acção do Pai é o acto de entregar - Deus Pai entrega o seu Filho à morte.
Entrega-O na Encarnação, entrega-O na Cruz e entrega-O, derradeiramente na Ressurreição. A Palavra faz-Se carne e faz-Se Cruz.
Da contemplação de Deus que entrega seu Filho ao mundo, João conclui que Deus é Amor ( 1 Jo 4, 16). Deus não entrega o seu Filho como os inimigos mas entrega-O como Pai, sempre agindo na sua paternidade. Entrega-O gerando-o continuamente mundo, entrega o Filho para Salvação do mundo.
O Pai é pois quem primeiro entrega o Filho, o que revela que a Salvação está no mistério filial que se realiza no mundo. Assim, nesta contínua geração, o Filho é Deus com o Pai desde toda a eternidade e também no despojamento quenótico.
« Neste abandono do Filho, o Pai abandona-Se também a si mesmo, entregando o Filho entrega-Se a si mesmo, embora não do mesmo modo, e sofre também ».
O Pai sofre a dor do despojamento do Filho porque nunca abandona a sua paternidade, a sua relação de Amor que gera: o Filho sofre a agonia e o Pai sofre a morte do Filho.
Se o Filho, na Cruz, sente a falta do Pai, o Pai também sente, na Cruz, o sofrimento do Filho, ou seja a falta do Filho. O sofrimento na Cruz é recíproco, embora o Pai não morra” na Cruz, porque o Amor (gerar e ser gerado) também é recíproco.
Este Amor relacional entre o Pai e o Filho será condição de possibilidade da Cruz, e de aniquilamento transformar-se-á em suprema divinização e glorificação.
4.2. O Filho entrega-se no Amor
Se, por um lado, o Pai entrega Filho na Cruz, também é verdade que o pr6prio Filho se entrega na Cruz. Será importante então relevar a total consonância de vontade entre Pai e o Filho na entrega à Cruz.
O Filho entega-Se na Cruz na sua filiação, expressão radical da sua obediência de Amor ao Pai. A entrega como acto livre de Jesus manifesta a plenitude da sua filiação divina.
Em virtude da sua própria Encarnação, o Filho assume já a morte. Mas como não tem pecado em si essa morte é assumida em liberdade, diríamos mesmo intencionalmente - uma morte por Amor, no Amor, que redime.
Neste Amor a Cruz não surge como uma casualidade mas sim como vontade , sabedoria e poder de Deus ( 1 Cor 1 18 ss). Cristo fez-se obediente não a um destino anónimo mas ao próprio Pai no conhecimento e intimidade do conhecimento da vontade do Pai - a sua obediência representa a tradução do seu Amor de Filho para com o Pai.
Aquele que é entregue, entrega-Se. Neste gesto de separação, a agonia de Jesus que se abandona e é abandonado pelo Pai, se manifestará decisivamente a Comunhão de Jesus com o Pai . “Ele foi entregue por causa dos nossos pecados e ressuscitou por causa da nossa justificação” (Rom 4, 25).
A filiação divina de Jesus surge pois como a única possibilidade de compreender a entrega e obediência de Jesus na Cruz.
4.2.1. Filiação e entrega
O conceito fundamental que expressa a atitude de Jesus é o conceito de “entrega”, o qual revela a total comunhão e identificação de Jesus ao Pai.
O Pai entrega e o Filho entrega-Se, plenamente activo nesta atitude, ou seja, o Pai entrega Filho no Amor que tem à humanidade (Rom 8, 32; Jo 3, 16) e o Filho auto-entrega-Se pelo mesmo Amor à humanidade e ao Pai(Rom8, 5; ãál 2, 20; Ef 5, 1).
Em Jesus Cristo a “condição de filho” e a “entrega” coincidem totalmente, são a mesma forma de Jesus viver a sua contínua e eterna geração pelo Pai.
Cristo, não tendo em Si pecado faz-Se pecado para Salvação da humanidade.
Assim, frente a quem pensasse que Deus deixa Cristo sofrer na Cruz friamente ou que a Cruz é expressão de uma ira divina que exige “satisfação é a própria Escritura que afirma a Cruz como Amor de Deus em nosso favor.
A morte de Jesus entra no desígnio de Deus E Jesus tem plena consciência disso - a consciência que tem da sua entrega é a mesma que tem de ser Filho de Deus e de vir ao mundo para fazer a vontade do Pai.
O mistério da encarnação salvífica em sua totalidade (a consusbstancialidade do Filho connosco) tem a sua raiz profunda na “consubstancialidade” de natureza-amor do Filho com o Pai do qual o dom recíproco do Espírito Santo é expressão.
O Pai é Pai para Salvação do mundo e o Filho é Filho para Salvação do mundo - a paixão é trinitária e a salvação é trinitária.
É na sua “condição de filho” que Jesus encarna e é na sua “condição de filho” que Jesus se entrega e redime.
4.2.2. Filiação divina, obediência e liberdade na Cruz
O ser de Jesus realiza-se a partir do Pai e com vista à humanidade. No dizer de W.Kasper, Ele Filho de Deus no abaixamento, é Filho de Deus na eternidade e é Filho de Deus como plenitude do tempo, Aquele para onde tudo convergirá. Definitivamente, a Cruz manifesta-se como obra de Deus.
Se a Cruz é vontade de Deus, então não é acidente ou casualidade da história, mas sim uma necessidade querida por Deus. O Ser de Jesus é ser Filho ( a Filiação) e o ser Filho revela uma relação essencial de Amor ao Pai. Esta relação de Amor é a medida da Obediência e da Liberdade de Jesus na Cruz.
