quinta-feira, junho 11, 2009


Ano Sacerdotal
e
Simpósio do Clero




Fidelidade de Cristo, fidelidade do Sacerdote
O Papa Bento XVI anunciou a realização de um “Ano Sacerdotal”. Subordinado ao tema Fidelidade de Cristo, fidelidade do Sacerdote, este ano, especialmente dedicado a reflectir a importância do papel e da missão do sacerdote na Igreja e na sociedade e a rezar pelos que são chamados a serem padres, decorrerá entre os dias 19 de Junho 2009 (Solenidade do Sagrado Coração de Jesus) e 19 de Junho 2010.
Esta iniciativa e oportunidade ocorre quando se cumprem 150 anos sobre a morte de S. João Maria Vianney, o Santo Cura d’Ars que viveu o seu sacerdócio numa total entrega a Deus e ao povo que lhe foi confiado. S. João Maria Vianney será, por isso mesmo, proclamado Padroeiro de todos os Sacerdotes do Mundo no dia do encerramento deste Ano Sacerdotal no grande encontro mundial de Sacerdotes na Praça de S. Pedro em Roma.
S. João Maria Vianney nasceu em 8 de Maio de 1786 numa França muitíssimo agitada pela revolução e onde a maioria dos sacerdotes estava exilada ou encarcerada. Sentindo a vocação ao sacerdócio, João Maria Vianney teve de enfrentar muitas adversidades mas nunca perdeu a referência da voz de Quem o chamava. Trabalhando, entregando-se aos pobres, homem de profunda oração, entrou por fim num Seminário no qual já era comum a admiração pela simplicidade e santidade de Vianney. Foi ordenado padre em 9 de Agosto de 1815 já com 29 anos e começava nesse momento uma das mais belas histórias de sacerdócio dedicado e apaixonado. Ars, do ponto de vista da prática religiosa, era um lugar deserto. João Maria começou pobre mas dedicado. Caridade, apostolado, horas de confissão, pobreza extrema, cuidado permanente das famílias eram expressões do seu grande segredo: a oração silenciosa diante de Jesus no Sacrário. Vianney viria a morrer em 4 de Agosto de 1859 mas a sua lembrança nunca desapareceria.
A sua vontade tenaz de se preparar o melhor possível para o sacerdócio, a profundidade do seu amor a Cristo e ao povo, os frutos abundantes e surpreendentes do seu ministério, as diversas actividades apostólicas orientadas para o essencial, a valorização do Sacramento da Reconciliação, a Eucaristia como oferecimento, comunhão e adoração, a pregação e a catequese são pois desafios do Cura de Ars a todos os padres de todos os tempos.
Este é, portanto, um ano dedicado a reflectir e rezar pelos sacerdotes e com os sacerdotes. Diz o Cardeal Cláudio Hummes, Prefeito da Congregação para o Clero, numa nota escrita acerca do Ano Sacerdotal que este ano deverá ser um ano positivo e propositivo, em que a Igreja quer dizer antes de tudo aos sacerdotes, mas também a todos os cristãos, à sociedade mundial, através dos meios de comunicação global, que ela se orgulha de seus sacerdotes, os ama, os venera, os admira e reconhece com gratidão seu trabalho pastoral e seu testemunho de vida. Realmente, os sacerdotes são importantes não só pelo que fazem, mas também pelo que são.
E o mesmo texto do Cardeal faz mais desafios objectivos: Este ano seja também ocasião para um período de intenso aprofundamento da identidade sacerdotal, da teologia do sacerdócio católico e do sentido extraordinário da vocação e da missão dos sacerdotes na Igreja e na sociedade. Isso exigirá congressos de estudo, jornadas de reflexão, exercícios espirituais específicos, conferências e semanas teológicas em nossa faculdades eclesiásticas, pesquisas científicas e respectivas publicações. [..] deve ser, de modo muito especial, um ano de oração dos sacerdotes, com eles e por eles, um ano de renovação da espiritualidade do presbitério e de cada presbítero. A adoração eucarística pela santificação dos sacerdotes […] poderiam ser desenvolvidas com frutos reais de santificação. Seja um ano em que se examinem de novo as condições concretas e a sustentação material em que vivem nossos sacerdotes, às vezes submetidos a situações de dura pobreza. Seja, ao mesmo tempo, um ano de celebrações religiosas e públicas, que levem o povo, as comunidades católicas locais, a rezar, a meditar, a festejar e a prestar uma justa homenagem a seus sacerdotes. […]
O Ano Sacerdotal vai ser, portanto, uma ocasião de reavivar o dom de Deus à sua Igreja que é o sacerdócio.


Simpósio do Clero em Portugal – reavivar o dom da Graça de Deus
Decorrerá também este ano mais um Simpósio nacional do Clero. Realizar-se-á em Fátima entre os dias 1 e 4 de Setembro de 2009. O tema deste Simpósio Nacional, enquadrado no Ano Sacerdotal é tirado da segunda Carta de Paulo a Timóteo: “Exorto-te a que reavives o dom da Graça de Deus que está em ti pela imposição das minhas mãos” (2 Tim 1, 6 – 11)
Em cada momento é necessário reavivar o dom de Deus que está em nós. Que significará reavivar? O verbo grego significa avivar um fogo. Ora o Espírito Santo é descrito muitas vezes como fogo e a sua vinda é descrita simbolicamente em línguas de fogo. E é nesse sentido que é interessante que seja dito que o homem cristão, nomeadamente o sacerdote, tem responsabilidade no reavivar em si mesmo o dom de Deus. Neste caso concreto de Timóteo trata-se do dom que recebeu pela imposição das mãos, o rito específico da ordenação, da consagração ou nomeação. Trata-se, portanto, do dom da Graça de Deus para o ministério em Igreja. É esse dom ministerial que é preciso reavivar. E se há necessidade de o reavivar significa que ele se pode apagar ou extinguir e que corre esse perigo.
Como se extinguem ou “ofuscam” os dons de Deus e, nomeadamente, o dom do seu Espírito? Podemos colocar algumas hipóteses de motivos:
§ No caso de Timóteo podemos colocar a hipótese de o dom se ofuscar por causa da solidão. Timóteo pode ter-se sentido “terrivelmente solitário” quando se separou de Paulo. Tinham trabalhado em muito estreita colaboração, mas agora o peso da solidão, das decisões na comunidade fazem-no esquecer de recorrer à força do dom de Deus. Ainda hoje encontramos solidões terríveis e que por isso destroiem ou ofuscam o Espírito de Deus em nós.
§ Uma outra razão possível para o enfraquecimento do dom de Deus em Timóteo é a sua jovem idade ou, por quaisquer motivos, a insegurança. Jovem idade que pode fazer com que Timóteo se sinta inadequado para a direcção da comunidade. A insegurança produzida pela idade é, de facto, apresentada aqui como uma hipótese de algo que provoca o enfraquecimento do dom de Deus.

§ Uma terceira hipótese de causa do enfraquecimento do Dom de Deus é a falta de exercícios espirituais, a falta de oração. Lembremos que, na primeira Carta a Timóteo, Paulo exorta Timóteo a exercitar a piedade (1 Tim 4, 8). O dom de Deus pode, portanto, ofuscar-se quando deixamos de rezar
Somos então desafiados a reavivar o dom de Deus que está em nós. E S. Paulo continua dizendo a Timóteo que Deus nãos nos deu um Espírito de timidez, mas sim de fortaleza, caridade e temperança. À primeira vista, humanamente falando, parece que temos aqui um Timóteo que não acredita já no seu ministério e na sua capacidade. É assim que S. Paulo o convida a sair do estado de temor em que parece viver (quem teme não é perfeito no amor).
A timidez de que nos fala S. Paulo não é apenas, ou principalmente, uma timidez psicológica. É antes uma timidez que se revela como o contrário da confiança em Deus, o contrário da fé em Jesus Cristo que conhece e guia todas as coisas. Significa, portanto, que a timidez, no sentido de medo, de falta de coragem evangélica, é uma tentação grave e o possível início de muito ofuscamento de dons de Deus. É algo que mata a alegria e a coragem do serviço ministerial. É desta mesma timidez que Jesus nos liberta quando nos diz “ Deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz. Não se perturbe o vosso coração, não tenhais medo” (Jo 14, 27) (não tenhais “deilia”).
De acto, continua S. Paulo, Deus deu-nos um Espírito de fortaleza, de amor e de temperança”.Poderíamos traduzir de outra forma: “um Espírito de força, de amor e de sabedoria”. A força que nos é dada é a força do próprio Senhor Jesus, aquela que estava n’Ele ao anunciar com tantos e tantos sinais o Reino de Deus. O amor, por seu lado, é o amor de Deus, o amor criador, a caridade participação no próprio Amor que Deus é. A temperança, finalmente, aqui usada por Paulo, diz respeito à sabedoria associada à prudência e à moderação. A temperança é a capacidade de permanecer na justa medida que é diferente do meio termo, a capacidade do equilíbrio. É a justiça. É a capacidade de não se deixar manipular pelos estados emocionais passageiros, pelos fantasmas dos sentimentos, pela dureza das desilusões (inconsistência). Talvez por tudo isto S. Paulo diga a Timóteo que o Espírito de Deus é de força, amor e temperança. Talvez a força e o amor não chegassem e Paulo lhes junte a capacidade de discernimento que a temperança faz agir. Ser sábio e ter temperança é saber discernir os tempos, os lugares, os momentos, reconhecer a revelação da força de Deus, perseverar.

Ano Sacerdotal e Simpósio, duas ocasiões, para o Clero e para todos os cristãos, de perceber melhor e mais profundamente o lugar do Padre na Igreja e no mundo. Uma ocasião de perceber a sua vocação e os sinais específicos da sua consagração.


p. Emanuel Matos Silva
pde.emanuel@gmail.com


13 e 14 Junho 2009

Cristo está cá e chama-te!

"Pré-Seminário"

Seminário de S. José

- Alcains -

12h00 do dia 13 até 14h00 do dia 14


segunda-feira, junho 01, 2009




Bendizer e dizer bem



Esperança forte para certeza débil

O Santo Padre, o Papa Bento XVI, desafiava há tempos atrás a Igreja a falar menos de si mesma e a anunciar mais a Jesus Cristo propondo o seu seguimento às mulheres e homens de hoje no concreto e no real das suas vidas. O Santo Padre desafiava assim a Igreja a que, partindo da sua identidade de sacramento e de sinal de Jesus Cristo (a Luz dos Povos como Lhe chama a Lumen Gentium) no meio da humanidade, testemunhasse o fundamento da sua fé e da sua esperança. É para isso que Cristo a quer e a constitui. Trata-se, na caridade e na evangelização, de uma Igreja rendida ao seu Mestre e Senhor Jesus Cristo e com capacidade criativa. Uma Igreja que faz aquilo em que acredita.
Acreditar e saber sempre andaram juntos. Acreditamos e, então, compreendemos melhor. Compreendemos e, resultado de experiência, acreditamos mais. Mas nunca a fé cristã resultou apenas da adesão intelectual do pensamento à realidade de Jesus de Nazaré. Como também nunca resultou apenas e exclusivamente da adesão emocional à mesma verdade. Deus fez tudo muito bem feito: aderimos e amamos o que faz sentido mesmo que isso exija esforço já que o esforço é tempo de nascer e de fazer acontecer aquilo que se ama.
A fé é uma questão de confiança, um saber por confiança que se traduz em segurança de vida. Então, para lá da adesão apenas do pensamento, a fé consiste também e antes de tudo, num compromisso da pessoa toda com a Pessoa e os passos de Cristo; consiste no facto de referenciar e remeter toda a vida para Cristo, numa entrega total, renunciando à vontade de desprezar o que quer que seja que esse caminho nos revele como caminho de Cristo.
“Agora vemos … por isso acreditamos que saíste de Deus” (Jo 16, 19) diziam os discípulos de uma determinada hora a Jesus. Mas deixam-se cair num erro: dizem que acreditam porque vêem que Jesus sabe tudo, que sabem eles também, que compreendem, que experimentam, que tocam e até, porventura, que dominam todo o acesso do conhecimento à Pessoa de Jesus. Tudo lhes parece claro acerca de Jesus. Pensam acreditar mas, na verdade, ainda não aderiram plenamente na fé à Pessoa de Jesus. E o mesmo erro repete-se. Na fé e no acreditar nunca está tudo feito de uma vez para sempre. Aquilo que retirasse o esforço è fé e ao acreditar, acabaria por lhe retirar também a alegria e a capacidade do compromisso.
Jesus percebeu bem o equívoco dos seus discípulos e a, ainda, insuficiência da sua confissão de fé. É por isso que, permanentemente nos Evangelhos, os reenvia para a Hora da sua Paixão. Essa é a prova suprema e será para os discípulos o lugar da verificação da sua fé e do seu seguimento. Jesus fá-los imaginar para os fazer alargar o horizonte de compreensão.


Imaginar o que Deus nos quer

É quando um desejo é difícil de realizar, que a esperança tem de preencher o largo espaço dessa realização. E é aí que acontece sempre um propósito, um desafio, um compromisso, um voto, uma promessa. A esperança mais débil é para a certeza mais forte e a esperança mais forte é para a certeza mais débil. Por isso se exige “aos que se comprometem” uma fé tanto mais ardente, amorosa e gratuita quanto mais difícil é o “milagre” que desejam. Quem espera já faz acontecer. Esse é o exercício do permanente envolvimento com Deus para que a história de todos os dias tenha sentido, um exercício de coragem e de simplicidade, de fortaleza de confiança.
Falar da esperança e do testemunho de Jesus Cristo no mundo de hoje como um exercício de coragem e de simplicidade, um compromisso de fortaleza de confiança, é sublinhar o lugar da imaginação na vida espiritual dos cristãos.
Algumas abordagens da imaginação referenciam-na como algo próximo da ilusão e da projecção e, por isso, algumas vezes perigosa. Muitos, nesse sentido, que se imaginaram muito além das suas possibilidades e realidades, nunca foram capazes de assentar e, por isso, tornaram-se irresponsáveis e inconsequentes.

Mas já Sto. Inácio de Loyola sublinha a importância da imaginação na oração e na vida cristã como composição do lugar. Ela será uma experiência positiva na medida em que o desejo de Deus se pode sempre transformar em desejo de crescer e de amar infinitamente. E por isso a imaginação pode ajudar a transfigurar as experiências de cada dia e de cada hora. Como seria diferente a vida de todos os dias se Jesus me acompanhasse cada momento da vida como aos primeiros discípulos. Vamos imaginá-l’O ao nosso lado – dir-nos-ia Sto. Inácio – e perceber o que nos diria nesta situação concreta e real, neste momento da vida. E aí a imaginação dá frutos reais em experiências que orientam.
Imaginar é sair. A imaginação teologal e cristã tem, de facto, o dom de nos retirar à rotina de todos os dias e de todos os processos que criam círculos viciosos. Arranca-nos às palavras ressabiadas de desencanto, não deixa que sejamos sempre levados por denominadores comuns despersonalizados, não nos impede a reflexão, não nos deixa prisioneiros do “politicamente, ou eticamente, ou religiosamente, correcto sempre tão confortável, não nos deixa escravos do meio ambiente nem das valorizações sociais com que, às vezes, se compram as consciências e silenciam as inquietações.
É a imaginação, de facto, que impede que se olhe para o homem apenas como unidimensional (de uma ideia só). É a imaginação que impede que se olhe para a pessoa sempre como algo previsível e controlável. É a imaginação ainda que tem a arte de desconfiar das evidências fáceis, e que tem igualmente a coragem de abrir o que alguém quis, indevida e apressadamente, encerrar. Num mundo de coisas compactas, a imaginação cristã é arte de encontrar as brechas para, paradoxalmente, reflectir a unidade e harmonia. Quem é capaz de “imaginação”, é também alguém difícil de formatar.
Mas a imaginação cristã, é ainda e também aquilo a que podemos chamar um acto de inteligência, uma verdadeira fecundação da razão. Imaginar é desenvolver as possibilidades.
É uma imaginação mística porque murmura continuamente ao espírito humano a possibilidade da transcendência num mundo de certezas horizontais e imediatas; desaloja as leituras materialistas, unidimensionais; permite que o tempo não seja apenas instrumento de prazer ou de rentabilidade, mas saiba a comunhão com a eternidade; faz-nos acreditar no lugar da contemplação num mundo de hiperactividade nevrótica; desenvolve a possibilidade dos desejos profundos como orientadores de todas as lutas; ela forma corações fortes e desempoeirados, mãos fortes e fraternas.

Igreja, mestra de esperança

Jesus conhece bem a prova de fé a que, quotidianamente, os seus discípulos estão expostos. Jesus conhece bem a experiência de solidão e de aparente abandono por todos a que a fé os conduzirá. Mas é a vitória da sua Paixão por amor que abre para uma vitória sobre o que dispersa, endurece o coração, se enraíza como indiferença ou, ainda pior, está constantemente a condenar os outros. Sem a confiança (a fé) não há vitória sobre tudo o que despersonaliza e destrói.
Diz bem o povo quando afirma que “quem não se fia não é de fiar”! A experiência do povo leva-o a dizer que quem vive a sua vida desconfiado de tudo e de todos deixa azedar o coração na suspeição habitual e não arrisca ser criador de caminhos novos com a mais valia da gratuidade e do amor. Esse que não se fia, e por isso não é de fiar, será alguém que vive sempre como espectador hiper-crítico da realidade mas espreitando a oportunidade para dela usufruir. Fica de fora a gratuidade, condimento essencial das vidas positivas e fecundas.
Ouvimos dizer muitas vezes que o nosso século está a nascer de costas voltadas para os valores, para a moral, para Deus e para a transcendência. E quando se embarca no tema e no horizonte que lhe preside, não raras vezes, julgam-se pessoas e sociedades em processos sumários.
Será que os séculos anteriores foram assim tão puros em relação aos valores, à moral, a Deus ou à transcendência? Meramente a título de exemplo, o século anterior viu acontecerem duas guerras mundiais e muitas outras. Viu a expressão máxima da desumanização em campos de concentração e outras experiências. Viu a bomba atómica, viu a afirmação reiterada de outros século de que não existia Deus e viu a confissão que de, afinal, existe e existirá, etc.
Para mudar e converter, é preciso imaginar. A imaginação – a tal arte de encontrar as brechas para, paradoxalmente, reflectir a unidade e a harmonia das coisas e das vidas - inspirada pela Graça, conduz ao encontro com Deus. Inspira os gestos, os estilos, as formas de viver. Alimenta e fortifica a fidelidade e a confiança e torna possível aquilo que alguns julgam impossível: viver no mundo sem se reduzir à perspectiva meramente horizontal do mundo.
Se, em vez de “dizer mal dos não baptizados”, a Igreja soubesse desafiar (dizer bem) para a beleza da segundo Jesus Cristo; se, em vez de “criticar os cristãos que não vão à Missa”, a Igreja fosse capaz de os entusiasmar (dizer bem) para estarem presentes; se, em vez de lamentar as “fugas ao sacramento da reconciliação”, a Igreja acolhesse (dizer bem) com tempo os pecadores; se, em vez de dizer mal dos divorciados, a Igreja fosse capaz de dizer bem do seu projecto de família cristã e de as acompanhar; se, em vez de se entreter (dentro e fora) com avaliações morais e acusações permanentes, a Igreja propusesse o sentido da diferença como mais valia e mantivesse com serenidade a sua identidade; se, em vez de ir atrás a lamentar, a Igreja fosse à frente a desafiar … estaria seguramente a fazer aquilo a que o Papa Bento XVI a desafiou como Igreja de Cristo e a ser fermento de mundos novos.
Imaginar o bem leva-nos a comprometer com ele. E dizer bem é a primeira, e às vezes, a melhor forma de bendizer a Deus. Ser capaz de lutar pelo bem significa que já se imaginou o bem e a bondade. Imagine-se.


p. Emanuel Matos Silva
pde.emanuel@gmail.com

sexta-feira, maio 15, 2009


Se quer rezar, tem de tirar a boina
- Francisco Marto,
“desempenado” e contemplativo –