O Filho não é uma parte de Deus que morre. Ele é Deus como Pai mas, também frente ao Pai Ele é Pessoa diferente da Pessoa do Pai. Acontecendo que o Amor em Deus é unidade e distinção e que cada Pessoa apenas se distingue na medida em que se relaciona, a Cruz do Pai e do Filho.
O Drama da Cruz, centro do Cristianismo, é portanto o drama do Filho - drama de solidão humana mas de comunhão divina Na comunhão divina se encontram radicadas a liberdade e a obediência de Jesus. A Cruz é salvadora porque a obediência de Jesus foi realizada na liberdade do Amor que se auto-entrega pela consciência que tem da sua filialidade e Missão.
Se a filialidade releva a obediência na Cruz, ela releva muito mais a liberdade e o Amor, pois, para Cristo, obedecer é dar todo o tempo a Deus.
4.3. O Espirito e a reciprocidade no Amor que brota da Cruz como Redenção
O Espirito Santo, que procede do Pai e do Filho, é, na Trindade, a Pessoa Comunhão. É Comunhão enquanto, como já afirmámos, é reciprocidade de Amor - o Pai gera no Amor e o Filho é gerado no Amor.; o Pai é a Fonte e o Filho sabe-Se inteiramente recebido do Pai. Toda a vida de Jesus, se passa na consciência de ser o Enviado do Pai - por si só não é nada, nada faz; aquilo que sabe, diz e faz é porque o Pai Lh’O revela no Amor da interioridade divina., Ele é o Verbo de Deus encarnado.
« O acontecimento de Cristo é plenamente humano e plenamente divino: acontecimento de plena codivisão, solidariedade, “consubstancilidade” humanodivina. N’Ele, morto e ressuscitado, Deus morrendo destrói a morte: supera a fragilidade humana, submetida ao poder do limite, do pecado e da morte » .
Toda a Vida de Jesus Cristo é, portanto, como dissemos uma caminhada para a Cruz. Mas para a Cruz vivida nesta, relação de Amor. Na Cruz o Filho de Deus não deixa de ser Filho de Deus.
A “salvação” só se dá quando o Filho eterno do Pai, por um amor sobreabundante (o Espírito) se fez homem e morreu por nós. Só então, Deus em
absoluta liberdade ( e por isso permanecendo Deus) ocupa o nosso “lugar” para que nós os pecadores, apesar do pecado tenhamos junto d’Ele a nossa casa paterna.
O Amor relação ao Pai ( Espírito Santo) revela-Se então como a possibilidade de despojamento de Cristo na Cruz sem que a Morte possa aí ter poder. A reciprocidade no Amor fará com que o Filho nunca deixe de ser gerado no Amor do Pai e por isso ressuscite. O Espírito é pois fonte de vida. O Pai gera na Encarnação, na Vida e, radicalmente, na Ressurreição o seu Filho para a Vida. Ao mesmo tempo a única possibilidade de “substituição” por parte de Cristo é o Espírito Santo.
O Ministério de Jesus é inaugurado na força do Espírito (Lc 4, 14) , desenvolve-se e culmina nessa mesma força.
A ressurreição de Jesus revela pois a paternidade eterna de Deus e a reciprocidade entre o Pai e o Filho:
No Pai, o Espírito é em primeiro lugar Amor que se dá; no Filho, esse mesmo Espírito é em primeiro lugar Amor que acolhe. Consentindo no dom do Pai, o Filho permite ao Pai que se dê. O Amor que acolhe “provoca” o Amor do Pai que se dá gerando. O Espírito procede então da relação do Pai e do Filho, da paternidade de um e da filiação do outro
Esta reciprocidade brota então da Cruz como Vida, o acontecimento acabado da Redenção em que Filho veio dar a Vida ao Mundo. O Amor intra-tritinário revela-se plenamente na Páscoa onde se manifesta, de facto, a vitória de Deus sobre o pecado do Mundo.
A Cruz, como “último acto” revela-se assim como um drama trinitárto, mas um drama de onde brota a vida porque traz a eternidade para ser vivida no tempo.
5. Mistério Pascal – passar para aquilo que não passa
A tradição da Igreja sempre interpretou a Páscoa como “passagem”. E sempre a “passagem” teve diversos sentidos:
- passar sobre (hyperbasis): quando fala de Deus ou do seu anjo que passa sobre as casas dos judeus sem os ferir
- passar através de (diabasis): quando o povo passa do Egipto para a Terra Prometida
- passagem para o alto (anabasis): quando o homem passa das coisas terrenas para as coisas do céu
- passagem para fora (exodus): quando o homem sai da escravidão do pecado
- passagem para diante (progressio): quando o homem progride no caminho da santidade.
Na base da ideia da Páscoa está, portanto, a ideia de uma passagem: da morte para a vida. É algo que se evoca como provisório e transitório, algo que é preciso ser ultrapassado. E só é possível parar quando se chega à plenitude, quando se chega à Parusia. Como disse Sto Agostinho, num dos seus comentários ao Evangelho de João (55, 1 in CCL 36, pp463) a Páscoa é passar para aquilo que não passa.
E, de facto, se virmos à nossa volta e bem dentro de nós, tudo passa. Mas, diante deste tudo que passa, há Alguém que não passa: Deus, o Amor de Deus.
O homem é frágil, passa, é transitório. Deus não passa, não é provisório, não é transitório. Por isso a Páscoa é passar para o que não passa nunca: Deus.
Diante desta passagem podemos reflectir a morte de Cristo como uma passagem: e só passa quem se entrega na liberdade e na obediência. O Pai entrega-Se novamente e entrega o Filho e o Filho entrega-Se ao Pai e à humanidade.