Nove anos apenas
Francisco Marto, uma das três crianças (pastorinhos) que testemunharam as aparições de Nossa Senhora em Fátima, é uma figura extremamente rica e que desperta imensas interrogações e desafios. É a criança que alguém definiu como tendo “um ar desempenado quando respondia às perguntas”, desempenado e contemplativo. O Francisco que responde com “ar desempenado” é o mesmo Francisco que, com o mesmo “ar desempenado” levanta interrogações. Suas e também de todas as crianças.
“Vossemecê, se quer rezar, tem de tirar a boina” disse Francisco a um preso enquanto em conjunto rezavam o terço.. A figura deste “Pastorinho” é de uma intensidade extraordinária. Nascido a 11 de Julho de 1908, baptizado a 20 do mesmo mês, morreu a 4 de Abril de 1919, foi beatificado em 13 de Maio de 2000 pelo Papa João Paulo II.
Partindo dos seus nove anos de idade e do seu contexto existencial, passando pela sua personalidade ou temperamento e admirando a sua fé, deixamo-nos cativar pelas suas expressões de inocência e de amor que acabam por concluir na sua total entrega (capacidade de dom) a Deus pelas mãos de Maria. É impossível seguir de perto a sua história sem se deixar interrogar. É impossível acompanhar o seu percurso sem deixar que, da sua infância feita “oferta agradável a Deus”, surjam interrogações e implicações para todos os tempos e a muitos níveis.
Francisco Marto diz-nos, pois, “espontaneidade”, “autenticidade” e “confiança”! Se colocarmos uma criança e um adulto diante de uma casa enorme e esteticamente impressionante pela beleza, colheremos seguramente duas reacções diferentes. O adulto falar-nos-á do preço da casa (“Que casa caríssima!”). A criança, por sua vez, referir-se-á à beleza da casa e, por conseguinte, ao seu valor (“Que casa bonita!”). Talvez isso aconteça porque, como diz um poeta, os adultos já não têm tempo para dar de comer aos pássaros. Mas, de facto, a simples observância das crianças mostra- nos como têm uma incrível facilidade em passar do terreno do mundo material e físico para o mundo e “experiência” do Sobrenatural. E, mais do que apenas isso, falam-nos desse mundo com uma proximidade cativante, uma convicção imensa e uma desenvoltura desconcertante.
É evidente que se torna necessário, e a educação também o promove, passar da “metafísica apenas pessoal” para o campo da “física universal”. A passagem não deve, contudo ser tão rápida que nos impeça de reparar no essencial já que, à priori não tem de existir contradição nem oposição entre a metafísica pessoal e a física universal. A espiritualidade radica as suas origens no mais profundo do ser. Quase poderíamos dizer que é, como o “rir” e como a “linguagem” um dado humano fundamental.
Sobre a espiritualidade da crianças, Francisco dir-nos-á seguramente que é necessário crescer (“fazer-se um homem” como se costuma dizer na linguagem dos “adultos”) sem perder aquilo que dá sentido à vida. A história das aparições e da vida de Francisco fala-nos de uma criança pacífica, dócil, bondosa, condescendente, com sentido de humor, brincalhão, de fácil relação e amizade, atento e perspicaz, reservado, destemido, contemplativo, sincero, transparente, delicado, paciente. Tantas coisas boas que, mais ou menos naturalmente, podem despertar e ser alvo de pedagogias para se fazerem mais realidade existencial. Nessas atitudes estão todas as linhas com que se “desenha” e faz um Homem.


Espiritualidade adulta
Se não vos tornardes crianças não entrareis no Reino … (Mc 10, 15). O Reino é para crianças. As palavras de Jesus não deixam lugar a dúvidas. Mas o apelo de Jesus não é, de todo, um convite ao infantilismo ou à imaturidade. A possibilidade de inspiração de uma espiritualidade cristã adulta na criança que é o Pastorinho Francisco surge, precisamente, das qualidades da infância de Francisco e de todas as crianças. A experiência da maturidade cristã faz do adulto não apenas uma “pessoa grande” mas sim, e sobretudo, uma “pessoa crescida e a crescer”! Crescer não significa apenas, deste ponto de vista, acrescentar anos à vida. É sim acrescentar vida aos anos. Espontaneidade, autenticidade e confiança são então, entre muitas outras, três notas que se testemunham em Francisco e que são marcos incontornáveis de uma espiritualidade cristã adulta.
É necessário, por isso, transfigurar a infância para se ser cristão adulto: crescer em idade mantendo a referência e a marca “original”! O“ser criança”, no desafio das palavras de Jesus, é uma experiência de plenitude, uma experiência de maturidade cristã, uma expressão do homem “à estatura de Cristo” que confia, que é autêntico e espontâneo! Não se trata, portanto, de construir “homens infantis”, mas sim de reparar nos dinamismos da maturidade cristã como expressões de uma infância transfigurada que se manifesta e reage com base na simplicidade, alegria, espontaneidade e, sobretudo, confiança filial.
Uma criança pode ser modelo de fé para um adulto? Não será isso uma infantilização ou, pelo menos, algo desconexo? Pergunto: Um carro de mão puxa-se ou empurra-se?! Responder-me-ão, seguramente, que “depende”. E, de facto, depende do que se pretende, do “para onde” se pretende ir, do tipo de “carro de mão”. É o mesmo que acontece em relação à afirmação da possibilidade das crianças como modelos de fé poderem indicar ou não uma infantilização da experiência religiosa. Depende de muitas condicionantes. Tratar-se-ia de infantilização, se no horizonte da caminha da cristã, se perdesse a noção da finalidade de tudo o que se faz.
Quando um adulto olha para uma criança como modelo de fé, contempla, sobretudo, a “inocência” (vamos chamar-lhe “originalidade” livre) dos dinamismos e não tanto a eficácia das situações. A criança, objectivamente, é aquele que se está a fazer, que está em estado de construção (E isso pode ser bom e pode não o ser, é transitório). Porque está em construção tem também de saber o que pretende construir. O factor importante na fé é o acesso à Pessoa de Jesus Cristo. E isso tem caminhos e dinamismos próprios.

Modelo de fé
Acolher a criança como modelo de fé não é, então, padronizar a realidade a partir de uma criança e reduzir o âmbito da própria realidade. A isso chamar-se-ia ilusão. Acolher a criança como modelo de fé é ser capaz de purificar as percepções, é ser capaz de abordar o complicado e complexo com a simplicidade superior de quem confia e não alimenta suspeições. É ser capaz de ser livre!
Acolher a criança como modelo de fé é reflectir a possibilidade de ser adulto e manter a “inocência” que faz amar sem desconfiar, que faz confiar sem suspeitar. É não deixar envelhecer a referência da vida a Deus. E, por isso, com a propriedade que a própria vida acarreta consigo, ser pacífico, dócil, bondoso, condescendente, com sentido de humor, brincalhão, de fácil relação e amizade, atento e perspicaz, etc, etc, à maneira de Francisco.
A história das aparições e da vida de Francisco fala-nos, como já referi, dessa criança pacífica, dócil, bondosa, condescendente, com sentido de humor, brincalhão, de fácil relação e amizade, atento e perspicaz, reservado, destemido, contemplativo, sincero, transparente, delicado, paciente. Tudo coisas que fazem a vida de alguém mais feliz! Ou não?!
As memórias em que nos é narrada a história de Francisco merecem, e têm já superiormente elaborado, um estudo crítico. Mas nunca deixará de impressionar a confiança absoluta de Francisco em Deus e a capacidade de relativização do que ele considerava “coisas sem importância” (“Deixa lá, a mim que me importa o lenço?”).
Nunca deixará de impressionar, nesse horizonte, o seu amor e a sua entrega a “Jesus escondido”. O que torna uma criança de nove anos capaz de um amor assim? E o que lhe dá força para se tornar desta forma uma “oferenda agradável a Deus”?
O amor e a dispersão são experiências em sentido contrário. O amor unifica sempre. E, embora não limite nunca a extensão das experiências, o amor valoriza sobretudo a intensidade (não muitas coisas ao mesmo tempo, mas as coisas mais importantes).
Então a “capacidade de dom” é o que melhor a traduz a gratuidade, o prazer (mesmo que, depois, peça esforço) e a liberdade que a criança coloca como “exigência” em tudo o que faz. Aquilo que resistir às exigências de gratuidade, prazer (ser feito com prazer que é diferente de ser feito para dar prazer) e liberdade obtém da criança a colaboração e o empenho. E Francisco faz-se “dom” para Deus e para a Igreja. É uma experiência de gratuidade total, uma relação pessoal com o Mistério de Deus que não se possui mas ao qual não se consegue escapar. Um Mistério que nos relativiza, mas ao mesmo tempo, nos sustenta.
Em Maio, mês de comemoração das aparições de Fátima, vale a pena voltar a ouvir Francisco: “Hoje sou mais feliz … porque tenho dentro do peito a Jesus escondido” e exclamar também com ele “Ó minha Nossa Senhora, terços, rezo todos quantos Vós quiserdes”.


p. Emanuel Matos Silva
pde.emanuel@gmail.com

domingo, maio 10, 2009

quarta-feira, maio 06, 2009


Encontro
de
Pré-Seminário
Seminário de S. José
- 9 e 10 de Maio 2009 -
Programa:

Sábado, 9 de Maio

  • 11h00 - Acolhimento no Seminário de S. José (Alcains)
  • 12h00 - Quem somos? Vamos conhecer a Diocese!
  • 13h00 - Almoço
  • 13h45 - Surpresa (A... R... S... MB... MT... MF... C... M... N...)

- Reflexão ... convívio ... oração

  • 20h00 - Jantar (pic-nic)
  • 21h30 - "O regresso"
  • 23h30 - Repousando

Domingo, 10 de Maio

  • 08h30 - Oração da manhã
  • 09h00 - Pequeno almoço
  • 10h00 - "Preciso de ti" - Padre na Igreja, uma vocação
  • 11h30 - Eucaristia
  • 13h00 - Almoço
  • 14h00 - Final do encontro


sexta-feira, abril 17, 2009


9 e 10 de Maio 2009
Pré-Seminário
_______________________________
"Onde me quereis levar, Senhor?
Seguindo-Vos não me perderei!"
________________________________________
Desejo-te Tempo! Não te desejo um presente qualquer, Desejo-te somente aquilo que a maioria não tem. Tempo, para te divertires e para sorrir; Tempo para que os obstáculos sejam sempre superados E muitos sucessos comemorados. Desejo-te tempo, para planear e realizar, Não só para ti mesmo, mas também para doá-lo aos outros. Desejo-te tempo, não para ter pressa e correr, Mas tempo para encontrares a ti mesmo, Desejo-te tempo, não só para passar ou para vê-lo no relógio, Desejo-te tempo, para que fiques; Tempo para te encantares e tempo para confiar em alguém. Desejo-te tempo para tocar as estrelas, E tempo para crescer, para amadurecer. Desejo-te tempo para aprender e acertar, Tempo para recomeçar, se fracassar. Desejo-te tempo também para poder voltar atrás e perdoar. Para ter novas esperanças e para amar. Não faz mais sentido protelar. Desejo-te tempo para ser feliz. Para viver cada dia, cada hora como um presente. Desejo-te tempo, tempo para a vida. Desejo-te tempo. Tempo. Muito tempo!