Então, em Cristo, todos passamos, todos vivemos a passagem que é a Páscoa. A humanidade está representada no Adão da queda e está, sobretudo, representada no Jesus Cristo da redenção. Cristo morreu pelos nossos pecados e a essência da sua missão pode centra-se aqui: morreu por nós.
Este “por nós” não significa uma substituição penal ao estilo de vítima que entregámos por nós. Este “por nós” é “em nosso favor”. Se quisermos é o essencial da nossa oração: Cristo repete-se no coração de cada um de nós.
[1] Cf. José Tolentino MENDONÇA, Páscoa quebra imposição do conformismo, in Público (Destaque,28.03.97) 4.
segunda-feira, fevereiro 19, 2007

sexta-feira, fevereiro 16, 2007
- Quaresma 2007 -
A Vida Nova
Jesus ressuscitou! Ele é o Cristo e Senhor! Tempo de procura da verdade, tempo de lermos a realidade e de nos lemos a nós próprios, tempo de silêncio fecundo e contemplativo, tempo de caridade vigilante, tempo de amar o jejum, tempo de nos abstermos do supérfluo e de discernirmos o essencial, tempo de partilha e fraternidade, tempo de verdadeira “luta espiritual”, a Quaresma não tem outro sentido e significado mais profundos que o de ser uma preparação para a celebração da Páscoa e para o dom da Vida Nova.
Na nossa vida cristã, nós não somos empurrados para a frente a partir do nosso passado de fragilidade. Somos sim puxados pelo nosso futuro de vida na graça de Deus. Essa é a experiência da Páscoa que nos é acessível em Jesus Cristo e na sua ressurreição. É a plenitude em Jesus Cristo que nos cativa e nos faz caminhar. Por isso, a caminho da Páscoa … Quaresma como quem se liberta de tudo aquilo que não faz parte nem pode entrar na experiência da comunhão com Deus e no encontro com Ele.
No quadro das relações humanas existem coisitas que não podem estar presentes numa relação de verdadeira amizade porque se lhe opõem e a impedem. Na relação com Deus em Jesus Cristo é a mesma coisa. Nós não conseguimos estar com Ele se estamos com aquilo que Lhe é contrário.
«O que quer dizer “cativar”?» é a grande interrogação do principezinho no seu diálogo com a raposa. Vale a pena ler novamente a história. É que a raposa vai explicando que «Cativar é criar laços … se me cativares precisaremos um do outro».
De facto, enquanto o principezinho metabolizava a sua dor (quase com pena de si mesmo) apareceu a raposa. Momentos antes o encontro com a flor não tinha corrido bem. A flor brincara vaidosamente fazendo tudo para se manter no centro da cena: uma espécie de jogo de sedução destinado a paralisar o admirador. E o pequeno príncipe, preso no jogo da flor, não se dava conta de si mesmo nem percebeu o que dissimulava tamanha simpatia. Amavam-se, até se pode concluir, mas nunca foram capazes de o dizer. E porque não encontraram as linguagens próprias para o dizer, o amor falhou. A flor usa a linguagem da astúcia enquanto o principezinho usa uma linguagem simples e directa. Não sendo realizáveis os desejos da flor, o principezinho está destinado a partir, a crescer. E é nessa procura de si mesmo por parte do principezinho que a raposa é um instrumento que possibilita uma experiência fundamental: criar laços, fazer de cada um para o outro alguém que é “único no mundo”. O aborrecimento desaparece da vida da raposa e o principezinho já não se sente estranho. Tornaram-se “únicos no mundo” um para o outro. Por isso a raposa conclui: “Tornaste-te responsável pelo que cativaste! És responsável pela tua rosa” (A. Saint-Exupéry, O Principezinho, 74). Diz-nos a mesma história que, pouco a pouco, cada um se começou a sentir mais livre, mais responsável pelo outro e, ao mesmo tempo, a ver a vida própria com outros olhos.
Por amor de Deus e da vida
Os Cristãos reflectem e vivem o seu tempo em torno da Páscoa e, semanalmente, do Domingo, o primeiro dia da semana. Em Jesus Cristo, Verbo de Deus encarnado, o tempo torna-se uma dimensão de encontro com Deus. E dessa relação de Deus com o tempo nasce a consciência da necessidade de “santificar o tempo”.
Que significará “santificar o tempo”? Mesmo antes de desafiar e chamar Israel a ser santo (Lev 19, 2), o Senhor Deus criou um dia diferente de todos os outros. Deus, de facto, e como diz o Livro de Génesis, Deus “abençoou o sétimo dia e santificou-o” (Gen 2, 3). Significa isto que a santificação do tempo é possível graças ao próprio Criador.
“Santificar” o dia de sábado é assumir este dia como “um dia diferente”, um “outro dia”, ou um “dia de outra forma”: o desafio de ser santo porque o Senhor é santo. É como se Deus estivesse a dizer aos Israelitas “sede outros”, “sede diferentes”, “vivei de um modo diferente daquele que toda a gente vive”. É a mesma coisa que dizer-nos: sede capazes de fugir à sedução das idolatrias quotidianas que impedem de ver a verdade; sede capazes de ser diferentes, sede capazes de acreditar”.
Consequentemente, “santificar o tempo” significa vivê-lo de forma diferente do usual ou rotineiro. É vivê-lo segundo a intenção de Deus. E isso significará, ao limite, que haverá um dia no fim do tempo, mas que o fim do tempo é a comunhão com Deus.
O tempo tem, portanto, um sentido preciso já que o “sétimo dia” (para os judeus) ou o “primeiro dia” (para os cristãos) é o destino do homem e de toda a criação: sétimo dia é chegar a Deus e primeiro dia é partir de Deus, antecipação escatológica para toda a humanidade, transfiguração de toda a criação. Na intenção de Deus, o tempo dos crentes é um tempo diferente e ritmado: marcado por um dia santo todas as semanas; por um ano santo cada sete anos; por um ano santo cada 50 anos (sete semanas de anos). Desta forma, o próprio Deus quis impedir que relegássemos a santidade da humanidade para um campo abstracto e inacessível. É este o sentido e significado profundo das festas cristãs e do desenrolar do ano litúrgico. É este, ao limite, o horizonte em que se desenrola a Quaresma na qual os cristãos são chamados a converterem-se ao Senhor e a regressarem a Ele com gestos simples e verdadeiros como o jejum, a partilha e a oração, símbolos de uma vida nova.
O calendário anual, ou o ano solar, não é senão uma forma prática de medir o desenrolar dos tempos. E isso é bom porque nos permite organizarmo-nos e prepararmo-nos para determinados acontecimentos. Se não fossemos tão versáteis e, por isso, distraídos e rotineiros não era necessária a diversificação de tempos litúrgicos.
Jejum, esmola e oração em vez de quinquelharias
Existem três grandes desafios que asseguram a unidade do tempo da Quaresma e definem o horizonte da caminhada eclesial e pessoal:
1. O Mistério da morte e ressurreição de Jesus;
2. As implicações deste Mistério para quem se prepara para o baptismo;
3. A renovação na caminhada da fé e da conversão para os que já são baptizados.
Toda a Quaresma tem, portanto, uma dinâmica baptismal. E é por se ter desenvolvido em torno dessa dimensão baptismal que o tempo da Quaresma também é tempo penitencial. Este é o tempo próprio para, conhecendo melhor o Espírito de Jesus, “baptizarmos” a nossa inteligência. Este é o tempo para, aprendendo a querer o que Deus quer, “baptizarmos” a nossa vontade. Este é o tempo para, afeiçoando-nos mais a Cristo e ao seu caminho, “baptizarmos” o nosso afecto e o nosso amor.
A Quaresma não é, portanto, um tempo de invenção de penitências ou meramente de sacrifícios sem ousar tocar o alicerce profundo dos problemas. Quando a espiritualidade se incompatibiliza com a realidade da vida e se resume a abstracções, Deus fica sempre inatingível, a experiência da fé é sempre de desgaste e a vida nunca se transforma. É comparável a alguém, como dizia A. Alçada Baptista, que está ou “entrou na religião pela porta da quinquelharia ... pagelas, santinhos de lata”, etc, mas não ousa tocar o problema fundamental do seu coração e das suas opções.
É claro que o jejum, a partilha e a oração não se resumem a mínimos legais. No seu verdadeiro sentido nem sequer serão “obrigações”. Se o jejum nos encerrar em nós mesmos, se a partilha servir apenas como descarga de consciência (“os meus pobres” – algo dito sempre com arrepiante sentido de propriedade) e se a oração se traduzir apenas em “troca formal de favores por senhas” e pedido “institucional” de provas da existência de Deus, a Quaresma não terá nenhuma finalidade senão a de uma auto-contemplação. E quem passa a vida a auto-contemplar-se não conseguirá nunca contemplar os outros: não é capaz de gestos de confiança, não é capaz de gestos de fraternidade, não é capaz de gestos de ternura, não é capaz de gestos proféticos de compromisso e ousadia cristã.
O que a Quaresma pretende, então, é uma redescoberta da fé, é o reatar da relação com Jesus Cristo. A Quaresma é, por isso, um momento privilegiado da procura de sentido para as coisas de todos os dias. E dizer procura de sentido não se resume a uma questão do discernimento de uma vocação específica na comunidade cristã (por exemplo, saber se se segue ou não a vida sacerdotal). Procura de sentido diz-se em relação à vida no que respeita à relação com os outros, diz-se acerca do sentido da amizade, acerca do sentido da responsabilidade. Não existe vocação, vida ou vivência que não possam começar a ser transformados em tempo de Quaresma. A redescoberta quaresmal é, portanto, a redescoberta de si mesmo, da vida, da fé e também dos outros.
Ao conjugar o jejum podemos perguntar se, de facto, a abundância de muita coisa não nos tira a sensibilidade e o sabor das coisas na sua essência. Querer o “muito” em vez do “bom” ou do “justo” pode ser um engano. E isso não se resume ao que comemos. Tem a ver com a vida toda, com as opções, com o que se chama de cidadania, com o que nos permitimos e com o que nos proibimos a nós próprios. Sabemos que somos livres, mas também nos experimentamos muitas vezes como “autênticos prisioneiros” de sistemas de reacção, de pruridos relacionais, de palavras ditas, de atitudes irreflectidas que, continuadas, acabam por se afirmar, muitas vezes, como personalidade.
Acontece, no entanto, como dizia E. Mounier, que Deus é grande de mais para fazer das nossas fragilidades uma vocação. Por isso propõe a mudança e, por isso também, o tempo favorável da Quaresma, em Igreja, é o tempo indicado de ousar vi(r)agem. Virar, mudar, converter ... a fé só tem sentido em relação estreita com a vida.
A Quaresma exige-nos, portanto, interiorização, imaginação e fidelidade criativas: repensar a fé e a expressão religiosa em relação com a vida quotidiana. Jejum, partilha e oração não são mínimos legais. São caminhos de crescimento, de experiência da vida nova que vem por Cristo. Jesus é o verdadeiro Pão da vida. Jejuar é sentir a fome como esse estado em que nos apercebemos que dependemos de tantas e tantas coisas. E algumas não são necessárias. A fome do jejum (ou da abstinência) pode ser vivida como esse limite para lá do qual me sinto novamente vivo. Por isso o jejum quaresmal não se resume a uma mudança de regime alimentar, uma espécie de dieta. Ele não é luta contra o corpo, mas sim pelo corpo e para o corpo porque pela vida e para a qualidade da vida quotidiana.