segunda-feira, abril 13, 2009


9 e 10 de Maio 2009
Pré-Seminário
"Onde me quereis levar, Senhor?
Seguindo-Vos, não me perderei!"
Inscreve-te aqui,
ou pelo tel. 917 097 173

E está atento ao programa!!!

terça-feira, abril 07, 2009

Dia Jovem 2009
e
Ministério de Leitores
do
Gil e do Nuno
Portalegre
4 de Abril 2009





















segunda-feira, abril 06, 2009


E foi assim ...
Uma "grande entrevista" do "Distrito de Portalegre",
Jornal diocesano, ao Gil e ao Nuno
Seguir-Te-ei, Senhor Jesus!
- respostas de jovens com a vida nas mãos -

No próximo sábado, em Portalegre, na Eucaristia do Dia Jovem na nossa Diocese, o Nuno Miguel e o Gilberto Fernandes vão ser instituídos no Ministério dos Leitores para, na vida da Igreja, acolherem, aprofundarem e proclamarem a Palavra de Deus.
Quem são o Nuno e o Gilberto? Dois jovens de 29 e 25 anos, respectivamente, que um dia deixaram Jesus Cristo entrar nas suas vidas e ser o seu centro. Hoje são Seminaristas porque Deus os chama a serem Padres na Igreja e na nossa Diocese. O Nuno é natural da Bemposta (Abrantes) e o Gilberto é natural do Vale da Lousa (Isna, Oleiros). O Gilberto está no 5º ano do Seminário Maior e do Instituto Superior de Teologia de Coimbra e o Nuno está no 4º ano. Têm percursos de vida diferentes mas que comungam desde que se encontraram no Seminário porque é o mesmo Senhor que chama e é para a mesma Igreja que envia. O Gilberto entrou para o Seminário ainda adolescente e fez já uma caminhada desde o Seminário de Portalegre. O Nuno, por sua vez, entrou logo para o Seminário Maior depois de completar os estudos do Secundário já que, entretanto, tinha abandonado os estudos e já estava a trabalhar.
Deus falou de forma diferente e através de pessoas e acontecimentos diferentes na vida de cada um deles. O importante é que deram conta de que Deus os chamava, os ajudava a crescer, os seduzia e, por isso, quiseram aprofundar a sua fé e entregar-se ao que Deus quisesse. E hoje são tão cristãos (de Cristo) que até são Seminaristas. A sua vocação, afirmam-no com clareza e paixão, é serem Padres! E este é um tempo espectacular – como dizia João Paulo II – para se ser Padre.
Quando se fala de vocação, regra geral, imagina-se logo um padre ou uma religiosa. Neste caso, evidentemente, percebemos que Deus chama a serem Padres. Mas a vocação não tem apenas a ver com “ser Padre” ou “ser Religiosa”. Como a própria palavra indica, vocação é uma interpelação, um desafio e, por isso, exige uma reacção, uma resposta. Ora o primeiro desafio ou interpelação que uma pessoa recebe é o do reconhecimento da existência como dom! Nenhum de nós pediu para nascer. E logo a seguir vem a provocação de querermos saber de onde vimos e por mão de quem nascemos. A grande interpelação nesse momento chama-se Baptismo e é o reconhecimento de uma história que Deus faz com cada um de nós e para a qual somos “chamados” como companheiros de caminho.
Para ser assim, e determinar uma vida e tudo o que se faz enquanto vivo, a vocação não é propriamente apenas um sentimentozito, não é apenas uma “coisa que se tem”, não é uma profissão, não é um destino, não é a priori “apenas para alguns”.
Se pudéssemos colocar um grande grupo de pessoas já conscientes da sua vocação a falar, daríamos conta de que existem imensos e diferentes casos e experiências, mas existe também um traço comum a todas elas. E o que é esse traço comum? É, tão somente como nos conta a Bíblia, “deixar qualquer coisa e partir”! Normalmente damos importância demasiada ao “deixar qualquer coisa” e por isso dizemos que a vocação é difícil. Mas, se repararmos bem, a nossa vida é feita de “partidas” inadiáveis. É assim que sempre crescemos e progredimos, é assim que somos gente com futuro. Não é preciso sair do mesmo sítio para partir. Basta mudar de sentimentos, de horizonte. Se não partíssemos ficaríamos sempre infantis. “Deixa a tua terra … e vai. Farei de ti uma grande nação” disse Deus a Abraão. Este é o paradigma de qualquer história vocacional. Por isso Deus dirige-se sempre a pessoas concretas e com história concreta e interpela-os: “queres vir?” … “Se queres … vem”!
Então ser chamado é um verdadeiro a viver. Vocação é um desafio a crescer. Vocação é “aquilo que somos” e não apenas “algo que temos”. É nessa medida que quanto mais nos percebemos, mais nos construímos e nos transformamos. À nossa frente vai Cristo, o Homem santo e perfeito que é a medida e o ideal de todas as nossas tentativas. Somos chamados à vida, à santidade, ao sentido do outro e à comunhão com o outro. O Baptismo marca essa etapa como projecto de vida sempre em comunhão com Aquele que está na origem do nosso existir. É uma questão de sentido da vida. Relacioná-la à sua origem e à sua realização.
Ora é precisamente entre os baptizados (os que caminham desafiados pela fé) que o Senhor chama e escolhe discípulos para fazerem com as suas vidas o que Ele mesmo, o Mestre, fez com a sua existência: dom, entrega. Então vocação é o que cada um de nós quer quando é capaz de ser livre e de comungar com a vontade Deus a seu respeito. E Deus chama a tantas coisas (Baptismo, Matrimónio, Sacerdócio, Vida Religiosa, etc, etc). Vocação é aquilo que eu quero depois de tirados os obstáculos à vontade de Deus. Supõe sempre uma atitude de aliança e de diálogo, uma atitude amor e de confiança, uma verdadeira história de amizade na qual se caminha e se faz caminho. É, como todos os caminhos, a vocação faz-se ao andar. Faz ao amar: Seguindo-Vos, Senhor, sei que não perderei.
Mas vamos ao encontro do Nuno e do Gil. Um dia, se Deus quiser e se eles ajudarem, chamar-lhe-emos “padre” como alguém que recebeu na Igreja a missão de gerar a fé nos corações dos homens e mulheres deste tempo e de cuidar para que essa fé não esmoreça. Mas hoje vamos, sobretudo, perceber os seus sentimentos, comungar a sua vida. Para isso fazemos-lhes algumas perguntas.
O primeiro pedido ou questão que lhes fizemos foi que nos dissessem que sentimentos e que sentido experimentam neste momento da suas caminhadas para o Sacerdócio.
O Gilberto, que entre nós e na nossa cumplicidade de amigos, tratamos apenas por Gil, respondeu assim:

Gil: Em primeiro lugar devo dizer que os sentimentos predominantes são de felicidade, tranquilidade e alguma dose de ansiedade. Talvez pareça estranho não dizer que me sinto nervoso mas a verdade é que me sinto bastante sereno. É verdade que a tarefa não será fácil e procuro consciencializar-me dela sempre. Procurar sempre mais conhecer Deus para poder falar d’Ele e dá-l’O a conhecer ao outro tem tanto de responsabilidade como de desafio saudável. É isso que dá sentido à caminhada. Falar de sentido, às vezes, é algo que pode enganar. A tendência é dizer que o sentido está já definido há bastante tempo e que as certezas são definitivas. Quase nada é definitivo e, neste meu caso concreto, se os passos dados, quer sejam para a frente quer para trás, não forem discernidos, assumidos, rezados, estruturados e se necessário reestruturados, então corro o risco de ficar parado onde sinto segurança aparente… fechado e sem evoluir. Assim, julgo poder dizer que mesmo consciente das minhas limitações, que não são poucas, estes sentimentos que eu partilho são o motor que dá sentido ao sentido da minha caminhada para o sacerdócio.

E o Nuno disse: Neste momento da minha caminhada vivo um sentimento de serenidade e confiança. No sábado, talvez em mim, com alguma naturalidade, surja uma ligeira impressão no estômago, o que é sinal de algum nervosismo natural dos grandes momentos. Quando fazemos ou realizamos algo que sabemos fazer-nos felizes, que nos é muito importante, é normal haver algum nervosismo.
È uma alegria muito grande poder dar mais um passo neste caminhar para a missão à qual Deus me chama, o ser padre! Depois de algum tempo de caminhada eis chegado o momento de dar um passo diferente. Em primeiro lugar é o renovar do “Sim” para com Deus, uma renovação que aliás acontece diariamente, mas também é tempo de o dizer também ao nosso pastor, o senhor Bispo, diante da nossa Diocese, ela rosto da Igreja à qual me desejo entregar. Nela se realiza todo o sentido da minha entrega e do chamamento de Deus para mim.

Fizemos outra questão: Quais forma os aspectos (1), pessoas (2), acontecimentos (3) mais marcantes e a determinarem a entrada no Seminário e numa caminhada de discernimento em direcção ao sacerdócio? E hoje? Quais são?
Gil: Em primeiro lugar acho que a educação familiar católica foi determinante. Na minha família sempre houve a preocupação de dar a conhecer Jesus Cristo, tanto a mim como à minha irmã. Recordo-me que as minhas primeiras catequeses foram ensinadas à noite, antes de dormir. Eram “apenas” aquelas orações como o Pai-Nosso ou o Anjo da Guarda mas que foram fazendo despertar em mim a curiosidade e o desejo de querer mais. Depois, recordo o Pe. José Esteves, o meu primeiro prior. Com o seu jeito e com a sua presença, a certa altura fizeram-me pensar e desejar ser como ele. Um dia acho que ele percebeu e propôs-me o Seminário. Eu aceitei, apesar de nunca ter sentido tanto medo na vida. Depois recordo as pessoas que me receberam e me alargaram horizontes quando entrei no seminário. As motivações da altura eram bem diferentes das que me movem hoje. No presente move-me Jesus que, por amor, se entregou e morreu também por mim. Move-me aquilo que Ele quer fazer de mim e comigo, independentemente de tudo o resto. Move-me o sentir-me esperança de pessoas que mesmo não sabendo quem eu sou, rezam por mim. Move-me o desejo de me gastar todo para O procurar dar a conhecer e para O poder levar onde for preciso. Move-me a minha fragilidade, própria de quem caminha, mas que pode e é sempre completada com a força do Espírito Santo. Move-me a certeza da felicidade total.