E a partilha ?! A partilha também não pode ser apenas uma espécie de gesto afectivo mais ou menos sacralizado. O esforço de partilhar pode viver-se nos sorrisos, na capacidade de escuta, no uso bom das palavras, nas visitas e na atenção que damos, na ajuda a alguém, etc, tanta coisa! E, na base, sempre a oração como diálogo de amizade com Deus. Oração como quem se experimenta a confiar e percebe que se está a dar não a partir de si mesmo, mas sim a partir de Deus.
Propósitos quaresmais: poucos e bons, práticos e possíveis
Todos os anos ao chegar a Quaresma nos esforçamos por encontrar alguns desafios que concretizamos em propósitos. Creio que, quando se trata de estabelecer propósitos, já todos percebemos que é melhor que sejam poucos mas bons, que sejam práticos e possíveis. De outra forma estaremos a dispersar-nos mais do que a construir. Poucos mas bons para poderem ser essenciais e estabelecidos naquilo que diz respeito aos fundamentos das coisas e não apenas às suas aparências. Não vale a pena, por exemplo, tentar resolver objectivamente uma relação que anda mal com alguém se não questiona a perspectiva com que se está na vida e na relação com os outros.
Às vezes aumentamos a extensão dos propósitos mas diminuímos a sua profundidade. Outras vezes multiplicamos tanto os propósitos que se torna impossível concretizá-los todos e em tão pouco tempo. Outras vezes ainda queremos que os outros vivam os propósitos que nos faz falta a nós fazermos e dispensamo-nos ou diminuímos a nossa responsabilidade e compromisso. Com se estivéssemos sempre à espera que todos os outros fossem perfeitamente virtuosos para nós podermos então ser também perfeitos. Na realidade quando a vida se conjuga a partir dos perigosos “se…” é apenas sinal de que ela não existe ou de que não se está verdadeiramente interessado em resolver as situações. Outras vezes ainda ficamos satisfeitos na elaboração teórica e vistosa de um conjunto de propósitos mas não nos comprometemos na sua consequente realização.
Recordar coisas que até já sabemos
Estamos novamente às portas da Quaresma, um tempo forte, o chamado tempo favorável, na experiência cristã pessoal e na vida da Igreja. Tempo de escuta, leitura e discernimento; tempo de atenção, vigilância e percepção; tempo de amar o essencial das coisas no jejum; tempo para nos abstermos do supérfluo e acessório e discernir o essencial; tempo de exercício das virtudes cristãs e do carácter; tempo de partilha rezada e de oração que conduz à caridade.
Quando a Quaresma é conhecida apenas como um tempo para determinados sacrifícios ou actos de ascese, renúncias ou práticas penitenciais, podemos dizer que não se sabe nada da Quaresma porque a Quaresma quer conduzir-nos sim à descoberta da beleza da fé cristã e, fundamentalmente, de uma fé que se vive. É nessa medida que a Quaresma é um tempo forte, um tempo qualitativamente diferente do tempo comum quotidiano para os cristãos viverem simultaneamente como uma tensão no acesso à felicidade, um esforço positivo de desenvolver qualidades e capacidades, um desejo de conversão transformadora e de regresso a Deus.
Se o acontecimento fundamental do Cristianismo é Jesus Cristo, e Jesus Cristo entregando-Se na Cruz por amor (Mistério Pascal), então a Páscoa é um acontecimento que tem de ser preparado porque recria a nossa esperança e a nossa confiança em Deus e, por essa via, em nós mesmos.
A Cruz de Jesus é, sem dúvida, construída pelas nossas vidas (da qual faz parte a nossa fragilidade e o mistério da iniquidade), mas é habitada por Aquele que destruiu a morte na sua própria raiz. E isso significa que Jesus é Aquele que, habitando as nossas vidas onde elas mais precisam de ser iluminadas, nos faz experimentar a felicidade e a alegria: uma vida habitada, dinamizada, entregue Àquele que não nos deixa morrer é um desafio forte num tempo forte – a Quaresma. A sintonia com o projecto de Jesus apaixona e faz olhar para a vida como algo aberto e a construir-se. O encanto da vida cristã está em perceber que a existência tem um “para quê” a que responder sempre. Fazem parte da experiência desse encanto a gratidão apaixonada pelo dom da vida e a percepção da condição própria com seus limites. Aliás são elas que geram confiança e dão ousadia. Quem não é capaz de gratidão não é capaz de fé. Quem não sentiu já essa paixão do encontro com o Senhor Jesus que se desdobra em fraternidade?! Quem não experimentou já esse encanto que são os joelhos no chão diante do Sacrário como momento onde se alicerça toda uma vida que não acontece apenas “porque tem de ser”, mas sim por resposta e como vocação?! Então a Quaresma é o tempo para deixarmos e exercitarmos que sejam esses encontros a guiar com maior qualidade a nossa vida.
Antes de ser sacrifico e renúncia, a Quaresma é um desafio de apaixonamento e entrega a Jesus Cristo na Igreja e no mundo (ler os nº 109 e 110 da Sacrossanctum Concilium, Vaticano II).