E o Nuno respondeu: Nascido e criado em ambiente cristão e vivendo numa comunidade cristã com presença na minha terra, teria sido entendido com normalidade o colocar da questão, “ser padre!”. No entanto, que me lembre, nunca percebi existir uma forte consciencialização ao nível vocacional, só mais tarde, quando comecei a andar inquieto e a procurar algumas respostas soube de dois ou três rapazes que tinham estudado no Seminário de Portalegre e penso que nenhum deles tinha duvidas vocacionais ou colocava a hipótese de ser padre.
A dada altura da minha vida, comecei a sentir que algo não estava certo comigo. Nessa altura encontrava-me a trabalhar e sentia-me insatisfeito com o muito que tinha. Lia a minha vida, compreendia que mesmo tendo muito e muita gente à minha volta, sentia um vazio, que aquilo que tinha não era suficiente para preencher. Era uma altura em que devido ao ter saído de casa para cumprir serviço militar e devido depois ao regresso ao emprego, permanecia ausente “da igreja” e do grupo de amigos da terra. Algum distanciamento de Deus.
Então um dia, numa das conversas com um amigo meu, falava-lhe do que se passava comigo. Mais tarde ele viria a desafiar-me a comparecer num dos encontros do grupo de jovens da Paróquia. Depois de alguma insistência dele e de ter gasto todo o tipo de desculpas, houve um dia em que apareci. Foi claramente um passo maior que a perna... voltei mais tarde uma outra ou outra vez. No entanto, o regressar à Eucaristia Dominical foi algo mais complicado... já quase que “não sabia o caminho para a Igreja”... lembro-me que a primeira tentativa que fiz para ir à celebração, foi uma tentativa falhada, ao tentar entrar, lembro-me de ter regressado a casa a correr... algumas semanas depois, lá me levantei e me arranjei. Quando ia a sair de casa lembro-me da minha mãe me questionar sobre onde ia eu tão cedo... quando lhe disse que ia à missa... não me lembro bem do que ela me disse, até acho que não deve ter dito nada, com tamanha surpresa, estava tão nervoso que nem fiquei para falar com ela, simplesmente saí! À porta, naquele entra não entra, perdi grande parte da Eucaristia, mas naquele dia tinha feito o propósito de entrar e conversar com Deus, com o Pai, era com Ele que naquela altura ainda mantinha algum diálogo! Lá entrei e coloquei-me num canto onde não desse muito nas vistas... ali fiquei bastante tempo, mesmo depois da Eucaristia terminar... e nesse dia conversamos!
Foi certamente um dia importante, não para a compreensão sim\não vocacionado ao sacerdócio, pois ainda estava longe de compreender que era isso que Deus me iria pedir mais tarde. Foi importante para descobrir que queria ter mais presença e estar novamente mais perto de Deus como quando era mais novo!
Mesmo trabalhando aos fins de semana, sempre que estava de folga, fazia por ir à Eucaristia e estar com o grupo de jovens. O tempo foi passando e fui fazendo a minha vida como sempre fazia, agora com um horizonte diferente. A verdade é que a relação com Deus Pai se ia fortalecendo e com Ele (re)começava a olhar Jesus e a falar com Ele de modo diferente, como fazia antes. Conversando com Deus sentia que podia arriscar por outros caminhos para realizar os meus projectos de vida que, na altura, com toda a normalidade, era o constituir família. Pensava eu...
Desejava mais... e neste desejar, procurei regressar às aulas e terminar o secundário. Mesmo com muitos obstáculos que se levantaram, em diálogo com Deus, lá via as coisas acontecer... e nesse acontecer, o diálogo tornava-se mais forte... agora já não exclusivamente com o Pai, mas mais “abeirado” de Jesus, Ele que Se tinha tornado um amigo muito presente.
Um conjunto de situações vão, entretanto, acontecendo até que a questão surge um dia de modo muito natural numa Eucaristia Dominical, numa breve referencia que o sacerdote fez à semana dos seminários... Iniciava uma jornada interior e algo solitária. Sentia que eram “loucuras” da minha cabeça... comecei a ridicularizar e a tentar dizer a mim mesmo que a minha vocação era a família... o tempo passava e a questão tornava-se mais presente, no diálogo com Jesus, não O compreendia... (ou não O queria compreender.) Certo dia, ganhei coragem e falei com o “amigo de sempre” e ele deu-me logo força! Naquela altura sentia que não era o que queria ouvir... mas que fazer? Eu acho que ele tinha ficado mais entusiasmado que eu!
A negação e a fuga de alguns momentos e de algumas pessoas, passaram a fazer parte do meu dia a dia. O tempo ia passando e eu ia amadurecendo e percebendo ao que Deus me chamava. Mas que fazer com a vida que vivia? Como o iria dizer à minha família, aos meus amigos e às pessoas que me acompanhavam nos meus “rumos” de vida? Mais uma ajuda para a negação e para a fuga! Um dia, o meu amigo, estando a par do que eu vivia, “obrigou-me” a avançar e levou-me, meio contra a minha vontade a fazer um retiro quaresmal. Foi importante esse dia, mas não significativo para o meu sim, eu estava com as defesas muito levantadas... no entanto, a situação que vivia, estava a complicar-se (e acho que Deus já estava a “perder a paciência” com a minha teimosia), e eu tinha que fazer algo que me libertasse. Foi então que num “acordo” com Deus, num “agora ou nunca”, Ele, pela mão de Maria, me deu a conhecer aquilo que eu (queria) não tinha coragem de aceitar; “Jesus é a tua luz, segue-O”.
Depois de um dia inteiro, esperando por o desejado sinal, eis que no regresso a casa, já pelo cair do dia, (mostrando quase que é mais “teimoso” que eu), Ele mandou o sinal que eu esperava, não quando eu quis, mas quando Ele quis. Como fiquei não vou dizer, mas acho que se compreende, não tinha mais por onde fugir! Mesmo assim, não foi fácil... ser padre(!), pensava eu, mas porquê eu, mas eu como? Meses depois, mais uma vez seria “levado”, a um dos encontros com os Seminaristas Maiores. Depois de algum tempo de espera, lá avancei e conversei com o padre que lá se encontrava, com quem já conversava através de mail’s, e falei-lhe do que se passava comigo. Hoje compreendo a importância daquele padre para aquilo que sou, e naquilo que serei amanha, no que Deus me chama a ser! Fomos conversando durante uns tempos e ele ajudou-me a compreender o que se passava comigo. Fez-me alguns desafios e fomos tentando concretizá-los dentro da nossa disponibilidade. Estes foram também dois momentos importantes, foi o meu Sim a Deus e depois o meu Sim à Igreja.
O ano propedêutico em Leiria manifestou-se muito importante também, humanamente, mas principalmente numa próxima relação com Jesus, sentiamo-nos cada vez mais próximos. Nesta fase, alem das duas pessoas já referidas, o relevo vai para a minha família, que compreendendo nesta opção o caminho que me faria feliz, sempre me amparou. Sem o acompanhamento deles, e sem a sua presença, o meu caminho seria muito mais difícil. Neles encontro sempre a força e o carinho como só de alguém que verdadeiramente me ama.
O tempo propedêutico foi “O” sim confirmado aos que me rodeavam. Levou a que me libertasse e manifestasse um outro jovem em mim, e na verdade em muitos aspectos diferente daquilo que era, era o estar livre e o assumir do que sentia sem quaisquer receio.
Em Coimbra é sempre a caminhar... e a tropeçar... e de novo, sem medo de voltar a cair, caminhar... rumo ao que Deus me chama... “Ser Padre!”


E fomos continuando a conversar e perguntámos: Quem é para ti Jesus Cristo? E a Igreja? Tem sentido hoje ser padre? Faz sentido continuar a anunciar Jesus como projecto de vida e para a vida de tantos homens e mulheres?

Gil: Para mim, Jesus Cristo é Deus e é caminho para Deus, pelo qual procuro caminhar. Mas ao mesmo tempo é o Homem que por loucura se deixou crucificar para me livrar da morte eterna. É aquele que sempre nos envolve e seduz e ao qual é impossível resistir. É “luz que não se vê mas com a qual tudo se vê” (Stº Agostinho). Deste modo, a Igreja é o conjunto dos crentes (nós) que aderimos a Ele. É como que uma mãe que torna todos filhos de Deus. É também fruto da vida de Jesus Cristo e meio do qual Ele se serve para ser nosso Pai. Vivem um no outro, numa dinâmica de reciprocidade. É referência e exemplo de unidade e de vida. Assim, é por isto que vale a pena a pena sim ser padre hoje. Faz todo o sentido. Faz sentido propor Jesus Cristo como projecto de vida porque a proposta que Ele faz é sempre de felicidade. Deus não iria propor um projecto de vida a alguém para o conduzir ao fracasso ou à desilusão. Não é o jeito de Deus. Se olharmos para a proposta do Evangelho com olhos de ver, havemos de encontrar nela quer actualidade e pertinência quer coerência. Ninguém, a não ser Jesus Cristo, seria capaz de amar tanto aos homens ao ponto de se entregar à morte por eles. Porque Jesus foi coerente com o amor que sentia é que morreu e ressuscitou. Conferiu-nos uma dignidade e é esta a maior prova de que faz todo o sentido procurar viver e propor Jesus como projecto. “Ele não tira nada! Dá tudo!” (Bento XVI).

Nuno: Jesus Cristo... não é um simples amigo, é mais que isso, é Alguém que preenche, que dá sentido, que me ajuda a ver e a ler o mundo com outros olhos. É Aquele a quem todos os dias digo sem qualquer pudor, AMO-TE!, a Quem agradeço cada dom que me dá, cada dia que vivo... é Aquele que me faz dizer Sim e entregar toda a minha vida sem nada pedir em troca... Aquele que só por me ensinar o que é o amor e me ajudar a dar de mim aos outros, me leva ao encontro daquilo que em mim faz desejar, a felicidade! Jesus Cristo que me quer participante da Sua Igreja, aquela a quem desejo amar sempre mais e levar o seu verdadeiro rosto ao mundo. Esta Igreja que se mostra nova e em crescimento a cada dia e que nos surpreende, o deixar surpreender pelo que Ela tem de mais belo, o serviço, o Amor aos outros! É neste dinamismo de serviço que encontro nela todo o sentido de ser seminarista, e no futuro, de ser padre. Só com Cristo e na igreja o desejo de ser padre que cresce em mim tem sentido. No serviço à paróquia, à diocese, à Igreja universal, a Deus! Não será então um desafio actual? Com toda a certeza que digo que sim, é cada vez mais um projecto de vida válido e testemunha de uma vida feliz e aberta ao sentido neste mundo, na partilha, no serviço, no dar-se ... é o dar e levar de Jesus a todos aqueles que O procuram e que não têm ninguém que Lho dê a conhecer, é o saciar de fome e sede a todos os que têm fome e sede de Justiça, de amor, de felicidade.

E fizemos ainda mais uma questão: Qual foi, se quiseres partilhar, a experiência (humana e de fé) mais bonita que tiveste até hoje?

Gil: Talvez a experiência mais bonita pela qual passei tenha sido no Hospital de S. João de Deus no Telhal. É uma experiência proporcionada pelo ano propedêutico de Leiria e que na altura se chamava “contacto com a dor”.
Tirando o primeiro dia em que entrei pela primeira vez no Seminário, esta foi a vez em que senti mais medo na vida. O nome só por si impõe respeito. Recordo-me que começara a ler na altura um livro de Henri Nouwen chamado “Adam o amado de Deus”. À primeira vista uma coisa não tem nada a ver com a outra mas hoje sei que Deus faz sempre tudo bem feito. É a tal coisa… Ele encarrega-Se de suprir sempre as nossas limitações desde que nós o queiramos e o procuremos….
Entre as diversas clínicas eu fui integrado na dependência de psico-geriatria (distúrbios mentais em pessoas de idade mais avançada…) e aí começa a minha história. Por entre noites sem dormir, algumas tarefas que nunca julguei ser capaz de realizar e situações de algum risco físico até, à partida, o desafio de aprender a ver Jesus e a cuidar d’Ele nestas pessoas era para esquecer.
Contudo, uma pessoa desempenhou um papel fundamental na minha vida como homem de fé, mesmo sem saber e sem falar uma única palavra que fosse. Nunca lhe ouvi a voz nem nunca respondeu ao seu nome quando o chamava. Ensinou-me que mesmo numa cadeira de rodas ou nos pequenos passos que dava, poucos, e na dependência de quase tudo e de todos é possível ser-se testemunha de Jesus Cristo. A palavra “deficiente” passou a ter um significado diferente daquele que lhe costumava dar. Esse “deficiente” era sacerdote e toda a vida se gastou a ensinar e a dar a conhecer Jesus Cristo. Agora estava ali, dependente da generosidade daquela gente que trabalhava sempre com dedicação, a maioria voluntária. Começar a ver Jesus naquele homem foi das descobertas mais bonitas por que passei até hoje e julgo que aquele sorriso que o Pe. Leandro me deu no último dia quando me fui despedir dele, ele que nunca esboçava nenhuma reacção, foi o beijo de Deus à minha pessoa, uma experiência quase palpável daquilo que Deus é. Quanto ao livro de que falei, o melhor é ler…

O Nuno não respondeu a esta questão porque já tinha abordado todas estas questões numa das questões acima reflectidas.
E, por último perguntámos aos dois o que diriam momento aos jovens da nossa Diocese.
Gil: Diria que sou um jovem tal e qual como eles, só diferente pela minha opção de vida. Tenho as minhas dúvidas, as minhas certezas e desejo ser feliz. Diria que o importante é saber procurar e discernir a nossa vocação, seja ela qual for. Como diz alguém: “para atingir um fim, o importante é que coloquemos os meios necessários” e é isso que procuro fazer dia-a-dia. Quais são os meios? Oração, conversa, liberdade nas opções, etc. Diria que a minha caminhada não tem sido fácil mas que se fosse fácil seria uma chatice e talvez já me tivesse cansado. Todos sabemos que aquilo que alcançamos sabendo que foi com esforço e dedicação, tem mais sabor no final. E não importa andar às vezes “à toa” porque errar também faz parte do nosso processo de formação. Diria que sou feliz porque me sinto a caminhar numa direcção e diria que talvez o segredo para a grande parte das nossas dúvidas e receios seja perder o medo e a vergonha que nos prendem as pernas e fazem disparar o coração. Mais ou menos como acontece quando vemos a pessoa que amamos. “Atirar-se de cabeça” e confiar em Jesus Cristo e em si mesmo é o mais importante. Saber para onde se quer ir e saber porque é que vamos, provoca uma sensação única.

O Nuno partilhou: Aos jovens lançava o desafio de não se deixarem levar pela vida, mas a que eles mesmos pegassem na vida e a vivessem. Que procurem o sentido, o “onde” da felicidade de cada um, do lugar e da missão nesta sociedade, neste mundo em que vivemos. Desafio a que se questionem acerca do “para onde devo de ir?”, ou “que fazer com o dom da vida que Deus me deu?”, ou mesmo “que compromisso me levará a encontrar a felicidade?” entre outras...
Nas minhas interrogações, Alguém se fez presente, e me indicou o caminho a seguir. Jesus Cristo!
Na proximidade com Ele, vamos de modo contínuo, compreendendo e percebendo o nosso papel no Seu projecto para o mundo de hoje.
É presente as mudanças do mundo de hoje...é presente a validade de todos os projectos a que nos sentimos chamados e ao quais muitas vezes falta a coragem para rasgar os receios, as inseguranças, o olhar daqueles que nos rodeiam e que nos levam a hipotecar o projecto à felicidade que Deus propõe.
Desafio, com o que habita em cada um, a parar uns instantes e procurar responder a algumas questões que são colocadas, quem sabe se pelo próprio Jesus Cristo. No amanha, em cada dia, repetir a interrogação... no dia seguinte renovar a questão... o não deixar de questionar e de procurar estar desperto a tudo o que os rodeia, para não cair no perigo de amanhã ser tarde e tomar decisões erradas e em nada compatíveis com a verdadeira vocação de cada um.
Eu levava mais longe o desafio. Nesta procura normal dos jovens quererem algo de diferente, de profundo, de radical, com pleno sentido, eu desafiava a procurarem conhecer mais Jesus Cristo!” Tentar saber quando e onde se juntam outros rapazes que já fazem essa experiência e fazerem parte dessa mesma experiência de modo a conhecer mais a Deus, melhor à Igreja... nem que fosse só para conhecerem os seminaristas maiores e os pré-seminaristas...

“Se queres vem…segue-Me”! É assim, sempre assim, que começam as histórias de amizade com Jesus Cristo. Ir e seguir Jesus Cristo. Pedro, Tiago, João, Zaqueu, André, Mateus, Marta e Maria, o Jovem rico, Madalena, Tomé, Paulo, Barnabé e tantos outros.
“Segue-Me” é a palavra-chave de tantas e tantas histórias de vida que passam incontornavelmente pelo encontro e aliança com Jesus Cristo. E Deus dá os sinais de que a vida pode seguir por aí. Dá a paz (que é diferente do “bem-estar”), dá a consolação, dá as convicções profundas e diz também a cada passo “Não temas!”. Aqui se conjuga tudo o que a pessoa é, a sua liberdade, os seus projectos, a sua indigência e as suas capacidades e possibilidades. As primeiras motivações nem sempre são as mais puras, mas vão-se sempre purificando e identificando com a vontade de Deus. No “segue-Me” e no “não temas” que Jesus nos diz, descomplica-se a vida, aprende-se e assume-se a própria história, concretiza-se a felicidade como projecto, percebem-se e clarificam-se coisas velhas e novas, ouve-se Deus no segredo do coração, experimenta-se a amizade e a companhia de Deus, vive-se a liberdade e acontece a entrega a Deus: “Seguir-Te-ei, Senhor, para onde quer que vás, onde quer que isso me leve, confiado na tua graça porque Te amo!”.

segunda-feira, março 30, 2009


4 de Abril 2009
No próximo dia 4 de Abril, pelas 15h30 da tarde, na Igreja de Sto. António, em Portalegre, na Eucaristia celebrativa do Dia Jovem Diocesano, vão ser instituídos no Ministério dos Leitores os nossos Seminaristas Nuno Miguel e Gilberto Fernandes (esquerda e direita respectivamente, na foto).
O Nuno ( que é da Bemposta - Abrantes) está no 4º ano de Teologia e o Gilberto (Vale da Lousa - Isna) está no 5 º ano, ambos no Seminário Maior de Coimbra e no ISET de Coimbra.
« Senhor nosso Deus, fonte de toda a luz e bondade, que enviastes o vosso Filho Unigénito, Palavra da vida, para revelar aos homens o mistério do vosso amor, dignai-Vos abençoar estes nossos irmãos, escolhidos para o ministério dos Leitores, e concedei que, meditando assiduamente a vossa Palavra, sejam nela instruídos e fielmente a a nunciem aos seus irmãos. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo. Amen.
(Oração do Presidente da Celebração - o Bispo Diocesano - na Instituição do Ministério dos Leitores)


Crucificado

Um dia, um meu irmão que tinha o que eu não tenho
- A ridente ignorância a que só Deus assiste –
Pegou dum grande, rude, grosso lenho,
Matéria bruta, e viva que resiste...

Vencendo-a, afeiçoou as fibras angulosas
A umas formas viris, tão puras como cruas;
Pôs-lhe um trapo nas partes vergonhosas;
Estiraçou-lhe os pés e as pernas nuas.

Dos ramos laterais do lenho primitivo,
A navalhadas, fez os braços que faltavam,
Toscos, mas com, lá dentro, sangue vivo,
E tumefactas mãos que se espalmaram.

Enfim, todo a tremer de amor e de receio,
Noutro bloco, moldou uma cabeça aflita,
Com pálpebras descidas até meio
E a boca a abrir num grito que não grita.

Tudo o que de cruel a vida lhe ensinara
Mais o que tinha em si maior do que o destino,
Sem mesmo ele o saber, ganhou voz clara
No longo rosto esquálido e divino.

Dois troncos pôs em cruz e assim fez o madeiro;
Sobre ele ajuntou e cravejou tudo isto;
E aquilo que ontem era um castanheiro
Num altar figurou de Jesus Cristo.

O tempo foi rolando... E os centos de anos viram
Rojar-se a multidão ante esse lenho, – santo
Só porque, sob a graça, o esculpiram
Umas humanas mãos em pó há tanto!

Quantas profanações, depois, não arrastaram
Por lôbregos saguões, recantos, corredores,
Esses membros que bispos incensaram,
Essa cabeça do Senhor das Dores?

Até que um dia, entrando a um sótão miserável,
Vou encontrar no chão, entre sucata, aquela
Mutilada cabeça inda admirável,
Por mutilada e vil não menos bela.