Origens da Quaresma
Desde o séc. II que existe na Igreja um tempo de preparação para a Páscoa em que se pratica o jejum durante alguns dias. A Quaresma, ou melhor, nesse tempo, o tempo de preparação da Páscoa começou por ter apenas uma semana passando, depois, a três semanas em que se lia e meditava o Evangelho de João e, só depois, a 40 dias que se inspiram nos 40 dias que Jesus passou no deserto e que estão profundamente à definição do ministério de Jesus nas suas formas e valores objectivos e práticos de serviço, verdade e amor. A preparação de 40 dias (com jejum) iniciava-se, originalmente, a partir da sexta semana antes da Páscoa, mas como havia pelo meio seis domingos – e o Domingo nunca é dia de jejum – e se queria completar a simbologia dos 40 dias de Jesus no deserto, prolongou-se este tempo antecipando o seu início para a Quarta feira antes da sexta semana antes da Páscoa. Chamar-se-lhe-á, mais tarde “Quarta Feira de Cinzas”. No séc. IV encontramos já imensos testemunhos de uma organização deste tempo de preparação para a Páscoa. Vejam-se, por exemplo, as descrições dos ritos e costumes feitos pela peregrina Egéria em Itinerário de Egéria.
Do séc. IV ao VII-VIII temos o que se pode chamar o período áureo da Quaresma cristã, ao qual se começa a dar, por causa do carácter pascal, um forte carácter baptismal que se expressa nos ritos do catecumenado. Para entender bem a Quaresma há que dizer que no estabelecimento da sua cronologia da Quaresma teve uma grande importância a recordação dos quarenta (40) dias que Jesus passou no deserto em jejum, segundo o testemunho dos Evangelhos Sinópticos e o seu simbolismo. É um número que encontra muitas e significativas ressonâncias na simbologia de toda a história de Israel como Povo a caminho: 40 dias do dilúvio; 40 dias e noites de Moisés no Sinai; 40 dias que Elias caminha para o Horeb; 40 anos do Povo no Deserto; 40 dias em que Jonas pregou a penitência em Nínive.
É assim que ela se assume como um tempo especial em que a Comunidade Cristã, toda a Igreja, está chamada a este exercício de preparação para a Páscoa que tem, antes de mais, um carácter de verdadeira renovação espiritual (renascer...). Tradicionalmente insiste-se na trilogia oração, esmola e jejum mas sempre com o cuidado de não resumir este tempo a um tempo em que “se dizem mais umas orações”, um tempo em que se dão “mais umas esmolas”, ou um tempo em que, esforçada mas rancorosamente “se come menos um pouco”.
Vivências de Quaresma hoje
O sentido da Quaresma hoje está expresso e patente nos nº 109 e 110 da já citada Sacrossantum Concilium, a Constituição do Concílio Vaticano II sobre a Liturgia. Aí se recorda o seu sentido baptismal e penitencial, mas insiste-se também na escuta mais assídua da Palavra de Deus, e na maior dedicação à Oração:
- recuperação dos elementos baptismais (renuncio... credo...) (Cf. Ritual Baptismo)
- sentido pessoal e social do pecado (109 e 110 da SC insiste no jejum penitencial externo e interior)
Nesses mesmo números do mesmo Documento se reflecte também a teologia e espiritualidade da Quaresma
a) O mistério de Cristo na Quaresma: Jesus Cristo que se encaminha para Jerusalém (realização do Mistério pascal). Quaresma é celebração existencial deste doloroso mas luminoso caminho:
- O Protagonista é Cristo: vide textos do Ciclo A dominical: Jesus retira-se para o deserto para orar e jejuar, transfigura-se na montanha, encontra a Samaritana, cura o cego de nascença, chora a morte de Lázaro e ressuscita-o.
- O Modelo: Cristo que se retira ao deserto e com Jejum e oração vence o diabo com a Palavra de Deus
- O Mestre é Cristo (mestre das atitudes que nos chama a viver particularmente a partir da liturgia da Palavra dos dias feriais...)
b) O Mistério da Igreja na Quaresma (tempo baptismal e de conversão):
- Um caminho de fé mais consciente (a dimensão baptismal deste tempo convida-nos a reviver com intensidade a dimensão baptismal – sim creio em Deus… Jesus … Espírito … Igreja … ).
- Escuta mais atenta da Palavra: o caminho de fé que somos chamados a fazer não pode ser feito sem a referência à Palavra de Deus (é Palavra de Deus, não é uma palavra qualquer).
- Oração mais intensa: a partir do encontro personalizado com Jesus na Palavra, personalizar também mais a oração (fazê-la mais pessoal e personalizante, estruturante da personalidade)...
c) Imagens e “símbolos” fortes da Quaresma:
- Cristo
- Samaritana que encontra a felicidade
- Cego que vê a luz
- Lázaro que, pelo poder de Cristo, experimenta a vida...
d) Espiritualidade:
- dimensão trinitária: estamos no caminho de Jesus de regresso ao Pai, na força do Espírito
- em Igreja: somos irmãos, todos salvos...
- na antropologia do homem novo em Cristo: Samaritana, cego, Lázaro.
Quaresma é o grande retiro da Igreja que se prepara para a vivência do mistério da vida em plenitude. Somos baptizados, transformados pelo Espírito e pelo Amor de Deus. E isso é, em nós, fonte de renovação interior permanente. É preciso aproveitar este tempo, de facto, como tempo favorável! Hoje não preparamos o nosso baptismo, mas tomamos mais consciência das suas potencialidades quanto à realização plena da nossa identidade cristã.
sexta-feira, fevereiro 02, 2007

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Quero que me abraces sem me asfixiar
- em torno do referendo ao aborto -
Cativar é criar laços
Não há consciência de nós que não seja, ao mesmo tempo, consciência de um mundo habitado por outros. A consciência de nós aprofunda-se e experimenta-se na relação e no encontro com os outros. E os outros são irredutíveis, não existem apenas porque eu os pense. Existem por si, são diferentes, personalidades e características diferentes das minhas que fazem da abertura e da relação a aventura do crescimento. A célebre afirmação de que “inferno são os outros” só é verdade quando nós somos o nosso próprio inferno.