Juntei, juntei, tremendo, os restos de Jesus:
A sagrada cabeça, o busto carunchoso
E os braços despregados já da cruz,
Com mãos roídas como as dum leproso.

Mandei, mandei buscar essas mutilações
Com elas me fechei no meu buraco, e o dia
Se me foi entre velhas orações,
Que eu nem sabia já que inda sabia...

Às vezes, quando o ar parece que me foge,
Me falta Deus, ou espanta a nossa condição,
Como os fiéis de outrora, a seus pés, hoje,
Dobro o joelho trémulo no chão.

Nem restos de orações lhe rezo! Nada rezo.
Espero no silêncio e na opressão, curvado,
Que Jesus Cristo ao seu madeiro preso
Tenha dó de mais um crucificado.

Das pálpebras que o tempo enegreceu, o olhar
Que entre elas se não vê, mas se adivinha e sente,
Me banha todo, então, como um luar,
E me diz que há Alguém ali presente.

Não!, já não fico só na minha solidão!
Já me não pesa tanto a minha própria cruz!
Já quase, quase sei (Jesus, perdão!)
Que tenho em ti como um irmão, Jesus.

Meus olhos, que a ruindade interior calcina,
Inundam-se-me então de bruma e de frescura,
E eu choro por nós todos, cuja sina
É sermos a imperfeita criatura...

E a graça que uma vez desceu dos altos céus
As mãos do pobre artista incógnito, as benzeu,
E as fez fazer dum tosco lenho um Deus
Tão próximo de nós como do céu.

A pouco e pouco vem sobre a cabeça
(Com o calor do sol que enxuga os próprios lodos)
De modo que já nada há que me impeça
De ser feliz!, e irmão de tudo e de todos.

José Régio (1901-1969)

segunda-feira, março 16, 2009

"Eis o Homem"
(Jo 19, 5)
Aconteceu este fim de semana (14 e 15 de Março) mais um encontro do Pré-Seminário! Desta vez não foi um encontro como os outros. Fizémos um tempo de retiro. Como estamos na Quaresma e queremos preparar melhor a nossa vivência da Páscoa, neste encontro aproveitámos e fizemos retiro: retiramo-nos das nossas ocupações habituais e diárias (estudo, divertimento e afazeres vários, trabalho, etc) para nos encontrarmos melhor com Deus e para melhor escutar a sua Palavra.
O sábado ocupámo-lo com o tema da Cruz de Jesus. Para isso, e para melhor entender o lugar da Cruz na vida de Jesus e na vida do cristão, partimos daquela interrogação que Jesus faz a Simão Pedro, "Pedro, tu amas-Me?" (Jo 21, 15). O seguimento de Jesus é uma experiência de amor e nunca de obrigação ou simples submissão. Quem olha para Jesus e sente na sua vida, nas suas palavras e nos seus gestos um sentido de vida, deixa-se seduzir por Ele, ama-O e ama o seu projecto de vida. E depois, claro, amando-O fica-se disponível para o que Ele quiser.
Depois de rezarmos essa interrogação fomos confrontar-nos mais de perto ainda com a Cruz de Jesus e, partindo das palavras de Pilatos "Eis o Homem" quando apresenta Jesus à multidão, fomos reflectindo sobre que sentimentos (os tribunias como lhes chamámos) julgam Jesus. Descobrimos os tribunais (sentimentos) da inveja, do egoísmo, da superficialidade, da ingratidão, da solidão, do oportunismo a julgarem Jesus. E percebemos que, cada vez que estes sentimentos se instalam no coração do homem, continua a existir hoje julgamento e condenação de inocentes.
Estando a rezar a Cruz seria impossível não rezar o caminho que Jesus fez com ela. Por isso rezámos também no caminho da Cruz em unidade com Jesus e com todos os inocentes condenados ou maltratados. Fizémos Via-Sacra.
Ainda no sábado, e depois de alguns tempos de silêncio e da oração de Vésperas a que se seguiu o jantar, tivemos tempo para ver o filme "A Paixão de Cristo".
O Domingo, dia especial, foi ocupado apenas com a celebração da Eucaristia depois da qual o encontro deste fim de semana terminou.
Notas marcantes deste encontro houve várias. Sublinham-se duas. Uma é que, além dos Pré-Seminaristas que já costumam estar nestes encontros, veio mais o João Miguel, da Paróquia de Nisa. A outra, importantíssima, foi a notícia e a novidade de que os Seminaristas da Diocese de Portalegre - Castelo Branco vão passar, já a partir do próximo ano lectivo, a ingressar e estudar nos Seminários da Diocese de Lisboa (Seminários de S. José de Caparide e dos Olivais) e na Universidade Católica.
O encontro deste fim de semana foi uma óptima experiência de fé, de reflexão em conjunto e de convívio. Valeu bem a pena.

quarta-feira, março 11, 2009


SE ISTO É UM HOMEM



Vós que viveis tranquilos
Nas vossas casas aquecidas,
Vós que encontrais regressando à noite
Comida quente e rostos amigos:
Considerai se isto é um homem
Quem trabalha na lama
Quem não conhece paz
Quem luta por meio pão
Quem morre por um sim ou por um não.
Considerai se isto é uma mulher,
Sem cabelos e sem nome
Sem mais força para recordar
Vazios os olhos e frio o regaço
Como uma rã no Inverno.
Meditai que isto aconteceu:
Recomendo-vos estas palavras.
Esculpi-as no vosso coração
Estando em casa andando pela rua,
Ao deitar-vos e ao levantar-vos;
Repeti-as aos vossos filhos.
Ou então que desmorone a vossa casa,
Que a doença vos entreve,
Que os vossos filhos vos virem a cara.


Primo Levi, Se Isto É Um Homem

segunda-feira, março 09, 2009


14 e 15 Março 2009
Encontro
de
Pré-Seminário
Seminário de Alcains
(11h00 de dia 14 até 11h00 de dia 15)
Inscreve-te
aqui
ou por sms
para o
917 097 173

quinta-feira, março 05, 2009



A natural convivência
entre a Ciência e a Fé



Público, quarta-feira, 4 de Março de 2009
José Manuel Fernandes

Não é por acaso que o Vaticano de Bento XVI decidiu celebrar, com um congresso científico, os 150 anos de A Origem das Espécies
Cresci num ambiente especial - um ambiente onde a conciliação entre as verdades da Ciência e a crença no Deus dos católicos era absolutamente natural. Muito novo, ainda adolescente, descobri Teilhard de Chardin, cujos livros enchiam prateleiras na biblioteca do meu pai. O padre jesuíta que dedicara a sua vida à investigação como biólogo e paleontólogo passara por dias difíceis no tempo de Pio XII, começara a ser reabilitado no quadro do Vaticano II, cuja doutrina então iluminava católicos empenhados, como os meus pais. E a obra de Teilhard inspirava muito o meu pai, biólogo e crente. Tal como, percebi muito mais tarde, influenciou o jovem teólogo alemão que hoje é Papa. Numa obra de 1982, escreveria que "o sinal enviado por Teilhard (...) incluía o movimento histórico da Cristandade no contexto do processo cósmico da evolução de Alfa até Ómega". Mais: "A máxima de Teilhard - 'o Cristianismo significa mais progresso, melhor tecnologia' - encorajou os bispos conciliares (...) a sentirem que era mais fácil transmitir" a ideia de que "a evolução pode ser entendida como um progresso técnico e científico no qual a Matéria e o Espírito, o indivíduo e a sociedade, formam um conjunto global, um mundo divino".
Não me surpreende por isso que - apesar de, entretanto, eu próprio ter perdido a Fé - o Vaticano tenha convocado um congresso científico e teológico para celebrar os 150 anos da edição de um dos livros mais explosivos de todos os tempos, A Origem das Espécies, de Charles Darwin. E que não tenha convidado para estarem presentes nenhum apóstolo quer do criacionismo, quer do inteligent design, duas correntes que procuram, à força, conciliar as palavras do primeiro livro da Bíblia, o Génesis, com tudo o que a investigação científica nos tem revelado sobre a evolução das espécies.
Se, como defendem biólogos como Richard Dawkins, no best-seller A Desilusão de Deus, ninguém pode demonstrar a existência de Deus, nem sentem que ele faça falta, também é verdade o que próprio admite, como sucedeu numa entrevista ao PÚBLICO: a existência de uma relação entre religiões e civilizações permite perceber que há dimensões na Fé que ultrapassam o domínio da prova científica. De resto, dificilmente Dawkins poderia defender outra coisa, pois se há teoria que o tempo tem ajudado a moldar e sobre cujos mecanismos concretos ainda há muito a descobrir, essa teoria é a teoria da evolução das espécies. O problema não está, nunca esteve pelo menos para os cientistas, na existência da evolução, mas na determinação dos seus mecanismos concretos. O próprio Dawkins, por exemplo, mesmo sendo um darwinista assumido, manteve polémicas acesas com outro biólogo famoso, Stephen Jay Gould, a propósito da sua defesa da sociobiologia e do conceito do "gene egoísta" por contraponto à tese do "equilíbrio pontuado" de Gould.
Porquê? Porque ao contrário de outras teorias científicas, cuja prova pode ser feita repetindo uma experiência num laboratório, não é possível repetir o processo evolutivo que, por exemplo, permitiu que de uma determinada linhagem de dinossauros derivassem todas as diferentes espécies de aves que conhecemos.