«O que quer dizer “cativar”?» é a grande interrogação do principezinho no seu diálogo com a raposa. Vale a pena ler novamente a história. É que a raposa vai explicando que «Cativar é criar laços … se me cativares precisaremos um do outro».
De facto, enquanto o principezinho metabolizava a sua dor (quase com pena de si mesmo) apareceu a raposa. Momentos antes o encontro com a flor não tinha corrido bem. A flor brincara vaidosamente fazendo tudo para se manter no meio da cena: uma espécie de jogo de sedução destinado a paralisar o admirador. E o pequeno príncipe, preso no jogo da flor, não se dava conta de si mesmo nem percebeu o que dissimulava tamanha simpatia. Amavam-se, pode concluir-se, mas nunca foram capazes de o dizer (José Gil, A profundidade e a superfície). E porque não encontraram as linguagens próprias o amor falhou. A flor usa a linguagem da astúcia enquanto o principezinho usa uma linguagem simples e directa. Não sendo realizáveis os desejos da flor, o principezinho está destinado a partir, a crescer. E é nessa procura de si mesmo por parte do principezinho que a raposa é um instrumento que possibilita uma experiência fundamental: criar laços, fazer de cada um para o outro alguém que é “único no mundo”. O aborrecimento desaparece da vida da raposa e o principezinho já não se sente estranho. Tornaram-se “únicos no mundo” um para o outro. Por isso a raposa conclui: “Tornaste-te responsável pelo que cativaste! És responsável pela tua rosa” (A. Saint-Exupéry, O Principezinho, 74). Diz-nos a mesma história que, pouco a pouco, cada um se começou a sentir responsável pelo outro e, ao mesmo tempo, a ver a vida própria com outros olhos.
Trata-se do mesmo sentir que Vergílio Ferreira afirma quando diz que «A pessoa que somos, e que parece evidente, aprende-se devagar. Quantas pessoas te amaram? E quantas pessoas amaste? O afecto é a melhor maneira de saberes o tamanho da tua vida. Ou seja, do até onde exististe. Haverá outro limite para saberes se valeu a pena?» (V. Ferreira, Pensar, 481. 471).
Quantas pessoas amaste?
Sem demagogias balofas e sendo sensível às imensas e inúmeras situações, por vezes dramáticas, a que uma mulher que se decide pelo aborto está sujeita (abandono, pressões várias, medos, falta de condições, etc, etc) gostava, neste contexto, de afirmar sensível e rigorosamente o direito à vida já existente e de, afirmar igualmente a não existência de direito sobre a vida do outro por mais embrionária que seja.
Não querendo passar por cima das dificuldades inerentes às razões que conduzem muitas mulheres a recorrer ao aborto, como se de coisas sem valor se tratasse, quero, no entanto, referir cada um desses aspectos como sendo de grandeza completamente diferente daquela que tem o valor da vida. A vida está antes como princípio, valor e fundamento, está durante como referência fundamental e experiência, e está depois como objectivo e finalidade de tudo. Tudo passa, só a vida permanece (quando permanece). E, na linha da igualdade dos direitos humanos, eu não posso tirar a ninguém algo que não tenho a capacidade de voltar a dar-lhe.
Contextualizar e reflectir esta questão no horizonte do amor e do afecto que, como diz V. Ferreira, mede o tamanho da nossa vida não é relegá-la para a utopia do irrealizável e falacioso. É colocá-la naquele horizonte das nossas vidas onde se decidem os rumos do viver, onde os desafios se fazem projectos, onde o ideal não é o abstracto mas aquilo que sempre nos segreda interiormente que é preciso continuar a educar. Não estamos sempre nós em desenvolvimento?! Se não acredito naquilo de que o homem é capaz quando se compromete gratuitamente como posso continuar a acreditar no homem?! E não estão sempre na base de qualquer Constituição de qualquer país um conjunto de valores que, embora difíceis, são os orientadores e os referentes de cada acção, de cada projecto?!
Para nós cristãos, todo o ser humano, e portanto também o embrião e o feto, possui o direito à vida imediatamente de Deus e, por isso, não existe autoridade humana que possa arrogar-se o direito de decidir sobre a vida de outro alguém. A afirmação do Decálogo “Não matarás” não é um passivo paliativo de consciência. É sempre entendido e levado à plenitude na experiência do amor fraterno. E, nesse sentido, todas as normas, todos os actos morais, todas as atitudes de vida estão, portanto referenciadas à opção fundamental perante um valor. Uma norma não vale por si mesma, mas expressa o valor e vale por isso em ordem ao comportamento. Positivas, motivadoras, abertas, orientadoras … eis como se deveriam apresentar as normas. São sempre instrumentais. Uma norma que permita arbitrariamente a destruição da vida humana é, no presente e em potência, um atropelo civilizacional, uma contradição dos valores éticos de cidadania que, embora nem sempre alcançados, construímos durante séculos. Ao aceitar – como norma, contexto ético e ambiente educativo – que se violem os direitos do mais fraco (“Eis o Homem” no dizer de Michel Serres citando o Evangelho de João), aceitar-se-á e colaborar-se-á, inequivocamente, que o direito da força se afirme sobre a força do direito.