Para muitos, recordar hoje o trabalho de Teilhard de Chardin - imerecidamente esquecido - fará pouco sentido quando quer a ciência, quer a teologia, prosseguiram caminhos que não os por ele sintetizados em obras como The Phenomenon of Man, publicado em 1940. Contudo, para entendermos a importância que o Vaticano está a dar às comemorações dos 150 anos de A Origem das Espécies é fundamental não esquecer que Bento XVI tem colocado entre as prioridades do seu papado a reconquista das elites intelectuais do Ocidente, provando-lhes que Fé e Razão não são inimigas, antes andaram de mão em mão. Não deseja, por exemplo, que Galileu seja visto apenas como um cientista proscrito, que agora, séculos depois, a Igreja reabilitou, antes como um cientista que, apesar de perseguido pela Inquisição, nunca deixou de ser um homem de Fé.
O congresso sobre Darwin deve, por isso, ser olhado à luz do que Bento XVI tinha escrito para ler na Universidade de Roma a 18 de Janeiro de 2008 antes de esta lhe fechar as portas. Ou seja, que o Papa ir à Universidade não para "impor de modo autoritário aos outros a Fé, a qual pode ser dada somente em liberdade", antes para "manter desperta a sensibilidade pela verdade; convidar sempre de novo a Razão a pôr-se à procura da Verdade, do Bem, de Deus e, neste caminho, estimulá-la a entrever as luzes úteis que foram surgindo ao longo da história da Fé cristã."
Tudo isto porque Ratzinger sempre procurou demonstrar que Fé e Razão não só não são incompatíveis, como podem iluminar-se uma à outra. Para isso não é preciso distorcer a Ciência, antes recordar que o conhecimento humano tem limites e que a crença absoluta na Razão, e esse seu derivado que é o positivismo, constituíram nos dois últimos séculos perigos maiores para a liberdade dos homens do que os "processos de argumentação sensíveis à verdade", como escreveu Habermas e Bento XVI recordou nessa altura.
Quem estudou Biologia e conviveu jovem com a obra Teilhard de Chardin sente que este, se ainda fosse vivo, ocuparia sempre um lugar de honra no congresso que o Vaticano agora organizou.

terça-feira, março 03, 2009



Disse “não” e perdi-me

- Desafios da Quaresma 2009 -



Um pequeno primeiro passo
As grandes caminhadas iniciam-se sempre com um pequeno passo. Com uma direcção e um sentido. Quando se chega ao destino da caminhada, porventura, já nem nos lembramos desse passo, mas ele foi o primeiro de muitos outros passos. E foi ele que definiu o rumo. Foi por ele que uma decisão se materializou.
A vida cristã é toda ela uma caminhada, um percurso de transformação e crescimento, que nos comprometem com o caminho que fazemos. Uma verdadeira transfiguração. Somos a mesma pessoa aos 20, 30 ou 60 anos, mas transfiguramo-nos: progressivamente amamos mais (ou menos), acolhemos com maior (ou menor) facilidade, partilhamos com mais (ou menos) alegria, estabelecemos relacionamentos mais (ou menos) maduros, definimos mais (ou menos) profundamente o sentido das nossas vidas.
Só existe caminho quando se caminha. Aliás, é o facto de querermos caminhar e de termos “para onde” caminhar que abre veredas, caminhos e percursos. Que constrói história e determina projectos de vida. E na vida cristã começamos pela terra o caminho para o Céu. E é o Céu que ajuda a ver a terra e os passos.
A vida cristã, por isso mesmo, não é propriamente um percurso que esteja definitivamente, a priori e de uma vez para sempre, balizado. Tens surpresas, coisas inesperadas. Se apenas desejássemos o que já conhecêssemos, o caminho perderia todo o interesse e passaria a um círculo vicioso. A esperança abre necessariamente ao desejo e ao encontro com o inesperado. E nesse sentido, a real e profunda originalidade deste caminho reside no facto dele ser o nosso caminho e de corresponder à nossa verdadeira capacidade de liberdade. É necessário, portanto, sair, deixar de lados os caminhos copiados de outros, os caminhos sempre percorridos com os sempre mesmos sentimentos, e determinar a nossa orientação fundamental. As distâncias que se percorrem pelos caminhos … são a oportunidade dos combates interiores.

Quarenta dias para caminhar
Um desejo é sempre um impulso acompanhado de uma imagem da sua satisfação. Por isso, de facto, só há desejo quando existe demora na sua satisfação. E a demora na satisfação purifica e aumenta os desejos. É, aliás, a demora na consecução do que se deseja que ajuda a definir se os desejos são verdadeiros e profundos ou se são apenas sentimentos passageiros e superficiais (S. Leão Magno). Desejar é, pois, assumir uma esperança e ser capaz de viver dela.
O tempo de desejo é, portanto, tempo de esperança. Vale a pena, contudo, distinguir entre a esperança e o sonho. É costume apresentar o sonho como motor da vida (“Pelo sonho é que vamos”, Sebastião da Gama). E está bem. Mas talvez seja necessário reconhecer também que a maior parte dos sonhos são mantas de retalhos que, às vezes, permitem viver realidades paralelas e, por isso, algo fictícias. Esperança não é só sonho, esperar não só sonhar. Esperar é desejar o inesperado, a “Terra da Promessa”. Quando se vai até ao último momento da noite (dizia Bernanos) encontramo-nos sempre com outra manhã. Esperar é ir até ao último momento de cada “noite” para se surpreender com a “manhã”! Os cristãos são pessoas da “manhã” mas que passam pela noite. E nesse sentido, mais do que os sonhos da grandeza e da glória (coisas paralelas à realidade), são, paradoxalmente, os sentimentos de impotência os mais fecundos e produtivos porque manifestam que existe “para onde” crescer sem fugir à realidade e ao realismo da vida.

A Quaresma é precisamente uma experiência de caminho dinamizado pela esperança. Não é importante em si mesma, não é uma finalidade em si própria, mas é importante sim e apenas porque conduz e prepara para a celebração da Páscoa. Torna-se, portanto, um instrumento, um meio, enfim, um caminho.
O nosso baptismo, início deste caminho, é já uma Páscoa, mas caminhamos chamados por essa outra Páscoa que acontece quando Deus já é tudo em todos e quando, a partir de tudo o que é passageiro, incerto e inseguro, se soube ir passando para Aquele que não passa nunca – Deus e o seu amor. É, portanto, a partir do Mistério pascal que se entende e vive a vida cristã e que se entende e vive a Quaresma como tempo que abre e prepara a Igreja para a celebração da vida de Cristo no tempo.
“Onde estás ?” pergunta Deus a Adão, expressando a procura que faz de todo o homem. “Sai! Deixa a tua terra e vai para a terra que Eu te indicar” (Gen 12, 1) diz Deus a Abraão. Ou, então, “Sai daí! Tu farás sair do Egipto o meu Povo” diz Deus a Moisés (Ex 3, 10; 6, 26). Ou ainda “Eu sou o Deus que fez sair do Egipto o meu Povo “ (Ex 20, 2; Lev 22, 33). Ou a oração do Povo de Deus repetida tantas e tantas e vezes nos Salmos “Saí, Senhor e vinde ao nosso encontro”.
E com Jesus o mesmo desafio continua. Veja-se, por exemplo, a atitude do Pai do Filho pródigo que, mal viu o filho, “Saiu a correr e o cobriu de beijos” (Lc 15) ou que na festa do regresso “Saiu cá fora a instar com o irmão mais velho” (Lc 15), no fundo, para que ele saísse daquela atitude rancorosa. Ou veja-se o grito do próprio Jesus a Lázaro: “Lázaro, sai! Vem para fora!” (Jo 11, 43) como quem lhe grita: “Vive homem! És feito para viver!”.
Quaresma é, pois, tempo de sair dos lugares, atitudes e experiências sem fecundidade. Um tempo para sair dos túmulos que nos prendem a comportamentos e identidades de morte e de mortos.


Caminhantes e caminhos – os desafios
Enquanto caminho, a quaresma é esse percurso de quarenta dias que fazem a passagem a uma vida diferente. Passo a passo. É essa, aliás, a fonte da sua simbologia: quarenta dias do dilúvio do qual brota como que uma nova humanidade; quarenta dias e quarenta noites de Moisés no Sinai dos quais brota uma relação nova de fidelidade e Aliança; quarenta dias de caminhada de Elias para o Horeb, expressão de um povo chamado a viver da Sabedoria de Deus; quarenta anos do Povo no deserto como progresso para a Terra Prometida, tempo de purificação para aprender a comprometer a liberdade e o amor; quarenta dias de pregação de Jonas em Nínive, expressão de que Deus não desiste do seu Povo; quarenta dias de despojamento de Jesus no deserto que o conduzirão à realização plena da vontade salvífica do Pai.
A Igreja sistematizou no jejum, na partilha e na oração os grandes sinais de vivência da Quaresma. São apelos de deserto, o tal “lugar” de conhecimento superior, a uma maior autenticidade. O jejum pede a valorização da essência das coisas, a partilha pede que, naquilo que damos, nos saibamos dar também a nós, e a oração experimenta-se a única fonte possível de todo o amor que é gratuito e não exige recompensas. Uma vida cristã autêntica nunca é simétrica. A Cruz é a maior expressão dessa assimetria.
Hoje os “caminhantes” deste caminho somos nós. O que seria de Lázaro se não tivesse aceitado, à voz de Cristo, sair do sepulcro? O que seria de Tomé se não tivesse interrogado? O que seria de Pedro se não tivesse negado? O que seria da mulher cananeia se não tivesse insistido? O que seria do cego se não soubesse e conhecesse qual a sua maior fragilidade? O que seria de … e de … e de … ?
Em tempo de Quaresma, e ao jeito de mero exemplo, surgem alguns aspectos que ficam como desafio:
- Colocar em casa ou no nosso local de trabalho um sinal (um símbolo, um Crucifixo, uma imagem, uma frase … etc) que, de forma imediata, nos leve ao horizonte da vivência quaresmal;
- Fazer partilha material (há tanta necessidade);
- Descobrir algo a que, de verdade, no segredo e discrição possamos renunciar fazendo desse acto um acto de verdadeiro amor a Deus; por exemplo, fazer a experiência de tentar encontrar em cada um dos colegas os aspectos mais positivos e de motivo de acção de graças; ultrapassar “miudezas”: ciúmes, comparações, invejas, maledicências, vanglorias, sarcasmos;
- Cuidar da qualidade e da “quantidade” da oração diária. A oração não é um simples meio de vida espiritual, mas a própria vida espiritual em exercício.
- Esforçar-se por melhorar sempre a participação na Eucaristia; celebrar o Sacramento da reconciliação como experiência de celebração do amor de Deus necessária frequentemente em quem caminha para Deus.
O Lázaro – canta M. Torga - sou eu … nado e criado para amar, e que não sei amar! Sou eu, que disse não e me perdi! Que vi Deus e nunca acreditei! Que vi a estrada impedida E passei! […] Quem puder, arranque os olhos e venha cheio de Fé ver o Lázaro real que não vem nos Evangelhos, mas é!...
Quaresma é tempo para dizer um imenso “sim” a Deus. Para experimentar a infecundidade de tentar dizer “não” a Deus. Dizemos-Lhe “não” e perdemo-nos! Porque a vida está do lado do “sim”!


p. Emanuel Matos Silva

segunda-feira, fevereiro 16, 2009

O Pré - Seminário
andou por terras de
Idanha-a-Nova
- 14 de Fevereiro -





(Ermida de Nossa Senhora do Almortão)

[Barragem de Idanha (Marechal Carmona)]