O texto de um Assistente de Direito da Faculdade de Direito de Lisboa que recebi hoje por e-mail e que cito, afirma que «pouco se tem falado da solução da lei alemã como uma tentativa de resolver aquele aparente paradoxo ("como não punir a mulher, em muitos casos dramáticos, sem transformar o aborto num direito?", "como despenalizar sem liberalizar?"). O ponto principal dessa legislação, que a torna original no quadro europeu, consiste na existência de um mecanismo de aconselhamento e ajuda (que não é um mero aconselhamento informativo mas um aconselhamento orientado para a salvaguarda da vida e que visa dissuadir a mulher de praticar o aborto), definido, na própria lei (S. 219, nº 1, Código Penal Alemão), nos seguintes termos: " O aconselhamento serve a protecção da vida que está por nascer. Deve orientar‑se pelo esforço de encorajar a mulher a prosseguir a gravidez e de lhe abrir perspectivas para uma vida com a criança. Deve ajudá‑la a tomar uma decisão responsável e em consciência. A mulher deve ter a consciência de que o feto, em cada uma das fases de gravidez, também tem o direito próprio à vida e que, por isso, de acordo com o sistema legal, uma interrupção da gravidez apenas pode ser considerada em situações de excepção, quando a mulher fica sujeita a um sacrifício que pelo nascimento da criança é agravado e se torna tão pesado e extraordinário que ultrapassa o limite do que se lhe pode exigir ".
A lei alemã afasta-se, assim, do puro modelo do "aborto a pedido" (modelo da proposta em referendo), assumindo antes que, normalmente, será exigível à mulher o cumprimento do dever de levar a sua gravidez até ao fim, até ao nascimento do bébé. Normalmente, ser-lhe-á exigível cumprir o maravilhoso mas exigente fardo de levar a gravidez a termo.
Em contrapartida, é afirmada, por sua vez, a responsabilidade do Estado (e o mesmo se diga, aliás, da Sociedade em geral, das empresas, das famílias, etc) em criar as condições, em todos os domínios, que auxiliem a mulher a cumprir essa exigência.
Para além disso, no modelo da lei alemã, o aborto, mesmo nos casos em que, depois de realizado aquele aconselhamento dissuasor, é considerado não punível, sempre continua a ser tratado, para todos os efeitos jurídicos, como um acto ilícito (nomeadamente, para efeitos de não poder, assim, ser comparticipado pela Segurança Social, etc). Ou seja, o aborto continua a ser, nesses casos, ilegítimo, mas não punível.
Não sendo o ideal de modelo pode abrir perspectivas para um modelo de ajuda e aconselhamento dissuasor que não terminasse com uma decisão autónoma da mulher em quem, nesse momento, as condições de liberdade e autonomia até podem nem ser uma realidade por força das circunstâncias.
Santos pós-modernos pela vida
A cidadania é hoje um conceito e uma realidade bem complexas. Apela à participação, age na esfera da liberdade, pressupõe uma perspectiva participada da cultura, reenvia permanentemente aos valores e integra, no respeito mútuo e recíproco, imensas diferenças e múltiplas perspectivas. E como dinamismo fundamental acredita naquilo que alguém definiu como “somos todos pessoas a haver”. É uma cidadania que tende a incluir as diferenças para não se afirmar como exclusão.
Evidentemente que, nas sociedades actuais, o conceito de cidadania sendo valor comum nem por isso é simples de afirmar e colocar em curso. Não sendo fácil no mundo de hoje encontrar e definir uma base comum de valores éticos que sejam do acordo total, percebe-se ao mesmo tempo a impossibilidade da cidadania sem um referencial mínimo de valores. O único valor que parece não oferecer dúvidas é o da liberdade. Mas mesmo esse reenvia sempre para o encontro com o outro que é irredutível e nunca instrumentalizável. Confira-se a Declaração Universal dos Direitos do Homem onde a vida é afirmada como pertencendo ao homem por natureza, que o Estado reconhece, mas não confere. Um direito que pertence a todos os homens enquanto seres humanos. Após a experiência dura e desumana da II Grande Guerra, entende-se que a vida não é algo de que se possa dispor arbitrariamente. Violar esse direito contradiz o ideal democrático.
O não reconhecimento do direito à vida, a incapacidade de promover a salvaguarda da vida do embrião e do feto, a neutralidade cómoda são expressões de um neo-conservadorismo emergente que tenta legalizar o que não se sabe enfrentar ou mesmo resolver.
Os valores da participação, do associativismo, da gratuidade do voluntariado, da pessoa que está permanentemente a fazer-se, dos desafios de realização tão presentes na defesa e difusão da ideia de cidadania não exigirão coerentemente que se acredite na capacidade e na possibilidade de educar para o valor da vida?! Como posso coerentemente afirmar as necessidades das atitudes de solidariedade humana, de respeito recíproco, de participação comunitária se todos esses valores ficarem fechados em si mesmos e não ajudarem o homem a transcentrar-se para se encontrar de verdade com os outros e o mundo percebendo a vida como o fundamento?! Seria possível descriminalizar sem legalizar. E as mulheres seriam ajudadas. Certamente daria muito trabalho, pediria muita liberdade, exigiria muito amor. O tal pelo qual se mede a nossa vida. Aqui a Igreja marca pontos. Porque dá o que tem: a alegria de amar. É por isso que vale mais optimizar todas as coisas do que ser apenas optimista.
P. Emanuel Matos Silva
quarta-feira, janeiro 31, 2007
quarta-feira, janeiro 10, 2007

- 6 (Sábado) – Vigília de Oração pelas Vocações (21h30: Igreja do Calvário, Nisa)
- 13 (Sábado) – Encontro Sta. Teresa (encontro sobre a Vida Religiosa – das 20h00 às 21h30: Casa Paroquial de Arez, Nisa)
- 14 (Domingo): Participação nas Eucaristias de Chainça, Abrantes e Alferrarede (10h00, 11h00 e 12h15);
- 20 (Sábado) – Laboratórios da fé (encontro para aprofundamento da fé em horizonte vocacional – das 18h00 às 19h30: Casa Paroquial de Arez, Nisa)
- 27 (Sábado) – Encontro João Paulo II (encontro sobre a especificidade da vocação sacerdotal e a identidade do padre na Igreja – 20h00 às 21h30: Casa Paroquial de Arez, Nisa)

